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Ibope: segundo turno exigirá de Haddad revisão e inflexão ao centro
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Carlos Melo

Pesquisa Ibope, divulgada na noite desta terça-feira, parece absolutamente coerente com as demais sondagens exaustivamente divulgadas nos últimos dias. O recado é simples, se não houver fato novo capaz de abalar o país — e no Brasil não parece existir cisnes brancos, somente negros —, o mais provável é que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se enfrentem mesmo já, agora, e no segundo round da eleição.

Nunca se saberá ao certo se Bolsonaro foi ou não favorecido pelo atentado de que foi vítima ou se despencaria como jaca, diante da propaganda negativa de Geraldo Alckmin. Intuitivamente, diria que o deplorável gesto de violência consolidou o eleitorado do deputado, mas não o despertou.

Tendo defendido que, na verdade, Bolsonaro já ocupara, antes, um setor que sempre existiu e que fora alocado apenas circunstancialmente, por alguns anos, pelos tucanos. A direita voltou a ter uma referência e um símbolo.

A esse eleitorado bolsonarista, digamos assim, parece se juntar, agora, o antipetismo. E é plausível que candidatos como Álvaro Dias, Henrique Meirelles, João Amoêdo e, talvez, Geraldo Alckmin estejam se descapitalizando (de votos) em virtude disto. Ora, se é para se posicionar “contra” ao que quer que seja, que seja, então, pelo modo mais radical. Bolsonaro vai se fixando como a real oposição ao PT e é a ele que recorrem os eleitores que não engolem Lula, Dilma e companhia.

E os mesmos números da pesquisa Ibope mostram mais: no segundo turno, Bolsonaro estaria em vantagem e poderia derrotar a vários candidatos, inclusive a Fernando Haddad. Indicadores que deixam os tucanos ainda mais sem argumentos, posto que já não é tão fácil afirmar que seriam os únicos capazes de bater o PT, na final. Embora dados para segundo turno não tragam, nesse momento, muita segurança, o fato é que já não se pode basear nas pesquisas para tocar terror desse tipo.

Aliás, em relação a Geraldo Alckmin, o candidato com maior tempo de TV e recursos, o Ibope segue a tendência geral, demonstrando as gigantescas dificuldades do ex-governador. Ao antipetismo que migra na direção de Bolsonaro, some-se as restrições dos eleitores às afinidades eletivas de tucanos com o governo Temer e o fato de Geraldo Alckmin, ao posicionar-se na corrida eleitoral, ter trocado o centro político pelo Centrão. A migração eleitoral para os extremos parece tão explicável como inevitável.

Claro que outro importante dado do Ibope é a disparada de Fernando Haddad que, uma semana após ter a candidatura oficializada, já vislumbra ultrapassar a marca dos 20%, distanciando-se do segundo pelotão. A estratégia de Lula parece mesmo surtir efeito, descarregando em seu escolhido o capital de votos que, bem ou mal, mesmo preso em Curitiba, o ex-presidente ainda possui.

Dada esta tendência — se não errar e nem for atropelado por fatos novos —, Haddad estará no segundo turno, enfrentando Bolsonaro e o antipetismo. Mas, ao contrário do que diz o “achismo” nacional, desconfio que nada garanta sua vitória ao final e que a vida do ex-prefeito não seja em nada facilitada pelas condições que o cercam ainda hoje: a recusa do PT em fazer a autocrítica de seus erros e os limites do lulismo, que pode não bastar no segundo turno.

O fato é que, se não ampliar o leque do discurso político, buscando setores para além de seus convertidos, Haddad não chegará além de um mero exemplo da força do padrinho. Tanto precisará se contrapor a Bolsonaro numa enfática defesa da Constituição e da democracia — as declarações do vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, foram um tiro no pé —,  como também dialogar com setores econômicos, sem desprezar a força, nesse setor, do reformismo liberal anunciado pelo candidato do PSL e por seus assessores econômicos.

Escrevi há algumas semanas que Fernando Haddad não poderia passar ileso de uma revisão dos erros cometidos pelo governo Dilma e pelo imperativo do ajuste fiscal. Afirmei que o petista se veria diante de um dilema: “mais que um problema delicado, trata-se de uma equação difícil: qualquer gesto de autonomia compreenderá em abalos na campanha; qualquer sinal de falta de autoridade implicará em desgastes na mídia, na opinião pública e diante de setores econômicos que, queiram ou não parcelas do petismo, têm importância se não na eleição, certamente no futuro governo” (aqui).

O ex-prefeito parece estar, ao seu modo, realizando uma revisão dos postulados petistas; em recentes participações neste UOL e na Rádio CBN, estabeleceu marcos sutis de algum tipo de revisionismo econômico — o que pode ser confirmar ou não. Além disso, enviou recados em garrafas que aos poucos devem chegar à praia de adversários como Marina Silva, Ciro Gomes e até Geraldo Alckmin, a quem desde sempre tem poupado pessoalmente.

E, claro, que intenções não bastarão. Haddad terá que exibir símbolos mais contundentes, atraindo para sua campanha personagens tanto mais eloquentes da veracidade de sua revisão, quanto fiadores de suas promessas ao longo do governo. Não será estranho que o tal do mercado e mesmo o PT o obriguem a antecipar qual será, afinal, o perfil de seu ministério.

Enfim, reposicionamento econômico e uma inescapável inflexão ao centro comporiam movimentos estratégicos dos quais não terá muita margem para escapar. Ninguém saberá dizer se será suficiente e vencer Jair Bolsonaro e o antipetismo. Menos ainda  se o PT mais ajudará ou mais atrapalhará esse processo. Só o tempo dirá.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Voto útil, casamento de conveniência
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Carlos Melo

Casamento na roça, s/d. Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962). Óleo sobre tela, 98 x 79 cm.

À parte de fatos novos sempre possíveis e tão constantes no Brasil, as próximas semanas devem se dar em torno da ansiedade despertada e a realidade que aos poucos se consolida à medida em que são divulgadas as pesquisas eleitorais. A princípio, as pesquisas são meros medidores de opinião. Como se diz, uma fotografia, um instantâneo do momento de um grande filme que é o processo eleitoral.  Mas, não é tão simples assim. Dependendo das circunstâncias, as pesquisas não apenas medem como influenciam na formação da opinião dos eleitores e, assim, na movimentação dos candidatos.

Sobretudo, quando há um quadro de incerteza somado aos jogos estratégicos que todo eleitor costuma a fazer e que, no Brasil, dá-se o nome de “voto útil”.

A lógica do “voto útil” é simples: em tese, todo eleitor tem um candidato de preferência; aquele por quem sente maior empatia e que, com tranquilidade, cederia seu apoio. Este seria o que podemos chamar de um voto afirmativo. O eleitor afirma e reafirma sua preferência, sem qualquer mediação, interferência ou questão de segunda ordem. Ele faz a sua melhor escolha; uma espécie de primeiro melhor.

Acontece que no mundo moderno, competitivo e polarizado, nada é assim tão simples e protegido de contaminação. Num ambiente de conflito, o eleitor se dá também ao direito de definir o que, para ele, seria o “pior resultado”, o mau maior. O candidato dentre todos que “mais” rejeita, que descarta decisiva e definitivamente.

O sentimento do que “seria o pior” e a definição de seu nome, nessa condição, é um sentimento e um fenômeno tão forte que consegue se impor à preferência afirmativa, ao candidato que o sujeito entenderia como o melhor. É o “ruim”, portanto, que se impõe, na função de preferências e na lógica da escolha eleitoral ao “bom”. O mal menor em oposição ao bem.

Nestes tempos, o eleitor vota antes de tudo contra e não a favor. Vota-se, principalmente, para derrotar o que se reconhece como “maior perigo”, o mais pernicioso cenário, de acordo com os valores, conceitos e preconceitos do eleitor. E para isto procura-se, no universo de candidaturas, aquela que mais condições reúne para papel insólito: antes de vencer, derrotar o inimigo.

Mesmo que isto signifique abrir mão da escolha afirmativa, do entendido como melhor, em favor daquilo a que não se deixa de ter também restrições. Às vezes, fortes restrições, até. Um caso clássico foi, em 1990 na eleição ao governo paulista: contra Paulo Maluf, os eleitores de esquerda votaram em Luís Antônio Fleury Filho, candidato de Orestes Quércia.

Ainda assim, este foi um caso de segundo turno. Às vezes, essa situação é antecipada e já no primeiro turno, os eleitores se veem forçados a adiantar esse tipo de escolha. Em 1998, por exemplo, Mário Covas derrotou (novamente) Paulo Salim Maluf, na disputa ao governo do estado, não porque os eleitores aprovassem Covas, mas porque, acima de tudo, mais uma vez, rejeitavam Maluf. Covas, assim foi eleito. Ou antes, Maluf foi derrotado.

O “melhor”, portanto, é sempre uma questão relativa. É claro que nem todos pensam assim. Mas, basta que uma parcela do eleitorado raciocine desse modo e desloque sua preferência de modo a mudar o resultado de uma eleição. Este quadro se repete nesta eleição de 2018, no país. Todavia, de um modo ainda mais complexo, nesta, a mais complexa das eleições nacionais.

Ao que se percebe, há grupos de eleitores que definiram, cada um ao seu modo, “o mal maior”. A novidade é que desta vez, não é apenas um mal; mas pelo menos dois. E há três grupos que se movimentam assim, há vinte e tantos dias da eleição.

De um lado, aqueles que não admitem o PT e entendem a vitória do partido como um grande mal para o país. De outro, aqueles que compreendem Jair Bolsonaro como o maior desastre. Haveria ainda um terceiro, que não consegue assimilar nem por hipótese nenhum dos dois personagens governando o Brasil pelos próximos 4 anos, pelo menos.

Voltamos às pesquisas: eles indicam, neste momento, que a maior possibilidade é que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, do PT, disputem o segundo turno da eleição. Cada um, cuja vitória é considerada, ao seu modo e por público distinto, como maior mal em relação ao outro. É nesse sentido que surgem os apelos pelo voto estratégico, ou pelo “voto útil” — “útil” para derrotar o desafeto.

De um lado, Ciro Gomes, cuja dinâmica política o desfavorece, explora o fato de as pesquisas apontarem que venceria com maior facilidade a Jair Bolsonaro, o “mal maior” definido pelo eleitorado de boa parte do centro e da esquerda. Nesse sentido, tenta desqualificar a candidatura de Haddad, em si, pelos problemas em torno do PT e pelos riscos e dificuldades que Haddad talvez venha a ter para vencer Bolsonaro.

De outro lado, Geraldo Alckmin. Paralisado abaixo dos 10% das preferências, limitado por seus vínculos com o governo Temer, com o Centrão e com os problemas éticos de membros do seu partido, mas com convicção de que seria o candidato com maior facilidade para vencer o PT, mal maior para a maioria dos eleitores de Direita e do Centro. Neste caso, até mesmo Marina Silva, que se descapitaliza a olhos vistos desde a entrada de Haddad no processo, pode surgir como alternativa às dificuldades de Alckmin.

O “voto útil” traz consequências: ao votar contra, o eleitor adere apenas circunstancialmente ao eleito. Não aderiu a ele, apenas o engoliu como “mal menor”; não há cumplicidade, menos ainda apoio. O eleito começa o mandato com legitimidade diante das urnas, mas com um déficit real em relação à maioria do eleitorado que o elegeu, apesar de seus defeitos e em virtude do perigo que significa o outro. O Congresso Nacional, é claro, perceberá isso, sabendo que a tradicional lua-de-mel do presidente com o eleitor durará bem menos, posto que, desta vez, o casamento foi de conveniência.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Em torno do “voto útil”
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Carlos Melo

Foto: Kelly Fuzaro/Band

Só mesmo “espíritos de porco” avalizaram o atentado contra Jair Bolsonaro, de todo deplorável. Contudo, ao contrário do que seus partidários esperavam, nem por isso o episódio transformou-se numa comoção nacional capaz de impulsionar a candidatura do deputado para além de seus apoiadores anteriormente detectados. Datafolha e Ibope demostraram que, de fato, “solidariedade pessoal não pode ser confundida com adesão eleitoral” (leia aqui).

Tome-se, arbitrariamente, os números do Datafolha: 74% dos potenciais eleitores de Bolsonaro declaram-se “totalmente decididos” a votar no ex-capitão; número coerente com os 20% anotados pela pesquisa espontânea — contra 24%, na estimulada. Bolsonaro, portanto, estaria em vias de consolidar sua força, próxima a ¼ do eleitorado, o que deve lhe colocar no segundo turno.

Essa consolidação de Bolsonaro é péssima notícia para Geraldo Alckmin, a quem caberia tomar-lhe votos, uma vez que o tucano nem unifica o centro e menos ainda pode colher apoios à esquerda e à centro-esquerda, dado seu perfil e às escolhas que fizeram nos últimos anos, ele e seu partido, o PSDB. Segue estacionado em torno dos 10% das intenções de voto.

A mesma pesquisa indica que Marina Silva “despencou”, perdendo 5 pontos percentuais entre 21 de agosto e 10 de setembro. A pesquisa freia a animação de sua turma. Mas, há explicação: entre os principais candidatos, Marina tem o menor grau de consolidação do voto: 71% afirmam que ainda podemmudar. Isto indica, neste momento, um voto volátil. Tanto pode ficar, como pode ir, como pode voltar. Marina está num limbo e pode ou não se desfazer.

Pesquisa é sempre fotografia e, neste momento, o mais interessante rali parece se dar à esquerda, entre Ciro Gomes e Fernando Haddad, oficializado candidato do PT.

Em artigo anterior, afirmei que, “se errar é humano”, Ciro Gomes é “demasiadamente humano” (aqui). Mais recentemente, no entanto, reconheci que, com menos responsabilidade, parecia mais leve, “capaz de rir de si mesmo” — impressão que a “dancinha” em que foi flagrado após o debate da TV Gazeta/Estadão parece confirmar. E isto parece que lhe fez bem.

Em se tratando do personagem, talvez seja precipitado afirmar, mas é fato que, após tortuoso período, Ciro parou de errar. Entre as duas pesquisas, cresceu 3 pontos. Aproveitando-se do vacilo do PT — dividido entre a luta vã de insistir com Lula e se decidir por Fernando Haddad — e ocupou espaço à esquerda. Soma agora 13%, tomando o segundo lugar de Marina e disposto a seguir em frente.

Acontece que com a entrada oficial de Haddad no jogo, é possível que, de algum modo, a campanha tenha tornado a começar. Dado o prestígio e a vitimização do ex-presidente Lula, além da preferência declarada de 24% pelo PT, não é de modo algum um disparate crer  que o ex-prefeito possa avançar e chegar ao segundo turno com números próximos aos de Jair Bolsonaro. Dependerá, é claro, do menor sucesso de Ciro, que evidentemente, disputará voto por voto com o PT, sobretudo no Nordeste.

Neste momento, são os dois com maior probabilidade de encarar o candidato do PSL, indo um ou outro ao segundo turno. E que, uma vez ali, se associem para derrotar o ex-capitão, mal maior para o campo que representam.

O cenário arrepia agentes de mercado e eleitores moderados, refratários ao que entendem por radicalismo e voluntarismo econômico. Com o temor e a ansiedade, pedirão algum tipo de providência. E não será de estranhar se já na próxima semana se especule um movimento de voto estratégico, o “voto útil do centro”.

A questão seria definir quem se beneficiaria com isso. A resposta mais óbvia e apressada indicaria Geraldo Alckmin. Todavia, com olhos de hoje, parece pouco provável que o tucano, na reta de chegada, engate a sexta marcha de um motor turbo e atropele Haddad, Marina e Ciro, chegando próximo a Bolsonaro, na casa do 20%, ficando pelo menos em segundo lugar.

Para isto, o desafio seria mitológico: na impossibilidade de pescar votos de Bolsonaro, capturar todosos votos de Álvaro Dias (3%), João Amoêdo (3%), Henrique Meirelles (3%) e ainda arrancar uma boa parte de Marina Silva.

Desafio ainda maior seria realizar essa façanha carregando o ônus da identificação com Michel Temer e com o “Centrão”, além do rombo político causado por Aécio Neves e, agora, de Beto Richa. Nos debates e sabatinas, Alckmin gasta mais da metade do tempo respondendo a restrições de natureza ética, tergiversando a respeito do apoio de implicados com a Lava Jato, o que despontencializa seu discurso contra o PT.

Por fim, candidato e propaganda não caíram nas graças do eleitorado, despertando desconfiança; na melhor das hipóteses, indiferença.

Parece mais razoável fazer apostas em roleta de cassino clandestino, cujo jogo parece mais limpo, racional e inteligível que a política brasileira, onde tudo pode acontecer, do que afirmar o final dessa disputa. Ainda assim, convenhamos, mesmo que o surrealismo político brasileiro justifique qualquer fantasia, o espaço para a superação de Geraldo Alckmin parece bem reduzido.

Mais uma vez, quem poderia se beneficiar pelo voto útil do Centro? Marina Silva, com toda fragilidade e o refluxo na última pesquisa, ainda parece mais apta a se favorecer desse processo. A ex-senadora não arrasta correntes — Temer, Centrão e Aécios —  como Alckmin. Transita do pentecostalismo  ao ambientalismo de centro-esquerda.

Igualmente passaria pela chancela de agentes econômicos já sem esperanças com Geraldo Alckmin. Afinal, qual diferença de fundo haveria entre Pérsio Arida, assessor econômico tucano, e André Lara Resende, conselheiro econômico de Marina? Não foi, portanto, por descuido que, na tarde de terça-feira, Marina afirmou que Lula é corrupto, assim como seu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff. Como último recurso, mira esse voto útil do centro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Não se deve confundir solidariedade pessoal com adesão eleitoral
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Carlos Melo

A Roda da Fortuna (Tarot)

Superados o primeiro impacto e a fase de óbvios repúdios ao atentado que vitimou Jair Bolsonaro, cumpre iniciar reflexão mais profunda em relação às causas e aos efeitos do fato. A primeira reação do mercado financeiro foi, no mínimo, curiosa para quem não compreende sua dinâmica. Como podem melhorar indicadores econômicos importantes quando e em virtude de um candidato à presidência da República ter recebido uma estocada bruta e estúpida que poderia levar-lhe à morte? Como um fato tão deplorável poderia ser, afinal, entendido como positivo?

Operadores financeiro respondem automaticamente aos fatos com a pretensão de adiantar-se às suas consequências. Trata-se de um jogo de compra e venda, onde sai ganhando quem, sem trocadilho, for mais rápido no gatilho. Não raro, os cálculos são apressados e as análises simplistas. O “racional” desta vez foi o seguinte: a vitimização de Jair Bolsonaro o favorecerá eleitoralmente, podendo leva-lo à vitória. Bolsonaro, assessorado pelo economista Paulo Guedes, promete um governo pró-mercado, de liberalização radical da economia e privatização de empresas estatais.

Logo, se o atentado o vitimizar e se a vitimização o favorece, favorecendo também os interesses de mercado, então, viva ao atentado. Simples assim. Só que não.

Em primeiro lugar, porque o principal ativo de um país é a sua democracia. Colocá-la em risco pode até, supostamente, trazer ganhos imediatos, mas no longo prazo, a incerteza de regras e o abalo das instituições cobrarão um preço altíssimo e todos, no final, perderão. Claro que sempre restará a alternativa de “sair antes”, vender tudo e realizar lucros. Mas, é uma dinâmica pouco saudável, além de arriscada.

Em segundo lugar, porque nada está “dado”: as consequências do atentado ainda virão e ninguém consegue exatamente antecipá-las. Logo, é muito provável, sim, que Jair Bolsonaro ganhe votos, depois do incidente do qual foi vítima. A dramatização de uma eleição e a martirização de candidatos funcionam sempre como um apelo ao eleitor e é claro que há eleitores suscetíveis a isso.

Difícil, no entanto, é afirmar quantos votos; se suficientes para superar a elevada rejeição que Bolsonaro carrega. O mais certo é que o ex-capitão tenha, agora, sim, consolidado os eleitores que já haviam aderido a ele, como também possa atrair pessoas que, por algum motivo, se sentiam constrangidas em declarar o voto – o chamado “voto envergonhado”–, mas que já eram simpatizantes. Um nível de sensibilização de eleitores antes indecisos também é razoável. Mas, em qual proporção?

Não há, porém, elementos capazes de garantir como e porquê eleitores que antes o rejeitavam passem agora automaticamente ao seu apoio; que eleitores que desconfiavam de sua retórica passem a aprova-la. Não se deve confundir a solidariedade natural de momentos assim com a automática transferência de votos. É plenamente possível repudiar o atentado e ao mesmo tempo rejeitar o candidato. Repúdio a um e apoio a outro são elementos distintos.

Passada a comoção, é possível que uma reflexão mais racional do fato ganhe espaço. Suas raízes, infelizmente, estão no processo de radicalização política que se estabeleceu no Brasil nos últimos 4 anos. E Jair Bolsonaro é um dos símbolos desse processo, ainda que possa não ser o único. Ao mesmo tempo que a solidariedade existe pode também ser despertada uma consciência de que políticos que propõe a liberação do uso de armas, por exemplo, acabam levando poder desmedido a malucos, como parece ser o caso do sujeito que praticou o atendado na tarde de ontem.

A eleição não será depois de amanhã; há, na verdade, um mês pela frente, até que se definam os nomes para o segundo turno. É verdade que novos fatos podem ainda piorar a situação, que uma escalada de violência deve ser evitada e se houver precisará ser contida. Mas, também é possível que um clima de esclarecimento e racionalidade, levando a repudiar qualquer modo de radicalismo, possa se estabelecer. Por que não?

Assim, pode-se apostar nessa “ponta” também; por quê ela seria menos razoável que a anterior, a que aposta na comoção eleitoral e na vitória de Jair Bolsonaro?

O raciocínio contrafactual torna-se útil: tivesse o ex-presidente Lula sofrido um atentado, por que os eleitores de Bolsonaro e Geraldo Alckmin, por exemplo, teriam que necessariamente passar a votar no PT? Os assassinatos de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, não resultaram no favoritismo do PSOL nem da esquerda, automaticamente. A queda do avião que levou à morte Eduardo Campos e toda a tripulação do voo não foi suficiente para dar a vitória à Marina Silva. Por que agora seria diferente?

Mais uma vez é conveniente assinalar: não se deve confundir solidariedade com adesão. A primeira não leva natural ou necessariamente à segunda. Com o tempo, à comoção podem-se impor mecanismos de ponderação. Então, calma. Tem muita estrada pela frente.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Não pode ser assim
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Carlos Melo

Imagem: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

Desta vez, foi a facada em Jair Bolsonaro; antes, foram os tiros nos ônibus da caravana do ex-presidente Lula. Lembro-me que na ocasião, Geraldo Alckmin, por exemplo, chegou a afirmar que o PT colhia o que havia plantado. Pois, foi o pouco caso com o primeiro absurdo que levou à radicalização e ao absurdo e meio que é este segundo. Nada disso é admissível, mas processos políticos e sociais, às vezes, podem sair mesmo do controle e transformar aquilo que era ruim em algo muito, muito pior.

Eis o porquê o imperativo do cuidado e da moderação que agentes políticos devem, ou deveriam, ter. Dizia Aristóteles que uma das virtudes do político seria a mediedade, a capacidade de ponderar. Os políticos no Brasil desta quadra histórica rasgaram essa regra. Apostaram na disputa acirrada e agora parecem prestes a perder o controle.

Mesmo aqueles que agora pedem equilíbrio têm responsabilidade em tudo isso quando funcionaram preferencialmente como incendiários, enforcando os bombeiros.

A política, no entanto, foi criada para mediar, para buscar consensos e saídas. Atos de violência são sua negação; são apostas na barbárie – infelizmente, este é o segundo artigo numa mesma semana em que uso o termo barbárie e por motivos diversos. E, não importam quais sejam as armas, facas, tiros ou o discurso de nós contra eles ou a desqualificação pessoal – mais que política — de adversários.

Um clima assim desperta o monstro; o sujeito, louco-maluco, no meio da multidão, alimentado por todas as taras das disputas sem limites, que lança mão de uma arma – imaginem se fosse um revólver – e, se não tira a vida de outro, esmaga a democracia. Como a política se perdeu, voltaremos à era do “olho por olho, dente por dente”. Retrocedemos alguns milhares de anos.

Era mais que evidente, era óbvio que um processo como este que o país vive não poderia acabar bem. A disputa política há tempos virou briga de torcidas – Grenal, Fla-Flu, Corinthians X Palmeiras. E como o que se dá no futebol, as piores torcidas organizadas partem para a batalha campal com hora marcada pela Internet. Não pode ser assim. Melhor fechar o boteco do que vender e tomar essa cachaça.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O Museu, o desastre, a ignorância e o oportunismo: elementos da barbárie
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Carlos Melo

Imagem: BBC

O sentimento de que o Brasil desce desgovernado a ladeira da barbárie só aumenta. A vertiginosa sucessão de acontecimentos dos últimos anos desperta a impressão de que perdeu-se o sentido de civilização. Quem é o responsável pelo incêndio no Museu Nacional que deixou em cinzas um incomensurável patrimônio da humanidade? Claro que, agora, todo mundo tira o seu da reta, ao mesmo tempo em que se aproveita para “chutar cachorro morto”, como é o caso do governo Temer.

Entre enfastiado e contrariado, li Dilma Rousseff, pelo twitter, atribuir culpas a Michel Temer e seus aliados – que, a propósito, antes, foram dela. Mesmo o ressentimento e a lógica da disputa precisam ter limites. Não se faz comício na porta de um velório.

É evidente que o atual governo é uma lástima e que os cortes foram, são e serão prejudiciais; que este estado de coisas é mesmo deplorável. Mas, em primeiro lugar, o país não chegou a essa situação do nada. Em segundo, o Museu não construiu seu caos apenas nos últimos dois anos, como se estivesse perfeito antes. Foi um esforço sistemático e contínuo de várias gerações.

O oportunismo é também um dos traços do desastre civilizatório. Compromete ainda mais as biografias. O momento seria de calar.

O caso, infelizmente, não é responsabilidade de um só. A tragédia nos remete ao desleixo de longo prazo; à pouca importância dada à memória, à ciência, à cultura e blá-blá-blá… Todo mundo sabe e repetir é até um tanto constrangedor. Desculpem. No fundo, agimos como se não saber quem somos e de onde viemos não tivesse qualquer importância para o futuro. O Brasil vive um eterno presente de desastres.

Não é o incêndio o maior sinal da barbárie, é a ignorância atávica, continuada e persistente que o alimentou e, pior, deve continuar a dar oxigênio a novas labaredas.

O processo leva as digitais dos governos Temer, Dilma, Lula, FHC… Talvez, de Deodoro da Fonseca. Quando, na verdade, o país se preocupou com isso? Defensores e indignados de última hora não servem de nada; constituem uma vergonha tão grande quanto o mal crônico de um desastre anunciado. É o caso de se perguntar se o Brasil merece mesmo todo o imenso patrimônio natural e cultural que possui. Já esquecemos do desastre ambiental da Samarco?

O resto só pode ser o silêncio triste e profundo. Uma perda irreparável não pede bravatas, não pede desforras. Pede luto. E consciência de que é preciso mudar. Superar a barbárie. Fugir do abismo. Mesmo sem saber como nem para onde.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Definida a situação de Lula, a corrida será acirrada
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Carlos Melo

Imagem: Eddie Keogh/Reuters

Se a decisão foi ou não justa, ficará por conta do leitor decidir. Objetivamente, o sujeito teria que ser de outro planeta para crer que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva tivesse outro destino. O relatório do ministro Luís Roberto Barroso não surpreendeu, sendo coerente com a concepção de Justiça que tem externado. Foram seus valores e sua visão de política. Também a maioria de seus colegas de TSE esteve alinhada com a dinâmica do processo jurídico em torno do ex-presidente.

Aqui, não cabe discutir os símbolos, as lições e as ironias disto tudo: quem está preso, quem não está, quem está na fila, quem dela sempre escapará. A angústia sobre o presente e o futuro do Brasil é uma variável constante há alguns anos; dispensável ressaltá-la. O certo é que o acúmulo de erros e desacertos dos mais diversos personagens já levantou uma montanha, o edifício da incapacidade coletiva de se encontrar e se ajudar, no interior do labirinto. A realidade nunca é o que gostaríamos. Tampouco no futuro será.

Enfim, as samambaias do tribunal sabiam e diziam que o desfecho seria mais ou menos este. É o fim da fase “Plano A”, que nunca foi concreto. É a hora e a vez do “Plano B”.

O Partido dos Trabalhadores sai parcialmente frustrado porque pretendia levar a indefinição ao limite – ou, na visão de seus radicais, até passar dele, deslegitimando a eleição. Agora, já no segundo dia da campanha na TV, sabe-se que Lula não será candidato; seu nome não estará nas urnas. Sua participação na propaganda será limitada a 25% do tempo total, como determina a lei em relação aos não candidatos.

Pode ser menos que o desejado, mas é muito melhor que nada até porque pode ser bem mais do que terão vários de seus adversários. O jogo, portanto, não acabou.

Claro que o PT recorrerá ao Supremo Tribunal Federal e transformará sua luta vã pela inclusão de Lula numa bandeira simbólica, da qual desfraldará o rosto de seu mártir político e eleitoral. Ao mesmo tempo, à parte dessa encenação performática, caberá ao partido, se possível sem delongas, assumir uma postura mais prática, do ponto de vista da disputa que pretende travar.

Fernando Haddad será o candidato oficial, queiram ou não desafetos seus no interior do complicado emaranhado de interesses petistas. Pelo menos até aqui, há motivos para acreditar que mesmo com participação parcial na TV, Lula – 39% das intenções de voto, de acordo com o Datafolha — consiga transferir parte de seu patrimônio eleitoral ao ex vice, agora titular.

Ademais, revela a última pesquisa Datafolha que o PT é o partido da preferência de 24% dos entrevistados. É plausível que tanto o apoio de Lula quanto a identificação partidária se não se efetivem integralmente, mas, ainda assim, confirmados em patamares medianos, darão um bom arranque ao novo candidato, tornando-o competitivo por capaz de carregar algo entre 15% e 20% das intenções de votos.

É pouco provável que alguma das candidaturas postas dispare, se elevando muito acima do patamar de 20% dos votos, Haddad entraria no “bolo” do pelotão dianteiro das pesquisas, hoje ocupado por Jair Bolsonaro e Marina Silva, ao qual poderá se somar Geraldo Alckmin, caso a TV tenha 100% do êxito que seus aliados ainda apostam colher – que, na verdade, mais torcem do que acreditam.

Ninguém possui bola de cristal para antever o futuro da eleição – de qualquer uma, sobretudo desta. Mas na reta final para do primeiro turno, pode-se estabelecer um cenário em que a diferença do primeiro colocado para o segundo seja muito pequena, sendo ainda menor a desigualdade entre o segundo o terceiro classificados. Uma corrida emocionante, cujas vantagens na chegada sejam por focinhos.

Em tudo a disputa de 2018 é diferente de 1989; o mundo é outro e os sonhos dos brasileiros, àquela época, eram mais otimistas e inocentes. Mas, como ilustração cabe recordar os números do primeiro turno, quando Fernando Collor disparou e cruzou o disco final com 32,47% dos votos. Obtendo Lula a segunda posição, com direito ao segundo turno, com 16,69%. Em seus calcanhares, Leonel Brizola terminou a disputa com 16,04%.

Neste ano, parece muito pouco provável que algum dos candidatos terminem com desempenho assemelhado ao de Collor; Lula, o único que poderia, está fora, afinal. O mais provável é a multiplicidade de disputas acirradas. Desse modo, aos postulantes, todos eles, cabe colocar já os pés na pista, recolhendo cada grão de poeira que possa significar vantagem. Há muito (muito) tempo ouvi o ex-presidente, em campanha, apressar um de seus correligionários dizendo: “vamos logo, companheiro, pegar esse 'votinho' que está na rua”. Será assim, daqui até o final.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Presente e futuro da eleição
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Carlos Melo

Umberto Boccioni, 1882-1916, Régio da Calábria, Itália

A sorte não está lançada e a eleição está longe de ser definida. O Horário Eleitoral no Rádio e na TV, com sua campanha negativa ainda não começou; nem aquela torrente de escândalos – normais, previsíveis e que alteram o quadro – fez vítimas por enquanto. A eleição está em aberto. Mas, algumas observações sobre o momento podem ser assinaladas, assim como há conclusões básicas e preliminares em relação ao futuro que já podem ser especuladas.

Goste-se ou não de Lula, o fato é que o ex-presidente entende do riscado. Isolou Ciro Gomes e manteve seu nome na disputa. E, mesmo de seu distante domicílio de Curitiba, o petista manteve-se relevante nesse jogo. É certo que a Justiça, por fim, impugnará sua candidatura, mas Lula seguirá o centro e a expressão de uma inegável força política e eleitoral. Antes de tudo, deve-se admitir que o cabra é resiliente, não rompe facilmente.

Jair Bolsonaro tem demonstrado foco e disciplina militares. Não se perde em considerações de bom senso nem nas patrulhas do politicamente correto; fala para seu eleitor de modo a garantir a manutenção do vínculo. Suas aparições na TV chocam grande parte da audiência, ignorada pelo ex capitão que sabe jamais votará nele. O que lhe move é a parcela eleitoral que pode leva-lo ao segundo turno. E, no segundo turno, será uma briga de foice e rejeições; a rejeição a Bolsonaro contra a rejeição de seu eventual adversário.

Geraldo Alckmin é ainda a grande incógnita. Dono de uma máquina extraordinária e tendo a seu favor grande parte de formadores de opinião, o ex-governador já deveria ter decolado. Vê, no entanto, seu território invadido por Álvaro Dias, Marina Silva e, agora, até mesmo João Amoêdo, o candidato do Partido Novo, desconhecido da grande maioria da população.

Imagine-se o drama de seus marqueteiros: possuem o veículo — tempo de rádio e TV –, têm um mercado receptivo – mercado o financeiro e o eleitor a quem repugna extremismos –, mas não possuem um produto que saiba se vender. A participação do ex-governador na sabatina do Jornal Nacional, da Rede Globo, foi apenas mais uma oportunidade perdida, onde Alckmin, na defensiva, foi incapaz de dizer ao que veio. A próxima semana será crucial para o tucano.

No vácuo de Geraldo Alckmin, Marina Silva pode assumir o papel de Plano B do mercado e do empresariado, cujas expectativas depositadas no tucano parecem se frustrar. Na economia, Marina guarda muitas semelhanças com o PSDB: qual fundamental diferença haveria entre Pérsio Arida e André Lara Resende?. Posicionada ao centro, a ex senadora poderia expandir seu arco tanto para a centro direita, pelo evangelismo, quanto para a centro-esquerda, por meio do ambientalismo.

Ciro Gomes é um lutador. Perdeu as quedas-de-braço que não poderia perder: para Lula – o PSB e o PCdoB — e para Alckmin – os partidos do Centrão. Reconheceu o prejuízo, mas não a derrota. Insiste em convencer o eleitor que pode ser a alternativa e, hoje, a aparente pequena probabilidade de vitória tem-lhe feito bem. Está mais leve e bem-humorado, capaz de rir de si mesmo. Eleitoralmente, no entanto, neste momento significa pouco. Difícil imaginar como possa se reinventar.

Colocada a cena, vamos ao cenário: o processo já delineia vencidos e vencedores, sendo possível intuir quem sairá menor ou desaparecerá da esfera política, tanto quanto como quem terminará maior do que entrou, pavimentando o caminho para para 2022. Enfim, quem morre, quem sobrevive, quem vai além.

No primeiro grupo, seria desnecessário dizer, o grande perdedor é o presidente Temer. Ele e seu grupo – e alguns analistas – chegaram a sonhar até mesmo com a reeleição. No mínimo, imaginavam influenciar o processo. Tornaram-se, no entanto, almas penadas das quais todos querem distância. Quem, afinal, é o candidato do governo? Meirelles e Alckmin abrem mão.

Marina, Ciro, Alckmin e Meirelles, uma vez derrotados, estariam fora do cenário. Difícil imaginar a candidata da Rede, assim como Ciro Gomes, disputando outra eleição, pela quarta vez; o tucano pela terceira e Meirelles por uma segunda vez. Ou é agora ou não será. Já no dia seguinte à eleição serão parte da história.

No grupo dos vitoriosos já podem ser listados Jair Bolsonaro, Fernando Haddad e João Amoêdo. Bolsonaro sairá da eleição como o líder da direita brasileira. Pelo próximos anos, terá partido, bancada e eleitor, o que lhe garantirá no futuro o que lhe falta hoje: estrutura e tempo de TV. Igual raciocínio serve a João Amoêdo. Seu Partido Novo emergirá das urnas organizado e com um discurso – o liberalismo – em punho.

Não se sabe qual o alcance que um discurso desses poderá ter num país como o Brasil, mas o fato é que o Novo já deixou de ser uma start-up.

Fernando Haddad é outro que pode sair bem, se o PT, por fim, deixar. Independente de vencer ou não, seu nome será nacionalmente conhecido; pode tornar-se referência para esquerda remoçada no ideário – a esquerda radical terá como símbolo Guilherme Boulos. E assim sendo, poderá arejar o PT e, se não conseguir – o que é muito provável –, haverá espaço para buscar novos caminhos fora do petismo tradicional.

Também o ex-presidente Lula estaria nesse grupo, se fosse simples advinha-lo. Se a prisão não o deteve, o que dizer de uma derrota, nas condições em que se encontra? Parece pouco para riscá-lo do mapa. Sim, há a idade e o desgaste do material. Mas, seguindo a estratégia que traçou — o mártir, Mandela Latino –, para seu eleitor torna-se símbolo ainda mais forte do que o símbolo que já é. Lula sempre será um caso à parte.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


As pesquisas e a corrida
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Carlos Melo

A animação da Disney/Pixar 'Carros 2'. Foto: Divulgação.

 

A rodada de pesquisas eleitorais divulgadas ao longo da semana não trouxe novidade. Seu traço principal foi expressar números ou posições que apareciam em sondagens anteriores. Sua grande questão é, talvez, ter demonstrado realidades em vias de consolidação, agudizando temores dai decorrentes. Há chão pela frente, mas largada foi dada e agora tudo é contagem regressiva. No vapt-vupt da campanha, atores em desvantagem terão que correr muito para ganhar posições. Os da dianteira, suar o bastante para não ser ultrapassados.

Que Lula estaria na frente em qualquer caso – preso ou em liberdade – era de esperar. Para os que, por motivos meramente eleitorais, torceram por sua prisão, a vitimização do ex-presidente foi um tiro no pé. Ao longo da semana, numa palestra em que participei, um dos presentes quis saber porque, depois e apesar de tudo, Lula ainda continua forte, crescendo, até. Boa pergunta. Dei tratos à bola.

O que temos são hipóteses. A primeira seria a falta de adversários, onde há praticamente um deserto. Os atuais postulantes e equipes parecem atores mirins comparados aos do passado. O segundo ponto é que, para boa parte dos eleitores, a vitimização de Lula de fato faça sentido.

Menos por sua discutida inocência e mais pela falta de punição de personagens que, envolvidos com escândalos que evidenciaram “malas, dinheiros e corridinhas” – para usar as expressões do ministro Luís Roberto Barroso – permanecem em liberdade, protegidos por foros especiais e corporações de juízes e políticos. Há no país quem ainda não tolere o tratamento entendido como desigual.

O terceiro aspecto, é claro, seria a lembrança que seus eleitores têm do período Lulista no Planalto. Em que pese o que ocorria no entorno, pelos mais variados motivos, foram anos de desenvolvimento e inclusão. É um tempo que não volta, pois dificilmente suas causas se repetirão. Mas que desperta nostalgia, isso desperta.

De modo que não seria difícil imaginar a influência de Lula na eleição. E nem mais se questiona se haverá ou não transferência de prestígio e votos do ex-presidente para Fernando Haddad. Haverá. O que não está claro é em que magnitude; se a transferência será o suficiente para colocar o ex prefeito entre os dois primeiros colocados do primeiro turno. A corrida está avançada e Haddad parte dos boxes. A máquina, o combustível e a habilidade do piloto terão que ser extraordinários. Serão?

Também não causa admiração que Jair Bolsonaro, na ausência de Lula, assumisse a dianteira. Todas as sondagens anteriores demonstravam isso. O apoio ao deputado, a despeito da soberba de seus adversários, é sólido, embora limitado. Não surpreende que um candidato com as características de Bolsonaro, no mundo e no país em que vivemos tenha 1 eleitor em cada 5. Na loucura e no transe do planeta, na vertigem dos últimos anos, até admira até seja apenas isto, ao menos por enquanto.

É evidente que este cenário compreende um enorme desafio para o pelotão que vem atrás dos líderes: embolar com a turma da frente e cruzar a linha de chegada, no mínimo, com o bico do carro à frente.

Aparentemente, quem possui mais máquina e equipe para isto é Geraldo Alckmin, mas a torcida começa a suspeitar que falta piloto. Os tucanos apostam em uma única bala: o tempo de televisão, dando superlativa importância às inserções ao longo da programação.

Numa campanha curta, esse tipo de instrumento parece se adequar bem à “desconstrução” de adversários. Críticas a Lula, PT e Bolsonaro são, no entanto, bastante conhecidas; difícil surpreender com alguma revelação. Mais: muito do que adversários chamam de defeitos, aos olhos de quem os apoia, pode se transformar indiferença ou virtudes. Esses eleitores parecem estar convictos.

Reforçar a rejeição à Bolsonaro e Haddad pode ter efeito no segundo turno, mas teria o alcance desejado no primeiro?

Ao mesmo tempo em que Alckmin se preocupa com seus mais fortes adversários à direita e à esquerda, não pode esquecer que também Marina Silva está à sua frente e pode tomar-lhe o centro. Já discuti aqui a vantagem que a candidata da Rede tem em relação ao tucano, em termos de amplitude (leia aqui).

Como a haste móvel de um compasso, Marina pode ocupar seu eixo fixo, onde paralisado encontra-se Alckmin, e estender o raio, chegando à centro-direita e à centro esquerda. Este último, território que os tucanos perderam ao longo dos anos.

Marina ganhou pontos nos últimos dias, o que talvez ainda não tenha sido captado pelas pesquisas. No debate da Rede TV, a ex-ministra encarou Bolsonaro, expondo o queixo de vidro do ex capitão, que é o eleitorado feminino. Mesmo não retirando votos do candidato do PSL, a candidata da Rede pode, com isso, atrair para si os eleitores que o rejeitam. Taticamente, a condição de anti Bolsonaro parece bastante promissora.

Ninguém possui a tal bola de cristal e definir já que vai ou não ao segundo turno ainda é precipitação tanto quanto correr num campo minado. Mas parece plausível imaginar uma chegada à fase decisiva em que o primeiro colocado tenha apenas uma pequena vantagem sobre o segundo; e o segundo uma diferença ainda menor em relação ao terceiro. Está começando a ficar emocionante.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Um curto e marcante contato com Otávio Frias Filho
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Carlos Melo

Não convivi com Otávio Frias Filho, não privei de sua amizade. Tivemos um único encontro, para mim marcante por uma série de motivos. Foi no dia 11 de março de 1996. Era estudante de mestrado e fazia pesquisa para minha dissertação sobre as relações históricas entre a Folha de S. Paulo e o Partido dos Trabalhadores. Minha intuição me dizia que havia uma interessante intersecção entre o jornal e o partido, antes mesmo de o partido ser fundado e o jornal ter-se transformado no importante veículo em que se tornou.

Na minha memória, lembro que não botava fé que Frias Filho viesse a me atender. Ele era o diretor de redação do jornal, àquela época, o mais importante do país e eu não tinha qualquer conexão com ele, nem possuíamos amigos em comum que tivessem intercedido em meu favor. Apenas arrisquei com pedido por escrito — talvez por meio de uma carta, não sei, coisa assim; então, talvez nem mesmo o e-mail existisse.

Para minha surpresa, Otávio me recebeu e reservou duas horas inteiras para nossa entrevista. Sério, cordial, atento, respeitoso, foi assim que me tratou.

Eu estava interessado em saber como se dera a “virada” do jornal; como a Folha havia se transformado no jornal da abertura, por volta de 1974, e como depois, em 1977, fora obrigada a destituir o jornalista Cláudio Abramo da direção do jornal, por pressão dos militares. Aliás, entender também o papel dos Abramo – Cláudio e Perseu – na história do jornal.

Sem mistério, nem afetação, com simplicidade e enorme objetividade, num elevado senso crítico sobre seu papel e o papel do jornal de sua família, Otavinho — como era chamado por aqueles que pareciam lhe ser íntimos naquele período – abriu tudo o que precisava. Colocou as cartas sobre a mesa, contando em detalhes o que sabia, sem escamotear nem fantasiar.

O trecho mais impressionante segue abaixo, trata do talvez principal momento na história do jornal, o momento de inflexão marcado pelo encontro de seu pai, Otávio Frias, e o general Golbery do Couto e Silva, que em alguns dias viria a ser o homem forte do governo de Ernesto Geisel. É certamente um importante momento da história do Brasil e, a meu juízo, bastante útil para compreender a transição do regime militar para a democracia. A dinâmica política e o papel dos atores.

 

“De fato houve um encontro, eu acredito que em janeiro, mais tardar fevereiro de 74, porque o Geisel tomou posse em 15 de março de 74 e este encontro eu me lembro que ocorreu a convite do general Golbery antes da posse do novo governo. O grupo Geisel-Golbery vinha mantendo um escritório no Largo da Misericórdia no Rio. Meu pai achando que seria um encontro interessante me convidou para ir junto com ele. Eu cheguei a ir até o aeroporto com ele, não cheguei a embarcar porque esqueci a cédula de identidade. Por conta disso eu não presenciei esse encontro. O que eu posso reconstituir, assim de memória, com base do que o meu pai relatou, foi que de uma maneira bastante vaga, sem uma agenda, sem pauta, de uma maneira bastante vaga, o Golbery expôs o que veio mais tarde a ser conhecida como a doutrina, dele Golbery, da sístole e diástole dos sistemas políticos.  E ele achava, então, que o regime tinha passado por um momento de grande concentração de poder e tudo… e que essa concentração vinha gerando distorções, na visão dele, cada vez mais perniciosas e que o governo Geisel era um governo que se disporia a promover uma desconcentração de poder e uma descompressão política. Nem sei dizer quais foram os termos que ele usou na época… se teria usado distensão, se teria usado abertura. Não sei precisar a terminologia. O sentido da conversa era muito esse, embora fosse uma conversa vaga, como eu disse. Era a disposição do novo governo de descomprimir de alguma forma o ambiente político. E ao mesmo tempo eu me lembro, pelo relato do meu pai, que o Golbery fez insinuações no sentido de que era muito ruim para qualquer governo, portanto para o governo que estava para tomar posse, que houvesse só um jornal irradiando informação em São Paulo — ele se referia aoEstado de S. Paulo— dando a entender que seria importante que aFolhaavançasse na direção de passar a ter uma disputa mais efetiva com o jornal O Estadoem termos também de irradiação política e de influência na opinião pública etc…. Ele, evidentemente, não mencionou nenhum tipo de auxílio, nenhum tipo de apoio que o governo poderia prestar ao jornal, nem naturalmente isso foi pedido a ele, mas ele deixou assim….de alguma forma colocado que o governo federal veria com bons olhos se houvesse uma divisão, digamos, do peso de influência da imprensa em pelo menos dois jornais diferentes”.

 

Como disse, a objetividade com que o jornalista me contou o fato chamou minha atenção. Na pesquisa que fazia, não encontrara o fato assim detalhado – e nem sei se depois algo nesse sentido chegou a ser publicado. Mas, não foi apenas isto. Pouco adiante, Frias Filho se dispôs a interpretar o acontecimento e seus desdobramentos no interior da empresa. Impressiona o modo como reconhece o papel de outros atores envolvidos com a reinvenção do jornal, sobretudo, Cláudio Abramo.

 

“…foi da parte do meu pai, uma percepção de que as coisas estavam mudando no país. Era importante, portanto, que o jornal mudasse…Ele tinha uma convicção de que tinha dedicado, digamos, vários anos de trabalho e de prioridade à reorganização financeira da Folha. A Folha estava, por esses anos, contando novamente com uma situação sólida em termos financeiros e uma reorganização industrial também. A Folha renovou todo o parque gráfico (…) modernizado do ponto vista tecnológico e numa situação financeira estável. Eu acho que a partir desse momento ele achou que era, de fato, a ocasião. Seja por essas razões de condições internas, seja por condições externas: o ambiente político, essa coisa da conversa com o Golbery etc… Ele achou que era o momento do jornal se politizar mais, do jornal se abrir mais para as tendências que estavam começando a aparecer, que estavam emergindo. Isso se casou muito bem com o Cláudio Abramo. Eles eram amigos. Sempre tiveram um relacionamento, por um lado muito tenso — era frequente haver desavenças e aborrecimentos recíprocos —, por outro lado tinham uma relação de confiança, de amizade mesmo, que vinha desde o começo dos anos 60. O Cláudio Abramo, era um grande jornalista… um homem de grande talento como editor, como desenhista, como… não repórter, porque ele foi repórter muito no começo da vida, mas um jornalista muito completo e de muito talento. Então eles dois começaram a mudar o jornal: a “Tendências & Debates”, que no primeiro momento chegou a chamar “Análises e Perspectivas”,  foi uma ideia do meu pai, que foi tornada realidade pelo Cláudio Abramo. Meu pai insistia muito que achava que o jornal deveria trazer todos os pontos de vistas, que o jornal deveria ser uma vitrine com diferentes opções de pontos de vistas etc, etc. E as coisas começaram um pouco pela reforma jornalística que o Cláudio fez no jornal (…) editorialmente a reforma começou com essa mudança de atitude política, no sentido de se politizar mais o jornal e no sentido de o jornal trazer para, especialmente, às primeiras páginas, as páginas de opinião, um embrião de debate político ideológico e tal… Ao longo desses anos de governo Geisel, várias pessoas que estavam excluídas da vida pública voltaram à vida pública na condição de colaboradores da Folha”.

 

Como disse acima, foi um encontro marcante. Foi a primeira experiência que tive a sensação de discutir seriamente e em bom nível a história do Brasil; compreender, ou mais tentar, o processo político brasileiro; obter de uma fonte primária, digamos assim, um relato original de um fato realmente importante. Ademais, antes de decidir cursar Ciências Sociais, eu sonhara ser jornalista; escrever, um dia, num grande jornal e lidar com aquele objeto de algum modo tangenciava meu sonho. Sou da geração que aprendeu a ler jornais tendo a Folha como referência.

E eu estava ali diante de um grande jornal; complexo, cheio de ambiguidades. Percebia na postura de Otávio a determinação de dar continuidade ao processo começado por seu pai e por Cláudio Abramo – o jornalista Mino Carta gosta de afirmar que Cláudio foi também pai de Otávio, seu “pai jornalista”. De um modo ou de outro, penso que Frias Filho tenha levado esse compromisso com os “pais” até o último dia.

Além disso, outro ponto que vale a pena mencionar, era a minha natural e estrutural dureza financeira. A pesquisa era feita com dinheiro contato de uma bolsa do CNPq que também servia para pagar as despesas da casa e da família. Os arquivos da Folha – nada digital, tudo em papel – eram trabalhosos, complicados e, pior, a consulta a eles era cobrada. Sem que eu pedisse, mas talvez suspeitando de minha condição, o diretor de redação me franqueou o acesso aos arquivos, às fotos, ao que fosse necessário.

Eu e meu orientador, o querido Miguel Chaia, ficamos impressionados com a postura do jornalista, do diretor de redação, herdeiro do jornal. Quando defendi a dissertação, sendo aprovado, enviei uma cópia a Otávio. No todo, o texto possui trechos que reconhecem o papel do jornal, mas há também passagens bem críticas, colhidas em depoimentos de profissionais – e ao mesmo tempo militantes de esquerda – que trabalharam no jornal e conviveram com a família Frias. Evidente, que há pontos de vista polêmicos.

Nunca soube a opinião de Otávio a respeito do trabalho. Se gostou ou não, se leu, não se manifestou. Minha opinião, consolidada hoje em dia, o mais provável que não tenha lido. Ao final e ao cabo, ele não tinha exatamente interesse específico no que eu faria. Apenas contribuía, no que lhe cabia, para que eu tivesse condições mínimas de fazê-lo. Sempre – e não apenas por isso – guardei imenso respeito por ele, respeito intelectual e pessoal. Hoje, no dia de sua morte, faço silêncio como um lamento e em agradecimento. Eu lhe devia essa.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.