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Blog do Carlos Melo

Apenas mais um impeachment?

Carlos Melo

31/08/2017 08h00

Passado o primeiro ano do impeachment de Dilma Rousseff, a controvérsia e a guerra de narrativas a seu respeito parece aberta apenas para iniciados, militantes e ou fundamentalistas de lado a lado: "Golpe", "Pedaladas"? Juízos de valor, disputas de espaço; paixões políticas fazem parte. Mas, queira-se ou não, o público mais amplo parece mesmo se lixar para essa discussão. No final das contas, é a história quem definirá a versão vitoriosa. O fato é que o tempo passa, inexoravelmente. E a vida segue em frente.

Essas rememorações se darão assim, de tempos em tempos: 1 ano; depois, 5 anos, 10 anos. Vão repousar no futuro dos cinquentenários e centenários dos cadernos especiais, que nem mais existirão. Mas, com efeito, são fatos marcantes, simbólicos; às vezes, nem tão marcantes assim. As perguntas dos jornalistas são quase sempre as mesmas: como o país se encontra um ano depois?; qual o legado da ex-presidente?

Difícil fugir da mesmice. Mas, tentar é do ofício. Primeiro, então, o óbvio: um impeachment não é algo que se comemore; quando muito, pode-se rememora-lo, como um infeliz tiro no pé. No geral, é sinal de que as coisas não vão bem.

O contorcionismo de transformá-lo em expressão da maturidade institucional é má fé ou miopia: como elogiar o uso do revólver retirado do coldre do guarda: se foi necessário recorrer a ele, é porque a educação, os valores e a prevenção foram mortos, antes de tudo. Incapacidade de antecipação, erros de escolhas ou de procedimentos. Simples assim. Outros tiros podem ser necessários. E quem dorme com uma tensão dessas?

Mas, enfim… Do "adeus querida" ao "tome Temer", os sinais são reveladores de que a democracia brasileira tem sérios problemas. Dois impeachments em menos de 25 anos já seriam o bastante para assustar. Mas, não parecem bastar: o atual presidente apenas não perdeu o mandato por conta do vazio de opções, do deserto de lideranças que há no país. Sua continuidade é fruto do desalento que produz desmobilização social; mas, seu descrédito é expressão de um processo tortuoso, complicado, labiríntico.

Ainda durante Dilma, se percebeu que o PT, ao ceder à real politique que sempre criticou, aderiu ao patrimonialismo e ao fisiologismo tradicionais. Não atendeu expectativas de mudança; com deslumbre de alguns de seus dirigentes, se rendeu. O grande antagonista a tudo o que estava posto em 2002, vestiu a roupa do farisaísmo. E, para isso, não há remissão — mesmo que houvesse, aqui e ali, o lenitivo de políticas públicas de inclusão social.

Contudo, se todos os males pudessem ser resumidos ao PT, estaríamos feitos. O pós-Dilma tampouco foi animador: o botão-de-rosa oferecido pelo PMDB era opaco, frágil e desfolhou. Vestais viraram estátuas de sal; não havia mudança, ponte; sequer havia pinguela. Só o precipício de antes. O reloading que Temer deu no sistema (leia aqui) preservou interesses e mazelas. Novamente, o jogo de dominó se esgotou, num "fecha natural".

Os heróis do impeachment morreram de overdose: Eduardo Cunha, Aécio Neves, Michel Temer, mas não só. Quem não se recorda da deputada que, votando pela cassação, fazia apologia à honestidade do marido, preso logo nos dias que se seguiram? Gigantes em pernas de pau, revelaram-se anões na dureza do asfalto. Gente que cuspiu para o alto, como fogos de artifício em louvor ao impeachment, ao final, escarrou no próprio rosto.

É "o sistema", amigo. Ele pode não ter um CPF definido, mas tem nomes, apelidos na contabilidade dos corruptores, identidades políticas. Personagens que se enlaçam e conexões orgânicas que se expandem entre Executivo e Legislativo, que penetram pelas coxias dos tribunais; que se fecham na conivência explícita ou na capitulação disfarçada de quem, depois, sorriu amarelo, sem se arrepender.

O que mudou sem Dilma? Tudo e nada. A presidente era mesmo incorrigível (leia aqui): autossuficiente à ruína, tomada pela ideologia e tão esperta quanto um adolescente numa gafieira. Veio Henrique Meirelles e sua equipe — a propósito, inúmeras vezes recomendado por Lula — estabeleceu alguma racionalidade. Pelo menos, disse o que precisava ser dito, pactuando, por fim, certo armistício com um mercado condescendente. Na economia, o governo é um tanto mais crível. Embora, mesmo sobre isso já haja controvérsia.

Mas, sistêmicos, na política os vícios foram mantidos: a mesma fome voraz por cargos e emendas, o oportunismo e a covardia em relação às reformas. Pelas circunstâncias, o imemorial toma-lá-dá-cá até se expandiu. A grande política não pôde ser recomposta. Distante da sociedade, o sistema peleja a autopreservação. É sua lei. E, fênix que nunca vira cinzas, procura agora o candidato que o reanime.

O ocaso de Dilma explicitou o colapso de um tipo presidencialismo de coalizão exclusivamente dependente o fisiologismo. A nudez revelada deveria suscitar mudanças de posturas, revisão de métodos e reformas políticas profundas. Nada disso aconteceu e, tão cedo, nada deve mudar. Depois de Collor, seu impeachment corre o risco de passar para a história como "mais um"; o "segundo", da série "impeachments brasileiros". Por não ter superado as causas, o país ainda pode viver tudo outra vez. Por que não?

E assim o tempo passará; virão novas rememorações: 5, 10, 50, 100 anos deste impeachment… Folhas do calendário que caem e o tempo passa; homens e mulheres que fazem a história sem saber a história que fazem. Como o passado, Dilma será uma "velha roupa colorida que não nos serve mais". Apenas mais uma, entre tantos personagens que se vão no sumidouro do espelho retrovisor.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.