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Blog do Carlos Melo

Ampla, a lista conturba mais o ambiente

Carlos Melo

12/04/2017 08h50

Foto: Pedro Ladeira / Folhapress

Quando miraram Dilma, os articuladores do impeachment não imaginavam que estilhaços de chumbo atingiriam a colmeia de abelhas africanas que, agora, se vira contra eles. Os petistas foram os primeiros a moerem os fundilhos no áspero das denúncias e delações, mas, agora se vê, não são os únicos. Não há seletividade; o escopo da lista do ministro Edson Fachin é amplo, atinge todo o sistema político. Há no ar de Brasília mais aflição do que mosquitos e pardais.

Sim, não se pode confundir Lava Jato com a ingovernabilidade da ex-presidente. Uma não pariu a outra. Foram, antes, os erros de condução e a crise econômica que arrastaram Dilma. Mas, o governo atabalhoado e a Lava Jato, embora distintos, se misturaram, incentivaram-se mutuamente; às vezes se confundiram: uma crise alimentou a outra.

O vaticínio de Romero Jucá, por fim, não se cumpriu: o impeachment não estancou a sangria nem deu fim ao inferno da política brasileira. Há quem tente tapar o sol com o arco vazio da peneira, mas o governo Temer – que promete muito aos agentes econômicos – vai também enrascado nessa confusão: são 9 ministros, o próprio presidente; a cúpula do Congresso, a elite parlamentar; todos envolvidos na Lista de Fachin.

É certo, o processo levará anos. Mas, deixa esse desconforto na atmosfera política e econômica: o mal-estar existe e ele fere, sim, a dinâmica política nacional, a normalidade do processo legislativo; afeta as reformas e, certamente, interferirá no quadro sucessório de logo mais, daqui a um ano e tanto.

A lista que veio a público é vasta, profunda; dá vertigens. É democrática e indiscriminada, posto que é ampla e plural — partidária e ideologicamente. Revela a festa nababesca – Jucá ousou falar em "suruba" — para a qual todo o sistema político foi convidado. É evidente que causa esta ressaca moral.

Todos, é claro, têm direito de defesa; a ponderação é sempre saudável. O irônico, contudo, é que os radicais mais indignados de ontem, sejam hoje os moderados que relativizam quase tudo. Foram duros — como deve ser — mas com aliados são suaves. Coerência e honestidade intelectual — no rigor ou na condescendência – é todo o capital que o analista deve ter. Na mudança, deve-se admitir: errou-se lá ou erra-se aqui?

***

A lista revela hábitos e costumes. Mas, não traz qualquer surpresa. No Brasil, o público e o privado sempre se confundiram. É salutar que a gramática política brasileira seja questionada, já que dificilmente terá fim. O maior problema, porém, não é sua vastidão – mal coube na edição do Jornal Nacional –, mas o risco de que misture joio e trigo. E, tudo junto e misturado, não permita punir a ninguém.

Na confusão da orgia que explicita, a lista pode redundar, ao final, numa imensa impossibilidade, selando assim um acordão. É preciso cuidado: alguns pontos de inflação momentânea, acima ou abaixo, não valem uma democracia. Raspas e restos sob tapetes se acumulam e, um dia, chamam os ratos para novo banquete.

Há meses, uso a alegoria do "labirinto" como metáfora para a situação; num emaranhado de esquinas que dão a lugar algum, o país fica perplexo diante de seus minotauros. Não há força, coragem, inteligência – quede Teseu, quede Ariadne? –; apenas uma parede que indica um fim de linha impossível, já que a vida continua e todos se amontoam empilhados, num espaço exíguo e sem ar.

O pior de tudo é a ausência de lideranças (no plural) – um conjunto de pessoas com alguma credibilidade e habilidade o bastante para inventar saídas. Houvesse time, o jogo se rearranjaria, reiniciando a partida, arbitrando penalidades, perdas, danos e expulsões. Mas, nem mesmo regras há, nesse momento em que o Congresso procura casuísmos dentre os escombros dos salões em reforma.

Momentos assim são perigosos: uma fúria justificada pode emergir de repente, agora ou mais a frente, com desespero e repugnância. Voluntarismos, salvadores da pátria, farisaísmo…  Abre-se espaço para todo tipo de cretino. Não vê os riscos quem quer cegar. A orgia da lista pode dar em tudo, pode dar em nada; só não tende a ficar como está.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.