Blog do Carlos Melo

Antes dos nomes, será necessário definir critérios

Carlos Melo

Interior da Catedral Metropolitana em Brasília brilham os vitrais pintados por Mariane Peretti,os anjos flutuantes de Alfredo Ceschiatti e a via-sacra de Di Cavalcanti — Imagem: Werner Zotz/Divulgação Embratur

A terra continua em transe e a política no Brasil é só vertigem, tensão, indefinição. Mente quem diz saber onde canta o galo e no que tudo pode resultar. As principais varáveis saíram do controle, perdeu-se racionalidade e há inúmeros fatores de incerteza. Os protagonistas são inábeis para extrair o tumor sem deixar sequelas. No mais, da Lava Jato sempre poderá irromper mais um vulcão.

Michel Temer afirma que não renunciará; antes, prefere ser derrubado. A batalha só está perdida quando se ergue bandeira branca; o presidente ganha tempo, até para negociar melhor a saída. Que moribundo descrê de milagre? Todavia, o agravamento da situação fica evidente: a confiança de que o presidente reagirá é, a cada dia, mais tênue. Mesmo desqualificando o mensageiro, o governismo não consegue apaga a mensagem: os detalhes do encontro com Joesley Batista levarão a vida toda para explicar.

O presidente já não governa, apenas cuida de sua defesa: articula apoios e jantares em que vai ficando só. No Congresso Nacional, não há ordem unida, nem controle. No front das reformas, o cronograma se perdeu. Na economia, reversões de expectativas são preocupantes. Pior que o temor da deterioração do ambiente é a sensação de que o ambiente de fato se deteriorou. Já haveria vazio de poder?

A céu aberto, se discute o nome que substituirá Temer. Jornalistas especulam; caciques partidários cogitam; empresários, em desespero, questionam: qual é o nome? Ansiedade e precipitação ampliam as possibilidades de erro. Colocar a carroça a frente dos bois, discutir nomes e não critérios, talvez seja o primeiro deles. Os critérios, contudo, dependem da consciência dos problemas.

Necessário ir às causas estruturais da crise. Os problemas não estão apenas em Temer; como não estavam exclusivamente em Dilma, não estarão só em Rodrigo Maia. Na internet, já há meme “Fora Maia” — não apenas por sarcasmo, mas também pela evidência estrutural dos problemas. Troca-se moscas, nomes se sucedem e o país continua na mesma.

O sistema deixou de funcionar: o presidencialismo de coalizão baseado no fisiologismo chegou ao colapso. O tradicional modo de financiamento da política chegou ao esgotamento — o patrimonialismo matou a galinha dos ovos de ouro. O mal corporativista está ativo e oculto; uma terrível crise de liderança revela o desgaste dos materiais e a falta de renovação.

A crise econômica é resultado de um pouco de tudo; omitir sua natureza política, não dissipa os problemas, apenas prolonga o drama. Confunde-se efeitos e causas, se quer amenizar a dor, mas se não se vai à doença. Nomes com foco específico nas reformas econômicas — Maia ou Meirelles —, não compreendem a natureza política da crise; são incapazes de superá-la. Tornam-se água que vai à chama, não à origem do fogo. Quer-se baldear um naufrágio com as mãos.

Os critérios deveriam ser claros: primeiro, a obediência à Constituição; depois, não bulir com a Operação Lava Jato —  nos limites da lei, ela pode levar a ajustes na relação público-privado. Ao mesmo tempo, necessário preservar Meirelles e a área econômica — tudo o que o país não precisa é de mais incerteza e a sensação de ainda maior amadorismo.

Importante comunicar a gravidade da situação: o governo quebrou, não há soluções simples; mostrar os dados, persuadir sem cooptar — tudo o que Temer foi incapaz de fazer. No mais, a concertação dependerá do distensionamento político: reduzir os conflitos a patamares civilizados; tolerância e pacto de convivência democrática. Reconfigurar o sistema político. Correndo tudo muito bem, avançar na agenda de reformas econômicas.

O certo é que não se deveria começar pelos “poréns”, críticas e defeitos do possível sujeito. Com vetos e restrições, não se chegará a indivíduo algum. Deve-se partir dos “contudos”: em que pese imperfeições e poréns, o nome, contudo — não obstante, ainda assim — será capaz de identificar causas, respeitar critérios, formar boa coalizão, dialogar, comunicar, articular consensos possíveis? O país chegará a bom termo, em 2018?

Chega-se ao ponto: qual seria o Hércules — raro no mundo contemporâneo — capaz de superar esta dúzia de trabalhos? Definida a gramática, qual a prosódia da concertação: a determinação gaúcha de Jobim ou mansidão cearense de Jereissati?

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.