Blog do Carlos Melo

Qual será a “polaridade” de 2018?

Carlos Melo

Les Amants, de Rene Magritte (Óleo sobre tela, 1928)

A polarização eleitoral é questão sempre repetida, quando se vislumbra as perspectivas de 2018. Diante das pesquisas, dá-se a leitura óbvia de um cenário de barbárie, com a radicalização da disputa: o conflito ''esquerda'' e ''direita'' se aguçaria na tensão ''Lula versus Bolsonaro''. Claro que não pode ser descartado. Mas, a precipitação leva à aflição quase histérica em busca do tal ''centro democrático'', como alternativa virtuosa para o embate.  Contudo, também aí pode haver simplismo, interesse e má fé. O momento requer olhar fora da caixa, pesar outras possibilidades.

Nos últimos anos, desenvolveu-se o estigma do ''lulismo'' e a surgimento de seu antagonista, o ''anti-Lula''. Por motivos óbvios, é natural que o ex-presidente seja um dos polos políticos, gerando também quem pretenda pegar carona em sua rejeição. Desde o impeachment, tentativas de forjar o ''anti Lula'' têm sido frustradas. Normal.

Mas, o surgimento de Jair Bolsonaro é anterior a isso, não sendo apenas um ''anti-Lula''. Embora seja um de seus antagonistas, por excelência — assim como de muita gente —, o parlamentar-capitão desenvolveu identidade própria, é um duro (hard) à direita, e expressa mais que isso: há nele uma concepção de Estado e Sociedade — talvez pouco sofisticada, mas há — que precede o ocaso do petismo e, gostemos ou não, deve ultrapassa-lo como tendência histórica.

Bolsonaro, no entanto, não é o ponto; a questão é o atilulismo como estratégia eleitoral. Antes de tudo, é conveniente considerar que, para que emerja um ''anti-Lula'', será necessário que haja, de fato, um Lula ou congênere capaz de representa-lo à altura de sua penetração política.

E nesse sentido, nem a mais arraigada a fé petista é capaz de responder se de fato Lula será candidato; sequer se estará em liberdade. Há indícios fortes para se suspeitar que não. E, não sendo, conseguirá o ex-presidente parir, com sucesso, um ''sucessor'' eleitoralmente competitivo? Difícil afirmar. Mas, se essa polarização pode ir para o espaço, ela não deveria virar fixação.

Ora, mesmo assim, ela interessa a setores chamados de ''centro'', pois a ideia da precoce polarização ''esquerda'' versus ''direita'' constrói-se o campo da ''alternativa'', não por projeto, mas por ''rejeição'' antecipada a Lula e a Bolsonaro. Sim, a dupla, realmente, pode concorrer e pagar ponta e placê no turfe eleitoral, mas despertar desde já seu fantasma também traz lá vantagens para quem está de fora e quer entrar na corrida. Não há melhor elemento de formação de crença do que o medo.

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Chega-se, então, ao segundo ponto: os ''polos'' de 2018 podem perfeitamente ser outros.

Não seria de estarrecer se ao fim e ao cabo 2018 revelar uma divisão eleitoral mais profunda em torno do tema da corrupção e do vínculo (ou não) dos políticos com o sistema. Sendo assim, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Aécio Neves — PT, PMDB e PSDB —  et caterva, ironia das ironias, estariam no mesmo polo político e não em lados opostos do ringue.

O jogo fica aberto e um amplo leque de personagens entra em campo — além de Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes, João Amoedo e Álvaro Dias, por exemplo —, em prejuízo de nomes diretamente envolvidos com revelações da Operação Lava Jato ou contaminados por identificação: o ungido por Lula-PT, o candidato de uma frente PMDB-PFL (com apoio do Planalto) ou um tucano que não saiba ou não consiga se desvencilhar de Aécio Neves e Michel Temer (Geraldo Alckmin, por exemplo).

Outra possibilidade, ainda mais radical, pode ser a polaridade ''continuidade versus disrupção''. Trazendo, assim, outsiders que ganhem relevo em detrimento de personagens desde sempre identificados com a política e o sistema político que degringolou — sendo todos parte ''disto tudo que está aí'', como poderá dizer, com rancor, a voz das ruas.

Do eleitor mediano, descontente e crítico, emergiria, então, um candidato capaz de prometer o descarte do velho e a construção do ''novo''. Falsos ou verdadeiros profetas, não vem ao caso, o fato é que, nesse contexto, nomes como os de Joaquim Barbosa e Luciano Huck não poderiam — e não podem — ser descartados. Ansiedade de lado, há, desse modo, pelo menos três possibilidades de ''polarização''. Por que pensar apenas em uma?

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A pouco menos de um ano da eleição e numa conjuntura extraordinária, a incerteza articula uma parcela do autodenominado ''centro democrático'', que busca o caminho que melhor lhe convém. Ergue-se contra ao chamado ''lulopetismo'', dando-lhe exclusividade de foco como quem quer ocultar as próprias sombras. Faz sentido; é engenhoso.

O fato é Lula e seus companheiros são, na verdade, convenientes ao Planalto e a seus aliados — que hoje abriga o ''Centrão'' e parte do PSDB.

Como imagem, o ''lulopetismo'' serve muito bem como espantalho; boi-de-piranha para que a manada atravesse o rio; melhor lutar contra hipotéticos moinhos de vento do que contra o dragão de verdade: a sanha moralizadora de justiceiros e a ação da Justiça. Discursos já na praça, como o programa de TV do PMDB ou manifestações de setores do PSDB revelam mais pelo que ocultam nas narrativas que produzem.

É claro que o ex-presidente e o PT têm muito mais que dívidas no cartório; eticamente, erraram como o diabo e são responsáveis por grande parte da ruína do sistema político nacional, além do desastre econômico. Mas, não agiram sozinhos: foram apoiados, em coalizão inclusive. E, no que diz respeito à corrupção, tiveram genéricos com o mesmo princípio ativo também na oposição.

É evidente que há a questão econômica e uma agenda tão polêmica quanto necessária pela frente, que precisará ser enfrentada neste e nos próximos governos. Ela pode e deve compor o debate eleitoral, mas limitar-se a ela é fugir de outras questões tanto mais importantes. Pela economia, mais uma vez, tenta-se querer eclipsar questões políticas, como a Lua que finge desconhecer, afinal, quem é de fato o astro rei. É mesmo um jogo de ilusão; o desafio é perceber o truque.

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Mais uma vez, a análise sobre 2018 não pode cair em armadilhas ou narrativas contadas pelos atores políticos e seus interesses. É necessário qualificar o que tem sido chamado ''centro democrático'', pois dessa cartola têm surgido coelhos das mais variadas cores e espécies.

Em primeiro lugar, o adjetivo ''democrático'' mistifica e confunde – disse Sérgio Buarque que ''no Brasil, a democracia sempre foi um lamentável mal-entendido''; com efeito, trata-se de uma palavra gasta. Justifica-se por não ser autoritário; ou é necessário que seja também republicano, não clientelista e não patrimonialista? Democracia exige impessoalidade e transparência.

Por conta disto, o ''Centro Democrático'', no Brasil, é algo de entendimento complexo; às vezes paradoxal. A afirmação pode soar absurda do ponto de vista geométrico, mas é preciso dizer que, em política, o ''centro'' nunca é um só. São muitos, cabe um universo em seu intervalo.

Fragmentado que está por diferenças concepções e práticas em relação à coisa pública (res pública), ainda mais difícil é unifica-lo num mesmo condomínio político-eleitoral, como buscam fazer correntes do PMDB e do PSDB. Hoje são as diferenças e distâncias entre atores desse campo são mais marcantes que as identidades que eventualmente possam ter em relação a reformas ou criticas ao lulopetismo.

Modelos tendem à simplificação, mas não podem ser simplórios: há hoje pelo menos dois ''Centros'' na política brasileira. Um é hegemonizado pelo PMDB e, eminentemente fisiológico, contém o ''Centrão''; arvora-se de toda e qualquer reforma econômica e está encrencado até os dentes com a Operação Lava Jato.

O outro ''Centro'' incorpora as mesmas reformas, é crítico aos governos do PT, mas guarda críticas também ao fisiologismo peemedebista, postulando práticas republicanas. Quer-se limpo nas questões éticas e distância com as mazelas reveladas pela Lava Jato. São questões de fundo.

Dois mundos e duas lógicas. Grosso modo, o primeiro poderia ser chamado ''Centro Fisiológico'' e o segundo ''Centro Republicano'' — e também aqui haveria generalização e simplismo, ainda que, de maior alcance, separe joio e trigo.

Enfim, conflitos ideológicos tradicionais à parte, talvez esta seja a mais profunda e real polaridade da política nacional: a polarização pode se dar entre ''republicanos e patrimonialistas''. Engana-se ou é enganado quem se limite a enxergar a polarização pela exclusiva ótica do ''Lula versus Bolsonaro'', colocando o impreciso ''Centro'', de modo maniqueísta, no campo do ''bem'' contra o ''mal''. Política, nem sempre sobra espaço para o ''bem''. O jogo é sempre mais complexo e brutal.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.