Blog do Carlos Melo

Não há Joãozinho Trinta que supere a realidade do Brasil

Carlos Melo

Baixo Augusta: bloco levou 150 mil foliões às ruas.

Nem sob o reino de Momo a política brasileira dá um tempo na vergonha alheia que desperta. Não relaxa. Batalha no sistemático esforço de tornar o ruim pior. Desta vez, foi o diretor-geral da Policia Federal que atravessou o desafinado samba-enredo do governo. No abre-alas na sexta-feira, mostrou que não há Joãozinho Trinta que supere a realidade.

Nomeado pelo presidente da República, com o aval de José Sarney — ambos implicados em processos investigados pela própria PF —, Fernando Segovia assumiu o cargo sob suspeição. Para que pudesse superar as naturais desconfianças oriundas da indicação, não deveria ser apenas isento, mas parecer, de fato, isento.

Contudo, desde sua posse, o diretor-geral da PF comporta-se como diretor de escola de samba, durante a apuração. Na Comissão de Frente do temerismo, parece exibir-se para as arquibancadas cantando o refrão dissimulado da ''Unidos do Vai Acabar em Pizza''.

Desta vez, foram declarações que, no mínimo, deram margem à interpretação de que a PF arquivaria investigação contra Michel Temer, num caso de favorecimento à empresa Rodrimar, na regulamentação dos portos brasileiros.

Policiais Federais são treinados para não dar margem a nada; devem ser objetivos, diretos, secos. Não se pronunciam. Não devem e não podem se pronunciar, sobretudo, a respeito de inquéritos que não dirigem.

Qual o objetivo de adiantar resultados de um processo que o diretor-geral sequer deveria conhecer?

Segundo o que a imprensa veio a revelar, o propósito da entrevista seria tornar pública a hipótese de afastamento do delegado responsável pelo inquérito, Cleyber Lopes, que andou dando sufoco em Michel Temer, fazendo-lhe perguntas indiscretas. Fato exposto, fato consumado, investigação desarticulada — foi assim que se interpretou. ''Mais uma flecha saindo pela culatra'', segundo Carlos Marun.

Acontece que Polícia Federal é instrumento de Estado, seu diretor não pode dar-se ao papel de despachante do governante. A manobra foi frustrada por que Luís Roberto Barroso, o responsável pelo caso no STF, já no sábado de Carnaval, observava a evolução da escola na avenida e pressentiu o truque na harmonia. Segovia terá que se explicar.

O governo de fato não para, produz fiascos até mesmo nas horas de folga. ''Carnaval desengano (…) Quarta-feira sempre desce o pano''.

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Mesmo que a maioria das pessoas não saia às ruas e avenidas, blocos de Carnaval e escolas de samba parecem representar a sociedade mais e melhor que partidos e políticos. As multidões brincam, bebem, sambam irmanadas; governos e supostas lideranças vão morar no esquecimento. Veste-se fantasia. No espelho, o povo se vê mais bonito do que seu (?) sistema político. E, de fato, é.

Nos últimos tempos, tantas e tão indisfarçáveis foram as lambanças da política que os escândalos se tornaram banais. Repetitivo, Segovia não foi original; e nem ser pego em contradição já causa espanto. O diretor da PF mantém o nível da maioria do governo a que pertence — embora sua lealdade devesse se voltar para o Estado.

E assim, o Carnaval se presta à irreverência despretensiosa. Na TV, se viu o sistema político achincalhado em sátiras de blocos e enredos de escolas de samba. Intimamente, a audiência vibra — mesmo sabendo que há muita escola suspeita por aí.

Nas ruas e avenidas, a crítica e o sarcasmo carnavalescos não mais têm perspectiva de corrigir ''essa maravilha de cenário''. A gafe de Segovia não é '' episódio relicário''. É só comum e demonstra que ''acabou nosso Carnaval''. Realmente, ''quarta-feira sempre desce o pano'' (''e, no entanto, é preciso cantar'').

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.