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O equívoco ao abrir várias e simultâneas frentes de conflito

Carlos Melo

16/11/2018 10h37

"O Grito" (1893), de Edvard Munch

A democracia naturalizou os conflitos como interesses em disputas que se resolvem pelo voto, aceitando-se o resultado. Mesmo assim, sabe-se que a torrente de conflitos precisa estar sob certo controle. O mais prudente é enfrentar um conflito de cada vez. Quem briga com muitos ao mesmo tempo distribui pancadas, é verdade, mas o mais comum é que saia coberto de porrada. Abrir várias e simultâneas frentes de conflito não é, politicamente, muito inteligente.

A boa política aconselha avaliar o campo, perceber as circunstâncias, considerar os perigos e medir as consequências de cada passo, de cada revés. A contenção nem sempre é resultado de imperativos éticos, espírito democrático ou tolerância. Normalmente, é cálculo pragmático: saber a força do inimigo e, mais, os limites da própria força é uma arte. Só vira a mesa quem tem força para isso.

Este parece o grande problema — talvez, o grande equívoco — de Jair Bolsonaro nesses primeiros dias pós eleição, mesmo antes de tomar posse do cargo de presidente da República. O ex-capitão é uma máquina de conflitos, uma metralhadora giratória disparada com precipitação e sem muito critério. O mais provável é que o açodamento e a imprudência consumam-lhe toda a munição antes de abater qualquer inimigo.

É possível citar de memória os inúmeros conflitos que contratou em tão pouco tempo: 1) a mais influente parcela da imprensa nacional e estrangeira; 2) a partir do atrelamento acrítico e automático aos Estados Unidos, a contrariedade da China, do mundo árabe, da Europa e do Mercosul; 3) ambientalistas de todo planeta; 4) empresários da indústria; 5) sindicatos de trabalhadores; 6) comunidade científica, intelectuais e artistas; 7) a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil); 8) os movimentos Feminista, Negro, LGBTIQ, Sem-terra; 9) o Poder Legislativo — ou, pelo menos, o status quo desse Poder —, 10) a corrupção; 11) o crime organizado; 12) o Poder Judiciário, sobretudo o STF; 13) setores do Ministério Público; 14) segmentos das Forças Armadas, preocupados com a politização das Armas; 15) estados e municípios que enfrentarão graves problemas fiscais; 16) o funcionalismo em geral; 17) corporações favorecidas por privilégios previstos em lei; e 18) mais recentemente, o desgaste com o fim do Programa Mais Médicos, que afetará centenas de municípios.

Apenas para começar — ou antes mesmo de começar —, inacreditáveis dezoito frentes simultâneas. Algumas inevitáveis, o bom combate; a maioria, dispensável, resultado de ideologia, arrogância ou inexperiência. Propositadamente, o "petismo" sequer foi mencionado. Ainda que o bolsonarismo possa sempre expô-lo como um espantalho no campo de milho, o petismo talvez venha a ser o menor dos problemas de Jair Bolsonaro, no futuro. Um judas num antigo sábado de aleluia. Já passou.

Essa extraordinária e imprudente relação de desafetos é contrabalançada com os apoios mais ou menos instáveis e pouco fiéis ao longo do tempo, sobretudo, à medida em que o desgaste do governo se estabelecer. São exemplos: 1) as bancadas ruralista, evangélica e da bala; 2) operadores do mercado financeiro; 3) o antipetismo que já perdeu seu objeto com a derrota do PT; 4) setores mais duros e intermediários das Forças Armadas e das Polícias Militares; 5) governadores que na eleição, por puro oportunismo, recorreram ao bolsonarismo. Parece pouco, diante dos conflitos. E mais que "pouco", instáveis e pouco confiáveis.

Fidelidade política e apoios efetivos não costumam a se conjugar por muito tempo. É uma relação que vive mais de sentimentos concretos baseados na popularidade do governante, no bom momento econômico e nas sinecuras do poder do que em princípios abstratos vinculados à ideologia. Ilusão acreditar que 57 milhões de votos bastam. Não bastam.

O presidente e o seu grupo vivem o momento de euforia e deslumbramento com a vitória eleitoral e com todo aparato do Poder. Talvez, em virtude disto não estejam sensíveis aos desgastes que semeiam e aos alertas que já lhes são feitos.

A conquista insólita nas urnas, o fenômeno político e eleitoral que se deu, sim, em torno de Jair Bolsonaro e seu meteórico sucesso são maus conselheiros, pois despertam um tão perigoso quanto efêmero sentimento de invulnerabilidade. Aí mora seu maior perigo. O Poder pensa que pode tudo até que não possa quase nada. É bom superar essa fase rápido.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.