Blog do Carlos Melo

O equívoco ao abrir várias e simultâneas frentes de conflito
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Carlos Melo

''O Grito'' (1893), de Edvard Munch

A democracia o naturalizou os conflitos como interesses em disputas que se resolvem pelo voto, aceitando-se o resultado. Mesmo assim, sabe-se que a torrente de conflitos precisa estar sob certo controle. O mais prudente é enfrentar um conflito de cada vez. Quem briga com muitos ao mesmo tempo distribui pancadas, é verdade, mas o mais comum é que saia coberto de porrada. Abrir várias e simultâneas frentes de conflito não é, politicamente, muito inteligente.

A boa política aconselha avaliar o campo, perceber as circunstâncias, considerar os perigos e medir as consequências de cada passo, de cada revés. A contenção nem sempre é resultado de imperativos éticos, espírito democrático ou tolerância. Normalmente, é cálculo pragmático: saber a força do inimigo e, mais, os limites da própria força é uma arte. Só vira a mesa quem tem força para isso.

Este parece o grande problema — talvez, o grande equívoco — de Jair Bolsonaro nesses primeiros dias pós eleição, mesmo antes de tomar posse do cargo de presidente da República. O ex-capitão é uma máquina de conflitos, uma metralhadora giratória disparada com precipitação e sem muito critério. O mais provável é que o açodamento e a imprudência consumam-lhe toda a munição antes de abater qualquer inimigo.

É possível citar de memória os inúmeros conflitos que contratou em tão pouco tempo: 1) a mais influente parcela da imprensa nacional e estrangeira; 2) a partir do atrelamento acrítico e automático aos Estados Unidos, a contrariedade da China, do mundo árabe, da Europa e do Mercosul; 3) ambientalistas de todo planeta; 4) empresários da indústria; 5) sindicatos de trabalhadores; 6) comunidade científica, intelectuais e artistas; 7) a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil); 8) os movimentos Feminista, Negro, LGBTIQ, Sem-terra; 9) o Poder Legislativo — ou, pelo menos, o status quo desse Poder —, 10) a corrupção; 11) o crime organizado; 12) o Poder Judiciário, sobretudo o STF; 13) setores do Ministério Público; 14) segmentos das Forças Armadas, preocupados com a politização das Armas; 15) estados e municípios que enfrentarão graves problemas fiscais; 16) o funcionalismo em geral; 17) corporações favorecidas por privilégios previstos em lei; e 18) mais recentemente, o desgaste com o fim do Programa Mais Médicos, que afetará  centenas de municípios.

Apenas para começar — ou antes mesmo de começar —, inacreditáveis dezoito frentes simultâneas. Algumas inevitáveis, o bom combate; a maioria, dispensável, resultado de ideologia, arrogância ou inexperiência. Propositadamente, o “petismo” sequer foi mencionado. Ainda que o bolsonarismo possa sempre expô-lo como um espantalho no campo de milho, o petismo talvez venha a ser o menor dos problemas de Jair Bolsonaro, no futuro. Um judas num antigo sábado de aleluia. Já passou.

Essa extraordinária e imprudente relação de desafetos é contrabalançada com os apoios mais ou menos instáveis e pouco fiéis ao longo do tempo, sobretudo, à medida em que o desgaste do governo se estabelecer. São exemplos: 1) as bancadas ruralista, evangélica e da bala; 2) operadores do mercado financeiro; 3) o antipetismo que já perdeu seu objeto com a derrota do PT; 4) setores mais duros e intermediários das Forças Armadas e das Polícias Militares; 5) governadores que na eleição, por puro oportunismo, recorreram ao bolsonarismo. Parece pouco, diante dos conflitos. E mais que “pouco”, instáveis e pouco confiáveis.

Fidelidade política e apoios efetivos não costumam a se conjugar por muito tempo. É uma relação que vive mais de sentimentos concretos baseados na popularidade do governante, no bom momento econômico e nas sinecuras do poder do que em princípios abstratos vinculados à ideologia. Ilusão acreditar que 57 milhões de votos bastam. Não bastam.

O presidente e o seu grupo vivem o momento de euforia e deslumbramento com a vitória eleitoral e com todo aparato do Poder. Talvez, em virtude disto não estejam sensíveis aos desgastes que semeiam e aos alertas que já lhes são feitos.

A conquista insólita nas urnas, o fenômeno político e eleitoral que se deu, sim, em torno de Jair Bolsonaro e seu meteórico sucesso são maus conselheiros, pois despertam um tão perigoso quanto efêmero sentimento de invulnerabilidade. Aí mora seu maior perigo. O Poder pensa que pode tudo até que não possa quase nada. É bom superar essa fase rápido.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A vez de ser vidraça
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Carlos Melo

Kleyton Amorim/UOL

(Artigo publicado dia 09/11/2018, na Folha de S. Paulo https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/11/a-vez-de-ser-vidraca.shtml )

A vida é mais difícil que um sonho; a de um presidente da República pode ser pior que um pesadelo. Empolgado com o resultado das urnas, Jair Bolsonaro levitava de contente. À parte do grave atentado que sofreu, o ex-capitão ganhara uma eleição dificílima com maior facilidade do que poderia ter sonhado. Mais: a agenda que propagandeou durante a campanha parecia não sofrer oposição, a não ser do PT, derrotado nas urnas. Além disso, no segundo turno, vários partidos correram em seu apoio. Sinal de que estariam dispostos a caminhar juntos, no futuro governo.

Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito fez crer que, no limite, tudo dependeria de sua disposição pessoal, de sua determinação e vontade política. Contudo, não avisou do pesadelo que é a negociação a que os governos estão submetidos no formato de governabilidade que se dá no presidencialismo no Brasil.

Resultado da interação de um número ilimitado de personagens, a política demanda construção de consensos, convencimentos, e, sim, negociação de interesses. O sistema político brasileiro foi desde sempre forjado na conciliação desses interesses. Mas, Bolsonaro havia anunciado na campanha que acabaria com o “é dando que se recebe”, tão criticado pelo deputado, na tribuna, nas redes sociais, na televisão.

Vê-se agora que nada é tão simples. E bem precocemente criou-se o primeiro impasse da era Bolsonaro. A vontade de cada membro do Congresso Nacional também conta, e muito. Parlamentares podem até recebe-lo com festa, mesuras e lisonjas. Mas, dar-lhe o que deseja é outra coisa. Trata-se de um modo não apenas de barganhar interesses dispersos, mas, no atacado, defender o que acreditam ser suas prerrogativas.

Pode-se argumentar que o Congresso que ora vige está tomado por mais de metade de seus membros que não conseguiram se reeleger, não gozando da mesma legitimidade do presidente eleito. Seria, por exemplo, o caso de Eunício de Oliveira, o presidente do Senado que na noite de quarta-feira aprovou um despropositado aumento de salários que comprometerá ainda mais a saúde fiscal do país, tornando mais complicada a vida do futuro governo.

Com efeito. Contudo, todos foram eleitos para cumprir mandatos que estão em vigor e lhes dá, sim, o direito de exercerem seus votos da forma que entendem mais correta, prestando contas a seus eleitores, no futuro. Depois, nada garante que a próxima legislatura seja, nesse particular, distinta da atual. Trata-se de uma característica estrutural do sistema.

Negociações são inevitáveis e, na maioria, se dão nos bastidores; há a ação de lobbies, um emaranhado processo de trocas de apoios. Isto é normal e não bastam argumentos racionais ou apelos à consciência. Política é sim um jogo de construção de consensos, de avanços e recuos. Cabe ao governo jogá-lo ou propor novas regras que, no limite, serão aprovadas pelo próprio Congresso. Assumir um governo é deixar de ser e para passar a ser vidraça. E mourejar a cada votação.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Governabilidade coercitiva — ou “prensa neles”
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Carlos Melo

Arte/UOL

Jair Bolsonaro obteve 57 milhões de votos, ficou na frente de Fernando Haddad e foi eleito presidente da República. É uma realidade. As urnas o normalizaram e ele governará o país pelo tempo que a política permitir. Por isso, é melhor assimilar o choque e passar a compreende-lo. Assim, deixando o ontem de lado e olhando para o amanhã, a pergunta que se deve fazer é se haverá, qual será ou como se dará a governabilidade de seu mandato de Jair Bolsonaro. Necessário, antes, compreender os movimentos até aqui.

O presidente eleito e sua equipe têm aberto várias e simultâneas frentes de conflito. A começar pela mídia. O Capitão fechou com a internet – sua zona de conforto – e com a Rede Record. Mas em termos de abrangência e público conceder entrevista exclusiva por 33 minutos à TV do Bispo Edir Macedo e apenas 12 minutos ao Jornal Nacional é mesmo sui generis, além de um claro sinal de escolha política. Ao mesmo tempo, consolidou conflitos com a Folha de S. Paulo, tendo também estocado O Estadão, Valor e O Globo, além da Rádio CBN, ao fechar-lhes a porta de sua primeira entrevista coletiva.

Não é inédito. Há no passado exemplos que buscaram montar dispositivo de comunicação próprio e autônomo: Getúlio Vargas, com Samuel Weiner e seu “A Última Hora”; Fernando Collor, que pelas mãos de Paulo César Farias e amigos, buscava construir o seu império de comunicações e; José Dirceu, na aliança, frustrada, que ensaiou estabelecer com o magnata mexicano Carlos Slins. Nenhum desses casos teve bom destino.

No curto tempo da eleição até hoje, Bolsonaro atiçou também outros marimbondos. Na identificação com Trump, assustou a China que lhe enviou um alerta para não brincar com a relação do Brasil tem com aquele país. A intenção de transferir a embaixada brasileira, em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, colheu manifestações de desagrado do mundo árabe. As idas e vindas sobre o ministério do Meio Ambiente, atiçou ambientalistas e signatários, como o Brasil, de protocolos internacionais na área – além, é claro, consumidores de países altamente demandantes dsa produção agropecuária.

Não é segredo para ninguém a avaliação que a mídia internacional faz de Jair Bolsonaro e a expectativa que externam sobre seu futuro governo. Ignorar esses gigantes da imprensa mundial – NY Times, Financial Times, The Economist e Le Monde, entre outros – é um desatino. São fontes de informação e formação de opinião de investidores de todo o planeta; investimento de que o Brasil é carente.

Outra fonte de conflito, que tem aberto várias frentes, é o economista Paulo Guedes, o futuro superministro da economia. Num primeiro momento, foi um exocetna direção do Mercosul; depois a queda-de-braço com Onyx Lorenzoni, indicando que políticos não deveriam se envolver com questões de economia – como se não fosse necessário negociar com o Congresso. Depois, foi o descuido de pedir, sabe-se lá exatamente para quem, que dessem uma “prensa” no Congresso Nacional, no esforço de se aprovar alguma reforma da Previdência ainda neste ano.

Acontece que os “políticos” do Congresso Nacional, bem ou mal, têm tanta legitimidade que o presidente eleito, chefe de Guedes, pois também se submeteram à voz soberana das urnas.

Mas, também não é apenas isto. A visão de Guedes – que até pode estar correta, não é o caso de avalia-la – a respeito de abertura de mercado, eliminação de subsídios e incentivos para a indústria nacional, parece evidente, despertará o espírito de corpo do empresariado, criado desde sempre com o leite ninho do protecionismo. Mesmo o bom combate desperta reação.

Isto tudo sem mencionar os enfrentamentos no âmbito dos costumes, com “minorias” que além de possuírem direitos, não são tão minorias assim, pois mobilizam o sentimento de defesa de milhões de pessoas dos mais diversos tipos. Então, a questão que fica é: como Jair Bolsonaro o próximo e legítimo presidente da República enfrentará tantos interesses simultaneamente contrariados?

Difícil dizer, uma possibilidade seria se blindar no Parlamento, que com 308 votos, pelo menos, lhe garantiria força e, ao mesmo tempo, proteção. Mas, como faze-lo se o novo presidente se recusa a negociar no tradicional método do “é dando que se recebe” – o que o fez angariar tanta simpatia e confiança de seus eleitores, ansiosos por profundas mudanças nesse campo?

Talvez o caminho que vislumbre seja despertar na sociedade o apoio e um sentimento de defesa do governo e do presidente, a partir de uma pauta superlativa de enfrentamento à corrupção e ao crime organizado nas ruas. Ações de grande visibilidade, performáticas, que elevem extraordinariamente a popularidade, o que poderia dissuadir reações de adversários em todas essas frentes, ao mesmo tempo em que persuadiria o Legislativo, pressionado por uma massa bolsonariana.

Há algum tempo, tenho trabalhado numa formulação que tentaria classificar “os tipos de governabilidade”, que seriam: a) governabilidade plena e ativa – o Executivo possui 308 votos ou mais na Câmara e 49 no Senado de forma a aprovar mudanças constitucionais; b) governabilidade defensiva – o Executivo possui 257 e 41 votos respectivamente, e, embora não consiga alterar a Constituição, nada é aprovado contra sua vontade; c) a governabilidade no limite: o presidente detém pelo menos os míseros 171 votos (o que Dilma Rousseff não conseguiu) e nada o retira do cargo.

Por fim, esse tipo que pode assumir contornos sob Bolsonaro, d) a governabilidade coercitiva, quando a proteção e a força de mudança se daria de fora para dentro do Parlamento, por meio de pressão de uma parcela mobilizada da população ou da utilização de outros dispositivos de poder que nem convém imaginar, por enquanto até porque a maior tendência é a de que não será o caso. Enfim, algo que Paulo Guedes chamou de “prensa neles…”

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Um enigma chamado Governo Bolsonaro
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Carlos Melo

“Enigma sem fim” de Salvador Dali

Por menosprezar o adversário, o PSDB amargou 16 anos de frustrações, em quatro derrotas eleitorais consecutivas perdeu oito turnos, e tende a continuar fora do poder por muito tempo. Definiu-se pela típica arrogância da aristocracia e se deu mal. Já em 2002, os tucanos enxergavam o candidato Lula como um simplório que havia perdido duas eleições para Fernando Henrique, no primeiro turno. Além da derrota para Fernando Collor, em 1989. Lula era um cabra marcado para perder.

Não perceberam ou não quiseram enxergar que o petista se reinventara, passando ao largo de conflitos que arrastaram José Serra e Ciro Gomes. Por certo despeito, passaram a crer que o ex-metalúrgico não conseguiria governar; anunciavam o desastre. E não foi bem assim. Quando deu certo, desdenhavam que Lula apenas “dava sequências aos acertos de FHC”. Na época, lhes perguntava: “e vocês acham errado?”

Seguindo esse soberbo instinto, em 2006 deram Lula como morto, em virtude do mensalão. A eleição de Geraldo Alckmin seria um passeio. Passeio, porém, foi a vitória do petista, que entrou em campo apenas na reta final e fez com que Alckmin tivesse no segundo turno menos votos do que obtivera no primeiro. Uma extravagância digna do Guinness Book.

E assim perseveraram supondo que a candidata inventada por Lula não resistisse à campanha eleitoral, pois perderia a paciência, a estribeira, a eleição. O mesmo pensaram em relação ao que chamaram de poste, Fernando Haddad, em 2012; o que se repetiu em 2014, novamente com Dilma, tendo Lula entrado em campo apenas na última semana do segundo turno.

Isto tudo serve para dizer que o mesmo erro pode se repetir na avaliação que a esquerda e os setores progressistas fazem de Jair Bolsonaro. A tendência desde sempre foi menosprezá-lo, sem considerar as circunstâncias que o cercavam e favoreciam. Bolsonaro venceu a eleição. Agora, o autoengano quase geral é de que o presidente eleito não reúne capacidades políticas e intelectuais para governar. Pode ser. Mas, também pode ser um equívoco, um erro crasso.

O primeiro argumento em favor de Bolsonaro se usava também em defesa de Lula: ninguém chega à presidência da República em vão. Na política, idiotas morrem cedo. A Bolsonaro cabem vários tipos de crítica, menos a de que seja bobo. Afinal, venceu pleito concorridíssimo, aparentemente sem recursos e superou diversas barreiras. Jogou e se deu bem, sendo a sensação do primeiro turno e pautando palanques estaduais no segundo. Gostem ou não, deu o tom da eleição.

“Circunstâncias”, “espírito do tempo”, “sorte”… Não importa. O fato é que, tendo por base uma mensagem direta e o sentimento antissistema, Bolsonaro e seu exército brancaleone operaram extraordinariamente bem as condições e as oportunidades que os cercaram.

O mesmo pode ocorrer durante o governo. Não se trata de torcer a favor ou contra, mas de possibilidade que não pode ser descartada.

À parte dos sinais desencontrados e aparentes erros cometidos nesses dias de transição e das inúmeras frentes de conflito que tem aberto, o certo é que ao projetar um Superministério da Justiça e convidar para ele o juiz Sérgio Moro, Bolsonaro parece alçar mira em objetivos muito claros, que ultrapassam o combate à corrupção e ao crime organizado. Com o propósito de pacificar o país, o eleito se pinta para guerra. Seu símbolo é Caxias, que se fez herói pelo enfrentamento de revoltosos, não pela contemplação de interesses.

No esforço para construir a governabilidade de seu mandato, o arranjo da Justiça com Moro parece fazer sentido, seja entregando a seu eleitor as promessas da campanha — o que lhe elevaria a popularidade —, seja dissuadindo adversários por meio dos instrumentos legais que terá em mãos.

Ao invés de negociar e ceder ao fisiologismo, Bolsonaro pode estar em vias construir um mandato cuja estratégia tenho chamado “governabilidade coercitiva”. Alto impacto.

Até aqui, o embate eleitoral foi jogo de damas, um come-come. A dinâmica da alternância de poder, na tentativa de instalação de um novo ciclo, é diferente, mais sutil: jogo de xadrez. A atenção a todos os lances, movimentos diversionistas, performáticos, e movimentos de fundo é imprescindível.

Qualquer objeto requer que os atores sejam compreendidos e, por isso, respeitados — sem preconceitos ou desdém. Este o papel do analista: “nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento”, como diz Spinoza. Já à oposição, até para não ser devorada como tucanos, caberá observar, intuir, compreender e decifrar os enigmas do próximo governo. Eis a tarefa e o esforço para os próximos meses.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Mano Brown e a música do PT
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Carlos Melo

Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo.

A realidade é que o PT tem muita dificuldade de encarar a realidade. Contribui para isto o romantismo da esquerda, o superdimensionamento de seu papel na política nacional, a arrogância oceânica e a vaidade temerária que possui. Isto tudo, agora, reforçado pelo parcial sucesso no primeiro turno e por uma avaliação incorreta a respeito do resultado do segundo. Não compreendeu o que na lata lhe disse Mano Brown: “a cegueira que atinge lá [o eleitorado de Jair Bolsonaro] atinge nós também. Não tem o que comemorar.” Foi vaiado.

Disse mais o vocalista dos Racionais: afirmou não gostar de política “porque política não rima, não tem suingue, não tem balanço, não tem nada que me interesse. Eu gosto de música.'' A política já foi bossa nova, já foi rock´n´roll, já deu samba e fez Hip hop. Contudo, hoje é dissonante. Sua rima é pobre, o charme é zero, o resultado é ralo. Em especial, a banda do PT parou para ver o tempo passar. Calou o som que possuiu um dia.

O cidadão comum tem questões, medos e anseios que o sistema não compreende. Seu presente é incerto e ainda mais o futuro. Foram imensas as transformações que o atingiram na sua tradicional concepção de família, no que tinha por ideal como emprego; revolucionou a tecnologia o mundo do trabalho. Na segurança, no mais elementar ato de cidadania que é o de andar nas ruas, o terror de uma bala perdida encontrar um dos seus.

Mas nem por isso a política deixou de ser necessária, um imperativo para a humanidade, num mundo muito mais complexo que antes. Disse Caetano Veloso que “ele [Jair Bolsonaro] trouxe complexidade”; na verdade, JB a revelou. A complexidade que o PT não apreende, pois tanto quanto Bolsonaro parece fazer parte de outro século, de outra realidade. Com o agravante, como assinalou Mano Brown, de perder o pulso das ruas, muito mais que a eleição.

Em virtude disto, é inevitável reconhecer que o país precisa de uma nova oposição cuja maior virtude residirá na disposição para reconhecer erros e se corrigir, na organização de uma ampla frente ampla capaz de reavaliar o mundo e reinterpreta-lo. Um mundo com Donalds Trumps, que fazem Marine Le Pen parecer uma freira moderada; num tempo em que o dimensional Jair Bolsonaro é eleito presidente num país multirracional, multicultural e multifacetado de glórias e tragédias.

O PT, no entanto, sob esta perspectiva, parece incapaz de reunir e arejar os derrotados por Bolsonaro: PDT, PSB, PSOL, PSTU, PCdoB, MDB, PSDB; a sociedade. Menos ainda aqueles que contra o PT anularam ou votaram no ex-capitão, e mesmo assim não se sentem representados porque, no fim, não era exatamente o que queriam.

Opartido foi para a derrota acreditando que, na segunda-feira, ainda amanheceria como protagonista da oposição, sem que tivesse muito mais a dizer a não ser atribuir culpas aos outros por sua derrota diante de Bolsonaro. Uma derrota recheada de erros estratégicos, de teimosia, de estreitismo político, econômico e intelectual. Nem o parceiro PCdoB ficou para o café da manhã.

Suspeito que o PT não tenha, infelizmente, nada a dizer senão que, logo mais, sem tardar, irá lançar mão da surrada palavra de ordem “Fora Bolsonaro”, repetindo o que fez com Collor, FHC e mais recentemente com Michel Temer, sem mostrar as saídas do labirinto; apenas, mais uma vez, amaldiçoando a escuridão que de fato existe. E isto já não basta pois a realidade ficou, como indicou Caetano, mais complexa e Jair Bolsonaro é um aflitivo exemplo vivo disso, dessa complexidade e desse enigma que precisam ser decifrados.

Ok, reconheça-se que hoje é muito fácil falar mal do PT. Quase não há custo e ainda pode soar como providencial, oportunista e velado tributo à nova ordem que se instalou com a eleição. Mas, é melhor encarar a realidade de que há um longo caminho para a oposição e para reconstrução da política no Brasil.

Neste momento, o caminho consiste em baixar a bola do PT, até parareintegrar parcela de seus membros. Descobrir e colocar novos atores em cena. Encontrar novas rimas, novo balanço, redescobrir o suingue de uma nova política. Compor sua música.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ao vencedor cabe a moderação
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Carlos Melo

Goste-se ou não — e muitas pessoas, certamente, não gostam nenhum pouco —, a partir desta noite, Jair Bolsonaro terá um aposto acompanhando seu nome, “presidente da República”. Métodos, lado a lado, serão sempre discutíveis e isto, se questionado, ficará por conta das instituições. Mas, até para defender a democracia, será necessário reconhecer a decisão do eleitor. Pelos próximos anos, será ele o chefe de governo e de Estado do Brasil.

Muita gente haverá de se questionar como, afinal, chegamos aqui. Como sempre, foram as circunstâncias, invariavelmente muito mais decisivas que os atores. Como disse Barack Obama quando da eleição de Donald Trump, o fato é que ele (Trump e agora Bolsonaro) percebeu algo que passou ao largo da atenção dos demais candidatos e forças políticas.

Independente da qualidade do diagnóstico que faz ou da efetividade da terapia que propõe, Bolsonaro percebeu desde muito cedo a importância de questões como segurança pública, o repúdio dos setores mais conservadores a costumes e estilos de vida liberais e libertários; como também soube expressar a crítica mais radical ao petismo, seja em relação à economia seja no tocante à ética.

No momento em que seus partidários comemoram, pouco importa a justiça dessas críticas ou a justeza de sua independência e autonomia em relação a isso tudo. Como num jogo de futebol, o choro é livre, mas o fato é que o juiz não assinalou as faltas reclamadas e, agora, o jogo acabou e o campeão vestirá a faixa.

Para os que ficam surpresos ou decepcionados, nada há fazer a não ser fiscalizar diligentemente para que o próximo presidente e seus companheiros mantenham-se nos limites da lei e que tenham boa sorte e competência para resolver os graves problemas do país. Seria assim, do mesmo modo, caso Haddad fosse eleito. Democracia é assim.

Os desafios do novo residente não serão poucos. E o primeiro deles será amenizar sua imagem, reduzir medos e resistências; agir como presidente de todos os brasileiros. Sejam eles brancos ou negros, homens ou mulheres, hetero ou homossexuais, bolsonaristas ou petistas. Colocar-se acima dos conflitos que ele mesmo estimulou.

Sua obrigação maior e mais urgente é unificar a nação, não permitir que a arrogância da vitória ou a dor e o ressentimento da derrota fragmente ainda mais o estilhaçado tecido político e social. E que o faça com civilidade, nos limites da lei e do respeito à diversidade.

Seu desafio não será, portanto, apenas indicar o “Posto Ipiranga” para que governe em seu lugar. Paulo Guedes pouco poderá fazer sem o suporte da política, sem a confiança da nação. Nada é mais prejudicial à economia do que um ambiente personalista, cheio de incertezas. O que a economia quer são instituições críveis, eficientes e democráticas. Ao novo presidente caberá transmitir essa certeza.

E o primeiro passo será conter seus radicais — desafio de todo novo grupo que chega ao poder. Depois, esquecer o passado e evitar qualquer sentimento ou ação de desforra. O que se ganhou não foi a presidência ou o país, mas a responsabilidade de governa-lo, mantendo-o unido. Novamente, o mesmo serviria para Haddad.

O segundo desafio será estender a mão à oposição, compreendendo que fiscalizá-lo será seu papel e esperando que o faça de modo limpo, sem boicotes que prejudiquem o país. Para a oposição, vida que segue. No mais, construir a maioria parlamentar nos parâmetros e princípios prometidos durante a eleição: sem concessão fisiológica.

No calor da eleição isso tudo é muito difícil. Menos ainda a euforia inicial poderá comprometer o caminho que ainda será trilhado. Comedimento e moderação, qualidades que o novo presidente jamais demonstrou serão tão necessárias quanto o ar que se respira. O país não pode terminar asfixiado por suas diferenças e seus diferentes grupos.

Superadas as ressacas da vitória e da derrota, os próximos dias serão fundamentais para que se perceba a disposição de todos. Mas, o certo é que, se ao perdedor cabe a aceitação da derrota, ao vencedor cabe a grandeza de compreender a fragilidade de toda vitória.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Produto das circunstâncias
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Carlos Melo

 

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Artigo originalmente publicado no impresso do Estadão, 28/10/2018

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,analise-bolsonaro-e-um-produto-das-circunstancias,70002568790

Antes de tudo, errou feio quem, lá atrás, viu em Jair Bolsonaro uma espécie de Celso Russomanno. Ao contrário do deputado da TV, ele não derreteu com a campanha;  o populismo do qual ambos são feitos tem barro diferente. Bolsonaro não é fenômeno de mídia e nem resultado do recallde eleições anteriores. Trata-se de fenômeno com raízes fincadas na formação e na história política brasileira. Era de supor que seria consistente.

Desde sempre o Brasil possui uma direita belicista e reativa nos costumes. Foi assim com o Integralismo de Plínio Salgado, parte considerável da UDN, a Arena, o PDS e o malufismo. Quem não se lembra de Paulo Maluf prometendo “colocar a Rota na rua”?

Em 1998, Maluf era tão relevante que Fernando Henrique Cardoso se submeteu e resignou-se com outdoors ao seu lado, contrariando Mário Covas. Fez isto para evitar riscos à sua reeleição. Com o acaso de Maluf, no entanto, a direita ficou órfã de um político que representasse seus valores e projetos. Os candidatos do PSDB ocuparam esse espaço apenas como inquilinos ocasionais.

Em 2013, a partir das manifestações que contestavam o sistema, o Estado e a qualidade dos serviços, a esquerda e a corrupção, esse setor voltou a se organizar e a enxergar em Jair Bolsonaro um legítimo representante de seus anseios de ordem, resistência cultural e segurança. Bolsonaro, portanto, não brotou do chão.

Outro aspecto que o favoreceu foi pouco a pouco sinalizar para atores econômicos assustados com o intervencionismo estatal e desejosos de uma prática liberal radical na economia. Setores que ojerizam o PT e não mais confiam na força e disposição dos tucanos.

Paradoxal, a mistura liberalismo e nacionalismo se deu na fusão do capitão com o economista Paulo Guedes. Intuitivamente ou não, passou a expressar a agenda que empresários e operadores de mercado ansiavam. Ofereceu energia e ousadia para acelerar reformas cuja trama negociada do presidencialismo de coalizão brasileiro nem sempre é capaz de entregar.

Em paralelo, a Operação Lava Jato que varreu PT, PSDB e MDB. Ao contrário de Maluf, Bolsonaro não carregava forte ônus nesse sentido e pôde se favorecer da indignação popular com a corrupção do sistema. Condições que lhe deram a pista livre para decolar.

Também os erros dos principais adversários ajudaram. Primeiro, o PSDB: na omissão com Aécio Neves, na contaminação com Michel Temer e na campanha de Alckmin que aguçou e esquentou o antipetismo, entregando-o a Bolsonaro, o legítimo e mais feroz antagonista do PT. Depois, na errática campanha do PT, que insistiu com Lula, negou-se a qualquer revisão e anulou Fernando Haddad ao não permitir que ganhasse autonomia.

Por fim, o atentado que lhe retirou do perigoso circuito de debates e críticas que tornam mais vulneráveis os iniciantes como Bolsonaro. Como foi assinalado, ele não brotou do chão: é resultado de uma combinação de fatores. As circunstâncias são mais importantes que os atores.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ao vencedor, as batatas quentes do momento
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Carlos Melo

Fonte: Agência Brasil.

Toda eleição serve para lavar a roupa suja do país, acumulada no cesto ao longo de quatro anos, para depois ser quarada sob o sol da democracia, o começar de novo. Mas, desta vez, o país sai do processo pior do que entrou. Mais dividido, mais inseguro e de muito pior humor e abertura para o diálogo. A mais complexa e tensa eleição da história do Brasil chega à reta final com muitas perdas e danos e pouco, talvez nenhum, ganho.

Se em 2014 as pessoas se dividiram entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, desta vez foi ainda mais visceral: a disputa separou amigos, dividiu famílias, impôs muros às comunidades. Uma guerra santa que contrapôs tudo a tudo: de questões políticas à morais, de concepções de Estado à críticas ao caráter dos oponentes. O alvo principal foi o PT, que claro, tem contas a acertar, mas que também carregou todos os pecados do sistema político.

(É incrível como, de repente, ninguém mais fala de Michel Temer, Aécio Neves, PSDB, MDB e demais atores implicados com os mesmos problemas, afogados no mesmo rio e atolados na mesma lama.)

O resultado só não está definido com a vitória do bolsonarismo porque o Brasil é o país dos fatos mais improváveis. O ex-capitão e sua turma falam demais e, em virtude disto, tudo pode acontecer. O PT não jogou a toalha e ainda acredita numa virada, numa onda, numa vibração de chegada. Ao longo da semana muita gente se mobilizou, se não por amor a Fernando Haddad, em razão do medo aguçado pela retórica de Jair Bolsonaro e dos seus.

Mas, independente de surpresas, a realidade é que quem vier a vencer a disputa não vencerá de lavada, não será massacrante, nem consagrador. A quantidade de indivíduos contrariados com o resultado será enorme, nada desprezível. Improvável que se resignem imediatamente com o resultado. O país sairá dividido. E, para o eleito, não será inteligente apostar no aprofundamento dessa fratura.

Bolsonaro e Haddad tentaram expressar alguma moderação ao longo da última quinta-feira. Já perceberam que o vencedor não levará tudo. O certo é que, mais que em eleições anteriores, o discurso da vitória será de fundamental importância.

Em 2014, Aécio não ligou para Dilma, reconhecendo a derrota, se não para lhe desejar sorte, pelo menos parabenizando-a protocolarmente. Dilma, ainda mais imprudente, no primeiro pronunciamento que fez como presidente reeleita, recusou-se em ao menos citar o nome do adversário. Morreram abraçados à mesma estupidez. Em relação ao país, conhecemos as consequências da birra entre os dois.

Se a Câmara dos Deputados representa o povo e o Senado os estados, a presidência da República simboliza a nação, a unidade nacional. Jurando cumprir a Constituição, um novo presidente reafirma o pacto político. Passando a ser “o presidente de todos os brasileiros”, reparando rachaduras, reconecta os grupos e o país.

Contudo, depois de tudo o que se deu nestes últimos anos, é de supor as dificuldades do derrotado para fazer o gesto de reconhecimento, seja Fernando Haddad seja Jair Bolsonaro. Se assim for, será um péssimo recomeço, ainda que não seja inédito dado o pioneirismo de Aécio.

A tensão da campanha despertou rancores que não ficarão nos palanques, nem serão páginas viradas. Precavidos, os dois lados já construíram narrativas de fraude e trapaça do adversário. De ambos os lados, restaram desrespeito e desconfiança em relação ao outro. Há poucos (ou nenhum) operadores políticos capazes de costurar esses cortes. Embora natural a disputa, processos assim são feridas abertas e purulentas, cobertas de moscas; não somente demoram a cicatrizar, como podem se alastrar pelo corpo.

Por isso, seja quem for, ao eleito caberá a prudência, o comedimento; a humildade na conquista.  Para que sua vitória não seja de Pirro — a vitória que arruína —, seu discurso na noite de domingo deverá ser entendido como sincero sinal, se não de aproximação, de convivência respeitosa e democrática. Um esforço para que a guerra eleitoral não persista, então, como outros tipos de guerra ou guerra de verdade.

Se minimante perspicaz, o vitorioso perceberá que a vitória eleitoral não implica em rendição do derrotado, não indica a desforra do ganhador. Antes, requer a consciência de novo acordo onde naturais diferenças são respeitadas. E que o árbitro de qualquer conflito será a lei, não a força.

Se não for por democracia, que seja assim por, pelo menos, a mínima inteligência. Que o próximo presidente, já na noite de domingo, estenda a mão ao invés de tripudiar. Postura de estadista, cuja ausência o país se ressente. Tampouco caberá comemorar ou questionar o resultado nas ruas, de modo triunfal ou furioso. Conveniente será baixar a bola, conter radicais exaltados, não colocar tudo a perder antes mesmo de ter começado.

Compreender que se tratou tão somente de passageira e efêmera vitória ou circunstancial derrota, como deve ser numa democracia. Apenas mais uma. Como tantas que já foram e tantas outras que, espera-se, ainda virão. Ao vencido, apenas a compaixão — sem ódio; ao vencedor, as batatas quentes que lhe cabem no momento.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O fim do começo e um samba de Paulinho da Viola
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Carlos Melo

Guernica, por Millôr Fernandes.

O país vive mais um daqueles momentos que, supunha-se, teriam ficado nos livros de história, os quais, pelo jeito, pouca gente lê. Trata-se de mais um daqueles períodos de desacertos, governados pela insensatez e pela incapacidade de diálogo; estimulados por uma incompetência acelerada, uma histeria progressiva. Circunstâncias que denunciam a desigualdade e a dissintonia de informação, verdades e valores entre os indivíduos.

Mais um período difícil que, também, figurará nos livros de história do futuro que, insiste a esperança, as novas gerações lerão e aprenderão, tomando consciência e conhecimento da fragilidade dos pactos sociais, escapando desses ciclos de humores alternados que, ora enxergam em qualquer liberdade a anarquia; ora, na procura de toda ordem, o Santo Ofício — como demarcou, certo dia, Sérgio Buarque de Holanda.

Enfim, de acordo com as pesquisas, a eleição chega à sua última semana praticamente definida, com a vitória de Jair Bolsonaro. A distância do deputado para o petista Fernando Haddad gira em torno de 18 pontos percentuais e, ainda que o Brasil seja o “país dos fatos improváveis”, é, com efeito, pouco provável que não resulte na eleição do ex-capitão. A eleição chegará ao fim, mas o conflito talvez se encontre apenas no fim do começo.

O cenário de continuidade parece se armar: Fernando Haddad e seus partidários tentam ainda uma última reação, se abraçando à matéria publicada na Folha de S. Paulo, que dá conta de um esquema entre empresários aliados a Bolsonaro, que teriam financiado a difusão de Fake News, pelo WhatsApp, o que a lei eleitoral veda.

São movimentações de última hora que, independente de gravidade, tendem a influenciar pouco a maioria que parece já ter se definido por Jair Bolsonaro. Seus eleitores mostram-se, mais que tudo, contrariados com o PT e essa contrariedade é, hoje, a maior força política do país, o antipetismo. Provavelmente, apenas o PT não percebeu isso.

Jair Bolsonaro e seu grupo, evidentemente, negam envolvimento com o caso. E a Folha, para além da denúncia, ainda não apresentou provas mais contundentes que hipóteses baseadas no ditado italiano “se non é vero, é ben trovato”. É do conhecimento geral que milhões de Fake News, com efeito, inundaram o WhatsApp e há, nas redes, vídeos de diálogos de empresários admitindo o dispêndio de recursos com a campanha bolsonarista. Ainda assim, nada disso pode ser entendido como algo mais que indícios, e até aqui não compõem prova.

O caso seguiu para avaliação e manifestação do Tribunal Superior Eleitoral e para  investigação da Polícia Federal. O mais provável é que não dê em nada, até o dia da eleição pelo menos. Mas, o certo é que ficará guardado como um peso sobre o novo presidente e será, inevitavelmente, explorado por sua oposição. É do jogo. E fossem os outros os perdedores, não fariam o contrário.

Todavia, fatos assim são de mau presságio. Mais uma vez, o derrotado tenderá a não aceitar o resultado do pleito, como foi o caso de Aécio Neves, em 2014. Configura-se uma situação que acalentará a continuidade da crise, o que prejudicará a necessária pacificação do país. Mais uma vez: o fim da eleição será apenas o começo de uma crise ainda maior?

Ações de um lado despertarão a reação do outro. Quando as instituições mostram-se incapazes de conter ânimos, a tentação pelo uso da força é quase irrefreável. Dá-se a esse processo político e social o nome de “escalada”. Num otimismo tanto forçado quanto necessário, espera-se que o país não chegue a esse ponto. Ainda assim, é preciso ter conhecimento do potencial do contexto.

Acresce a isto que, no furacão da crise política, será muito mais difícil manter o foco na economia. A dispersão de energia dificulta a boa articulação e o andamento de reformas. E enquanto a questão econômica não for aplacada, a crise política não será mitigada. É um círculo vicioso. O mesmo “não ata nem desata” que envolve o país desde 2014 e que nos trouxe aqui.

O futuro governo, qualquer que seja, terá muitas dificuldades, pois os dois candidatos e as circunstâncias que os envolvem não parecem dados nem à humildade da derrota, nem à grandeza da vitória. O discurso de “unidade nacional” será palavras ao vento se não começarem a atuar políticos hábeis com capacidade de diálogo e negociação entre os campos políticos que se formaram.

O país precisará de bombeiros, que isolem focos e anulem incendiários. Espera-se que o discurso da vitória do eleito, no domingo, seja de bom senso, boa vontade e sabedoria, ouvindo o outro lado; compreendo a diversidade social e política do país como natural e legítima; que aceitos seus argumentos, “não altere o samba tanto assim”. Dos derrotados, que façam “como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


João Doria e a fetichização do PT
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Carlos Melo

O MURO VIROU GALERIA – Trechos conservados do muro se tornaram galerias oficiais ou extra-oficiais de arte a céu aberto. Uma das imagens mais marcantes preservadas no muro foi a imagem do beijo entre os líderes Erich Honecker (Alemanha Oriental) e Leonid Brezhnev (URSS) Reprodução/Wikipédia

É possível que o debate promovido pela TV Bandeirantes, entre João Doria e Márcio França, ocorrido na noite de ontem, tenha passado despercebido pela maioria das pessoas. A atmosfera contaminada pela polarização entre antipetistas e antibolsonaristas, na eleição nacional, suga a atenção e transforma as eleições para os governos em coadjuvantes.

Essa pouca importância não é fortuita. Até porque, por parte de um dos candidatos, trata-se de transformar a disputa estadual num pastiche da eleição presidencial. É uma pena, pois dada a importância de São Paulo, seria fundamental que no estado se instalasse um foco de lucidez e moderação, uma janela para o futuro. Seria importante, só que não.

O embate paulista pouco colabora para atenuar o clima de disputa acirrada e evitar os chutes acima do joelho e abaixo do umbigo entre os adversários. O analista tenta andar no fio da navalha, encontrar aspectos positivos, mas chega o momento em que é impossível não pender, se não no elogio, pelo menos na crítica para um dos lados.

Inegavelmente, João Doria não veio ao mundo para conciliar, promover diálogos, construir consensos e o bem-estar geral, papel primordial da política e do político. A personalidade e a sobranceria lhe dão um estilo nada agregador. Candidato 24 horas por dia, desde 2016, não se furta à provocação e não hesita em abraçar o irracionalismo mesmo que isso signifique, no longo prazo, atear fogo às vestes — como é o caso de sua rejeição de 53%, na Capital, de acordo com o Ibope.

Explora o desgaste do PT, menos por convicção do que por conveniência. É um cruzado, um Napoleão de guerra imaginárias, tentando liquidar hoje o inimigo que, pelo menos em SP, morreu ontem. E elimina assim o amanhã, pois queima pontes num país que precisa reconstruí-las.

Na eleição paulistana deu certo: em 2016, mobilizou 1/3 do eleitorado contra o partido do prefeito adversário da ocasião, Fernando Haddad. Fechou essa parcela em torno de si, sendo também beneficiado pelo alto grau de abstenção, nulos e brancos naquela eleição. Venceu no primeiro turno, um feito se tratando da capital.

De fato, obteve a maioria dos votos válidos. Mas, de verdade, de verdade, quem levou o caneco naquela ocasião foi o “não voto”. Enquanto Doria obteve 33,74% do eleitorado, a turma do Lava as Mãos somou 33,84%. Regra do jogo, foi legitimamente conduzido ao cargo no qual manteve-se no palanque, numa campanha de auto impacto que ao final prejudicou muito o padrinho, Geraldo Alckmin.

Mas, avaliou ter descoberto um grande filão: bater no PT. Na eleição deste ano, passou a maior parte do primeiro turno atacando um inexpressivo Luiz Marinho, candidato de Lula em São Paulo. Não colou do mesmo modo que há dois anos; Marcio Franca e Paulo Skaf amealharam grande parcela do eleitorado e levaram a eleição para o segundo turno.

Estabelecida a realidade de que, desta vez, não teria a mesma sorte de 2016 e que sua vitória não seria a barbada que imaginou, o ex-prefeito se viu na obrigação de debater cara a cara com um adversário hábil, de modo menos dispersivo e mais exigente do ponto de vista propositivo, característica da eleição de segundo turno.

Sem capacidade de ampliação, abriga-se na zona de conforto, apresentando-se mais uma vez como pretenso juiz e verdugo de Lula, de seu partido e, agora, de toda a esquerda. Lugar, no entanto, já ocupado com sucesso por Jair Bolsonaro. Por conta disto, viu-se obrigado a grudar no ex-capitão de modo constrangedor para a tradicional vaidade paulista. “Larga o Bolsonaro, João”, gritou França durante o debate.

Quem desatento ou desinformado ao ouvir seu discurso se imaginará no contexto da Guerra Fria; acreditando que há em Moscou um Josef Stálin, que um muro em breve será erguido na Alemanha, que Fidel Castro desencaminha os jovens da América Latina, que Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola estão prontos para o assalto final ao poder, no Brasil. Se muito disto já era delírio no passado, o que dizer de hoje?

Mas o que fazer, se PT não há mais no estado? Nominar um inimigo de ocasião que faça as vezes do ausente. Para isso, esforça-se em transformar Márcio França num perigoso esquerdista dado o simples nome de seu partido. A legenda de França é tão socialista quanto o PSDB, hoje, é socialdemocrata. A caricatura que procura pintar, “Márcio, o vermelho”, faz pouco sentido.

Mas, a questão nem é esta. Pior é a importância que São Paulo poderia tomar no debate nacional e que está sendo desperdiçada por essa caricatura de Guerra Fria.

O PT é merecedor de críticas, não admitir isto talvez tenha sido o maior equívoco de Fernando Haddad. Mas, transformar o partido num fetiche, cultuando-o pelo avesso, não é apenas oportunismo. É, sobretudo, retirar São Paulo de um sério e fundamental debate para o país: a necessidade de recompor a unidade, passada a tempestade nacional, reunindo os cacos, após a mais agressiva e destrutiva eleição federal.

Transformar o estado em trincheira ideológica ilusória contra o petismo e esquerda em geral apequena o debate e o estado. Isto, Jair Bolsonaro já faz e hoje é dele a supremacia neste campo no país e em São Paulo, em particular. Restaria aos paulistas colocarem o debate em outro patamar. A redundância de personagens e temas é, porém, cansativa. Márcio França bem que resvalou no tema. Mas, a marqueteira fetichização do PT, levada ao paroxismo, não permitiu que o assunto proliferasse.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.