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Michel Temer, o presidente esperto da hora incerta

Carlos Melo

29/03/2017 08h00

Pedro Ladeira/Folhapress

Desnecessário repetir em detalhes as tramas do destino e da política que levaram Michel Temer ao poder. A perspectiva de caos econômico, a crise de governabilidade e a inabilidade de Dilma explicam que, em política, as circunstâncias são sempre soberanas e os atores encenam um texto que desconhecem; um roteiro de aleatoriedade. Como um time campeão num campeonato de gols contra, Temer se fez presidente, antes, pelos erros dos outros do que por seus acertos. No ar, a propaganda de TV do PMDB demonstra exatamente isto.

É de supor que houve sinceridade quando, lá em 2015, o vice-presidente clamou a "alguém com capacidade de unificar a todos". Era um momento greve, já se percebia que Dilma se perderia – e, provavelmente, Romero Jucá já articulava seu acordão ao telefone. Grave de fato era e Temer recebeu o beneplácito do establishment e de parte da opinião pública justamente por ter feito supor que havia percebido o tamanho da crise e seria consequente com isto.

A confusão é grande: Executivo, Legislativo e Judiciário se confrontam; os partidos não representam; a Operação Lava Jato ergue o tapete e expõe sujeira de décadas. Há crise na justiça, nas polícias, nas ruas e nas cadeias. Na economia, desemprego, queda de renda e falta de perspectivas falam por si. O país precisa de reformas de todos os tipos, a começar pela política, mas não possui classe política para tirá-lo do atoleiro.

Como se até as samambaias não soubessem que Dilma não mais teria salvação — e o PMDB já não operasse a consolidação do impeachment –, com a desculpa de que precisava esperar pela definição do quadro político, na interinidade, o presidente circunstancial perdeu precioso tempo e não dramatizou o processo já dramático. Errou no timing.

Sim, é verdade que na economia compôs um governo disposto a fazer enfrentamentos e a transformar, por dentro, o ambiente de negócios e a racionalidade fiscal do Estado. E, no Congresso, com o espólio do PT, explorou o apetite por cargos e venceu batalhas de valor simbólico relevante. Mas, em síntese, na política, Temer tem sido quase todo tolerância e conciliação, somando zero com os esforços da economia.

De qualquer modo, a antiga oposição o recebeu de braços abertos: uns porque almejavam ampliar o seu quinhão de apropriação fisiológica da máquina pública; outros – poucos, talvez — porque acreditassem, de fato, na sincera determinação reformista e na necessidade de unificar o país. Mais outros, porque esperavam receber, em 2019, um país saneado, ajustado e menos complicado de governar. Distribuídos por quase toda a base, os grupos interagem em seus propósitos. O PSDB foi o lócus preferencial deste último.

No início de 2015, as apostas nos tucanos pagavam ponta e placé do páreo eleitoral de 2018. O nome de Aécio Neves, líder da oposição a um projeto desgastado, o do PT, era visto com barbada. Quadros do partido foram ao governo por acreditarem na necessidade de reformas e pelo cálculo utilitário de começar já, com Temer, o governo dos tucanos.

Em nome disto, os tucanos se desgastaram: assumiram a linha de frente do impeachment e na discussão das reformas; bancaram posições impopulares. Mais ou menos como diz a canção, beijaram a boca de quem não deviam; pegaram na mão de quem não conheciam; dançaram um samba em traje de maiô. Mas, o tal cálculo não se realizou.

De lá para cá, o quadro político se agravou: a Operação Lava Jato – independente das consequências que ainda podem vir – já carbonizou operadores do governo e a pretensão de lideranças aliadas, de tucanos principalmente. O crescimento econômico não veio tão rápido e as reformas estão mais encruadas do que se imaginava.

É assim… a história transcorre mesmo dentro de uma dinâmica particular, repleta de lapsos de vontade, ironias e horas incertas. Melhor que todos, o PMDB sabe ler a incerteza dessas horas. Na última semana, o partido foi à televisão. Expôs a dramaticidade do momento? Não. Defendeu as reformas com a ênfase, o didatismo e a contundência necessários? Também não. Reconheceu, por fim, a crise política, os problemas da representação e pequena credibilidade do sistema? Igualmente não.

Buscando aglutinar sua base com esperanças de continuidade no poder, o que fez o PMDB?  Sorriu o riso dos cínicos reforçou só os seus, dando a imagem de Temer a aura do "presidente certo na hora certa". Emerge assim o v-candidato, num programa despolitizado, de puro marketing e senso de oportunidade elevado. Um balão de ensaio que explora o vazio deixado pelo desolado PSDB.

O gesto televisivo do PMDB supera a ilusão dos tucanos; pisa em seus corações. Temer vai, desse modo, se conformando, como o presidente esperto das horas incertas. Não deixa de ser um tipo de mérito. Mas, os tucanos deveriam saber que "só os tolos aprendem com os próprios erros"; não assimilaram o exemplo de Dilma e não se deram conta de que o PMDB não é mesmo para principiantes.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.