Blog do Carlos Melo

Difícil situação de Geraldo Alckmin
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Carlos Melo

Guy Williams e Henry Calvin. Zorro e Sgt. Garcia (Disney). Série exibida no Brasil nos anos 1970.

Ninguém saberá dizer o que será o futuro; menos ainda, o resultado da eleição deste ano. Neste momento, o resultado ainda é imprevisível. E não adiantará recorrer às pesquisas, números e curvas do passado, pois ninguém de bom senso pode negar que o país vive um presente particular, anômalo em muitos sentidos. O drama dos últimos anos nos transformou e alguns se fizeram místicos. Mas, ainda assim, não é o caso de acreditar em bolas de cristal.

Logo, neste ponto do caminho, não se sabe dizer que destino terá a candidatura de Geraldo Alckmin. Há pouco mais de um ano, o ex-governador era tido como favorito — dada a ruína do PT e as desconfianças em relação a seus adversários. Hoje, seu nome não ata e nem desata, está em alta apenas na bolsa das dúvidas eleitorais, sendo um ativo em rápida depreciação para os agentes econômicos.

Há motivos. Na maior parte do Brasil, a indiferença ao seu nome é conhecida. Mas, mesmo em São Paulo, o estado que governou por 4 mandatos e onde acredita-se estar seu maior potencial, o tucano patina nos números das pesquisas. As expectativas em relação aos números das pesquisas, para esta época do ano, eram muito superiores. Mas, na última sondagem patrocinada pela Confederação Nacional dos Transportes, Alckmin ao invés de subir, caiu.

Para quem já teve a visibilidade que possuiu e deteve os recursos de que dispôs, 5,3% de intenções de voto é de lascar.

O que estaria ocorrendo com o tucano? Difícil responder. Mas, é plausível que a toxidade emanada por Michel Temer e Aécio Neves tenha-lhe contaminado. Pesquisas qualitativas mais aprofundadas confirmarão (ou não) isto. No entanto, parece claro que o ex-governador não se destaca da geleia geral em que se transformou o sistema político nacional. E o seu PSDB não ficou fora disto.

Alckmin precisa desesperadamente mostrar-se viável para partidos e políticos de seu campo ideológico, fazer-se crer como uma consistente hipótese de poder. Com isso, receberia apoios e adesões e, crescendo, angariaria mais apoio. Um círculo virtuoso. Mas, ocorre exatamente o contrário: quanto mais patina em números rasteiros, menos crível se torna; não recebe adesões, sofre defecções. E continua em baixa. O cachorro come o próprio rabo.

Ao mesmo tempo torna-se vulnerável a ataques especulativos. Nomes como Marina Silva e Álvaro Dias começam a frequentar o imaginário do tradicional eleitorado tucano e do mercado financeiro. E, se não bastasse, João Doria está aí, atento e esperto para sobras e restos. Docemente, Doria se doaria ao sacrifício de substituir o ex-padrinho político. Descuidadamente, dá sinais de prontidão.

A questão é para onde Geraldo Alckmin teria ou deveria apontar para que venha a crescer? É pouco provável que consiga sobras do eleitorado de Lula. Na sondagem sem o petista, Alckmin tampouco se destaca e quando algo ganha é pouco. Tem como barreira o eleitor do Nordeste e ou de esquerda. Contudo, também à direita tem como obstáculo Jair Bolsonaro que ali está rijo, duro e forte. O tucano está emparedado.

Provavelmente, apostará em dois discursos: dirá que, em São Paulo, ''acabou'' com a violência ou pelo menos a reduziu significativamente, em contraposição ao Brasil. Precisaremos esperar para constatar se o discurso pega, até porque não se pode esquecer que aquela ''facção que age nos presídios'', que de tão temível — como Voldemor, de Harry Potter— não se diz o nome, nasceu e se expandiu em terras paulistas. E hoje age fora dos presídios, ganhou o país e a América do Sul.

O outro ''trunfo'' — e seus assessores já o alardeiam — será a promessa de zerar o déficit fiscal ainda na primeira metade do mandato. Ótimo. Despertaria alegria e delírios no mercado financeiro. Mas, é possível? E o quanto isto mobilizaria o cidadão comum que quer, precisa ou se acostumou a políticas públicas e a proteção do Estado? Aliás, como reagiriam prefeitos — se levarem a sério a promessa do tucano?

O futuro é incerto e no Brasil tudo pode ocorrer. Aqui, o Sargento Garcia é capaz de prender o Zorro; e, como se diz, até o passado é incerto. O horizonte vai até aonde o nevoeiro permite. E a neblina é espessa. Neste curto campo de visão, a situação de Geraldo Alckmin está para o sargento que precisa surpreender a todosTransformar-se no Zorro, o que até aqui não deu sinais. Pouco provável, mas pode ser e pode não ser. Cedo para saber. A bola de cristal não captura essas imagens.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Mais difícil será governar
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Carlos Melo

A Pair Of Boots (1887) – Vincent Van Gogh

Joaquim Barbosa é um sujeito surpreendente, mercurial, dado a decisões inesperadas e a um comportamento explosivo. Ainda assim, desde o anúncio de que não concorreria à candidatura presidencial, muita gente tem se perguntado por que, afinal, o ex-ministro abriu mão de uma eleição em que seria protagonista, com relativas chances de ser eleito, como apontavam trackings telefônicos que consideravam sua participação no pleito.

Houve quem alegasse que tudo se explicaria, justamente, por conta desse temperamento instável, tipo la donna é mobile — ''como pluma ao vento, muda de palavra e pensamento'' —, como consta do Rigolettode Verdi. Pode ser.

Mas a favor do ex-ministro há que se reconhecer que nunca anunciou que seria candidato. Tampouco frequentou estúdios de TV e editorias de jornais, estimulando seu nome. Mesmo frequentemente instado a concorrer, Barbosa manteve-se silente, reticente. A imprensa e analistas afiançavam que seria candidato, outros tantos especularam com seu potencial eleitoral — eu, inclusive. Menos ele. Logo, a notícia carece de exatidão, ninguém desiste do que nunca teve. Barbosa abriu mão de uma possibilidade, só isso.

Já outros tantos arrematam dizendo que eleição não é para amadores, que o sistema eleitoral brasileiro seleciona, separando aventureiros de profissionais; que lhe faltaria estrutura partidária, apoios políticos na sociedade e expertise eleitoral. Que teria temor em disputar uma eleição.

São afirmações baseadas nos números das eleições anteriores que, a propósito, formam uma série bem limitada para que se afira dela algo com exatidão, mas que apontam, com efeito, a importância da máquina partidária e os efeitos do governismo. Ainda assim, num ambiente como o atual, nada parece impossível. A conjuntura traz elementos tão fortes e inéditos que podem mesmo sinalizar para transformações estruturais na política e nas eleições nacionais, estabelecendo um novo padrão daqui por diante, questionando leis gerais, dinâmicas tradicionais e inferências vulgares, conectando causas e efeitos que deixaram de existir.

Tudo é possível e o certo é que o passado parece incapaz de explicar o futuro. Vem à cabeça a frase que já virou clássica, dita pelo ministro Pedro Malan: ''no Brasil, até o passado é incerto''. Quanto mais o futuro.

Não creio, portanto, que Barbosa tenha aberto mão da uma candidatura em virtude de receios que pudesse ter em relação à campanha, às adesões ou críticas que encontraria pelo caminho. O PSB é um partido bem plantado na maioria dos estados do país e seu DNA político é de ampla abertura para buscar alianças e fechar acordos pragmáticos.

Além disso, numa campanha tão curta como será a deste ano, uma onda Joaquim poderia se estabelecer sem dar tempo a que as estruturas tradicionais da política brasileira tivessem efeito e reação. Sim, política também é onda de opinião pública. Máquinas eleitorais e do Estado podem muito, mas não podem tudo. E, como disse Victor Hugo, ''nada é mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou''. O historiador Paul Johnson afiança que ''nada é mais forte que um homem que compreendeu a ideia cujo momento chegou''. Poderia ser o caso de Joaquim Barbosa. Mas, não foi.

De modo que a mim não parece estar na campanha os motivos que fizeram com que Joaquim Barbosa não montasse o cavalo que lhe passava encilhado. Deve ter pesado muito mais a avaliação que fez do futuro, das condições que encontraria em seu eventual governo, do que a briga que teria que encarar durante a campanha — até porque, pelo que demonstrou no STF, Barbosa é chegado a uma escaramuça.

E de fato o quadro que o próximo presidente encontrará não será de fazer inveja a seus adversários eventualmente derrotados. A economia, mais ajustada do que na época de Dilma, continua, no entanto, aquém do necessário para o sentimento de bem-estar. Não há inflação e os juros baixaram, mas há desemprego e o fantasma de um revés no cenário internacional uiva na janela do quarto.

O problema fiscal está colocado, não haverá escapatória para a questão polêmica e impopular da previdência, o aperfeiçoamento/revisão da reforma trabalhista, a discussão séria com estados e municípios da reforma tributária; a reforma política que propicie, pelo menos, algum tipo de reordenamento partidário capaz de fazer o governo menos refém do fisiologismo do Legislativo.

Tudo isto se coloca como um imperativo, mas nada disso é simples. O Congresso Nacional tende ao mesmo espírito e feição do atual; os mesmos vícios. O sistema político está aos pedaços, os três maiores partidos políticos atravessam crises sem precedentes e dois deles, PT e PSDB, caso derrotados, tendem a passar por um profundo processo de revisão, onde a fragmentação dessas legendas parece ser um cenário mais que plausível.

Joaquim Barbosa teria — aí sim, e não na eleição — enorme dificuldade em lidar com o quadro que herdaria. Poderia compor uma boa equipe, evidentemente. Mas, a articulação, a formação de consensos progressivos — o que pressupõe fazer concessões —, a comunicação e a liderança são, no limite, atribuições do presidente da República; seriam inescapáveis. Não estaria livre para dar vazão ao seu temperamento; lhe faltaria a faculdade da paciência, essa virtude política imprescindível.

Ao mesmo tempo, a expectativa de seus eleitores seria a de encontrar o mesmo ser impávido e decidido dos tempos do julgamento do mensalão. A frustração não tardaria a se manifestar. Isto não é incomum, se deu com Fernando Collor de Mello. Collor foi presidente cheio de promessas e fúria, capaz de pressionar o sistema político nos primeiros meses de governo, sucumbindo depois à realidade da impotência e da conciliação. Restou só, como implorava para não o deixarem.

De algum modo, em seu Twitter e nas curtas explicações que deu após declinar da vaga ofertada pelo PSB, Joaquim Barbosa manifestou esta mesma percepção, ao expor melancolicamente, os limites do sistema político. E, assim, olhando para o futuro, é possível que tenha enxergado os rostos de Collor ou de Jânio Quadros como um alerta, o que deve ter-lhe dado engulhos. Melhor seria cuidar da própria vida. Entendido de um ponto de vista pessoal, não está de todo errado. Vencer a eleição pode até ser fácil, o difícil será o governo e seu martírio.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Joaquim Barbosa e o não fato político
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Carlos Melo

Imagem: Renato Costa/Frame Photo/Estadão

Se a paciência de Joaquim Barbosa já era pouca ao lidar com seus colegas de Supremo Tribunal Federal, imaginem o que foi este mês, em que teve que se relacionar com o confuso sistema político brasileiro. Um meio complicado, cheio de idas e vindas, negociações de princípios e concessões. Ceder e ainda avançar é o desafio. Inevitável engolir alguns sapos. Não por acaso se diz que a Política é a rainha das artes.

O fato é que assim como surgiu num repente, Joaquim Barbosa se vai noutro — pelo menos por enquanto. Surpreende a todos mas causa o alívio de muitos. Pesquisas qualitativas já apontavam que o ex-ministro teria um relevante papel na eleição. Ocuparia espaços, atrairia eleitores de seus adversários e pautaria boa parte do debate. Havia mesmo potencial para ser o protagonista do processo.

Poderia ainda vir a desistir da desistência? Quem lê a história da eleição de 1960, sabe que Jânio Quadros, com o propósito de não fazer concessões e ter total controle do processo, com frequência ameaçava seus companheiros de UDN com a possibilidade de renunciar à candidatura  — até que o fez, já eleito. Ao que tudo indica, Barbosa é diferente.

A pergunta que se faz é quem ganha com a desistência do ex-ministro; para onde irá seu potencial eleitor?

Pois, este é o primeiro erro que se pode cometer: o eleitor, no singular, não existe. Na verdade, há um todo mais ou menos heterogêneo que tende a rumar em direção à determinada candidatura o faz em virtude das mais variadas características que possui. Uns o apoiam em virtude disto; outros, em razão daquilo. Sobretudo, no caso de Barbosa que era uma espécie de candidato multiuso.

Era até aqui o candidato que reuniria a mais variada composição de símbolos, que se complementam dando-lhe a personalidade política que possui: menino pobre e negro que venceu na vida e o preconceito pelo estudo, às custas da meritocracia; o combatente da corrupção, primeiro verdugo dos políticos; o outsider que não compactuaria com o sistema; também a pouca paciência, o temperamento mercurial indisposto a se submeter ao que quer que fosse.

Assim, eleitores distintos se juntariam a ele por conta dessas características também distintas. Então, quem herdaria esses eleitores? Pois, é. No cardápio das candidaturas postas até aqui, ninguém reúne tantos e todos os símbolos do ex-ministro do STF.

Marina Silva possui uns tantos, como a ascensão social, pela luta e esforço pessoal, a imagem de honestidade; Álvaro Dias pode empunhar o discurso da crítica ao sistema, ainda assim questionado ao político profissional que é há décadas. Até Jair Bolsonaro terá por enquanto a exclusividade da contundência que sugere o uso da força. O mais provável é que os eleitores se dividam.

Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e o eventual candidato do PT se favorecem? Apenas na medida em que retiram uma enorme pedra do sapato. Com a desistência, tendem a segurar eleitores que poderiam escapar na direção do ex-ministro. Não se verão invadidos em seus campos: a centro-direita, a centro esquerda e a esquerda, respectivamente, pois, por amplo, seria ali que Joaquim granjearia a maioria de votos. Ter menos um com quem se preocupar, ajuda.

Mas, não ser obstaculizado não implica necessariamente em ser favorecido, menos ainda em receber um impulso. Impulsos eleitorais se dão por fatos políticos e a desistência de Joaquim Barbosa é um não fato político. E cada um destes três — Alckmin, Ciro e PT — necessitam de impulsos, por meio de fatos políticos maiores que a desistência de um adversário.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A prisão de Lula fez do PT um Dom Quixote
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Carlos Melo

CANDIDO PORTINARI, Dom Quixote e Sancho Pança Saindo para Suas Aventuras,1956. Col. Museus Castro Maya, Brasil

Faz um mês que o ex-presidente Lula foi recolhido a uma cela, na sede da Polícia Federal, em Curitiba. Trata-se de um trauma histórico que tão cedo não será superado. Argumentos a favor e contra sua prisão foram produzidos às mancheias, com todos os rancores e amores possíveis. O leitor que faça seu julgamento. Aqui, interessa é avaliar os efeitos e as impressões que ficaram, até o momento a respeito do fato. Como se encontra a cena política, após a prisão.

No momento da prisão, houve, é claro, aqueles que acorreram aos fogos de artifício. Mas, com o perdão do trocadilho, soaram, no final das contas, artificiais. Era uma alegria de tolo: no dia seguinte, encontrei um desses espíritos fogueteiros e perguntei a razão de sua euforia, na noite anterior: ''foi porque acabou a corrupção no Brasil, ou apenas porque Lula foi preso?''. Não podendo dizer que a corrupção acabara, restou constrangido ao não admitir que sua questão residia, antes de tudo, na censura que desde sempre fez ao ex-presidente.

Todavia, tampouco houve a reação contrariada das massas, com que os dirigentes do PT contavam. A vida continuou lá fora, o Brasil não parou. As mobilizações prometidas não atingiram a normalidade da sociedade. Afora alguns atos de rebeldia inócua — carimbar notas de real, por exemplo —, o ''exército do Stédile'' se resumiu aos militantes do partido e dos movimentos sociais de sempre. As pessoas comuns, de modo frio e distante, indiferentes até, continuaram no ritmo de suas vidas.

Verdade que as pesquisas mostram que Lula, independente da prisão, é ainda a maior figura política do Brasil; que seu patrimônio eleitoral persiste — embora não se possa afirmar com qual consistência, pois isto apenas o tempo dirá. De algum modo, a resistente opção pelo ex-presidente, e o vazio ao centro, retratam o fracasso da República do Impeachment, a pinguela eticamente comprometida construída por Michel Temer, Aécio Neves e quejandos no MDB, no Centrão e no PSDB.

Aliás, um dos efeitos da prisão de Lula foi a aceleração dos processos judiciais contra o atual presidente e contra os tucanos, que até então caminhava a passos de bicho preguiça. E isto, é claro, é positivo — se o que se quer é, realmente, combater a corrupção no país.

Mas, o fato é que nesse primeiro mês de prisão, o ambiente ao invés de aquecer, arrefeceu. Os gritos de ''Lula livre'', pelo menos até aqui, não tomaram as ruas, embora ecoem em vários cantos do país, entoados pela militância artística e de esquerda. E é possível que, passados os primeiros 30 dias de indignação com a prisão, o que sobrevenha a partir de agora seja a gradual resignação e a percepção de que navegar de olho no horizonte é necessário. O pós-Lula ainda não se deu, mas querendo ou não seus companheiros, se aproxima vertiginosamente.

No que tange à direção do PT, o que se viu o estarrecimento diante de uma situação que deveria desde sempre ser considerada. É ridículo — mas não é inacreditável — que a prisão de Lula a tenha pegado de surpresa. A nomenclatura partidária ainda não superou a fase das bravatas e da ilusão de que soluções que deseja possam se dar por mágica, ou pelo beneplácito da segunda turma do Supremo Tribunal Federal — o que, de fato, não é impossível.

Lutar pela liberdade de seu líder faz sentido e é legítimo. Antes de tudo, todo indivíduo tem direito a um advogado que o defenda. Mas, como partido, agarrar-se apenas à essa esperança revela o vazio. Nos anos 1980, uma blague dizia que ''deus ajuda as crianças, os bêbados e o PT''. O tempo passou, as crianças envelheceram, a ressaca moral se estabeleceu e esse deus parece ter perdido a paciência com os petistas.

O partido que já teve um estado maior de respeito, realista e pragmático — José Dirceu, Antônio Palocci, Luiz Gushiken, José Genoíno e Luiz Dulci, além de Lula —, se perde hoje na convicção ideológica e no sectarismo típico de movimento estudantil. Lideranças de maior visibilidade política e abrangência social, como Jaques Wagner e Fernando Haddad, são constrangidas pelo tacão burocrático de dirigentes como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias.

A legenda prefere se prender ao senso comum de esquerda, com suas palavras de ordem. Como projeto de poder, regride ao jardim da infância de sua história, talvez ainda na crença da blague da proteção divina. Há, é evidente, o medo da fragmentação, sem o Lula que aglutine suas várias tendências. Mas, no fundo, a lógica que desenvolve se prende ao vício adquirido no pretenso hegemonismo que praticou ao longo dos anos.

Frequentemente, admite a formação de uma frente de esquerda, mas limita-se o campo aos satélites de sempre e, claro, com o PT na cabeça da chapa. Há um novo dogma: a suposta transferência de votos que Lula fará ao seu ungido será capaz de colocá-lo no segundo turno, quando o apoio virá por gravidade. É uma aposta simplória. Menos que anular os adversários e vencer a eleição, o PT se preocupa em não perder o domínio de seu campo de esquerda. Esta parece ser sua razão de Estado.

A simples hipótese de uma aliança com o PDT de Ciro Gomes é peremptoriamente descartada por sua presidente e pela maioria de sua direção. Não se admite o diálogo e quem o cogita corre o risco de ser classificado como traidor. Aproximações táticas nos estados, como por exemplo apoiar Márcio França, em São Paulo, liquidando o poder dos tucanos em seu terreno, sequer são consideradas. Como um Quixote, o PT prefere lutar contra moinhos de vento, fiando-se no idealismo puro do amor de Dulcinéia.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Sinais importantes
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Carlos Melo

Gritos e objetos: o presidente nas ruas. Imagem: Nelson Antoine/Associated Press.

A semana política foi curta, em virtude dos feriados, e dispersiva em consequência das imagens da tragédia envolvendo o edifício Wilton Paes de Almeida, que queimou e desabou, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo (escrevi a respeito, leia aqui). Mesmo assim, alguns fatos a marcaram e emitiram importantes sinais: a saraivada de vaias e objetos que recebeu Michel Temer ao visitar o local do incêndio é um deles; a decisão do STF em relação ao foro privilegiado foi outro.

A hostil recepção que o presidente recebeu na rua, no momento em que alegava prestar solidariedade aos moradores do edifício incendiado, é sinal inequívoco da baixíssima popularidade de quem, paradoxalmente, ainda insinua — ao menos de público — uma candidatura à presidência da República, neste ano. Um presidente que não pode andar nas ruas. Michel Temer não apenas é inviável como candidato. Seu desgaste é tamanho que também seu apoio se constitui em material tóxico, capaz de contaminar a quem ao seu redor se deixar apanhar.

O momento radiante da economia, que o governo prometia e alguns economistas acreditavam, não veio e nem tão cedo chegará. O desemprego é ainda muito elevado, a precarização do emprego é grande e importantes setores econômicos continuam estagnados. Acresce a isto, a suspeita de que o bom momento economia internacional acabou, o que afetará o país. A ilusão em relação às possibilidades de seu governo acabou.

Mas, não apenas isto. Michel Temer não conseguiu sair do noticiário de escândalos de corrupção. Seus amigos, correligionários, auxiliares e ex auxiliares são a cada dia mais e mais arrolados com a Justiça, sendo que agora também sua família foi jogada para dentro desse redemoinho. O presidente precisará sair com uma lanterna na mão, em plena luz do dia, em busca de quem acredite em sua versão para tantos casos mal explicados. Num clima assim, será muito difícil recuperar qualquer nível de credibilidade, ainda que em patamares modestos.

Isto não é problema apenas para o governo e para as pretensões dos ocupantes do Palácio do Planalto. Claro que o desgaste também afeta o MDB, de cujo presidente é seu maior símbolo. E, em que pese a formidável máquina eleitoral do partido — que conta com mais de um milhar de prefeituras, governos estaduais e governo Federal — a imagem de Temer, envolvido em tantas denúncias, tende a comprometer os destinos dos candidatos da legenda. Haja recursos para convencer eleitores!

Com base nos dados de eleições passadas, onde a máquina contou e muito, há analistas ainda crentes no poder de recuperação do governo e do MDB. No Brasil,nunca é demais repetir, nada é impossível, nem mesmo o sargento Garcia capturar o Zorro. Mas, estrutura eleitoral e tempo de TV não são tudo numa eleição que se dará em tempos tão tortuosos como os que se vive. Podem ajudar em condições normais, mas o humor da opinião pública também é, neste quadro, uma variável muito, mas muito importante. Será determinante para disputa pela presidência da República, pelo menos.

O quadro também afeta o PSDB, que na vacilação que lhe é usual demorou a desvencilhar-se do governo Temer e de Aécio Neves, restando também contaminado pelo desgaste de ambos. Esse sentimento é um complicador para um candidato com dificuldades em decolar nas pesquisas e que precisará ainda mais do tempo de TV, como é o caso de Geraldo Alckmin. Uma associação eleitoral com o presidente Temer e seu MDB, pode ser a pá de cal na candidatura do ex-governador de São Paulo. Terá tempo de televisão, muito a explicar e nada a dizer.

Se já encontra dificuldades na companhia de tucanos, quanto mais dificuldades encontrará se estiver ainda mais mal acompanhado, pelo presidente Temer?

***

Outro acontecimento importante foi a restrição à regra do foro privilegiado para senadores e deputados federais, decidida pelo Supremo Tribunal Federal. A medida é importante como sinal de moralização.

Com efeito, a chamada imunidade parlamentar foi desvirtuada ao longo dos anos. Não assegurou somente a liberdade de opinião e de votos no exercício e em função dos mandatos, mas também protegeu parlamentares da punição a qualquer delito comum, praticado antes e durante os mandatos; um habeas corpus permanente. Restam ainda dúvidas sobre a aplicabilidade da decisão, mas retirar esses casos da alçada do Supremo, que vinham congestionando o fluxo do STF, foi um inegável avanço.

Avanço, somente. Não mais. O país ainda está distante de igualar direitos e deveres de todos seus cidadãos. Presidente da República e seu vice, ministros, governadores, prefeitos, juízes e promotores continuam com seus foros especiais. Pode ser uma questão de tempo, mas essa diferenciação tem servido de abrigo suspeito para muitos que, hoje, estariam em maus lençóis, se julgados fossem pela primeira e segunda instâncias do judiciário, como qualquer cidadão comum.

Mas, também aí, tampouco tudo se resolve e é preciso ficar atento. Há enorme variedade de critérios e personalidades nesses juizados. Conluios locais entre políticos e agentes da Justiça não podem ser descartados num país como o Brasil. O território é imenso e nos grotões quase nunca há forças contraditórias, oposição e imprensa livre, capaz ou disposta a acompanhar e difundir informações dos processos. Nem sempre há sociedade ativa. Na verdade, normalmente, não há.

O que de fato contará para o fim desse tipo de impunidade não será apenas o local onde o sujeito será processado e julgado, a fiscalização ativa da opinião pública e a higidez das instituições são mais importantes. Onde houver, o futuro trará resultados diferentes e melhores que os atuais. Onde não houver nada disto… Bem, já se sabe o que acontece. Basta olhar para o processo que nos trouxe até aqui.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A banalização do mal
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Carlos Melo

Imagem: Marcelo Justo/UOL

Diz-se que filho feio não tem pai. Foi mais ou menos isto o que se deu em torno tragédia que envolveu o edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou durante a madrugada do dia 1o. de maio, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo. Prefeito, governador e presidente da República foram ao local ''prestar solidariedade'', mas, evidentemente, cada um eximiu sua administração da responsabilidade; ninguém assumiu a paternidade.

A tragédia acabou politizada. O esforço maior foi apontar o dedo para os adversários e encontrar culpados do que compreender a dinâmica social que leva milhares de pessoas a viverem em locais como aquele. Culpou-se administrações atuais e anteriores, movimentos sociais sem-teto e urbanistas. Sem provas ou maiores elementos, houve ex autoridade que afirmou que o local servia de abrigo ao PCC — mas não disse o que fez a respeito.

Como se vê, não faltou quem desse bom dia a cavalos; houve até quem culpasse os próprios pobres por não terem moradia (sic). Ora, ora… O mundo é mais amplo que o mundinho de cada um; desconhecemos essa amplidão. Mas, o fato é que, na política, somente notícias boas encontram padrinho. Não faltam oportunistas para assumir a paternidade de uma obra bacana, de um bom plano, da distribuição de recursos. Já no momento ruim ninguém se apresenta. É normal.

Mas, o que não se discute — ou se prefere esquecer — é que o Estado, no Brasil, entrou em colapso. Seja porque não consegue estimular a economia, criar emprego e distribuir riqueza. Seja porque é incapaz de abrigar o povo pobre, sem-teto, miseráveis em situação de rua. Seja porque não consegue evitar ocupações em prédios vazios ou, diante do déficit de moradias inibir a especulação com imóveis ociosos.

Não se implementa políticas públicas inovadoras que estimulem a ocupação legal desses imóveis, que sejam capazes de incluir a população pobre. Por melhor elaborados e mais bem-intencionados que sejam, em virtude da falta de recursos e ou de interesse, planos diretores acabam relegados à letra morta da lei.

Simplesmente, o Estado não existe no Brasil. Não é porque seja pequeno e insuficiente, ou porque seja mastodôntico e perdulário. Na realidade cheia de paradoxos que é o país, o Estado consegue ser ao mesmo tempo isso tudo: pequeno e insuficiente para o que é necessário e inescapável; mastodôntico e perdulário na má alocação de recursos, na sua apropriação por grupos corporativos, superprotegidos.

Culpa de quem? Provavelmente, culpa de todos. Inclusive, da sociedade que se omite.

O Brasil é um país acostumado a conviver com a miséria, com pessoas dormindo sob marquises, com crianças nos faróis; com seres humanos vivendo e comendo do lixo que recolhem. É também habituado à criminalidade e à violência e nada mais parece escandalizar, tudo se fez banal. Sem açúcar, sem sal, sem indignação. Apenas normal. Banaliza-se o mal.

Pois parece normal que seres humanos, famílias inteiras, tenham que ocupar pardieiros sem luz, sem água, sem sol, sem segurança, sem perspectivas e sem ar. Assim, como parece natural que surjam pessoas que se aproveitam disso. Parece normal que a prefeitura diga que o problema é federal; que o governo, em Brasília, esteja distante, que o presidente da República seja vaiado. Que governantes e ex governantes, depois de décadas de poder, assistam a tudo com ar blasé. É um Estado blasé.

Nas redes sociais, no conforto de seus sofás, na modorra do feriado, os tais internautas se manifestaram informando que estão bem (sic). Marcaram-se no Facebook como ''seguros'', distantes de um lugar por onde, todos sabem, jamais passariam. Seria cinismo, desaviso ou melancolia por não estrem em Nova York, lugar de atentados terroristas? O terror, no Brasil, se manifesta a seu próprio modo. E, no final das contas, ninguém está seguro.

Outros tantos indivíduos, como sempre, preferiram, mais uma vez, demonizar inimigos: todos escrevem e ninguém lê; todos falam e ninguém ouve. Admirável mundo novo. Surgiram milhares — talvez milhões — de especialistas de ocasião (curiosos de Internet) prontos a atirar pedra, capazes de discorrer sobre a complexa questão urbana, o drama da falta de moradia, das drogas, da segurança, da especulação imobiliária; do direito de propriedade, da banditização dos movimentos sociais.

Vem à minha cabeça Max Weber, num trecho de sua ''A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo'' — não, é preciso dizer, não se trata de um ''comunista''. Mas, diz ele que ''…neste último estágio de desenvolvimento cultural, seus integrantes poderão ser chamados de ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado’”. Sem espírito e sem coração, esquecemos que, mesmo feio, todo o filho sempre terá um pai. E, no caso, somos nós.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Joaquim Barbosa acelera a eleição
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Carlos Melo

O caminhão do tempo atropela a eleição. Foto: Nivaldo Lima/Futura Press/Folhapress

Gradual e lentamente, a temperatura eleitoral vai se elevar conforme a ansiedade do mercado financeiro, da mídia, dos políticos e, também, da Justiça se eleve. Enquanto o eleitor comum passa a léguas de distância do assunto, a aflição de toda essa gente acelera o passo da conjuntura, deixa partidos e dirigentes afobados, forçando-os a se definir mais rapidamente do que seria normal e razoável para esta época do ano eleitoral.

Foi isto o que aconteceu ao longo desta semana. O leitor comum — por distante — pode não ter se dado conta, mas os bastidores ferveram de disputas, de angústia, de incertezas que, desse modo, vão puxando a corda da ansiedade, asfixiando os candidatos. A eleição deu vários passos adiante, pulou algumas casas.

Pode ser cedo, ainda. Mas, chega um momento em que o cedo tornou-se tarde, tarde demais. Isso não é determinado pelo calendário, mas pelo tempo da política que neste ano está mais acelerado.

Quem mais sentiu isto foi Geraldo Alckmin. O candidato do PSDB é dia sim e o outro também alvo de especulação: uma vez que derrapa nas pesquisas, ora será substituído incontinente por João Doria — como se Doria tivesse a eleição garantida —, ora anuncia-se que fechará acordo com o MDB, cedendo a vice, o que de modo algum parece interessar ao ex-governador.

De todo modo, o dado concreto é que Alckmin não parece empolgar nem seus correligionários. O máximo que tem conseguido são declarações formais e forçadas, de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. O constrangimento é evidente. Diz-se que desenvolve um trabalho intenso de bastidores, mas os resultados não são visíveis.

Como candidato, permanece apático até mesmo em sua terra, o estado de São Paulo, onde os as pesquisas revelam números pouco estimulantes.

Igualmente, o tempo urge para o MDB. É claro que a candidatura de Michel Temer não deve ser levada a sério. O presidente se mobiliza apenas na presunção de ser o que não é, e na pretensão não revelada de encontrar um palanque com cobertura para lhe proteger do sol e da chuva que virão, ano que vem.

Já a candidatura de Henrique Meirelles parece servir mais para negociar do que para competir. Meirelles é Plano B ou C. Será candidato se não houver nada de mais interessante para os próceres do MDB nacional e para os interesses regionais da sigla. E, claro, ainda assim, tudo sob suas próprias expensas.

No PT a aflição toma corpo. Para muita gente, somente agora tem caído a ficha de que Lula ficará mesmo sob a guarda da Justiça, preso numa cela de Curitiba. Não poderá ser candidato. Mesmo o ex-presidente já externou em carta ao partido que, mesmo que a luta continue, companheiro, prefere, na verdade, a liberdade à candidatura, como é natural.

O PT insiste, porém, com Lula porque — José Dirceu já deu a dica — racharia em 4 ou 5 partes, se neste momento tiver que se definir a qualquer opção além de seu condestável. Sem Lula, o PT é Superman diante da kriptonita.

Suas forças se esvaem, tornando-se um partido como os outros: rico de desgastes e pleno de problemas. Sabe — ou já desconfia — que, nessa conjuntura, o melhor seria juntar forças. Fala-se numa frente de esquerda, com PT, PCdoB e PSOL. Mas, que ganho haveria aí, além da reunião dos mesmos convertidos de sempre? Podem por teimosia até ir em frente, mas é pouco provável que assim, sós, eleitoralmente cheguem longe.

Os petistas mais realistas já não descartam uma aliança com Ciro Gomes, que sai da semana fortalecido pela fragilidade do PT. Além de favorecido pelo quadro do PT sem Lula, Ciro, paradoxalmente, também obtém vantagens em razão do sufoco geral que a entrada de Joaquim Barbosa no jogo eleitoral vem causando no sistema político.

Percebeu-se que Joaquim muda o jogo. Contra ele, os partidos precisarão de alianças até mesmo para não sucumbir a seus encantos eleitorais.

E assim, nesta semana que se encerra, o ex-ministro do Supremo foi quem voou em céu de brigadeiro. Aos poucos, parece convencer os renitentes do PSB — não há nada mais sedutor do que as perspectivas de vitória e de poder — de que pode, sim, ser competitivo; de que pode, sim, se disciplinar à vontade de um coletivo (será?). Tem conversado e diminuído resistências, regionais, inclusive.

Sutilmente, amplia seu nome em espaços importantes. Crítico do ultraliberalismo, colocou-se no campo da centro-esquerda, invadindo terrenos de Ciro e do PT. Descrito pelos jornais como o magistrado do STF que considerou constitucional a quebra do monopólio do petróleo, a concessão de status de ministro ao presidente do Banco Central, a contribuição de aposentados e a reforma previdenciária de Lula, abre pelo menos uma fresta das portas para o mercado financeiro e outros setores da economia.

O certo é que o caminhão do tempo vem em alta velocidade, atropelando os descuidados do caminho. Nesta semana, o caminhão se chamou Joaquim Barbosa e ele, de certo modo, fez com que todos corressem ou percebessem que é preciso se mexer. Barbosa acelerou o tempo e o tempo acelerou as disputas.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


A entrevista de José Dirceu
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Carlos Melo

Imagem: Rodolfo Buhrer/ Reuters

Goste-se ou não do personagem e do que representa, não se pode negar a José Dirceu os elementos clássicos do “quadro” político – na nomenclatura de esquerda. Ele compreende conjunturas e momentos históricos, é frio e analítico; não desqualifica valores, objetivos e estratégias do adversário, busca assimilar seu raciocínio. Formula estratégia e estabelece passos táticos; orienta a base e conduz processos. Mesmo vaidoso, é disciplinado para se submeter à liderança simbólica e popular do partido. É um tipo em extinção no Brasil.

Bem, você, leitor que não quer reflexão, nega-se a compreender o ator político — o que não implica em concordar — e prefere simplesmente amaldiçoar o adversário, pare de ler este artigo por aqui; não perca seu tempo, você não ficará feliz. Se, por outro lado, você, leitor acrítico das religiões e das ideologias, que ama cultuar ícones e engolir o prato feito, sem esboçar reação que não seja a fúria fundamentalista à crítica, igualmente, pare. Não se irritem. Vão ao quintal, brincar de militante.

Para você, raro leitor, que decidiu continuar, quem sabe, na saudável busca de mais dúvidas do que verdade, no afã de algum esclarecimento, vamos em frente. Não sei se sou capaz, mas prometo que me esforçarei.

Dirceu concedeu uma entrevista primorosa e histórica à jornalista Mônica Bergamo, da Folha, na semana que passou (leia aqui). Feito a partir de uma frase sua, o título é longo — para um título — mas, se justifica porque sintetiza diversos elementos importantes e não se ajusta a um enquadramento simples. Espelha a condição e do papel do ex-ministro: ''Eu não posso brigar com a cadeia, nem me render; vou ler, estudar e fazer política, diz Dirceu''.

A primeira parte traz um relato humano da prisão. É duro e ao mesmo tempo triste. O cárcere é um irremediável castigo. E mesmo que não esteja nas condições desumanas em que se encontra a maioria dos presos comuns, ele degrada, humilha e impõe dor ao detento e à sua família. Mas, ao mesmo tempo, é realidade incontornável, não há como fugir. Necessário reagir com a dignidade possível, em respeito a si próprio e a quem focou aqui fora:''Tua família não pode te ver assim. Fique melhor. Se arruma. Levante o ânimo. Imagine como vai ficar a tua mãe''. Melhor não ''brigar com a cadeia''.

Certa resignação é fundamental. No mais, é ocupar a cabeça, ''a mente ociosa é o jardim do diabo''. Movimento é um imperativo. Há as tarefas cotidianas: assear, manter tudo muito limpo, evitar doenças. Um esforço tão necessário quanto providencial. Trabalhar no que puder. Dirceu escolheu a biblioteca. Marcelo Odebrecht, ''afável e educado'' e mais reservado, fazia exercícios físicos. Eduardo Cunha frequenta o culto, lê a bíblia, que conhece profundamente; estuda processos contra ele. Ler, estudar, viver… e fazer política.

As diferenças, as divergências e as broncas pessoais e da política ficam lá fora. Depois de três anos, como não encarar e falar com Eduardo Cunha, por exemplo, o verdugo e herói do impeachment contra o PT. Mais, há aproximações inevitáveis, cumplicidade, vida que corre e transcorre na mão e contramão; todos precisam de todos. ''Lá todo mundo na mesma m., entendeu? Há uma solidariedade. 'Vamos evitar que o velhinho pegue sarna, vamos limpar a cela dele, vamos levar ele para tomar banho'''. Estabelece-se a ''comunidade'', às vezes impossível, aqui fora. A cadeia aproxima, não afasta.

Quem é realmente da política — ou desse tipo de política —, conhece as regras do jogo e não abre o bico. ''Cada um guarda mais o seu segredo '', há mesmo uma espécie de omertá. Ninguém entrega ninguém. Dirceu revela o que comentou com Eduardo Cunha e João Vaccari: '''Tô achando que o Palocci vai fazer delação' (…) Os dois ficaram indignados comigo. Principalmente, o Eduardo''. Palocci fez a delação. Não traz a mesma tradição e nem possui a disciplina dos demais políticos guardados pela Lava Jato. É vinho de outra pipa.

Mas, nem só de cadeia se desenvolve o relato feito por Dirceu. Falando sobre Lula, embora não lhe poupe reverências, coloca a questão no campo da maturidade que parece faltar à emocional militância e à patética direção do PT: ''o pior para ele já aconteceu: a indignidade de ser condenado e preso injustamente. Depois disso, tem que se adaptar às condições e transformar elas em uma arma para você. Esse é o pensamento''. A vida é dura. Mas, o que fazer? Cortar os pulsos não é solução.

E concluí, fazendo uma aposta: ''[Lula] não está proibido de fazer política só porque está preso (…) Da prisão você consulta quem quiser. Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar''. O percentual de transferência de votos é afirmação controversa, uma aposta evidentemente. Mas é inequívoco que nacadeia e dacadeia, também se faz política. Dirceu sabe que para a história nem tudo está irremediavelmente perdido; sua fila anda.

No que tange à eleição e à insistência com a candidatura de Lula, o raciocínio do ex-ministro não poderia ser mais revelador: ''…meu candidato é o Lula. Nós temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e registrá-lo em agosto. Se não fizermos isso, será um haraquiri politico. Nós dividiremos o PT em quatro ou cinco facções. Nós temos que manter o partido unido. Daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a executiva, os deputados''.

A questão, portanto, não é a pura insistência teimosa com Lula, mas o temor do ''haraquiri político''. O pesadelo para os dirigentes de dividir ''o PT em quatro ou cinco facções''. A determinação estratégica de ''manter o partido unido'', colocando-o acima dos interesses da esquerda em geral ou da preocupação com o futuro do país. É a lógica do aparelho. Mas, política é defesa de interesses específicos. O que a população mais pode almejar é que, eventualmente, esses interesses coincidam com os seus. Não é exclusividade do aparelho petista.

Ao ainda mais raro leitor que chegou a este ponto da leitura talvez fiquem indagações do tipo: ''e a autocrítica, que não faz; e o reconhecimento dos erros do PT, que não surgem''. Bem, Dirceu resvala na admissão de erros pessoais: ''eu tenho apoio da quase absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT, pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento''.

A narrativa é heroica e grandiloquente — houvesse trilha sonora, subiriam os acordes da Marcha Triunfal, de Verdi —, mas a crítica é tímida, individual, limitada a erros pessoais, não mais que isto. Com efeito, toca fundo no coração do militante, de crenças e valores longe de sentimentos mais gerais ou universais. Mas, é para este público a que se dirige.

Não se espere autocrítica ao Partido, mesmo porque ela, se um dia vier a ser feita, não será pública. Ainda não surgiu o Nikita Kruschev petista, a denunciar e admitir os erros de seus Stálins. Na tradição política de Dirceu, o partido não erra. Nunca errou, jamais errará. O partido é infalível. (Só que não). A entrevista revela tudo isto e muito mais. É um documento históricos destes dias históricos.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O PSDB e o mundo vasto mundo
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Carlos Melo

Se Geraldo Alckmin se chamasse Drummond, não seria rima e nem seria solução.

Fernando não amava Geraldo, que não amava José, que não amava João, que, embora disfarçasse, também não amava Geraldo, que desconfiava de João, que também não amava Fernando, que não amava José, que nunca morreu de amores por Aécio, que penava a falta de carinho. O desamor espalhou-se e já não havia naquele ninho quem amasse alguém.

Fernando encontrou em Luciano um novo amor. Com o pesado do jogo, Luciano voltou para TV. José, antes tão incisivo, sumiu de cena. João partiu para mais uma aventura, agora no governo do estado. Em desespero, Aécio observava a tudo, mas divertia-se com Geraldo também ralando no seu áspero. Geraldo sentiu um bafejar na nuca. Era Joaquim, uma espécie de J. Pinto Fernandes que ainda não tinha entrado na história.

Numa história de tanto desamor, o PSDB procura remontar os destroços de um mundo que parece ter-lhe desabado das mãos. Mas, a destruição não foi criativa. Fragmentou-se de vez. Vive em ebulição. Maquiavéis de almanaque plantam maldades na horta das colunas de política. Desqualificam o próprio candidato, na ilusão de substituí-lo. Mas, não há força, unidade ou Inteligência para isto.

Geraldo Alckmin preside o partido, tem o comando do cartório, mas o certo é que não o lidera. Remedia conflitos pensando em si mesmo, mas o todo é um desajuste de dar dó. Como o personagem de Vargas Llosa, apreensivos os tucanos se perguntam: ''em que momento tudo se fodeu, Zavalita?''. Há menos de um ano, a vitória parecia tão certa…

Com método, tenacidade e disciplina, os tucanos erraram ao longo de todo processo. Foram consistentes nos equívocos que cometeram. Visto daqui, desde abril de 2018, as perspectivas para o partido são sombrias.

Em São Paulo, capitania hereditária, correm risco. O candidato para o estado pontua nas pesquisas de intenção e rejeição. Personagem controverso, parte da Capital não quer ouvir seu nome. O interior ainda não o conhece. Cabeças brancas se afastam. Não há quem jure lealdade. O braço-direito de Alckmin, Saulo de Castro, por exemplo, ficou com Márcio França.

Em Minas, segundo eleitorado, na esperança de esquecer Aécio, as fichas foram postas em Antônio Anastasia. Mas, o senador é notório de mais para ser esquecido. ''Com a chave na mão [Aécio] quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais''. No desalento, o espírito de Drummond tem rondado os tucanos.

Em âmbito nacional, qualquer vento mexe arbustos e assusta: Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Henrique Meirelles, Álvaro Dias, até Michel Temer na vanguarda da míngua. Tudo é pedra no caminho — novamente Drummond. E agora PSDB?

É certo, o ambiente é tão confuso que o inesperado e o ridículo do cotidiano em que o país vive é que podem favorecer. Richard Back, arguto analista e bom amigo, costuma dizer que Geraldo é ''o campeão do 'resta 1'''. Os defeitos de seus adversários são sua maior virtude. Mas, não há time, não há foco, nem estratégia.

A indecisão em relação ao governo Temer, salgou a terra: o PSDB ficou, saiu, mas o governo não saiu da pele dos tucanos. Há um ano, na desgraça de Aécio Neves, para salvar o membro, os magnatas optaram por cortar o pescoço. Gastei bitscom isso (rememore aqui).

Desenergizados, signo da despaixão, os tucanos neste momento seguem cabisbaixos. Aparentam ter perdido mais que o PT. Política é irônica — e cruel —, tudo é decisão e timing. No lapso da sorte, podem até vencer a eleição. Mas, não conduzem o processo; quem os navega é o mar.

***

Ao contrário de Lula — maior que o PT —, Alckmin sempre foi menor que o PSDB. Se ficou maior, foi porque o partido decresceu. Honesto, não desperta rancores na intensidade de seus adversários, sem ativar, no entanto, o amor dos outros. O estilo sacristão não faz inimigos, tampouco atrai amigos. Sílaba átona, não é nota que soa.

De instinto conservador, não é tão conservador (e reacionário) quanto Jair Bolsonaro. É capaz de conviver com a diversidade. Mas, isto o deixa pelo meio do caminho, sem que o compreendam ou assimilem. Na economia, está longe do voluntarismo intervencionista de Dilma, sem causar, porém, suspiros de laissez-fair nos liberais do mercado. Seu choque de capitalismo não prescinde da existência ativa do Estado.

Num mundo de extremos, como fazer compreender nuances?

Sem o charme de FHC, a determinação de José Serra ou a soberba agressiva de João Doria, o estilo Alckmin não deixa marcas. Por 14 anos governador do maior estado do país, não se consolidou no debate nacional. Preferindo crer que ''jogava parado'', cometeu autoengano. Não é um Gerson. Não há vantagem na omissão.

Na maior crise da história, se quedou perplexo entre ser e não ser. Sem bônus, restou o ''ônus Temer'', o ''custo Aécio'', que carrega como bolas de chumbo nos tornozelos. Quixote, jogado à sorte dos próprios sonhos, é o meio-ponto, o meio-termo, o ''resta 1''. ''Mundo, mundo, vasto mundo…'' Melhor é ler Drummond.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O desafio de Joaquim Barbosa
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Carlos Melo

Joaquim Barbosa – STF – div

Em política, a capacidade de comunicar é quase tudo. Mas, não é 100%. O ex-presidente Lula é um comunicador nato, Dilma Rousseff e Michel Temer são um desastre. Geraldo Alckmin é nulo, como um zero à esquerda. Não se trata do domínio da língua ou a loquacidade: Jânio Quadros, tal como Temer, abusava das mesóclises, mas dizia com o corpo e com a loucura. Temer desperdiça a atenção pelo movimento das mãos. Loquaz, Ciro Gomes não raro passa do ponto e dá bom dia a cavalos. Jair Bolsonaro comunica-se com sua tribo, mas assusta o grande público.

Mais do que o falar, falar e falar, trata-se da habilidade de criar e transmitir símbolos. Paulo Maluf sabia fazer isto: a arrogância paulista, o reacionarismo conservador, a Rota na Rua; Tancredo Neves, a sagacidade mineira, a esperança na democracia e na conciliação; Fernando Henrique, o intelectual público e o mundo moderno; Mário Covas, a coragem mal-humorada e resoluta, porém. Antônio Carlos Magalhães: o paradoxo de uma baianidade truculenta, que lhe valeu o delicioso apelido — maldoso-carinhoso — de ''Toninho Malvadeza''. ''A Bahia tem um jeito…''

Símbolos. Joaquim Barbosa é um feixe de símbolos. Num país elitista e de mentalidade escravagista, espelha o menino, mineiro, negro e pobre que venceu preconceitos e a vida. Que cresceu e apareceu com dedicação e o estudo que o levaram ao topo da carreira e da notoriedade social. A meritocracia, chance de quem não tem chances. A indignação arrebatadora, o sangue-quente, a coragem, o conflito; o enfrentamento, a autoridade e os ares de autoritarismo.

Barbosa é um feixe de símbolos tão fortes, que reúne características que estão em Lula, em Marina Silva, em Sérgio Moro, em Mário Covas, em Ciro Gomes e até em Jair Bolsonaro. Não por acaso, após longo período em absoluto silêncio passou a figurar bem na pesquisa de intenção de votos, do Datafolha, tendo apenas se filiado a um partido político, o PSB, sem que fosse necessário que se pronunciasse a respeito.

Não surge como azarão, mas como assombração a candidatos de todos os campos: Direita, Centro, Esquerda.

Num ambiente refratário à política, de descrédito do sistema, de cansaço com a corrupção e com os protagonistas tradicionais, Barbosa surge como uma espécie de reação ''a tudo isto que está aí''. Uma reação intempestiva, um chute no traseiro de personagens de uma história medonha e asfixiante. É o outsider de quem tanto se fala, o que vem de fora, como Dom Sebastião Justiceiro que libertará seu povo.

O problema, para suas eventuais pretensões eleitorais, é que sua força é também sua fraqueza. Tantos símbolos assim falam muito de seu passado, mas dizem pouco a respeito do futuro do país. Seu temperamento mercurial faz indagar como reagirá ao sistema político nacional que não se sujeita a principiantes; faz questionar se, diante da enorme crise, sua vontade bastará.

Impossível não trazer a imagem de Fernando Collor de Mello de volta à memória. A personalidade e o personalismo do herói não bastam, como se viu. Igualmente irresistível não recorrer ao caso de Dilma Rousseff: o voluntarismo, a intempestividade e a intolerância jogam contra.

Em pouco tempo, sem resultados e sem moderação, a intensidade do herói se esvai; rapidamente, se esgota o ímpeto reformador. Com o tempo, a ansiedade, a impaciência e os nervos à flor-da-pele levam o governante a praticar tiro aos próprios pés — com invariável sucesso. É justo, portanto, que o aparecimento de Barbosa como um dos favoritos, na expectativa das pesquisas, desperte dúvidas e indagações para além da euforia ou susto que o primeiro momento revela.

Como disse Ciro Gomes, Joaquim Barbosa será, agora, testado na fricção do processo eleitoral. Além da capacidade de comunicação, precisará demonstrar outras habilidades. Se colocar estruturalmente acima do fenômeno conjuntural. Conversar, dialogar, juntar vontades, reunir atores, formular uma agenda capaz de aglutinar setores e promover, após eleito, transformações de fato e não apenas de estilo.

Tudo o que Barbosa não precisará nos próximos meses será aparecer como herói e futuro ministro de si mesmo: ministro da Fazenda, da Justiça, da Casa Civil, da Articulação, da Comunicação. No Brasil de hoje, ninguém é capaz de ocupar esse papel. O juiz decide de acordo com o conhecimento que adquiriu sobre as leis, mas a base é da escolha é sua própria consciência. Já com o político é diferente: decide-se com base na história, na experiência, nas consequências, nos aliados, nas restrições. Faz-se a torta de acordo com a qualidade das maçãs.

Seu primeiro desafio será demonstrar que é capaz de se articular, o que é muito mais do que se filiar a um partido e esperar a manifestação do eleitor. Que está propenso a renuir em torno de si gente crível e capaz. Uma equipe.

Quem e como será conduzida a economia sob Barbosa? A relação com o Legislativo mudará pelo conflito, pelo convencimento ou será de conciliação? Na esfera do Judiciário, como se comportará? No enfrentamento dos interesses corporativos daqueles que, assim como ele, fizeram carreira e organizaram suas vidas na esfera do Estado, como se definirá?

São inúmeras as questões que se colocam a partir de agora para o ministro do Mensalão. Para ele, a eleição começa exigindo algo mais eloquente do que o silêncio e ainda mais profundo do que os símbolos que carrega. Por enquanto, nada indica que será capaz de responde-las. Mas, a seu favor, também nada garante que não será. Este é seu desafio. E tudo está em aberto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.