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Ciro Gomes, demasiadamente humano

Carlos Melo

21/06/2018 11h09

Ricardo Borges/UOL

Se errar é humano, em Ciro Gomes o erro parece ser uma obsessão. Impressionante sua capacidade de sair do tom, de exceder-se. Há duas semanas, o candidato do PDT até que vinha bem. Granjeava apoios na esquerda, colocava-se como alternativa ao impasse do PT. Expandia- seu raio e tendia a ocupar o Centro, inclusive. Porém, a incontinência verbal, o encantamento de si mesmo, a picardia indevida e auto nociva comprometem-lhe o desempenho e o futuro. De lapsos em lapsos, de tempo e memória, alvejou os próprios pés.

Não precisa ir à campanhas passadas. Basta contabilizar os prejuízos do presente.

Dono de uma loquacidade que impressiona muita gente, em diversas interações com a mídia, o pré-candidato tem exagerado em números que ao invés de reforçar acabam por fragilizar seus argumentos. Isto se deu na sabatina realizada pelo UOL, no programa Roda Viva da TV Cultura, em vários espaços. Ciro desatou produzir números e dados que, na sequência foram contestados pelas agências de fact-checking— checagem de fatos, dados e informações (ver aqui).

A assessoria do PDT discordou dessas agências e reafirmou os dados espalhados por seu candidato. Dentro de uma postura considerada normal para a política nacional, não poderia fazer diferente. De qualquer modo, é um erro político básico emitir juízos e números que possam ser imediatamente contestados. Declarações cujo contraditório possa confundir o eleitorado, já bastante confuso e descrente da opinião e da palavra dos políticos.

Mesmo que pego numa "mentirinha banal", numa bobagem qualquer, ser "desmentido" pega mal. Ainda que o sujeito acerte no mérito — e muitas vezes até parece estar certo na direção da crítica que emite —, o exagero compromete o sentido da mensagem, afeta a reputação e compromete a atenção com que será ouvido no futuro. O descomedimento, quando revelado, assume efeito reverso.

Há milênios, Aristóteles buscava as virtudes do político e apontava que entre as mais importantes estaria o que chamou de mediedade, o caminho do meio. O exemplo é simples. Faça o teste: ao perguntar qual o oposto de "covardia", você colherá como resposta mais evidente como imediata: "coragem". Mas, não; não é. O oposto de "covardia" é "temeridade"; "coragem" é o caminho do meio, a justa medida. E Ciro Gomes não raro confunde coragem com temeridade. Esta é a base de seus erros.

Ademais, tudo o que o país quer e precisa do próximo presidente da República é que seja crível, que tenha credibilidade. Com moderação, consiga reatar elos rompidos, estabelecer diálogos. A covardia fica aquém do necessário, a temeridade passa do ponto. Não é apenas Ciro Gomes. Como se diz, "a esperteza, quando é demais, come o esperto". Dilma Rousseff e Temer Michel Temer foram deglutidos pelo desconhecimento da mediedade. Uma pecou pelo excesso; o outro, pela falta. A esperteza os sorveu no café da manhã.

Mas, o pedetista não ficou apenas nisto. Precipitadamente, imaginou ter-se consolidado  na esquerda. Iam mais ou menos avançadas suas relações com setores do PSB e do PCdoB, além de obter um nem tão bem velado apoio de alguns governadores do PT. Mas, a prematura confiança levou à despropositada ousadia. Ao indicar que iniciava conversas com o outro lado do espectro político, o Dem e o PP, atropelou o processo e fez uma equação de "noves fora, com soma zero".

O vazamento desses contatos e o fantasma da possibilidade da aliança de Ciro com o Centrão alarmaram aliados de Geraldo Alckmin. A ampliação do leque de apoios de Ciro, com efeito, deixaria o tucano em maus lençóis. Encalhado em números rasteiros nas pesquisas, Alckmin precisa desesperadamente do apoio desses partidos, na tentativa de fechar a centro-direita e confinar Jair Bolsonaro à direita mais radical.

Revelar a aproximação com o Dem e o PP seria, sem dúvida, uma extraordinária estocada no adversário. Mas, isto só faria sentido se as favas à esquerda estivessem de fato contadas. E não estavam.

PSB e PCdoB, por pressão interna de setores ainda vinculados ao PT, tiveram que demonstrar indignação com o ecletismo político e com a envergadura do arco de alianças possíveis de Ciro Gomes. Reconhecendo a precipitação, Ciro recuou e fez, então, da emenda algo bem pior que o soneto. Reafirmou a preferência por PSB e PCdoB, que, nas suas palavras, "dariam a hegemonia moral ao governo".

Melindrou-se com Dem e PP, que sentiram-se na pele do PMDB aliado do PT. Diziam os peemedebistas que, à portas fechadas, o PT admitia se casar, mas não aceitava "andar de mãos dadas no shopping". O desprezo é um passivo político para os dois lados. Em qualquer relação de poder, mais que aliado, é preciso demonstrar estar ao lado, estar junto e embaralhado. Sim, é inevitável posar para fotografias nos jardins dos palácios e das mansões. Pegar na mão e beijar na boca.

Dado o alerta, por pressão de parte do empresariado, Dem e PP voltaram a conversar com Alckmin. Ao mesmo tempo, por pragmatismo, PSB e PCdoB tornaram a se abrir para a possibilidade ficar ao lado do PT. Embora alianças com Ciro não estejam descartadas, o fato é que as tratativas retrocederam. Com um único tiro, o velho Ciro Gomes parece ter acertado os dois pés.

Há, é claro, tempo para se corrigir. No Brasil deste ano, haverá o antes e o depois da Copa do Mundo. Mas, o sujeito precisa convencer a si e aos outros de que não é incorrigível. Difícil. Pois, nesta semana Ciro Gomes torceu o joelho noutro escorregão.

Ex-ministro e ex-governador, meteu-se em mais uma improdutiva escaramuça. Deixando-se  cair em provocação primária, abriu o flanco para um bate-boca desnecessário com a moçada do MBL. Sai chamuscado na fogueira do oportunismo e do politicamente correto. Antes de preconceito, suas afirmações buscavam à picardia e à desqualificação do adversário, mas passaram do ponto. Excederam a justa medida. Bobagens que, acumuladas, custam caro.

Se errar é humano, Ciro Gomes parece ser mais humano que os outros. Demasiado humano.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.