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Blog do Carlos Melo

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Histórico

Presente e futuro da eleição

Carlos Melo

29/08/2018 23h47

Umberto Boccioni, 1882-1916, Régio da Calábria, Itália

A sorte não está lançada e a eleição está longe de ser definida. O Horário Eleitoral no Rádio e na TV, com sua campanha negativa ainda não começou; nem aquela torrente de escândalos – normais, previsíveis e que alteram o quadro – fez vítimas por enquanto. A eleição está em aberto. Mas, algumas observações sobre o momento podem ser assinaladas, assim como há conclusões básicas e preliminares em relação ao futuro que já podem ser especuladas.

Goste-se ou não de Lula, o fato é que o ex-presidente entende do riscado. Isolou Ciro Gomes e manteve seu nome na disputa. E, mesmo de seu distante domicílio de Curitiba, o petista manteve-se relevante nesse jogo. É certo que a Justiça, por fim, impugnará sua candidatura, mas Lula seguirá o centro e a expressão de uma inegável força política e eleitoral. Antes de tudo, deve-se admitir que o cabra é resiliente, não rompe facilmente.

Jair Bolsonaro tem demonstrado foco e disciplina militares. Não se perde em considerações de bom senso nem nas patrulhas do politicamente correto; fala para seu eleitor de modo a garantir a manutenção do vínculo. Suas aparições na TV chocam grande parte da audiência, ignorada pelo ex capitão que sabe jamais votará nele. O que lhe move é a parcela eleitoral que pode leva-lo ao segundo turno. E, no segundo turno, será uma briga de foice e rejeições; a rejeição a Bolsonaro contra a rejeição de seu eventual adversário.

Geraldo Alckmin é ainda a grande incógnita. Dono de uma máquina extraordinária e tendo a seu favor grande parte de formadores de opinião, o ex-governador já deveria ter decolado. Vê, no entanto, seu território invadido por Álvaro Dias, Marina Silva e, agora, até mesmo João Amoêdo, o candidato do Partido Novo, desconhecido da grande maioria da população.

Imagine-se o drama de seus marqueteiros: possuem o veículo — tempo de rádio e TV –, têm um mercado receptivo – mercado o financeiro e o eleitor a quem repugna extremismos –, mas não possuem um produto que saiba se vender. A participação do ex-governador na sabatina do Jornal Nacional, da Rede Globo, foi apenas mais uma oportunidade perdida, onde Alckmin, na defensiva, foi incapaz de dizer ao que veio. A próxima semana será crucial para o tucano.

No vácuo de Geraldo Alckmin, Marina Silva pode assumir o papel de Plano B do mercado e do empresariado, cujas expectativas depositadas no tucano parecem se frustrar. Na economia, Marina guarda muitas semelhanças com o PSDB: qual fundamental diferença haveria entre Pérsio Arida e André Lara Resende?. Posicionada ao centro, a ex senadora poderia expandir seu arco tanto para a centro direita, pelo evangelismo, quanto para a centro-esquerda, por meio do ambientalismo.

Ciro Gomes é um lutador. Perdeu as quedas-de-braço que não poderia perder: para Lula – o PSB e o PCdoB — e para Alckmin – os partidos do Centrão. Reconheceu o prejuízo, mas não a derrota. Insiste em convencer o eleitor que pode ser a alternativa e, hoje, a aparente pequena probabilidade de vitória tem-lhe feito bem. Está mais leve e bem-humorado, capaz de rir de si mesmo. Eleitoralmente, no entanto, neste momento significa pouco. Difícil imaginar como possa se reinventar.

Colocada a cena, vamos ao cenário: o processo já delineia vencidos e vencedores, sendo possível intuir quem sairá menor ou desaparecerá da esfera política, tanto quanto como quem terminará maior do que entrou, pavimentando o caminho para para 2022. Enfim, quem morre, quem sobrevive, quem vai além.

No primeiro grupo, seria desnecessário dizer, o grande perdedor é o presidente Temer. Ele e seu grupo – e alguns analistas – chegaram a sonhar até mesmo com a reeleição. No mínimo, imaginavam influenciar o processo. Tornaram-se, no entanto, almas penadas das quais todos querem distância. Quem, afinal, é o candidato do governo? Meirelles e Alckmin abrem mão.

Marina, Ciro, Alckmin e Meirelles, uma vez derrotados, estariam fora do cenário. Difícil imaginar a candidata da Rede, assim como Ciro Gomes, disputando outra eleição, pela quarta vez; o tucano pela terceira e Meirelles por uma segunda vez. Ou é agora ou não será. Já no dia seguinte à eleição serão parte da história.

No grupo dos vitoriosos já podem ser listados Jair Bolsonaro, Fernando Haddad e João Amoêdo. Bolsonaro sairá da eleição como o líder da direita brasileira. Pelo próximos anos, terá partido, bancada e eleitor, o que lhe garantirá no futuro o que lhe falta hoje: estrutura e tempo de TV. Igual raciocínio serve a João Amoêdo. Seu Partido Novo emergirá das urnas organizado e com um discurso – o liberalismo – em punho.

Não se sabe qual o alcance que um discurso desses poderá ter num país como o Brasil, mas o fato é que o Novo já deixou de ser uma start-up.

Fernando Haddad é outro que pode sair bem, se o PT, por fim, deixar. Independente de vencer ou não, seu nome será nacionalmente conhecido; pode tornar-se referência para esquerda remoçada no ideário – a esquerda radical terá como símbolo Guilherme Boulos. E assim sendo, poderá arejar o PT e, se não conseguir – o que é muito provável –, haverá espaço para buscar novos caminhos fora do petismo tradicional.

Também o ex-presidente Lula estaria nesse grupo, se fosse simples advinha-lo. Se a prisão não o deteve, o que dizer de uma derrota, nas condições em que se encontra? Parece pouco para riscá-lo do mapa. Sim, há a idade e o desgaste do material. Mas, seguindo a estratégia que traçou — o mártir, Mandela Latino –, para seu eleitor torna-se símbolo ainda mais forte do que o símbolo que já é. Lula sempre será um caso à parte.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.