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Definida a situação de Lula, a corrida será acirrada

Carlos Melo

01/09/2018 09h43

Imagem: Eddie Keogh/Reuters

Se a decisão foi ou não justa, ficará por conta do leitor decidir. Objetivamente, o sujeito teria que ser de outro planeta para crer que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva tivesse outro destino. O relatório do ministro Luís Roberto Barroso não surpreendeu, sendo coerente com a concepção de Justiça que tem externado. Foram seus valores e sua visão de política. Também a maioria de seus colegas de TSE esteve alinhada com a dinâmica do processo jurídico em torno do ex-presidente.

Aqui, não cabe discutir os símbolos, as lições e as ironias disto tudo: quem está preso, quem não está, quem está na fila, quem dela sempre escapará. A angústia sobre o presente e o futuro do Brasil é uma variável constante há alguns anos; dispensável ressaltá-la. O certo é que o acúmulo de erros e desacertos dos mais diversos personagens já levantou uma montanha, o edifício da incapacidade coletiva de se encontrar e se ajudar, no interior do labirinto. A realidade nunca é o que gostaríamos. Tampouco no futuro será.

Enfim, as samambaias do tribunal sabiam e diziam que o desfecho seria mais ou menos este. É o fim da fase "Plano A", que nunca foi concreto. É a hora e a vez do "Plano B".

O Partido dos Trabalhadores sai parcialmente frustrado porque pretendia levar a indefinição ao limite – ou, na visão de seus radicais, até passar dele, deslegitimando a eleição. Agora, já no segundo dia da campanha na TV, sabe-se que Lula não será candidato; seu nome não estará nas urnas. Sua participação na propaganda será limitada a 25% do tempo total, como determina a lei em relação aos não candidatos.

Pode ser menos que o desejado, mas é muito melhor que nada até porque pode ser bem mais do que terão vários de seus adversários. O jogo, portanto, não acabou.

Claro que o PT recorrerá ao Supremo Tribunal Federal e transformará sua luta vã pela inclusão de Lula numa bandeira simbólica, da qual desfraldará o rosto de seu mártir político e eleitoral. Ao mesmo tempo, à parte dessa encenação performática, caberá ao partido, se possível sem delongas, assumir uma postura mais prática, do ponto de vista da disputa que pretende travar.

Fernando Haddad será o candidato oficial, queiram ou não desafetos seus no interior do complicado emaranhado de interesses petistas. Pelo menos até aqui, há motivos para acreditar que mesmo com participação parcial na TV, Lula – 39% das intenções de voto, de acordo com o Datafolha — consiga transferir parte de seu patrimônio eleitoral ao ex vice, agora titular.

Ademais, revela a última pesquisa Datafolha que o PT é o partido da preferência de 24% dos entrevistados. É plausível que tanto o apoio de Lula quanto a identificação partidária se não se efetivem integralmente, mas, ainda assim, confirmados em patamares medianos, darão um bom arranque ao novo candidato, tornando-o competitivo por capaz de carregar algo entre 15% e 20% das intenções de votos.

É pouco provável que alguma das candidaturas postas dispare, se elevando muito acima do patamar de 20% dos votos, Haddad entraria no "bolo" do pelotão dianteiro das pesquisas, hoje ocupado por Jair Bolsonaro e Marina Silva, ao qual poderá se somar Geraldo Alckmin, caso a TV tenha 100% do êxito que seus aliados ainda apostam colher – que, na verdade, mais torcem do que acreditam.

Ninguém possui bola de cristal para antever o futuro da eleição – de qualquer uma, sobretudo desta. Mas na reta final para do primeiro turno, pode-se estabelecer um cenário em que a diferença do primeiro colocado para o segundo seja muito pequena, sendo ainda menor a desigualdade entre o segundo o terceiro classificados. Uma corrida emocionante, cujas vantagens na chegada sejam por focinhos.

Em tudo a disputa de 2018 é diferente de 1989; o mundo é outro e os sonhos dos brasileiros, àquela época, eram mais otimistas e inocentes. Mas, como ilustração cabe recordar os números do primeiro turno, quando Fernando Collor disparou e cruzou o disco final com 32,47% dos votos. Obtendo Lula a segunda posição, com direito ao segundo turno, com 16,69%. Em seus calcanhares, Leonel Brizola terminou a disputa com 16,04%.

Neste ano, parece muito pouco provável que algum dos candidatos terminem com desempenho assemelhado ao de Collor; Lula, o único que poderia, está fora, afinal. O mais provável é a multiplicidade de disputas acirradas. Desse modo, aos postulantes, todos eles, cabe colocar já os pés na pista, recolhendo cada grão de poeira que possa significar vantagem. Há muito (muito) tempo ouvi o ex-presidente, em campanha, apressar um de seus correligionários dizendo: "vamos logo, companheiro, pegar esse 'votinho' que está na rua". Será assim, daqui até o final.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.