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Blog do Carlos Melo

A entrevista-show de Lula

Carlos Melo

27/04/2017 08h35

Ex-presidente Lula em entrevista ao SBT. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

É um lutador e um sobrevivente das lutas em que se meteu. Pode-se gostar de mais ou gostar de menos de sua figura; há mais de três décadas, ninguém lhe é indiferente. Lula é o personagem mais polêmico e controverso da história Brasil — capaz de despertar os sentimentos mais primitivos em todo o tipo de gente. Provavelmente, mais que Getúlio.

Houve o período de baixa, quando era chamado de baderneiro e, paradoxalmente, pelego; foi também indicado como "agente do Golbery". Mas, houve também a fase de deus: o Dom Sebastião encarnado, pai dos pobres. Sabe bem quem é; que sabe que lutar não é alternativa, é condição. Lutar com as palavras, abandonando a ideia de que essa seja a luta mais vã.

Na noite de ontem, o ex-presidente foi a TV, no SBT, para conceder entrevista-show ao jornalista Kennedy Alencar. Também aqui se dividirão os povos: os que ouviram e acreditaram em tudo o que Lula disse, e aqueles que jamais acreditarão naquilo que o ex metalúrgico fala. E como fala.

Falou de quase tudo, mas o mais importante foi o que revelou sem dizer: Lula quer um duelo pessoal e aberto com o juiz Sérgio Moro, transformando o depoimento, que deve prestar no próximo dia 10, em debate; retirando-se da condição de réu, para o confortável papel de adversário.

Está no seu campo: quer alinhar esquadras em mar aberto; soltar as baterias de canhão, com a munição que cada um tiver a apresentar. "O SBT", disse", "poderia fazer um favor para mim: mandar uma carta para o Moro pedindo para que o meu depoimento fosse aberto para a imprensa, para não ficar subordinado a vazamento… fica aquela câmera dele filmando… Parece que ele é uma voz do além, perguntando para o 'coitadinho' que está exposto… Já que é para vazar, vamos fazer um depoimento aberto: a Globo vai lá, o SBT, a Bandeirantes… Vai todo mundo cobrir e ninguém esconde nada de ninguém…Aparece a cara do Moro, aparece a minha cara… Isso é que é importante…"

Lula conhece suas características, suas virtudes de político e quer jogar nesse campo. A classe média não o tolera e pode não suportar a fome com que engole "ésses", decepando o plural; menos ainda o jeito afetado de chamar o interlocutor de "querido, querida". Mas, o fato é que Lula se comunica bem com o público que escolhe: as multidões que como ele omite "érres", na prosódia cotidiana dos simples. Fala como e para maioria, no seu jeito direto, sem rodeios nem mesóclises, sem a retórica altaneira e inatingível do advogado do Fórum.  Seria crueldade compara-lo com presidentes que o sucederam.

Claro, caberia uma análise do conteúdo do que disse — há enorme contradição com a realidade;  contradições para dar e vender, no atacado e a granel. Quem procura em Lula verdade e coerência com os fatos, precisará garimpar um rio de Serra Pelada. Mas, também aí ele sabe o jogo que joga: a verdade é, para ele — como de resto para qualquer um —, a sua versão, e não se preocupa se a sua versão é ou não  verdadeira. Lula está afinado com a narrativa que já construiu, com a estratégia que, naturalmente, já traçou. É, no limite, claro o objetivo que busca atingir: tanto quanto possível, manter a liberdade — sendo vítima de um processo político, dificultar e tornar mais custosa sua eventual prisão.

Taticamente, seu maior esforço — e maior qualidade — é ser pedagógico na comunicação que estabelece: fazer com que seu "ouvinte" compreenda a sua história — ou  estória que conta — de modo a que possa encontrar sentido naquilo que ouve, mesmo sendo um sentido questionável aos ouvidos mais sofisticados. Não é para esses que Lula fala. Justificando como, afinal, tornou-se um muito bem remunerado palestrante internacional — no mesmo patamar de ganhos de Bill Clinton — dá a chave:

"Fui chamado para ser consultor", diz, "não queria ser consultor; nunca quis ser conferencista profissional. Eu era um contador de caso bem-sucedido", disse a respeito das 72 palestras que vendeu às empresas que o contrataram. E espicaça os adversários: "eles [os adversários, os promotores do ministério público] pegaram meus discursos e guardaram, 72; certamente, para aprender a fazer discurso". Fica-se sem saber se bem-sucedidos são os casos ou o contador, de qualquer forma compreende-se o dom.

Mandou todo tipo de recados — sobretudo para com quem pretende estar bem: "O Palocci é uma das inteligências mais privilegiadas deste o país; …não foi julgado ainda, não teve sequer o direito de habeas corpus ainda… Ele tá preso, tá lá trancafiado… Enquanto não falar não sai, enquanto não falar não sai. 'Você quer sair, fala do Lula…' É assim com todo mundo, Kennedy:  '… se você quer sair, fala do Lula'… Mas, depois da delação, tem que ter prova".

Doma a fúria, respira, transpira paciência; é paternal: "…as pessoas estão sendo torturadas psicologicamente… O Marcelo [Odebrecht] está sendo coagido diariamente. [Igual a Palocci e demais prisioneiros]… 'Se tudo o que eu tiver que fazer para sair daqui é falar alguma coisa contra o Lula, eu vou delatar até a mãe, se for o caso'".

Evidentemente, as armas que escolhe para o duelo são as suas: as dores de vítima, as que melhor maneja e mais lhe cai bem: injustiçado, perseguido pelos poderosos — a mídia, os banqueiros. "A operação Lava jato tem méritos, na medida que está apurando a corrupção. Qual é a crítica que eu faço à Operação Lava Jato?" Ele mesmo responde: "O juiz Moro subordinou o sucesso da operação à criminalização das pessoas, na opinião pública, pela imprensa. Ou seja, quem sabe das coisas não são os advogados de defesa; quem sabe das coisas é a imprensa, primeiro. Primeiro a imprensa sabe, ela execra as pessoas na opinião pública e depois facilita o trabalho de condenação das pessoas. É isso que eu condeno… O Emilio [Odebrecht] envolveu a Globo e não vi ninguém investigar isso. Aliás, não deu em jornal nenhum… Imagina se fosse o Lula! Então, querido, se um juiz precisa de a imprensa primeiro condenar as pessoas para ele ter razão, então, nós precisamos repensar o Poder Judiciário".

Sendo coloquial, se faz compreender, o caso do tríplex é jogada de professor de retórica: "[Kennedy,] você já foi comprar sapato com a sua mulher? Pois é, ela manda descer 40 pares de sapatos. Não fica com nenhum. O dono da loja fica puto". Foi o que aconteceu com o apartamento; diz, portanto, que experimentou, mas não comprou — "fumei, mas não traguei", lembra mesmo Clinton.

Mesmo que não possa vir a ser — e até porque não possa — reafirma que é candidato. Este é seu trunfo:  "eu vou ter condições jurídicas de ser candidato, porque não há nenhuma razão jurídica para evitar que eu seja candidato. Aí seria melhor eles terem coragem para dizer o seguinte: 'olha, vamos dar o segundo golpe nesse país e não vai ter eleição em 2018'. … Todas as pesquisas feitas por eles, até agora, indicam que se eu for candidato eu tenho condições de ganhar as eleições no primeiro turno". O grifo é meu — não me recordo de nenhuma pesquisa lhe dando a vitória no primeiro turno. Por quê diz isto? Elementar: reforçar o mito, dar sua versão para a eventual prisão que vislumbra. "Evitar a vitória no primeiro turno". Sofismar também é uma arte.

O discurso messiânico já toma forma: "Na situação em que está, eu serei candidato. E vou te dizer porquê: eu agora quero ser candidato. É importante: EU AGORA QUERO SER CANDIDATO A PRESIDENTE DA REPÚBLICA (grifo é de sua ênfase). Porque na situação em que o país está, sem nenhuma falta de modéstia, as pessoas sabem que eu sei, as pessoas sabem que eu já fiz; as pessoas sabem que eu posso consertar este país… Vamos incluir os pobres, outra vez, no orçamento… E não pode fazer o que estão fazendo: estão jogando as culpas das desgraças em cima do pobre, outra vez. E todas as medidas que estão tomando é para favorecer os ricos". O salvador da pátria, pai dos pobres, se apresenta. "Eu voltarei"; eis o Lula-Getúlio.

Sobre João Doria: "obviamente que o prefeito de São Paulo quer cinco minutos de glória, quer que eu responda a ele. Eu não vou responder. Ele tem obstáculos muito grandes, antes de chegar para me enfrentar. Primeiro, ele tem que governar a cidade. Ele não pense que fazendo pirotecnia, andando em ônibus às três horas da tarde… eu quero ver ele pegar ônibus é às seis horas da tarde…". É uma boa frase de efeito; arriscada, no entanto. Doria poderia devolver dizendo que também ele gostaria de ver Lula tomar um ônibus, mesmo que seja às três da tarde.

Mas, à parte disto, continua a bater no prefeito — para quê, se não quer responder e nem se digna a lhe dizer o nome? "Esse prefeito que você falou, que foi eleito dizendo que é um grande gestor, até agora não fez absolutamente nada de gestão. Ele está fazendo pirotecnia e ninguém sobrevive de pirotecnia…" Diz a verdade? A verdade é seu dom de iludir.

Vai além — não admite, mas também ele escolhe o prefeito como alvo (interessa a ambos): "sinceramente, se alguém for candidato dos banqueiros, é esse que eu quero enfrentar… que ao mesmo tempo seja candidato da Globo… é esse que eu quero enfrentar, com a chave 'Lulinha paz e amor" — não é de guerra, não. Guerra, eles fazem contra mim". Coloca-se, então, como um "vietnamita, baixinho" que venceu o gigante americano. Trabalha com símbolos facilmente assimiláveis, rapidamente reconhecidos por todos.

Para quem busca em Lula a coerência ou a visão de estadista, é um vazio. Mas, para quem tateia a política, o conflito e algumas  das virtudes de um líder — não todas –, é um espetáculo: Lula nada num mar revolto e se agarra à política como quem se atira a uma boia salva-vidas. É visceral. O tal do animal político.

Por fim, Kennedy pergunta sobre Dona Mariza — era inevitável. Há aqui o inegável coração; a dor, o humano que se revela: "você não sabe o quanto é difícil, o quanto é complicado chegar em casa, de noite, e não ter a mulher…" A voz embarga, o nó da garganta engruma, o queixo treme; a mão mutilada vai aos olhos, enxuga as lágrimas. Dói, podemos supor que dói — mesmo quem não quer lhe dar nenhum direito, precisa admitir: dói. Parece sincero e é mesmo sincero o que aparece.

Mas, em seguida emerge novamente o lutador: na despedida, agradecendo pela entrevista mostra o quanto, para ele, essa arte é fácil. "É uma pena que foi tão rápido; eu pensava que seria mais, pô!". Dá um sorriso maroto: está à espera de Sérgio Moro. É a luta, não deixará que escrevam por ele seu futuro. Não se esconderá, desgoste quem não quiser gostar. Se é inevitável cair, não cairá de cócoras.
Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper. 

Assista à íntegra da entrevista

SBT Online

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.