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Blog do Carlos Melo

A coragem e o direito de dizer "não"

Carlos Melo

19/03/2018 23h21

Marielle Franco: Reprodução Facebook

Difícil acrescentar algo sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomes.  O silêncio é o mais eloquente dos pêsames. Tudo parece ter sido dito — do sensato ao estúpido. Não se trata da morte de mais duas pessoas como as tantas que ocorrem cotidianamente no Rio de Janeiro e no Brasil. Não morreram por estar no lugar errado, na hora errada, como as vítimas de latrocínio. A morte não passou ao acaso; ela foi ao encalço da vereadora e abraçou também o motorista.

Cedo para dizer exatamente quem puxou os gatilhos das armas que dispararam projetis de 9 milímetros, com técnica e frieza profissionais. O mais óbvio seria dizer que foram os incomodados com a ação da parlamentar do PSOL. Ok, mas quem exatamente? Polícia, milícias, o tráfico? Faltam elementos.

O certo é que o crime não se deu como uma retaliação à intervenção federal, no estado do Rio de Janeiro — como certo oportunismo governista quis fazer crer. Igualmente precipitado é afirmar que Marielle morreu por ser mulher, negra e da Maré. Esta foi sua condição de vida, mas não foi isto que condicionou sua morte. O que provocou sua morte, o mais provável, foi mesmo a coragem que possuía para dizer não.

Marielle disse não à omissão e com isso se notabilizou dizendo não ao anonimato tão normal de gente, como ela, mulher, negra e das marés de todos os cantos deste país mestiço, pobre e feminino. Ela disse não à sua condição, não se sujeitando a ser apenas mais uma mulher, negra e da Maré. Ela disse não à lógica que considera essa exclusão algo tão normal quanto as marés dos oceanos.

Ela disse não a quem acredita que lugar de mulher, negra e da Maré seja enfiada na favela, criando uma penca de filhos, esperando marido ou a morte na fatalidade da miséria, da doença ou da bala perdida. Ela disse não ao analfabetismo ou ao alfabetismo funcional, de saber escrever o nome; anotar recados, ler listas de compras, deixada pela patroa. Ela disse não a isso e isto a fez muito mais do que estava previsto.

Ela estudou história, fez mestrado em Administração Pública, disse não à opinião de que nada pode ser feito, de que nada deve ser feito, de que nada resta a fazer. Resistiu ao derrotismo e à resignação. Filiou-se a um partido pequeno, não pegou carona em grandes estruturas, não vendeu a popularidade pretensa de ser mulher, negra e da Maré. Escolheu o caminho mais difícil. Não lavou as mãos.

Sua morte física e a tentativa de outras mortes morais a que foi vítima deixaram o recado: "não se deve dizer não". Não diga "não ao não". É proibido exigir. Mas, sem saber, miraram a militante incômoda e acertaram o símbolo.

Chegou-se ao ponto de não mais poder denunciar abusos policiais, abusos morais, abusos de absurdos imemoriais? Marielle disse não a isto. Recusou-se a consentir, sem chorar; e parir, e criar, e sustentar, e não reclamar do assédio de estupros vários, não apenas físicos, numa desigualdade indigna que se sente na pele quanto mais escura a pele seja.

Marielle poderia ser homem, branco e do Leblon e ainda assim seria caçada, morta, pois sua morte não se deu pela condição, mas pela contestação de uma sujeição ancestral. Mesmo homem branco e do Leblon, depois de morto, seria perseguido por esse tipo de algoz de ideias que há por aí, hoje tão normal por aqui. Poderia chamar-se Rubens Paiva, Edson Luís, Chico Mendes, Vladmir Herzog, Zuzu Angel. Homônima de todos estes, chamou-se Marielle.

O problema com Marielle é que ela se fez MULHER, se fez NEGRA e da MARÉ. E ostenta isto com orgulho. O problema é que se fez ELA. Seu assassinato foi a tentativa de matar o direito de dizer não que todos temos, mas no mais de vezes renegamos. Foi por isso que milhares tomaram às ruas. Não apenas pelo lamentável da morte de Marielle e Anderson, mas para que esse direito e essa coragem não morram.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.