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Blog do Carlos Melo

Datafolha: pulso do momento, nada definido

Carlos Melo

31/01/2018 08h57

Datafolha 31.jan – rejeição: Editoria de Arte/Folhapress

A pesquisa Datafolha, publicada hoje, é importante instrumento para medir o pulso do momento em que a poeira da condenação do ex-presidente Lula ainda não desceu ao chão. Demonstra que o eleitor do petista permanece rijo na disposição de sufragar seu nome em outubro. Mas, tudo pode e tende a mudar. Os números indicam sentimentos presentes, "se a eleição fosse hoje". Todavia, o fato mais óbvio de todas as obviedades é que a eleição não será hoje.

Natural, as respostas ainda são emocionais. Mas, é claro que isto fará o PT insistir em sua disposição inicial de ir com Lula até o fim — mesmo sem saber qual será ao certo esse fim. Nota-se também que, se a eleição fosse hoje, na ausência de Lula, um substituto do PT não receberia seu patrimônio, o que reforça o discurso da turma que defende, imprevidentemente, que a legenda não deva se preocupar com um "Plano B". Faz parte.

Nesse campo à esquerda, onde, em que pese o discurso petista de manutenção de Lula, há que se ponderar a inevitabilidade de sua impugnação. Nesse sentido, a pesquisa esboça a tendência de que Ciro Gomes e Marina Silva possam herdar os eleitores lulistas. Também aí não há novidades: os substitutos de Lula no PT ainda são incertos, desconhecidos nacionalmente. Enquanto Marina e Ciro, candidatos em outras eleições, já têm os nomes fixados na memória do eleitor. Mas, também nada deve permanecer exatamente assim.

Outro ponto é a resiliência de Jair Bolsonaro, o que também não surpreende. O deputado, faz algum tempo, deixou de ser apenas o anti Lula. O Capitão do Exército vai se consolidando como nome da linha dura, da contestação reacionária ao sistema. O fato é que a direita com esse feitio parece ter-se fixado, sim, novamente, no Brasil.

O apoio que seu candidato recebe, ao que parece, não é mais circunstancial. Bolsonaro já possui seguidores e uma militância, tão fundamentalista quanto a do PT, que tende a seguir com ele. Será, possivelmente, um candidato forte, de primeiro turno.

O sinal interessante da pesquisa é que Bolsonaro não conseguiu beliscar parcela consistente do voto que iria para Lula, entre os mais pobres e de menor escolaridade. Esse era o maior risco para aqueles que o rejeitam e o maior sonho daqueles que o apoiam. É cedo para dizer, mas é possível que o deputado tenha chegado ou esteja próximo ao teto.

Torna-se um jogador importante, mas com possibilidades aparentemente reduzidas de levar a taça para casa. Chega a um terço dos votos, nas simulações de segundo turno. Mas, essas simulações não consideram, no segundo turno, um Bolsonaro capaz de unificar uma enorme frente contra si.

A pesquisa, talvez, pese mesmo para Geraldo Alckmin. Não porque não seja igualmente cedo para afirmar que o governador paulista não tenha chances. Como qualquer outro, Alckmin pode crescer a depender da dinâmica da política a tantos meses da eleição que, nesse ambiente volátil, parecerá uma eternidade. Mas, principalmente por conta das disputas no próprio campo do tucano.

Seja no autodenominado "centro democrático", seja no interior do PSDB, Alckmin possui adversários ávidos por desqualificá-lo a modo de ocupar sua vaga. Praticamente estacionado nas pesquisas, num período em que apareceu bastante — ocupou o centro da cena por ocasião da convenção do PSDB que o fez presidente do partido —, o governador será alvo de todo tipo de pretexto para contestá-lo.

Não esqueçamos as pretensões de Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e mesmo as de João Doria, que anda com um olho no peixe outro no gato. Alckmin só cresce na ausência de Marina Silva — que, é claro, disputará a eleição — e fica, ali, empatado com Luciano Huck que, formalmente, nem candidato é.

O governador vem trabalhando bem nos bastidores, organizando uma consistente coligação que lhe dará tempo de TV. O problema será aplacar a ansiedade do eleitor de centro, a especulação do mercado financeiro, assim como a voracidade de seus pares. Seu problema é precisar de tempo, num momento em que a desconfiança e o medo não lhe dão muito tempo.

Aliás, pela fragmentação e pela, até aqui, pouca expressão dos candidatos do autodenominado "centro democrático" — que na verdade é uma mixórdia de personagens, grupos, partidos, posturas, índoles e pretensões — a pressão por Luciano Huck ou outro outsider qualquer permanecerá elevada. Esse campo está em aberto e indefinido, até mais do que na esquerda, órfã de Lula.

Enfim, o Datafolha serve para medir o pulso após o tombo de Lula. Mostra as primeiras respostas dos eleitores, ainda pouco ligados na eleição. Tira a tal foto do momento, sem conseguir prever o filma. Serve para as articulações e disputadas de bastidores, serve para muita especulação. Serve para quase tudo, menos para dizer quem será o próximo presidente da República.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.