Blog do Carlos Melo

Luciano Huck: entre o plausível e o imponderável

Carlos Melo

Reprodução/ TV Globo

Quem ainda não se adaptou precisará correr para se acostumar com o imprevisível como possibilidade da política brasileira. Não, não me refiro ao imbróglio dos tucanos, questão que há muito estava em perspectiva: não viu quem não quis. Mas, à dinâmica e à natureza estrutural da política desta quadra histórica — no Brasil e no mundo —, que pode despertar forças desconhecidas e personagens até recentemente improváveis. O apresentador de TV, Luciano Huck, como possibilidade concreta no cenário eleitoral do ano que vem, é um desses casos.

Sim, sua presença na corrida eleitoral e, mais, suas chances de sucesso não podem ser negligenciadas; são plausíveis, embora ainda não possam ser ponderadas.

Primeiro, porque o ambiente é mesmo de vaca rejeitar bezerro: há desencontros de toda ordem; crises múltiplas — política, econômica, social, moral –, figuras tradicionais desacreditadas; antigos arcos de aliança política destruídos ou fragmentados. Náufragos do sistema e desesperados de todo tipo: um clima de vale tudo. Diante disso, o que seria realmente extraordinário?

Segundo, porque as pesquisas demonstram que a população já não suporta o que está por aí. O descrédito é grande: política, hoje, é sinônimo para todo tipo de picaretagem. Uma generalização perigosa e absurda, mas, infelizmente, é assim que tem sido. A intolerância com o velho e a ânsia pelo novo são enormes, mesmo que não se saiba exatamente o que é, de fato, o novo.

E essa incerteza nos lança em duas direções: às utopias regressivas — o hipotético retorno ao passado como um porto reativo de segurança, que estabeleça a ordem; ou ao salvacionismo utópico: aquele que crê na emergência de um ser, fora do campo da política, supostamente limpo e, portanto, capaz de romper com o velho e estabelecer o novo.

No imaginário popular, Jair Bolsonaro se enquadraria no primeiro caso; Luciano Huck, no segundo — espaço que afoitamente João Dória pretendeu ocupar.

Acontece que Huck não é apenas isso. Se no imaginário das massas ele pode surgir e se viabilizar por meio dessa vertente salvacionista; no entender de muitos setores de elite, ele poderia se estabelecer também como alternativa de comunicação para agrupar um novo campo político e econômico. Parece contraditório, mas é assim que a política tem se estabelecido.

A imagem de Huck, de fato, carrega a ambiguidade. Seu programa de TV — por enquanto, único meio pelo qual é conhecido e pode ser avaliado —  é popular e carrega nas tintas assistencialistas. Agrada ampla parcela da população que compreende o Estado como provedor, uma espécie de Igreja Católica voltado à promoção da caridade e a distribuição infindável de recursos.

Todavia, imagem à parte, nos bastidores, Huck tem se revelado disposto a não ser apenas isso. Assim, tem se articulado com setores modernos da economia, do mercado e da política; tem ouvido muito. E quem com ele já esteve afirma que o apresentador da Globo demonstra ser inteligente e capaz de compreender a gravidade e a complexidade da situação nacional.

Em que pese a expectativa de um forte componente de promoção social em seu hipotético governo, se mostraria disposto a também soltar as âncoras que amarram o Estado à economia: promovendo privatizações e uma agenda de diminuição brusca de qualquer intervenção estatal no ambiente de negócios.

Além disso, a disposição do ''Novo'' e pouca ligação com o sistema, nesse raciocínio, poderiam favorecer o desmonte do sistema político como hoje o conhecemos.

Com efeito, esses aspectos — promoção social, liberalismo econômico e renovação política —  não são incompatíveis. Bem ajustados por uma equipe tão experiente quanto independente em relação ao status quo, não seria impossível agrupá-los.

A questão é saber se Huck é mesmo esse sujeito-símbolo capaz de comunicar o novo, sem abandonar e trair os que esperariam dele a proteção estatal; se estaria de fato disposto a encarar embates com o sistema político, tão difíceis e desgastantes quanto arriscados do ponto de vista da governabilidade de qualquer governo.

Neste último aspecto, seria mais difícil imaginar Lula, Doria ou Alckmin rompendo com a lógica disseminada do Centrão/PMDB e tudo no que isto implica. Já quanto ao liberalismo, o figurino parece mais adequado a Luciano Huck do que a Jair Bolsonaro não intervencionista ou um Lula abandonando teses da esquerda petista, como o fez em 2003.

Contudo, a construção de um nome assim não é coisa simples e o esperado é que não se consiga pôr de pé elaboração de tamanha sofisticação e complexidade, em prazo tão curto pelo menos. Além disso, no Brasil de 2017 são escassos os cérebros e operadores políticos capazes para tarefas do tipo. Quem acredita em teorias de conspiração deveria compreender que não há, não, um comitê central da burguesia capaz de urdir e implementar tudo o que deseja. Tudo, enfim, parece pouco provável. É aí que mora o plausível de toda loucura.

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NOTA: antes que afirmem que me bandeei para o lado do apresentador da Globo — esse ar de patrulhas ideológicas é mesmo irrespirável; que importância tenho eu? –, mais me importa compreender atores políticos, seus interesses e suas estratégias; construir cenários; testar hipóteses. Pensar. Sobretudo, pensar no futuro. Claro, posso estar errado. Mas, o resto é bobagem.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.