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Erros e perigos no front externo

Carlos Melo

04/12/2018 22h54

"Natureza morta com maçãs e laranjas", de Paul Cézanne. 1895-1900.

Há polêmicas estéreis. Entusiastas do futuro governo se irritam com críticas e, menos ainda, alertas. Rapidamente, sacam o escudo e o porrete para se defenderem e atacar, dizendo: "na época do PT…", ou "se fosse o PT…" E arrematam que as coisas eram piores ou seriam muito piores. É recorrente e muita gente age assim. Mas, a polêmica não faz sentido simplesmente porque o PT já perdeu a eleição; é passado. Quem governará o Brasil será Jair Bolsonaro.

Isto tem se dado, sobretudo, quando se trata da política internacional do novo governo, seu mais ativo centro de ação ideológica. Relações internacionais, nos dias atuais, têm nada a ver — se é que algum dia tiveram — com o formalismo da diplomacia a soberania dos Estados stricto sensu; menos ainda com medos de fantasmas externos e ou purismos ideológicos, como nos tempos da Guerra Fria. Diplomacia desde sempre é defesa de interesses nacionais e, entre eles — talvez, sobretudo —, os econômicos e comerciais.

No limite, o que interessa aos países é ver seus produtos escoando, singrando os mares, rasgando os ares, ganhando mercados; trazendo divisas para os Estados e lucros para os produtores. Simples assim: tudo o quase tudo o que se faz nessa área tem por princípio a justa defesa de interesses pragmáticos. As questões ideológicas subordinam-se a elementos vinculados aos interesses dos produtores, da competição comercial e tecnológica.

Mesmo com todo o malabarismo retórico  que faz, Donald Trump visa esse tipo de interesse. Na disputa que trava China, quase nada há de valores e princípios abstratos. O fato é que, em poucos anos — cerca de duas décadas e meia —,  aquele país saiu de um PIB assemelhado ao brasileiro e chegou, agora, fazer sombra aos interesses americanos.

Mais do que uma vocação manufatureira, os chineses foram a fundo na aventura tecnológica e hoje disputam com os patrícios de Trump mercados na fronteira da tecnologia da Internet, por exemplo. E essa fronteira significa riqueza e poder futuros. É briga econômica e comercial de gente muito grande; nada tem a ver veleidades acadêmicas. Formalismos políticos e alinhamentos ideológicos.

Igualmente na questão do clima e do meio-ambiente, estão postas questões e concepções de natureza econômica, exploração de potencial natural e reservas estratégicas e a forma como realiza-la. O maniqueísmo nessa área ou é fachada ou é equívoco. No mais, visões e interesses de curto e longo prazos que afetam mais ou menos interesses econômicos e, como decorrência, o bem-estar das populações.

Desse modo, não haveria motivos para o Brasil pensar e agir de modos distintos. Mas, não parece ser assim: onde falta o pragmatismo econômico sobra enorme confusão ideológica que cria espumas e atritos com parceiros comerciais, o que absolutamente o país não precisa. Todavia, irritados os entusiastas do novo governo, ao ouvirem críticas  nessa área, entram no módulo defesa/ataque: reagem assinalando que a política internacional do PT era igualmente ideológica etc, etc, etc. Ok.

Em primeiro lugar, um erro não deveria justificar o outro. Causa estranheza que os partidários de Bolsonaro escudem-se, agora, nos erros do PT para justificar a mesma política, com sinal trocado. Afinal, o que os irritava, antes, era o alinhamento ideológico ou apenas que o alinhamento fosse com outros personagens?

Em segundo lugar, os alinhamentos ideológicos dos petistas pouco influíam com os mercados consumidores de commodities do Brasil, como por exemplo a China, o Mundo Árabe ou a comunidade europeia, ciosa da questão ambiental. No caso do PT, a política errática, era apenas inútil, nada mais. Com Bolsonaro, ao que fazem crer essas semanas de formação do governo, pode ser bem mais que isso: essa política pode ser nociva. É um erro, fica o alerta

No mais, de nada serve a obsessão de vencer amanhã o candidato que já foi derrotado, ontem, lutar contra a natureza morta. Eleições acabam e um dia é necessário governar. Críticas e alertas fazem parte desse mistér.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.