Blog do Carlos Melo

PT: espírito de oposição
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Carlos Melo

Fundação do PT, Colégio Sion, São Paulo. Foto: Juca Martins.

Há muito, a aura purista do PT esvaneceu. O pragmatismo se impôs e reduziu a pó as pretensões de um partido virtuoso, capaz de dar lição de ética aos demais. Melhor que seja assim. O pior da política é a mistificação; a coragem de mostrar “a dor e a delícia de ser o que é” é, ao seu modo, uma virtude. Ademais, partidos políticos não são feitos para ser elevados à condição de anjos, nem para representar a todos numa sociedade complexa. Feitos de interesses, é normal que façam escolhas e definam as bases de seu jogo.

O certo é que com o tempo o petismo adquiriu vícios e, na prática mais do que no discurso, se confundiu com a maioria dos partidos. Assim como qualquer legenda, o PT busca o poder. E isso não é ilegítimo, o problema é não deixar claro — ou não saber — exatamente para quê. Ainda assim, a agremiação continua a revelar particularidades que a distinguem.

Pois bem, nesta quadra de tempo em que as forças políticas se mobilizam para ganhar as ruas e as urnas da eleição em todo o país, o PT tenta colocar em pé sua estratégia. Quem conhece bem o partido e tem acompanhado sua dinâmica interna nesses últimos tempos comenta com ironia que é um exagero supor que haja estratégia naquilo que o PT tem feito a esmo. Para que estratégia houvesse,  seria necessário unidade.

Pelo menos, autoridade que se imponha. Após a morte de Luiz Gushiken, a prisão de José Dirceu e de Lula, o PT já não teria tantos estrategistas assim, que merecessem o reconhecimento.

Pode ser. Mas, mesmo sem saber, sem unidade e sem clareza, o fato é que há uma alma petista. E a alma do partido vai se delineando por si própria e estabelecendo a racionalidade de sua ação. A alma e o espírito do PT estabelecem, sem saber, a estratégia do partido.

Mais ou menos como o mercado: não há comitê central, hierarquia, ordem, unidade. Há visão de mundo donde deriva uma forma de ser e estar no mundo atrelado interesses e vícios que carregam, que demonstram, “um modo de pensar” que é de quase todos, sem ser de ninguém. Mais que tudo, trata-se de uma dinâmica social que se dá nos ciclos de amizade, nas corporações, nos corredores das sedes e dos aparelhos.

O PT é desse modo. Mesmo que não saiba, possui uma racionalidade implícita que se revela atávica. Uma índole que se sobrepõe a ele mesmo e se estabelece como prática política. Escola de Samba de uns poucos ensaios que, durante o desfile, faz crer que foi tudo muito bem pensado, cronometrado. Só que não. Na maioria das vezes, é mesmo a vontade e a disposição que sobrepujam o planejamento.

Pois é nesse contexto que o PT se move também nesta eleição. Claro que a prisão de Lula é um drama para seus companheiros e para sua base social. Não se pode esquecer que mesmo detido e provavelmente impedido de concorrer, as pesquisas têm mostrado o ex-presidente com algo em torno de um terço das intenções de votos. Não é pouca coisa, numa época de desintegração.

Mas, Lula à parte, íntima e individualmente cada membro do PT pensa e projeta o futuro. E na mágica da inteiração e da sinergia dos grupos sociais, continua lá, incólume, a pretensão hegemonista do partido.  A força da vontade de manter-se de posse da banca, dando cartas para o que ainda hoje se chama, de modo talvez impreciso, de esquerda vá ao PT como a Cristo foram as criancinhas.

Nesse sentido, seria muito difícil para esse partido apoiar qualquer candidato que se distancie de seu corpo, que não tenha aprendido a ler pela sua cartilha, que não reze exatamente o seu credo; qualquer um que não encarne o “petismo verdadeiro” ainda que isto tenha se perdido ou reste apenas como a lembrança de um quadro na parede.

A unidade das esquerdas, na alma do partido, somente é entendida como unidade se à cabeça da chapa e à testa do processo estiver o PT ou um dos seus empunhando a bandeira e realizando a liturgia do partido. Ciro Gomes e Marina Silva, exatamente por não serem assim, sequer são considerados, na visão petista, como “de esquerda”.

Já Manuela d’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos, embora reconhecidos como companheiros distantes, seriam jovens, inexpressivos e incapazes de unir o campo e representar o PT. Nada serve se não for do PT. Não há verdade se não vier do PT.

Não haveria problema, é claro, se todos esses personagens, ao invés de buscar independência e autonomia, apoiassem o PT, subservientes figurantes em seu filme. Desde que não sejam protagonistas, aceita-se até o PMDB e Michel Teme. O protagonismo, numa visão dogmática do esquerdismo tradicional, só pode ser do partido ou de quem o encarna. Não há bem, nem inteligência, fora dele.

Mesmo internamente essa dinâmica se reproduz, tendendo ao gueto. No pós Lula é muito difícil encontrar alguém que ultrapasse as diferenças e os conflitos internos, que paire acima das divergências e das tendências que formam o mosaico do partido. Sem Lula, aquele que flutua acima das águas turbulentas do facciosismo, dos agrupamentos e das disputas nos corredores dos aparelhos, será muito difícil encontrar quem dê liga à legenda.

No limite, se for para ter candidato próprio é melhor que seja para não ganhar. Uma vitória obrigaria o partido a se definir, quando não há mais o escudo estrelar ou o martelo de Lula, seu Thor mítico. Não se passará o bastão de Lula à frente para quem não maneje tão bem os símbolos e as ambuiguidades, as idiossincrasias com que o ex-presidente aprendeu a lidar ao longo dos anos.

Talvez, secretamente, no fundo do coração, a dinâmica petista, inconscientemente, prefira a solidão e o conforto da oposição a um governo compartilhado, um governo que não possa chamar inteiramente de seu — mesmo que jamais tenha tido um governo verdadeiramente seu. É a oposição que unifica o PT. Uma oposição sem muita clareza, mas que exatamente pela inexatidão consegue juntar cacos tão diversos, tão dispersos e tão displicentes. Uma oposição que nunca morre; oposição de e por espírito.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O pragmático esperar
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Carlos Melo

Caipira Picando Fumo — Almeida Junior

O leitor que procure saber como se faz — “tem no Youtube”. De todo modo, no folclore do rural se diz que “tatu velhaco entra de costas”. Assim o faz para não ser pego de surpresa, exposto pelo rabo, posição que o deixa mais vulnerável. A precaução é um instinto; sua natureza. Os mais safos políticos também agem desse modo. Em momentos de perigo, cavam tocas, protegem a retaguarda, postam-se de frente de modo a melhor observar; preparam a mordida.

Em tempos normais, passada uma Copa do Mundo que não deixou memória nem euforia, as convenções partidárias estariam todas marcadas, com alianças e coligações basicamente fechadas. No mínimo, bem adiantadas. Mas, nesta eleição, tudo é diferente. Como a incerteza e perigo rondam os políticos, a prudência e o oportunismo recomendam cautela. Exercer opção antes do tempo político é erro de principiantes.

O contrário, no entanto, exige cálculos sofisticadíssimos que apontam ser este “momento de aguardar”. Esperar novas pesquisas, pesar números e posições.

Engana-se quem acredita que o móvel mais comum da ação política sejam abstrações como “o bem comum”, a “unidade” do centro, da direita ou da esquerda ou a tal da “racionalidade econômica”. As questões das mais comezinhas disputas políticas são sempre muito concretas e a racionalidade da política é distinta e particular: cada grupo avalia seus próprios interesses e, dentro dele, cada indivíduo planeia seu destino. Simples, assim e assado.

Também os palanques regionais estabelecem-se desse modo: interesses locais acima de abstrações nacionais. Primeiro, é preciso manter a província, lócus do clientelismo ordinário e fonte do poder na corte. Depois, avalia-se quais alianças nacionais trazem maiores ganhos ou menores desgastes.

Quem salta questões estaduais e atira-se direto na luta nacional é porque, sejamos francos, não tem poder local a preservar. É assim que funciona.

Na eleição mais ampla e visível, a de presidente da República, todas as questões acima são consideradas. Os riscos, as vantagens. A manutenção do status quo, a possibilidade de avançar, o perigo de perder. A frieza estratégia que é ao mesmo tempo a arte da guerra. Logo, a consolidação de alianças com candidatos nacionais depende de questões e interesses concretos, que na maioria das vezes não se prendem à abstrações ideológicas.

Pode-se, então, começar a compreender o porquê de partidos do chamado “Centrão”, que se apropriaram de recursos e poder sob Michel Temer, se aproximarem de Ciro Gomes ao mesmo tempo em que se distanciam de Geraldo Alckmin. O primeiro, um crítico mordaz daquele condomínio; o segundo, presidente do PSDB que, bem ou mal, esteve na linha de frente com eles no impeachment e no governo do MDB.

A explicação é simples. Primeiro, o bonde de Ciro parte agora e é impossível prever se haverá lugar, depois, caso vença a eleição. É melhor garantir o ticket já. Além disso, há pressões regionais, no Nordeste, para apoio a Ciro, um político da região, mais bem aceito que Alckmin, um ser de um planeta quase à parte chamado São Paulo.

Já com Alckmin, na eventualidade de vencer a eleição, a guarida é certa. Obrigatoriamente, governará com gente “de casa”, não terá esquerda ou direita a quem recorrer. Também a eficácia de um apelo ao povo, com sua limitada capacidade de comunicação, é duvidosa. Logo, as cadeiras são, ao seu modo, cativas.

Ademais, o tucano, pelo menos por ora, não anda nem desanda nas pesquisas e, até aqui, tem demonstrado pouco potencial para decolar. Dada a visibilidade que possui e a máquina que controla, Geraldo Alckmin deveria gozar de maior conforto, sobretudo em seu estado. Mas, não tem sido assim. Apostar que será diferente, fiando-se em dinâmicas do passado, é temeridade para políticos pragmáticos.

Além disso, o tucano carrega nos ombros o peso de mil desgastes: o ônus do impeachment, o ônus de Aécio Neves, de Eduardo Azeredo, de Paulo Preto, da escolha e renúncia de João Doria, do governo de Michel Temer e sua montanha de escândalos. Justa ou injusta essa fama — Alckmin tentou manter certa distância disso tudo —, em ano de eleição, o mau humor do eleitor e o ressentimento dos adversários fazem pingo virar letra.

Difícil desvencilhar-se desses sinais e dos respingos do processo recente quando há tantos erros não compensáveis por tão poucos acertos. Para reverter esse quadro antes da convenção, garantindo uma mais ampla coligação, Geraldo Alckmin precisará de um fato novo muito mais relevante que promessas.

Não basta anunciar o apoio do PSD de Gilberto Kassab, político de São Paulo. Já estava no preço, o contrário é que surpreenderia. Difícil de imaginar algo mais robusto que isto, com o impacto e no tempo certos. Assim, por mais alguns dias, na natureza que os domina, políticos a “entrar de costas”.

(No próximo artigo, a mesma lógica na esquerda e no PT.)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O Habeas Corpus e o abismo da política
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Carlos Melo

El Pintor y la Modelo – Pablo Picasso, 1963

A semana terminava irremediavelmente morta, nos lamentos pela sorte da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo. Um sentimento de perda e de mesmice tomava a sala e se misturava aos aromas do almoço de domingo. Seria o tédio, não houvesse no país tantos desacertos; não houvesse essa incapacidade de rearrumar a casa após a tempestade que, é verdade, nunca passa e vai delineando o dilúvio.

No Brasil destes dias, não há espaço para o luto quanto menos para resguardos. A emoção e a instabilidade são a lei desta quadra histórica. A notícia chegou pelo rádio, pela TV; na internet e nas notificações de WhatsApp que soavam frenéticas no celular: surpreendentemente, um desembargador de plantão resolvera acatar o Habeas Corpus impetrado por deputados petistas que pediam a liberdade do ex-presidente Lula. De um lado, a euforia; de outro, a fúria. Não havia dúvidas, o país ferveria nas horas seguintes.

O episódio deixa, porém, algumas certezas: 1) o vale tudo para livrar os políticos, de qualquer agremiação, das garras da Lava Jato está posto sobre a mesa; 2) o Poder Judiciário, tomado pela política, entrou em pane, perdendo a capacidade de arbitrar conflitos e, portanto, a previsibilidade; 3) um perigoso e desconfortável ambiente instável será a lógica desta eleição. O país costeia o abismo.

Ao tentar por mais uma vez libertar o ex-presidente Lula de sua cela na prisão de Curitiba, o PT buscou o caminho das pedras trilhado também por tucanos e emedebistas, volta e meia libertados por ordem de ministros do Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, há no STF uma prática que tem se estabelecido como normal, em que ministros autocraticamente e ou turmas de ministros deliberam Habeas Corpus ou anulam prisões ao arrepio de posicionamentos antes estabelecidos pelo Plenário da Corte.

Pode-se afirmar que há no STF não apenas duas turmas, mas, pelo menos dois times — ou duas bancadas que se contrapõem. Seus protagonistas são, de um lado, Gilmar Mendes e José Antônio Dias Toffoli, mais críticos da Operação Lava Jato e mais condescendentes com os réus; de outro, Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin, mais duros e favoráveis ao tratamento que tem sido dispensado pela Lava Jato a seus réus.

(Quem está certo, só os valores ou a torcida de cada um serão capazes de dizer)

Pois, em busca de um mesmo ambiente e circunstâncias, deputados do PT recorreram ao plantão do Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul (TRF-4) na busca de um genérico de Gilmar Mendes. Em sentido oposto, o desembargador Rogério Favreto, com o mesmo princípio ativo, talvez avaliasse libertar o ex-presidente. Jus Sperniandis, direito de reclamar. Mas, é claro, foi também um movimento político calculado para criar um fato.

Com alguma sorte e desatenção, o HC poderia libertar Lula e reestartar a eleição. Mesmo não sendo candidato, o ex-presidente é capaz mobilizar e articular a política de um modo que o PT é incapaz de fazer. Quando menos, a própria negativa aguçaria o discurso de vitimização, demonstrando que, em se tratando do petista, o rigor parece maior.

O frenético vai-e-vem de despachos evidenciou o desgaste das instituições de um modo no geral, do Judiciário, em particular. Também obrigou o juiz Sérgio Moro a se expor, agindo para retardar a ordem de Favreto e ganhar tempo até que demais membros do TRF-4 frustrassem os aliados de Lula.

Foi, enfim, uma tarde de domingo sem futebol, mas de Ópera Bufa; confusão que explicita os desacertos e os problemas do país. E agrava-se o conflito entre as torcidas políticas.

Adversários de Lula denunciam as relações de Dias Toffoli e, agora, Favreto com o PT. Mas é verdade que se calam quanto à proximidade — em fotos, festas e histórias — de Sérgio Moro, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes com PSDB e MDB. Acusações de “golpismo” cruzam os céus do país. Aponta-se dedos e liquida-se a possibilidade de diálogo, base da política. O país não sai do buraco porque não consegue parar de cavar a terra sob os pés.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A anormalidade como regra e as chances de Jair Bolsonaro e Marina Silva
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Carlos Melo

Foto: Evaristo Sá / AFP

No artigo anterior — que você pode ler aqui—, argumentei ser, no mínimo, controversa a visão de que há uma dinâmica natural da eleição, que se impõe ao cenário conjuntural. Que estrutura partidária, tempo de TV e recursos financeiros sejam o suficiente para definir o quadro eleitoral. Sendo que, nesse sentido, bastaria comparar à dinâmica de outras eleições para prever tanto quanto possível a trilha pela qual esta eleição deve caminhar.

Como disse, avalio isto como insuficiente. E antes de avançar um tanto mais na análise e nas condições que possuem Jair Bolsonaro e Marina Silva para o próximo pleito eleitoral, acrescento mais um argumento, de modo a reforçar a necessidade de ponderar um tanto mais o poder das circunstâncias:

Analistas políticos na Europa e nos Estados Unidos quando estudam séries históricas para compreender a dinâmica eleitoral de seus países, lidam com dezenas de ocorrências. Donald Trump, por exemplo, é o 45º. presidente norte-americano, para um número de eleições muito maior, considerando as reeleições naquele país. Vários países europeus possuem uma longa tradição democrática, com eleições regulares há décadas. No Brasil, não é assim.

Entre 1889 e 1930, a “Primeira República” foi um regime  oligárquico em que apenas 2,3% da população votava. De 1930 a 1945, uma ditadura se estabeleceu. Entre 1946 a 1964, o país teve 5 presidentes: um praticou suicídio, outro renunciou com 8 meses de mandato, um terceiro, vice, foi deposto pelo golpe militar. De 1964 a 1985, nova ditadura e o regime militar nomeava seus generais-presidentes. Em 1985, o presidente eleito indiretamente pelo “Colégio Eleitoral” (Tancredo), sequer tomou posse; adoeceu às vésperas agonizando num hospital por 36 dias, até falecer.

Em 1989, o primeiro presidente eleito (Collor), na redemocratização, sofreu um impeachment e não passou a faixa presidencial ao sucessor. O segundo eleito (FHC), beneficiou-se da reeleição, passado a faixa ao sucessor (Lula), em 2002. Este, dois mandatos depois, aí sim, transmitiu novamente a faixa à sucessora que sua popularidade elegeu (Dilma). Esta sofreu novo impeachment, sendo sucedida pelo vice que participou do processo de conspiração para sua queda, pela falta de apoio e governabilidade.

A rigor, o presidente Lula, em 2010, foi o primeiro presidente da história do Brasil que recebeu a faixa presidencial de um presidente igualmente eleito e a repassou a uma terceira, também escolhida pelo voto popular. Isto faz meros 8 anos. E houve nova ruptura. O próximo presidente não receberá a faixa do eleito. Oxalá a repasse e o ciclo recomece.

Da redemocratização para cá, o país realizou 8 eleições; 5 presidentes foram eleitos — Tancredo, Collor, FHC, Lula e Dilma. Um, pela via indireta, três reeleições; três vice assumiram e concluíram os mandatos ds titulares. Isto tudo para dizer que a democracia no Brasil é jovem, não havendo significativa tradição e normalidade eleitoral. Qual a normalidade que que pode retirar disto? Apenas a turbulência.

Logo, parece razoável admitir que tudo é muito instável. Modelo postos por outras realidades não se ajustam exatamente à realidade brasileira. Se funcionarem, terá havido a influência da sorte e da aleatoriedade.

Assim como o Brasil, Jair Bolsonaro e Marina Silva não se ajustam à estabilidade das normas e do jogo. Individualmente, seus partidos não têm estrutura e tempo de TV. Marina, por exemplo, sem coligação, sequer participará dos debates na TV. Num processo normal, seriam sumariamente descartados como competitivos. Mas, a normalidade, no Brasil, como se viu, assumiu um sentido próprio. A instabilidade — sobretudo, nos últimos 5 anos — tem sido a regra.

Ademais, Bolsonaro parece ter-se consolidado no eleitorado conservador, de viés autoritário. Esse setor sempre existiu na política nacional, com forte representação: o integralismo, a UDN, a Marcha com Deus pela Liberdade, o Regime Militar, a Arena, o PDS, Paulo Maluf… Foi com o ocaso do malufismo que o vazio à direita foi ocupado pelo PSDB — ou, antes, por pragmatismo eleitoral, foi abraçada pelos tucanos. Com Bolsonaro, a direita reencontra seus signos e volta ao seu leito de origem.

Embora não se possa dizer que a maioria do eleitorado nacional se amarre a princípios ideológicos, o fato é que esse eleitorado conservador sempre contou com relativa densidade eleitoral. Num ambiente de mau humor elevado como o presente, tem aí o auxílio do voto de protesto “contra tudo isto que está aí”, o que favorece a Jair Bolsonaro.

As pesquisas mostram a irredutibilidade do ex capitão, num patamar entre 15% e 20 % das intenções de votos. Nunca é demais lembrar que em 1989, Lula foi ao segundo turno com 16,9% dos votos. Suas chances num segundo turno, com os olhos de hoje, parecem reduzidas pela dificuldade em atrair o eleitor de centro, moderado, o fiel da balança em qualquer ambiente eleitoral. Ainda assim, os olhos de hoje não advinham o amanhã. Bolsonaro não pode ser descartado.

Já Marina Silva demonstra possuir um eleitorado cativo, próximo aos 20%, desde 2010. Engana-se quem afirma que em 2014 deixou de ir ao segundo turno por falta de estrutura partidária e tempo de TV. Seu principal problema foi o salto alto — acreditava já estar no segundo turno —, o que lhe fez desprezar os efeitos dos ataques que recebeu de seus adversários e inibiu a percepção da necessidade em dar respostas a esses ataques.

É sempre possível que Marina insista nos mesmos erros; o de se colocar como uma figura olímpica na competição, o de figurar como São Jorge na entrada de um prostíbulo. Parece estar agindo de modo diferente, buscando coligações. O fato é que, nesta eleição, o chamado centro político moderado e democrático está desarticulado, parece não depositar esperanças na capacidade de reação de Geraldo Alckmin; esse vazio pode ser preenchido por Marina.

Como a haste móvel de um compasso — escrevi sobre isto, aqui—, Marina parece possuir mais amplas condições que Alckmin em expandir-se a partir do centro, atingindo o eleitorado conservador de centro-direita, religioso, e uma esquerda ligthe ambientalista, descolada do PT e não seduzida pelo pragmatismo brizolista que agora Ciro Gomes parece expressar. Além disso, a ex-senadora pode assumir o papel de mau menor, aos olhos do mercado financeiro e do empresariado em geral.

Ambos, Bolsonaro e Marina, embora absolutamente integrados há décadas à dinâmica política nacional, podem vir a se arvorar como “os ousideres possíveis”, aquilo que restou de mais distante das grandes estruturas rejeitadas pelo eleitor. Atores descomprometidos com o status quo, ocupando espaços antes destinados a personagens novos, como Luciano Huck e Joaquim Barbosa.

É sempre bom lembrar que estes, Huck e Barbosa, se não mergulharam na disputa eleitoral, não foi por falta de estrutura partidária — adesistas os receberiam de braços abertos —, mas por cálculo e restrições exclusivamente pessoais.

Galopando fluxos de informação, o descontentamento patente do eleitor em relação aos grandes blocos políticos; navegando nas ondas das desgraças de candidaturas que, em que pesem as estruturas com que poderiam contar, não decolam, Bolsonaro em Marina podem surpreender mais como fenômenos de opinião pública e das circunstâncias, da ruína do sistema político, do que como fenômenos partidários, político-eleitorais. Estão aí as suas chences.

Ademais, daqui até o início de agosto, os desafios de Bolsonaro e Marina serão os mesmos: fechar coligações que minimizem a precariedade de estrutura, ampliando apoios, recursos e tempo de televisão. No caso de Marina, que lhe permita, ao menos, participar de debates. Não à toa, as grandes estruturas se debatem para fechar os caminhos aos nanicos, Bolsonaro e Marina. Mas, eleição é luta renhida que somente aos fracos abate. Se serão exaltados só o tempo dirá.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


Política e eleição: uma prévia para pensar em Bolsonaro e Marina
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Carlos Melo

O sono – Salvador Dali

Política e eleição são um “rabo de galo”, pinga e vermute que se completam sem perder especificidades. Preenchem o mesmo recipiente, mas se distinguem. Política contém eleição, mas é mais ampla e sobrevive ao seu momento; a eleição carrega a dinâmica e os conflitos da política, mas é um ponto isolado em sua timeline. É um erro confundir, sem critério e distinção, seus elementos. Uma coisa é a amplidão do céu; outra, o movimento das nuvens.

Um senso comum, instrumental, pretensamente científico — será mesmo a política uma ciência, ou ciência seria apenas o seu estudo? —, insiste em pensar a política apenas por seu aspecto eleitoral. Organiza-se números, constrói-se tabelas, retira-se correlações. É interessante e mesmo importante para compreender o passado e o processo, mas nem sempre tem valor preditivo. A política se dá a cada dia, num torrente de eventos e fatos que, se não alteram o passado, indeterminam o futuro.

Com efeito, em tempos normais, a eleição tem uma dinâmica conhecida. Os instrumentos eleitorais contam e muito: tempo de TV, capilaridade partidária, apoios, dinheiro, marqueteiros e, mais recentemente, redes sociais. Em tempos normais, ganha-se uma eleição possuindo e manejando esses instrumentos; pode-se dizer que há uma “técnica eleitoral”.

Contudo, o raciocínio mecânico não basta para estruturar a análise eleitoral, pois a política ainda é o leão que ruge nesse reino. A dinâmica das últimas eleições; o que demonstram os dados e as curvas de seus gráficos; as correlações, ações de causa e efeito; quem detém os instrumentos de campanha… Isso tudo conta. Mas, pequenas séries históricas, a sobreposição de gráficos e curvas não são suficientes para desvelar o futuro como se a história não evoluísse.

Seria fácil se não fosse difícil. Questões subjetivas, somente pela impossibilidade de quantifica-las, não podem ser desprezadas. Às vezes, uma eleição é apenas uma eleição. Não se pode transformá-la num fetiche. Nem banalizar a política, submetendo-a à exclusiva lógica eleitoral.

Se eleições se relacionam com condições materiais, a política não se define por elas. Ondas de informação e as circunstâncias subjetivas que a cercam também contam, e contam muito em situações de estresse. Além dos recursos de campanha, momentos históricos, fatos, traumas, espírito do tempo precisam ser considerados. O zeitgeist, como dizem os alemães, tende a se impor à simples materialidade dos instrumentos eleitorais.

Por isso, é impossível desprezar todo o processo que transcorreu ao longo desses anos: o Junho de 2013, a torta eleição de 2014, o impeachment, a Lava Jato; a derrocada moral de PT, PSDB e MDB; o sistema político em colapso, a economia claudicante, a impopularidade do governo, o desprezo pela política, o mal humor do eleitor, o renascimento da direita, a crise da esquerda, a agonia do centro. O líder das pesquisas na prisão.

Ao se considerar apenas os aspectos instrumentais da eleição de 2018, retirando-lhe o conteúdo político e a influência da história, pode-se, ok, imaginar como certa a reedição da polaridade PT x PSDB. Como se mais nada tivesse ocorrido, como se o país tivesse hibernado por anos, acordado somente após a Copa do Mundo, com os mesmos olhos e ilusões de 2014.

Mas, muita lágrima correu, alguns cristais trincaram. Os traumas do tempo são recolhidos como rosas num jardim — ou latinhas de cerveja no chão de uma manifestação na Av. Paulista. O país não é o mesmo. Muita coisa mudou, ainda que as estruturas de poder ainda correspondam às condições definidas em 2014.

Isto nos obriga a considerar questões políticas de fundo, admitir a possibilidade de mudança. O mais possível é que não bastem uniformidades eleitorais do passado, duvidosas em tempos bicudos, repletos de zonas de sombra que diminuem a visibilidade do ambiente a previsibilidade do cenário. Imprescindível considerar o ambiente, as angústia, o mal-estar, o zeigest. Os dados, á claro, ajudam, mas não bastam.

Somente assim, com isto posto, pode-se especular em torno das chances de Jair Bolsonaro e Marina Silva, candidatos sem estrutura partidária e recursos de campanha. Confrontados apenas com a dinâmica eleitoral do passado, eles estariam fora do jogo. Mas, a política não é apenas isso. Bolsonaro e Marina ficarão para o próximo artigo. No mais e por enquanto, ''pra frente, Brasil''.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Expectativas e aflições nos números do Ibope/CNI
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Carlos Melo

Arte UOL

A distância daqui até a eleição ainda é longa; o país vive a ansiedade e a dispersão de uma Copa do Mundo, as coligações não estão definidas e, na volatilidade que tem sido comum na política brasileira, muita coisa pode acontecer. Portanto, neste momento da disputa, pesquisas eleitorais não são de modo algum jogo jogado. Seu poder preditivo ainda é reduzido. Contudo, seus números já indicam realidades a levar em conta.

Vamos aos números da pesquisa Ibope/CNI, divulgados na manhã desta véspera de São Pedro.

Algumas ponderações são óbvias: o ex-presidente Lula continua sendo a principal referência eleitoral e política do país; quando no jogo, atinge índices na ordem de um terço do eleitorado. Extraordinário, para quem está há quase três meses preso numa cela da Polícia Federal em Curitiba-PR. Nunca se sabe o que, afinal, pensa ou o que decidirá a Justiça nacional, mas, aos olhos de hoje, parece pouco provável que Lula seja candidato.

Dessa forma, quando colocado em seu lugar o petista Fernando Haddad, os sorrisos dos petistas de fecham: o ex-prefeito figura com apenas 2% das intenções de voto. Nota-se que a força eleitoral é de Lula, não do PT.

Sem o ex-presidente, Marina Silva, aparentemente, é a maior beneficiada, salta de 7% para 13%. Mas, talvez não seja bem assim: nesse cenário (sem Lula), o número de votos Brancos/Nulos/Não sabe/Não respondeu salta de 28% para 41%. Seriam então os “não votos” os mais nitidamente influenciados pela retirada do ex-presidente. A diferença (13%) seria correspondente à quantidade de eleitores que se manifestam em protesto à retirada de Lula do páreo? Pode ser.

E assim sendo, poderiam a propaganda eleitoral petista e o apelo de Lula, transferir esse contingente de eleitores, que não se definem por Marina, para Fernando Haddad, colocado como “o candidato de Lula”?

Somente o tempo dirá. Nas próximas abordagens, será necessário ficar de olhos atentos para eventuais movimentações de Branco/Nulo/Não sabe/Não respondeu. Eles podem conformar algum tipo de tendência, que seja de manutenção de um elevadíssimo grau de abstenções em mais esta eleição, uma vez que isto se deu recentemente na extraordinária eleição do estado do Tocantins; ou a transferência a algum candidato identificado como “sucessor de Lula”.

Outro aspecto da pesquisa é a irredutibilidade dos números de Jair Bolsonaro. O deputado parece ter-se consolidado num patamar de intenções de voto do qual não desce nem sobe. Algo entre 17% (Ibope) e 19% (Datafolha, 07/06/2018) seria seu piso e seu teto de votos? Também aí somente o tempo dirá.

E quanto a Geraldo Alckmin, o que dizer? O ex-governador, candidato do PSDB, resiste teimosamente encalhado em torno de 6% ou 7% dos votos. É cedo para dizer que este será mesmo do destino do tucano. Mas, é fato que esses números ressurgem num momento péssimo para Alckmin, uma vez que seus aliados duvidosos e inimigos íntimos voltam a especular com sua substituição por João Doria.

Nos próximos dias, os números do Ibope, que não haja dúvida, servirão para solapar ainda mais seu chão. Menos pelos números e mais pelo desespero e pela dinâmica da política do autodenomiando “Centro”, Alckmin será ainda mais constrangido. Um processo que poderia ser evitado, mas não será. Também aí o tempo dirá se o tucano resistirá ou não.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


“O meio campo é o lugar dos craques”
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Carlos Melo

''Futebol x Santos'', José Antonio da Silva.

Nestes dias de Copa do Mundo, dá uma preguiça danada de acompanhar os movimentos da política nacional. Vive-se no ritmo da Copa e na disritmia da Política; a mesmice de sempre com os atores de sempre. Um conflito muitas vezes sem sentido; esculhambações de adversários e tentativas de trapaça no interior dos partidos. Enquanto que nos gramados da Rússia há sempre uma emoção: a Espanha que não deslancha, desespero de Portugal, a surpresa belga; o drama argentino. O Prometeu Acorrentado brasileiro.

Indignados de plantão, no entanto, vociferam contra Copa e a Seleção Brasileira. Ainda há quem use expressões como “ópio do povo”; a amaldiçoam a CBF — que merece —, secam Neymar, reclamam dos “preferidos” de Tite. Mais ainda: detestam analogias futebolísticas aplicadas à política. Gente de mau humor. Alguém já disse que “todo militante é um chato”.

Mas, desde que o futebol no Brasil é jogado tem sido assim. Misturar alhos e bugalhos, separar o joio do trigo e ficar com o joio parece ser o verdadeiro esporte nacional.

A Seleção não é não a “pátria de chuteiras”. Foi expressão de ocasião do genial Nelson Rodrigues, mas não deveria ter sobrevivido a ele. Pois, não é bem assim. No Brasil, não há exatamente esse negócio de “pátria”. Dizia Sérgio Buarque que os brasileiros são “desterrados em sua própria terra”. Capiaus sonhando com a Europa. Também faz parte da cultura. Lembrou Eduardo Giannetti em seu “paradoxo do brasileiro” que o brasileiro é sempre o outro.

Todavia, é inegável que a emoção do futebol pulsa, arde e aproxima — no mundo todo, não é só aqui. Talvez, seja das poucas formas de comunicação que abraça enorme quantidade de seres, em todo território. Talvez seja dos poucos assuntos que nivela barões e destituídos de toda sorte. A bola no pé, no Brasil, é meritocracia. O resto é sorte e desigualdade.

Não, a cultura brasileira não é só o Selecionado Nacional. Mas, ele faz parte dela. Junto com a música — que rádios e TVs deixaram de tocar — compõe nossas credenciais para o mundo. Nossa estética nascida do caldeirão de miscigenação étnica e cultural. No campo, somos negros, índios e brancos. Pelé, Garrincha, Zico, Taffarel; Neymar, Rivaldo, Romário, Ronaldos.

Sim, há questões mais importantes que o futebol, sem dúvida. O cotidiano, a sacanagem comezinha que precisa ser afastada, os problemas de relacionamento social; o desacerto das instituições, a inoperância do Estado, a ineficácia da política. Contudo, não se resolverá isto tudo purgando os demônios errados. Qual o problema com o futebol?

Certo que não se deve transformar o “craque” em herói nacional. O craque, hoje muito mais raro que no passado —  pois o passado romantizava o talento natural ao mesmo tempo em que, hoje, a ciência do futebol, define a competitividade  — é apenas um sujeito de notória habilidade específica, que raramente tem algo a dizer fora das quatro linhas. E o nosso problema fundamental está mesmo fora das quatro linhas.

Ainda assim, qual atividade permite xingar, urrar, exigir a perfeição quanto o futebol? Que explosão de energia é gritar “GOOOOLLLL” a plenos pulmões. Que alegria — momentânea, sim — é ser campeão. Campeões mundiais numa modalidade que não nos ofende, como a tantas em que despontamos como tristes recordistas planetários. Tristes recordistas.

Então, ao futebol o que for do futebol; à política o que for de seu. O país vive seu péssimo momento, mas está longe de ser o pior lugar do mundo. Há gente elegante e sincera também por aqui, que não pretende a tudo transformar numa questão de disputa política. No longo prazo, estaremos todos vivos se não sucumbirmos ao curto. “Bola na trave não altera o placar (…) o meio campo é o lugar dos craques”.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ciro Gomes, demasiadamente humano
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Carlos Melo

Ricardo Borges/UOL

Se errar é humano, em Ciro Gomes o erro parece ser uma obsessão. Impressionante sua capacidade de sair do tom, de exceder-se. Há duas semanas, o candidato do PDT até que vinha bem. Granjeava apoios na esquerda, colocava-se como alternativa ao impasse do PT. Expandia- seu raio e tendia a ocupar o Centro, inclusive. Porém, a incontinência verbal, o encantamento de si mesmo, a picardia indevida e auto nociva comprometem-lhe o desempenho e o futuro. De lapsos em lapsos, de tempo e memória, alvejou os próprios pés.

Não precisa ir à campanhas passadas. Basta contabilizar os prejuízos do presente.

Dono de uma loquacidade que impressiona muita gente, em diversas interações com a mídia, o pré-candidato tem exagerado em números que ao invés de reforçar acabam por fragilizar seus argumentos. Isto se deu na sabatina realizada pelo UOL, no programa Roda Viva da TV Cultura, em vários espaços. Ciro desatou produzir números e dados que, na sequência foram contestados pelas agências de fact-checking— checagem de fatos, dados e informações (ver aqui).

A assessoria do PDT discordou dessas agências e reafirmou os dados espalhados por seu candidato. Dentro de uma postura considerada normal para a política nacional, não poderia fazer diferente. De qualquer modo, é um erro político básico emitir juízos e números que possam ser imediatamente contestados. Declarações cujo contraditório possa confundir o eleitorado, já bastante confuso e descrente da opinião e da palavra dos políticos.

Mesmo que pego numa “mentirinha banal”, numa bobagem qualquer, ser “desmentido” pega mal. Ainda que o sujeito acerte no mérito — e muitas vezes até parece estar certo na direção da crítica que emite —, o exagero compromete o sentido da mensagem, afeta a reputação e compromete a atenção com que será ouvido no futuro. O descomedimento, quando revelado, assume efeito reverso.

Há milênios, Aristóteles buscava as virtudes do político e apontava que entre as mais importantes estaria o que chamou de mediedade, o caminho do meio. O exemplo é simples. Faça o teste: ao perguntar qual o oposto de “covardia”, você colherá como resposta mais evidente como imediata: “coragem”. Mas, não; não é. O oposto de “covardia” é “temeridade”; “coragem” é o caminho do meio, a justa medida. E Ciro Gomes não raro confunde coragem com temeridade. Esta é a base de seus erros.

Ademais, tudo o que o país quer e precisa do próximo presidente da República é que seja crível, que tenha credibilidade. Com moderação, consiga reatar elos rompidos, estabelecer diálogos. A covardia fica aquém do necessário, a temeridade passa do ponto. Não é apenas Ciro Gomes. Como se diz, “a esperteza, quando é demais, come o esperto”. Dilma Rousseff e Temer Michel Temer foram deglutidos pelo desconhecimento da mediedade. Uma pecou pelo excesso; o outro, pela falta. A esperteza os sorveu no café da manhã.

Mas, o pedetista não ficou apenas nisto. Precipitadamente, imaginou ter-se consolidado  na esquerda. Iam mais ou menos avançadas suas relações com setores do PSB e do PCdoB, além de obter um nem tão bem velado apoio de alguns governadores do PT. Mas, a prematura confiança levou à despropositada ousadia. Ao indicar que iniciava conversas com o outro lado do espectro político, o Dem e o PP, atropelou o processo e fez uma equação de “noves fora, com soma zero”.

O vazamento desses contatos e o fantasma da possibilidade da aliança de Ciro com o Centrão alarmaram aliados de Geraldo Alckmin. A ampliação do leque de apoios de Ciro, com efeito, deixaria o tucano em maus lençóis. Encalhado em números rasteiros nas pesquisas, Alckmin precisa desesperadamente do apoio desses partidos, na tentativa de fechar a centro-direita e confinar Jair Bolsonaro à direita mais radical.

Revelar a aproximação com o Dem e o PP seria, sem dúvida, uma extraordinária estocada no adversário. Mas, isto só faria sentido se as favas à esquerda estivessem de fato contadas. E não estavam.

PSB e PCdoB, por pressão interna de setores ainda vinculados ao PT, tiveram que demonstrar indignação com o ecletismo político e com a envergadura do arco de alianças possíveis de Ciro Gomes. Reconhecendo a precipitação, Ciro recuou e fez, então, da emenda algo bem pior que o soneto. Reafirmou a preferência por PSB e PCdoB, que, nas suas palavras, “dariam a hegemonia moral ao governo”.

Melindrou-se com Dem e PP, que sentiram-se na pele do PMDB aliado do PT. Diziam os peemedebistas que, à portas fechadas, o PT admitia se casar, mas não aceitava “andar de mãos dadas no shopping”. O desprezo é um passivo político para os dois lados. Em qualquer relação de poder, mais que aliado, é preciso demonstrar estar ao lado, estar junto e embaralhado. Sim, é inevitável posar para fotografias nos jardins dos palácios e das mansões. Pegar na mão e beijar na boca.

Dado o alerta, por pressão de parte do empresariado, Dem e PP voltaram a conversar com Alckmin. Ao mesmo tempo, por pragmatismo, PSB e PCdoB tornaram a se abrir para a possibilidade ficar ao lado do PT. Embora alianças com Ciro não estejam descartadas, o fato é que as tratativas retrocederam. Com um único tiro, o velho Ciro Gomes parece ter acertado os dois pés.

Há, é claro, tempo para se corrigir. No Brasil deste ano, haverá o antes e o depois da Copa do Mundo. Mas, o sujeito precisa convencer a si e aos outros de que não é incorrigível. Difícil. Pois, nesta semana Ciro Gomes torceu o joelho noutro escorregão.

Ex-ministro e ex-governador, meteu-se em mais uma improdutiva escaramuça. Deixando-se  cair em provocação primária, abriu o flanco para um bate-boca desnecessário com a moçada do MBL. Sai chamuscado na fogueira do oportunismo e do politicamente correto. Antes de preconceito, suas afirmações buscavam à picardia e à desqualificação do adversário, mas passaram do ponto. Excederam a justa medida. Bobagens que, acumuladas, custam caro.

Se errar é humano, Ciro Gomes parece ser mais humano que os outros. Demasiado humano.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A agenda para o Brasil começa pela reconstrução da liderança política
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Carlos Melo

Medusa de Caravaggio, 1597. (Pintura em óleo sobre tela)

Entre gols, surpresas e empates, no ritmo da Copa do Mundo, atendo a duas jornalistas. Pretendem fazer uma matéria especial, para estes dias modorrentos em que a política é eclipsada pelo futebol. Dizem que conversarão com alguns “especialistas” a respeito de uma agenda para o Brasil. Muito bem. Mas, “especialistas”… Na política, quase tudo é, ao mesmo tempo, vulgar e especial. E, no fim, como no futebol, todo mundo se sente especialista em política. Agenda, ora, cada um terá a sua.

Bem, vamos em frente. “Qual a agenda da eleição; quais os cinco pontos fundamentais que a eleição tem que discutir?” Por exemplo: “Saúde, Educação, Segurança, Ajuste Fiscal, Reforma Tributária.?” Elas já vem com sua pauta. Como disse, todo mundo tem a sua. Escalação da Seleção também.

Eu que só sei que nada sei; que, como Riobaldo, apenas desconfio, boto-me a pensar em muita coisa, nessa condição, como dizem, de “especialista”. Os pontos que levantam são mais ou menos óbvios e estão na boca da mídia há muito tempo. Os três primeiros são políticas públicas clássicas, que entraram em colapso no Brasil — se é que algum dia não estiveram em colapso. Os dois últimos dizem respeito à bancarrota em que se transformou as contas públicas no Brasil. Fazem sentido.

Mas, por que esses tema não vingam se, além de evidentes, são necessários? Por que o Brasil tem essa enorme dificuldade de dar conta do básico, o que nem deveria estar em discussão? Haveria algo mais básico e primário, que antecede a esses temas, e que estaria fora do radar das jornalistas e dos “especialistas”?

Por mais emergencial, creio que essa pauta não é fundante nem estruturante da agenda do Brasil. Melhor dizendo, esses temas são fundamentais, mas exigem pré-requisitos que parecem desconsiderados. Não, não falarei da tal “reforma política a mãe de todas as reformas”, clichê que muita gente repete, atribuindo a frase a Ulysses Guimarães. Também a reforma política é tão básica e evidente que, do mesmo modo, valeria perguntar por que, afinal, não se efetiva.

O primeiro problema, penso, mora na crença que indica ser a economia o fator mais determinante da política, e não o contrário. Um certo economicismo, raciocínio mecânico que afeta igualmente a liberais e a marxistas: o primado da economia.

É verdade, a economia influencia as relações políticas; pode favorecer ou dificultar diálogos, pactos, disputas, conflitos. A luta pela sobrevivência ou pelo poder econômico é básica. Atribuem a Marx a frase “primeiro a barriga”. Faz sentido. A fome é visceral, a tentativa de saciá-la é um instinto. Mas, e quando a economia está em crise, o qual a sua causa? Acreditar em razões meramente econômicas parece ser de um simplismo atroz.

Esse erro tem sido insistentemente repetido. O exemplo mais recente pode ser justamente recolhido da experiência — mal sucedida — do governo Michel Temer.

Pois, muita gente do mercado financeiro e do governo acreditou que a pauta econômica seria facilmente implantada, por mera questão de “vontade política” — mais uma dessas sandices repetidas à esquerda e à direita. Do desejo e, claro, da inevitabilidade econômica, despertariam a racionalidade e, daí, brotariam as reformas.  Os investimentos jorrariam e, com isso, o crescimento econômico, o bem-estar social e a solução dos problemas políticos. A Lava Jato morta e enterrada; os políticos comprometidos, livre — com Supremo, com tudo… Só que não.

Não foi assim simplesmente porque não é assim. O que induz reformas é, antes de tudo, um sistema político funcional e bem sincronizado. E, para isto, liderança política é condição sem a qual não se conduz processos econômicos necessários, imprescindíveis.

Mas, liderança política é palavra gasta. Vulgariza-se o tema, confundido seus termos. Pensa-se liderança como a ação de um só; de um demiurgo, salvador da pátria, super-herói. E esses assim, que arrogam desse poder são pedra de pirita, ouro de tolo. E são vários os que assim se apresentam nessa quadra histórica porque passa o país.

A liderança moderna não é e nem pode ser unipessoal. É desafio de gerações. A liderança política moderna e democrática é resultado de sinergia, do acúmulo de ações e vontades coletivas, um processo social.

Escrevi inúmeras vezes sobre isto e reconheço ser repetitivo. Mas, tem sido como pregar no deserto. O Brasil, ou parte dele, continua pensando na agenda econômica, olhando para a política com indiferença olímpica, sem saber que a prioridade das prioridades do país será reconstruir a liderança política.

Decerto, isto não se fará do dia para noite, entre a eleição e o próximo governo e nem se completará ao longo de um só mandato. Mas, é preciso iniciar o processo; olhar nos olhos dessa medusa, sem medo de virar estátua de pedra.

O primeiro passo será conhecer o Estado-Maior de cada candidato; os homens e mulheres que o cercam; a capacidade política, a qualidade de articulação de cada membro desse conjunto. Sua disposição para agregar novas contribuições, abrir espaço para novas lideranças. Valores e princípios que os norteiam, além da sagacidade com que se movimentam no mundo dos leões e das raposas.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Futebol e política, desalentos distintos
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Carlos Melo

Na política nacional, não há Tite, nem Neymar. E nunca haverá. Imagem: Marcelo Machado de Melo / Fotoarena / Estadão Conteúdo

A política brasileira chega à Copa do Mundo procurando um Tite para chamar de seu. Tal qual a Seleção Brasileira, nos últimos tempos, o país passou por vergonhas e humilhações que deixaram marcas. Primeiro, a tragédia Dilma/Felipão; depois, o fundo do poço no período Temer/Dunga. A torcida se desagregou. Os dados da pesquisa Datafolha, que apontam que os eleitores preferem “ninguém” ao cardápio proposto para outubro; demonstram também desânimo com o campeonato mundial. São desdobramentos do mesmo drama.

O fato é que o sistema político tanto quanto o esquema da Confederação Brasileira de Futebol entraram quase que simultaneamente em colapso. A autoimagem do país foi afetada dentro e fora de campo. Hoje, não falta quem pretenda se mudar destas paragens; Lisboa, por exemplo, virou coqueluche dos brasileiros mais ou menos endinheirados.

No meio do caminho, acreditou-se que substituir o técnico bastava. Vieram Dunga e Temer — embora Temer prefira ser comparado a Tite, nos resultados apresentados e no sentimento reinante, na antipatia da torcida e do eleitorado, está mais identificado a Dunga.

O país ainda amarga o fundo do poço. Não bastou trocar o treinador, o sistema continuou a apresentar os mesmos defeitos, com pouquíssimas alterações que não justificariam o esforço do apelo ao tapetão do impeachment. A relação custo/benefício foi baixa, talvez negativa. Revelou-se que o buraco era muito mais fundo que a indesmentível responsabilidade do PT. O sistema está inteiramente comprometido.

***

A crise dizimou a liderança política ou ela já se liquidara com o decorrer dos anos e o prolongamento de velhas práticas? Provavelmente, os dois. Transitório ou não — somente a história o dirá —, o vazio se estabeleceu e isto se reflete no cardápio eleitoral insosso. Afeta autoimagem do brasileiro. A lembrança do mar de camisas amarelas da seleção, num cenário de patos infláveis e discursos moralistas, gera hoje certo constrangimento. .

Além disso, é necessário considerar que no mundo sem fronteiras da hiperconectividade e da alta tecnologia, nada parece mais deslocado da modernidade que um político médio nacional.  Ao mesmo tempo em que nada no Brasil parece mais integrado a esse ambiente que um jogador brasileiro em atividade na Europa, não importa o país. A política ficou velha.

Não admira que tanta gente afirme não ter candidato. Analistas das estatísticas eleitorais dirão que ainda é cedo para definição. E de fato é, só bem mais adiante a maioria do eleitorado se decidirá. Ainda assim, é evidente o desconforto.

Mais que de outras vezes, a eleição será “contra”. Não a favor de fulano ou de sicrano, mas contra beltrano, entendido como mal maior. O mal maior será o fantasma contando em proso nos próximos meses. Será ele que moverá o eleitor. O problema é que esse mal mora sempre do outro lado, sendo vários lados. A eleição se transforma na luta de todos contra todos.

Levará tempo para mudar. Um país não é um time de futebol. É bem mais difícil formar elencos; quase nunca os melhores estão à disposição. Desconsideram que o desastre coletivo os afeta. Tampouco, cabe treinar um país. O jogo da política se dá de imediato, online, just time,na vida real. Ademais, na política destes dias não há craques. Não há para quem tocar a bola. Não há Garrincha nem Romário que, sozinhos, possam resolver o campeonato.

O desalento com o futebol é muito mais simples que o desalento com a política. Já na primeira vitória, quem sabe no primeiro lance de ataque, ele se dissipará. Brasileiro não resiste a um jogo bem jogado. O país não se contém, gritará “GOL”. Na política, as coisa não são assim: a crise de confiança é mais perene e a história não tem a mesma capacidade de produzir líderes que o futebol tem em produzir craques. São ídolos feitos de barro diferente.

De modo que há que se conformar: a vida não é uma partida de futebol. Neste momento, ninguém no escrete político nacional possui a categoria de Marcelo, o poder de cobertura de Miranda, o senso de colocação de Marquinhos, a segurança de Casemiro, a versatilidade de Paulino, o fôlego de Coutinho. Na política brasileira, Jesus ainda não nasceu. E nem há Jesus que dê jeito. Não há Tite, nem há Neymar. O que se tem é tudo o que se tem. O que há para hoje. Não dá para abandonar o campo, nem se esconder na arquibancada.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.