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Haddad: uma mão à palmatória; outra, à reconciliação

Carlos Melo

23/09/2018 12h45

A pintura rupestre da "Caverna das Mãos": uma manifestação do homem paleolítico na Patagônia

Fernando Haddad alardeia a crítica que Tasso Jereissatti faz ao PSDB, ele que foi presidente da legenda. No mérito e no conteúdo, Tasso está correto: o PSDB foi caprichoso nos equívocos que cometeu. Irresponsável com as consequências, não pesou o risco e o dano moral das companhias com que passou a andar, após a vitória de Eduardo Cunha, na disputa pela presidência da Câmara.

O ressentimento com derrotas em série levou os tucanos ao oportunismo e ao farisaísmo. Irônico que o partido dos mais ilustrados membros da política nacional fosse restar como uma UDN sem brilho que, para preservar um membro — Aécio Neves —, optou por cortar o próprio pescoço; que se apequenou ao baixo clero de Michel Temer e do PMDB.

É bom que alguém com a estatura de Jereissatti exponha essa ferida. Mas, ele não pode ficar sozinho. Falta alguém do outro lado do muro.

Ao fincar holofotes nas palavras do senador cearense, Haddad esquece de acender as luzes da própria casa. Em que pese eventuais méritos de políticas sociais, o fato é que seu partido também carrega muita culpa no cartório, tendo se entregado docemente aos vícios do poder, também sucumbindo à peemedebização que abraçou todo sistema político e agravado o quadro de desentendimento geral das forças políticas do país.

A soberba determina erros de avaliação. O PT acreditou-se o mais virtuoso agente político do país. Dizia, no passado — e alguns ainda hoje — que Fernando Henrique e Paulo Maluf eram farinha do mesmo saco; pediu o "Fora FHC". Mas, é desnecessário lembrar o mensalão, a associação com o patrimonialismo original, os elos com o fisiologismo ancestral. Ocioso mencionar equívocos econômicos, inúmeros indivíduos que obliteraram a República.

Fernando Haddad pode não ter responsabilidade direta por isso. Mas, representante do partido que almeja tornar a liderar a nação, é sua obrigação reavaliar a trajetória de seus camaradas; reconhecer e assumir erros; convencer que não se repetirão. Quem se dispõe a "pacificar" o que quer que seja não pode começar o diálogo por apontar somente os erros dos outros. Falta alguém em sua tropa que faça eco às frases de Jereissatti. Não se zera um jogo humilhando o adversário.

Hoje, o bolsonarismo, digamos assim, é tanto resultado do oportunismo tucano quanto dos desvios éticos de petistas e de todo o sistema, além dos equívocos econômicos — esses exclusivos do PT. Ampara-se num justificado antipetismo que lhe dá ânimo para além dos limites da tradicional direita reacionária nacional. É má-fé atribuir esse sentimento à discordância com políticas sociais ou por exclusivo repúdio aos pobres. Um tolo e improdutivo erro de análise que se embrenha também pelas teias do autoengano.

Vetos cruzados tornam o país uma impossibilidade lógica, política e humana. O Redentor que decolaria recolhe agora os braços e esconde o rosto. Famílias se desintegram num debate político estéril. O país levará tempo para voltar a ser o que foi, sem saber se ainda será o que um dia sonhou. Por terem reivindicado, em algum momento, a herança do iluminismo, PT e PSDB, mais que todos, têm a responsabilidade pela obra de destruição que construíram. É justo que agora se reconheçam num quadro de espelhos mutuamente refletidos.

A intolerância com o outro e a incapacidade de avaliar a si próprio, primeiro, ergueram um muro e, até aqui, Fernando Haddad de modo explícito não se dispôs de destruí-lo, embora seja esta, talvez, sua missão histórica. Independente da eleição, deverá, antes, estender as duas mãos: uma, à palmatória; outra, em reconciliação. Para, então, tocar em frente.

Para que se mostre capaz de tornar-se o presidente que diz pretender, Haddad terá que, em algum momento, contrariar a índole de seus companheiros; liderar a revisão de seu partido. O que a vida quer é coragem. E, mais cedo ou mais tarde, ninguém escapa de tomar um cálice desse vinho.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.