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Números do Ibope esfriam entusiasmo do PT

Carlos Melo

2002-10-20T18:00:07

02/10/2018 00h07

Homem com Violino – Lasar Segal

Pesquisa Ibope divulgada na noite desta segunda-feira caiu como tonéis de água congelada sobre o entusiasmo do PT. Jair Bolsonaro, à parte da avalanche de críticas que recebeu, cresceu e foi a 31% das intenções de voto. Fernando Haddad, não obstante o desgaste de seu adversário, estacionou nos 21%. Para além da frieza dos números, virão, agora, torrentes de explicações, "veja bens" e "considerandos". Juízos de valor, torcidas e chutes; muita incerteza, pouca segurança.

O fato é que Bolsonaro cresceu e Haddad não. Buscar explicações — podendo acertar e errar — é parte da dor e da delícia do ofício. Vamos, então, ao risco:

A primeira possibilidade que vem à mente consiste na hipótese de que o antipetismo tenha definitivamente se alinhado em torno de Jair Bolsonaro. Mesmo no hospital, nenhum outro candidato soube capitalizar tão bem esse símbolo, hoje a maior força política do Brasil — ao lado do antibolsonarismo. O certo é que nenhum outro passou maior energia e radicalidade no propósito de derrotar o PT.

Nesse sentido, o candidato do PSL ganhou propaganda gratuita, sobretudo, da campanha de Geraldo Alckmin. Na vã esperança de arrancar votos do ex-capitão, tucano destinou seu enorme tempo de TV para informar ao eleitor que Bolsonaro, na dianteira, enfrentaria o PT e que teria dificuldades para vencê-lo.

Mensagem captada: Bolsonaro precisaria de reforço. Um alinhamento ágil do antipetismo, que não vê em Alckmin energia para encarar o PT, pode desse modo ter-se dado em favor do candidato do PSL.

Além disso, como demonstrou pesquisa dos professores Márcio Moretto e Pablo Ortellado, as manifestações ocorridas no sábado, a se basear seção edição paulistana, são, no final das contas, expressões da elite de esquerda. Pelo menos por enquanto, a crítica de gênero ao deputado não chegou às mais pobres e desengajadas, tendo Bolsonaro, inclusive, crescido 6% entre o eleitorado feminino.

Mas, é claro que os erros e as limitações de Fernando Haddad colaboraram para o resultado demonstrado pelo Ibope. Chama atenção que na semana que passou tanto a presidente do PT quanto o ex-ministro José Dirceu tenham se manifestado de modo contundente e nem por isso Haddad tenha avançado.

Ela, retomando a polêmica, que antes Haddad dera por superada, a respeito do indulto de Lula. Ele, Dirceu, com declarações despropositadas de que o PT mais que ganhar a eleição tomaria o poder. Manifestações que não trouxeram um único voto ao candidato, pelo contrário, trouxeram necessidade de dar explicações, o que, num eleição, implica desgaste.

Esse episódio, talvez, indique que Haddad tenha chegado ao limite do eleitorado de esquerda petista e do "lulismo sem Lula". Esquerda com a qual ocupa seu tempo em atividades para convertidos que, de um modo ou de outro, votarão nele.

Nos debates havidos na semana que passou, o desempenho de Haddad foi sofrível. É certo que, na ausência de Bolsonaro, o petista tenha virado alvo de todos os candidatos. Mas, sua capacidade de reação foi limitadíssima. É compreensível que esgueire-se do enfrentamento direto com Ciro, Marina e até Geraldo Alckmin, em busca de apoios e votos no segundo turno.

Ainda assim, a imagem que passou foi de imobilismo. Obviamente, pouco para quem pretende ser presidente da República.

O fato é que Haddad pode ter piso alto e teto baixo, um pé-direito que faz o candidato curvar-se. Ser apenas o candidato de Lula o coloca no segundo turno, mas parece claro que não bastará. Sem ampliar diálogo para o centro, verá Bolsonaro, a partir da direita, confiná-lo á esquerda.

Além disso, há eleitores com carradas de razão para não votar em Bolsonaro, mas que não enxergam um único motivo, além de deter o ex-militar, para eleger Haddad. Eleitores ressentidos com fatos e práticas que envolveram o PT e com que o PT se envolveu nos últimos anos — o que deve ser aguçado com a divulgação de parte da delação de Antônio Palocci, que, coincidentemente, Sérgio Moro liberou a uma semana da eleição.

Sem algum tipo de mea-culpa, o PT não se reconciliará com esse eleitor. Esse eleitor e o eleitor de Centro, assustados, sim, com Bolsonaro, têm igualmente restrições ao PT. E enxergam não como a democracia seria salva a partir dos petistas irredutíveis em seus erros. Embora o comando da campanha de Haddad pareça resistir ao óbvio, o fato é que o eleitor que descarta Bolsonaro não se aproximará do PT por mera gravidade.

Mais que o lulismo e o petismo, Haddad precisaria expressar a Política, o que não tem feito. A fase de "Bolsonaro é problema de Alckmin" passou. Errar no timing é o maior erro de um político.

Na reta final do primeiro turno, esse eleitor ainda teria Ciro Gomes como opção, ainda que, aparentemente, o cenário tenha se cristalizado. O candidato do PDT, a propósito, percebeu isso e não à toa vem instigando Fernando Haddad e o PT debate a debate. No segundo turno, o não voto, o voto nulo e a abstenção, além da rejeição não bolsonarista ao PT, poderão favorecer o ex-capitão, que, antes mesmo de vencer a eleição assistirá de camarote Fernando Haddad perde-la.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.