Blog do Carlos Melo

Um enigma para Fernando Haddad
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Carlos Melo

Foto: 4.ago.2018/Facebook. Reprodução publicada pelo UOL.

Com o avanço do processo eleitoral, os principais atores políticos percebem o esgotamento do tempo das firulas. Faz lembrar Jackson do Pandeiro, “esse jogo não é um a um”; tem hora para acabar e precisará definir um vencedor. Os debates começaram e ocorrerão às pencas, logo mais será o Horário de Propaganda Eleitoral, a votação do primeiro turno… Ainda que, em alguns casos, o processo seja caótico, ao final o pragmatismo terá que se impor.

Como cálculo, a estratégia do Partido dos Trabalhadores é relativamente simples, fácil de compreender: arrastar o processo e dar sobrevida eleitoral ao ex-presidente Lula, tornando-o vítima, na esperança de que sua martirização se consubstancie no milagre da hipotética transferência de votos para seu candidato à presidência da República e os demais postulantes nos estados.

Faz sentido, sobretudo, porque não haveria alternativa, dadas as circunstâncias. O PT precisava ganhar tempo e, como disse o gato de Alice, “para quem não sabe onde ir, qualquer caminho serve”. Chegou até aqui. Contudo, a retórica oculta outros detalhes e nuances importantes, os quais cumpre esclarecer.

Lula é inegavelmente o único líder e o único ícone da legenda. E, por toda história do partido, foi sua única perspectiva séria de poder. Maior que o PT, se impôs às diversas correntes da legenda, à inesgotável disputa por formalismos ideológicos e à mais variadas facções, corporações, antigos e novos movimentos que compõem o mosaico petista.

A ausência do ex-presidente não implica apenas um vazio na disputa eleitoral do país. Ela também decreta aberta a luta interna no PT e na esquerda nacional. Vazio seu trono, haverá trepidação naquele solo. O pós Lula colocará em risco o equilíbrio interno e a hegemonia externa.

Exatamente por isso não houve acerto em torno de uma chapa única, agregando as candidaturas do campo político. O PT não se curvaria a Ciro Gomes, Manuela D’Ávila, Guilherme Boulos e menos ainda à Marina Silva, equivocadamente não mais considerada pelo petismo como política de esquerda. Em razão da natureza íntima de seus membros e pretensão política de seus grupos, isto não ocorreria jamais, pois seria aceitar um papel coadjuvante – maior tristeza para quem viciou no protagonismo.

Esse raciocínio se reproduz na quizila interna. Ao definir seu substituto na corrida eleitoral, é provável, que no médio prazo Lula acabe por indicar seu herdeiro partidário — mesmo que contra a vontade. Vencendo a eleição, a situação está posta: Fernando Haddad, por motivos óbvios, passa a liderar o processo político nacional, no geral, e petista em particular. Mas, mesmo derrotado, o fortalecimento político do ex-prefeito será inequívoco, alterando a correlação de forças no jogo interno, deixando para trás postulantes recônditos — hoje e no futuro.

É inegável que, passada a eleição, a imagem do ex-prefeito restará amplamente difundida por todo território. Também é plausível que a empatia que possui com o “petismo social” — se diferencia da nomenclatura partidária — se expanda tornando-o a maior referência no campo da esquerda, pós Lula. Qual Bolsonaro em caso de derrota, Haddad estará páreo das futuras eleições nacionais. Sendo jovem, poderá repetir o itinerário do ex-presidente: três derrotas até a vitória.

Vem daí o mau humor e a má vontade de parte da direção petista. A resistência ao seu nome, a insistência em limitar seus movimentos, a definição de uma vice que em nada ampliará eleitoralmente; a diligente vigilância sobre o Plano de Governo e o estreitamento das propostas econômicas são também, em parte, fruto da disputa.

Tudo isto compreende tutela sobre o candidato que a má fortuna de Lula colocou à frente da chapa do PT, sem que seja ele um petista típico e versado na dinâmica política partidária. Dessa forma, não foi apenas grosseira a falsamente tola declaração de Gleisi Hoffmann de que Haddad seria submetido a um “estágio probatório”. Probatório para quem? Para o petismo partidário, é claro.

Questões desta natureza serão mais decisivas e complicadas para o virtual substituto de Lula do que o debate direto com seus adversários. Haddad se defrontará com a intolerância de grupos partidários tanto quanto com a desconfiança de setores sociais, sobretudo da classe média urbana, em relação à autonomia que teria diante do PT e da autoridade que terá sobre um eventual governo.

Mais que um problema delicado, trata-se de uma equação difícil: qualquer gesto de autonomia compreenderá em abalos na campanha; qualquer sinal de falta de autoridade implicará em desgastes na mídia, na opinião pública e diante de setores econômicos que, queiram ou não parcelas do petismo, têm importância se não na eleição, certamente no futuro governo. Eis o enigma.

Não resolvido, este tipo de dilema compreenderá em maiores obstáculos para forjar, no acaso de uma vitória, o necessário esforço de pacificação política e reencontro do país consigo mesmo. Esgota-se, assim, o tempo das firulas, das respostas vagas. E mesmo a ambiguidade – uma arte de poucos mestres – encontrará limites. A eleição avança cobrando definições. Ao final, a história interpretará apenas o que foi, não o que poderia ter sido.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O Debate da Band: luta por posições
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Carlos Melo

''Working for Position'', Steve Huston, 2009.

O debate da TV Bandeirantes é um tradicional aquecimento muscular. Os candidatos, alguns pouco experientes outros enferrujados passados 4 anos da última eleição, começam a ganhar ritmo. Lutam por posições dentro de seus respectivos campos políticos. Justamente por isso, estudam-se mutuamente, temendo levar o soco no queixo que lhes faça beijar a lona já no primeiro round. É um momento de cuidado, embora sempre apareçam iniciantes poucos expressivos e ousados,  candidatos a compor o folclore político nacional. Sendo assim, a falta de objetividade e a superficialidade são naturais.

Nesta eleição, no entanto, não há como omitir seu traço específico: o líder das pesquisas esteve ausente, não por estratégia, como houve casos no passado, mas por estar impedido, preso em Curitiba. Há essa falta. Mas, admitam ou não os petistas, Lula acabou por passar ao largo, sendo pouco lembrado. À indiferença dos demais concorrentes, é possível que para público em geral, a ausência tenha soado como página virada; menos que lacuna, uma inevitabilidade. A estratégia de insistir com o nome do ex-presidente até o último segundo implica em riscos desse tipo.

Embora não seja candidato, o ''Senhor Jesus'' foi o ser mais citado no debate, talvez de modo inédito na história desses embates de TV, no Brasil. Na disputa de um Estado secular, o apelo ao divino é sinal de rebaixamento do debate político laico e republicano. Soou demagogia, de olho num eleitor evangélico e pré-político. Com todo respeito à Fé e às crenças de todas as denominações, o fato é que Deus não governará o país, não negociará com o Centrão, nem buscará, na finitude do Homem, as saídas do labirinto nosso de cada dia .

Já no campo dos seres falíveis, o debate pouco inovou. Num tom professoral — ou, antes, de médico de família —, Geraldo Alckmin receitou os remédios conhecidos de sempre. O tucano rejeita vinculação a Michel Temer, mas, certo ou errado, é fato que assume sua agenda e, em virtude disto, a identificação é automática. Pode ser inevitável, mas o receituário fiscal vem embalado sem qualquer inovação, sem o menor charme. É a mesma e velha terapia manjada dos tempos da vovó. Geraldo Alckmin parece ser o candidato de ontem, não do amanhã.

É certo que busca o eleitor moderado e racional, acreditando que ainda seja esta a maioria capaz de definir a eleição. O Brasil e o mundo, no entanto, mudaram sobremaneira nos últimos anos: mais emocionais e vulneráveis, são menos suscetíveis que no passado a argumentos técnicos que já não lhes cabem na alma. Geraldo é tão racional quanto um contador, mas os tempos requerem o auxílio de um psiquiatra. Se a eleição se restringisse ao mercado, estaria eleito. Na sociedade real, precisará reinventar-se.

Ainda assim, com Centrão, recursos financeiros e tempo de televisão, o tucano tornou-se o alvo a ser batido; seus adversários não perderam oportunidade para desgasta-lo.  E, em pelo menos um aspecto, o ex-governador foi contraditório: justifica alianças pela necessidade de “governar com os partidos”, para ele o instrumentos de ascensão e ação políticas. Ok. Todavia, questionado sobre a idoneidade dos aliados, desqualifica críticas asseverando que os todos partidos são iguais, afirmando que, para o brasileiro, “não são importantes”.

Já Henrique Meirelles negou os pratos em que comeu, evocando para si somente as boas realizações dos governos dos quais fez parte. Quis arriscar sorrisos e manifestações de elegância e simpatia, mas a empatia com o eleitor parece estar além de suas forças. Deveras burocrático, talvez ignore o poder de articulação do presidente da República e de seus representantes no Congresso Nacional quando chama para si os méritos do governo. Técnicos como Meirelles são importantes, mas nunca bastaram.

Ciro Gomes, contido até onde conseguiu, mirou Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, evitando o PT, neste momento. Numa noite de forçada educação, controlou-se para não se deixar levar pela ironia, ainda que não tenha resistido à verve ao desvencilhar-se da precariedade do inexpressivo Cabo Daciolo.

Marina Silva buscou o posicionamento de reserva moral e política da nação; trata-se do purismo habitual, sem explicar exatamente como se comportará uma vez nos mares turbulentos do governo. Com poucos recursos eleitorais, está à espreita de vacilos de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes para tomar-lhes do centro e a centro-esquerda. Seu ar de superioridade, contudo, não raro revela postura demasiado distante.

Debutante, Guilherme Boulos quer imaginar-se amanhã o Lula de ontem. É articulado em seu campo, fala bem, e é tão ousado quanto pouco preocupado com a governabilidade a partir do que propõe. A pouca viabilidade lhe dá liberdade e ousadia descomprometidas. Irônico que também ele tenha negado Dilma Rousseff.

Inicialmente assustado, Álvaro Dias soltou-se de modo mais lento e inseguro do que faria supor um político tarimbado já iniciado nas disputas majoritárias ao governo estadual e ao Senado. Teve relances de luz, mas na maioria do tempo, viveu momentos aquém da expectativa de quem pretende ser a pedra nos sapatos de Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Jair Bolsonaro. A recorrente referência a Sérgio Moro lhe dá, ao final, um ar de dependência de um ser externo; parece negar ser senhor de si próprio. Se quiser avançar, terá que rever a estratégia.

A maior surpresa da noite, no entanto, ficou a cargo de um Jair Bolsonaro tão contido quanto um leão sedado. Desviou-se das cascas de banana que lhe foram lançadas, estava treinado a responder o básico do governo sem buscar canhestramente o auxílio de Paulo Guedes, seu guru econômico. Com o eleitor revoltado garantido, foi nítido seu esforço por maior abrangência eleitoral. Ainda que tenha tropeçado aqui e acolá ao reclamar “direitos de resposta”, ficou evidente que busca suavizar em tons pastéis a imagem de fúria que o domina e o expressa. Tudo indica que passou a crer na possibilidade de ganhar a eleição.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


À espera de novas batalhas
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Carlos Melo

Máscaras com o rosto de Lula nas cadeiras antes do início da convenção do PT. AFP PHOTO: Nelson Almeida.

Política não é a luta de todos contra todos, apenas a luta de uns contra outros. Na defesa de seus interesses e visões de mundo e no ataque àquilo que desprezam ou consideram nocivo nos agrupamentos adversários, grupos ou campos políticos se enfrentam. Logo, a primeira disputa na política se dá “no campo” a que se pertence e não fora dele. O primeiro desafio é controlar o campo político, representando-o efetivamente.

Numa referência certamente antiquada, resiste a delimitação desses campos utilizando-se critérios amplos e vagos porém agregadores: esquerda, centro e direita. Termos supostamente correspondentes como “conservador” e “progressista” perdem em exatidão, pois há conservadores e progressistas de esquerda e direita. Reacionários e autoritários também nesses campos. O “centro”, sobretudo, como agora, autoproclamado “democrático” torna-se pouco palpável.

Pois bem, foi na perspectiva de controlar seus respectivos campos que os principais candidatos à eleição presidencial deste ano foram à luta. E, na semana que passou, Geraldo Alckmin buscou consolidar suas divisões instaladas do “centro para a direita”. Alckmin sabe que antes de enfrentar o candidato do petismo, terá que resolver a disputa no seu campo. E sem isto não irá adiante.

Seu desafio, então, é anular Álvaro Dias e Henrique Meirelles, que correm sua raia. Ao mesmo tempo, não dar chances de progressão à Marina Silva. Quanto à Jair Bolsonaro, sua estratégia é manter o ex capitão ao extremo do extremo da extrema direita, sugando-lhe o máximo possível das forças e dos eleitores.

Fez isto, primeiro ao atrair para sua coligação o PR, de Valdemar Costa Neto. Depois ao escolher a senadora Ana Amélia (PP-RS) como sua vice.

Pragmático e oportunista, Costa Neto poderia fornecer tempo de TV e um vice menos duro a Bolsonaro, levando-lhe em direção ao algo mais aproximado do centro — já que de centro mesmo Bolsonaro jamais será.  Desconfia-se que, também ali, o dono do PR blefou ao oferecer Josué Gomes, o vice que não conseguiu entregar.

Já a parlamentar a senadora gaúcha é legítima representante do conservadorismo de seu estado; sua atração para chapa dos tucanos e do Centrão enfraquece Bolsonaro, que tem tido expressão eleitoral no sul do país, e o afasta de algo que se poderia chamar “direita esclarecida”.

De fato, sozinho, a Bolsonaro restará 8 segundos no horário eleitoral e um vice pouco abrangente, como o general linha-dura, Hamilton Mourão. O ex capitão pregará somente aos seus convertidos — que não são poucos, mas limitados. Terá, provavelmente, uma relativa força no primeiro, mas pouco poder de ampliação num eventual segundo turno.

O PT não fez coisa diferente. Ao conquistar a neutralidade do PSB, em troca de apoio aos socialistas em Pernambuco, Lula decretou o isolamento de Ciro Gomes. Restarão a Ciro apenas algo em torno de 38 segundos de TV e uma vice, a senadora Kátia Abreu, de limitado diálogo com a esquerda. Soma pouco. Lula fez com que Ciro encolhesse a uma fração do que sonhara e muitos analistas supunham.

Desse modo, tucanos buscam ocupar o centro e a maior faixa do conservadorismo; ao mesmo tempo, o petismo tende a preservar controle que possuem sobre a esquerda. E, isto, em tese, levaria à manutenção da polarização dos últimos anos, onde, no limite, PT e PSDB dominam a cena e se encontram, a cada eleição, na disputa de segundo turno. O raciocínio lógico seria esse. Mas, todos os dias, contudo, a conjuntura do Brasil traz surpresas e a lógica tem vacilado, nesses anos recentes.

Aos 45 minutos do segundo tempo, o PT definiu que Fernando Haddad será o vice político de Lula; na verdade, o seu ungido pois assumirá o lugar do ex-presidente quando de sua esperada impugnação — sendo Manuela D'Ávila a vice formal, que constará nas urnas.  Ao ex-prefeito há resistências na própria burocracia petista, mas a tendência é que a militância do partido, que já foi muito mais decisiva, o abrace durante a campanha.

Todavia, não há elementos capazes de fazer cravar o quanto Lula transferirá de suas intenções de voto a Haddad, tampouco se poderá dizer o quanto o ex-prefeito aliviará a imagem do PT após tantos traumas e escândalos; o quanto poderá diminuir na classe média do eleitorado urbano a rejeição que pesa sobre o partido. Há pesquisas a respeito feitas aqui e acolá, mas elas não são conclusivas. No Brasil de hoje, conclusivo mesmo só a eleição, quando chegar; e olhe lá se será mesmo…

Enfim, o segundo turno está naturalmente em aberto porque não faltam elementos a tumultuar o ambiente, de resto bastante anormal dos últimos anos. O que permite colocar em dúvida se os tradicionais instrumentos eleitorais, a começar pela TV, funcionarão como no passado, neste processo  atípico: a racionalidade do eleitorado permanecerá a mesma? Somente o desenrolar dos fatos dirá. O certo é que a eleição entra na fase mais explícita dessas batalhas campais. E a primeira se dará em torno da impugnação da candidatura de Lula.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Bolsonaro: som e fúria
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Carlos Melo

''Hamlet'', eis a questão. William Shakespeare. Arte: Folha de S. Paulo, Ilustrada.

Política é mesmo circunstância; no final das contas, atores contam pouco. Jair Bolsonaro, por exemplo, é um político de poucas virtudes pessoais e intelectuais; é um homem gerado no senso comum de seu tempo e espaço, no seio da direita mais conservadora e reacionária. Como se viu no programa Roda Viva, um candidato que de tudo sabe quase nada. Não é grande orador, não possui magnetismo pessoal e nem se preparou. É fruto do desleixo causado pelo processo de deterioração geral da política brasileira, reverbera as circunstâncias e o mal-estar da história.

Talvez por isso, seja um sucesso nesses dias — os mais conturbados do Brasil e inegavelmente bem desajustados em âmbito mundial. É sintomático e também irônico que goste de se comparar a Donald Trump. Possuem o mesmo princípio ativo: os sinais de retrocesso e o resultado de uma dinâmica caótica que se estabeleceu nos últimos anos; símbolos de uma “era do imprevisto”, como assinalou meu colega Sérgio Abranches. Proliferam onde o medo do futuro insondável resulta em nostálgica busca de um passado edulcorado que não mais existe; que na verdade nunca existiu. Utopias regressivas.

No genérico nacional, além do aguçamento de uma série de vícios que se acumulam ao longo da história, foram as disputas sem regras e freios — sem responsabilidade também — havidas entre os grandes partidos, PT e PSDB sobretudo, que deram ânimo ao seu renascimento. Foi o esgotamento do sistema político fisiológico, sua depreciação e a decadência de seus quadros que retiraram o ex capitão do lugar que, talvez, lhe restasse na história — uma nota de rodapé, quando muito —, tivesse se mantido minimamente civilizado o ambiente político e social.

Eleitores de Bolsonaro — muito eventualmente, leitores deste BLOG —, que suportaram e ultrapassaram o parágrafo acima, decerto já soltam fagulhas e impropérios na ponta dos dedos para, mais tarde, preencher seções de comentários na Internet. Se a Fernando Henrique Cardoso chegam ao ponto de chamar “comunista”, o que não dirão de um mero analista sem brilho, de muito menos charme e serviços prestados ao país? Embora não devessem perder tempo com o que não alcançam, respeito o direito de não gostarem.

Mas, o fato relevante, no entanto, é que também são resultados da história. Nas últimas duas décadas, resistiram ao vazio de referências políticas mais sólidas em seu campo — no passado, foram Integralistas, UDN, Arena, PDS, malufistas, mas recuaram diante da brisa que arejou por aqui durante o curto período.

Assimilaram Fernando Henrique pela estabilidade da moeda e, depois, foram abraçados pelo PSDB como uma frente antipetista. Engoliram o ciclo lulista como quem nada tem ou pode fazer diante de um desafeto convidado para mesma festa de conhecidos.

Todavia, as promessas da democracia não os alcançou — nem a eles, nem a muitos — até mesmo porque elas, essas promessas de transparência, igualdade e republicanismo, não se cumpriram. Duro admitir que, embora tenha se ampliado como discurso e método de escolha, a democracia estancou como espírito e prática. Como alertou Sérgio Buarque, a democracia por aqui sempre foi um lamentável mal-entendido.

Diante do avanço da tecnologia, da economia e das alterações da sociedade, a política ficou para trás, apequenando-se em interesses restritos de oligarquias e corporações cínicas e ultrapassadas. Foi a brecha para denunciarem, com certa razão, som e fúria, os desequilíbrios e as incongruências do sistema. E aquilo deu nisso — e em mais ainda pode dar.

A direita do passado, conservadora e reativa, perdeu seu lustro intelectual — Alceu de Amoroso Lima, Carlos Lacerda, Marco Maciel. Verdade que isso se deu com todas correntes tradicionais de pensamento: também a esquerda e a socialdemocracia perderam seu charme; o iluminismo entrou numa zona de vácuo em que se desespera a busca de saída, isolado num labirinto. De modo que o bolsonarismo — espécie de bonapartismo rebaixado — se elevou nessa época de estiagem de lideranças e falta de ar.

É um direito seu, com efeito. E o certo é que volta e meia, a história redunda em condições assim. Resultado da ação dos homens e mulheres que fazem a história sem saber a história que fazem, a História ri em deboche daquilo que fizeram dela. Há séculos, o espírito humano se apercebeu do absurdo e da infeliz constância de momentos assim. Essa percepção se encontra na impressionante sensibilidade e a atualidade de Macbeth, peça escrita por volta de 1607:

“Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”.

Citar William Shakespeare num momento como este pode ser um desvario e um luxo, por perfunctório, dependendo a quem se dirige. Mas é tão necessário quanto respirar e reafirmar a existência da humanidade. O momento passa e, embora se repita de tempos e tempos, a espiral da história, após pregar sustos desse tipo, volta a avançar. Tragédias são geradas, se processam, deixam marcas; não obstante, o destino do mundo é o sempre fluir. “Nada é, tudo flui”, eis Sérgio Abranches, mais uma vez. O sol ainda nascerá, como ensinou Cartola.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Sob Temer ou Alckmin, o reformismo do Centrão será o mesmo
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Carlos Melo

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Repete-se por aí que foi em virtude do Joesley Day que Michel Temer não aprovou a reforma da Previdência. O dia em que o dono da JBS revelou diálogos íntimos com autoridades, inclusive o presidente, conturbou a cena política nacional e teria alterado a dinâmica reformista de então.Para muitos, tratou-se de um Cisne Negro, a alegoria de um fato inesperado e raro. Mas, não foi bem assim.

Em primeiro lugar, aquele escândalonão pode ser considerado Cisne Negro. Não é novidade, surpresa ou fato inaudito a situação explosiva, o campo minado, em que se transformou o ambiente político nacional; relações perigosas, conluios particulares, nada republicanos, não são incomuns e são até muito frequentes, no Brasil. Sobretudo, nos últimos anos.

Nada garante que, não fosse esse o personagem, não seria outro. A suspeita se justifica: para dar sustentação à desconfiança, está aí o caso dos portos, que também envolve Michel Temer.O fato é que a política do Brasil não para de produzir congêneres de Joesley. Então, por que Cisne Negro? Mais provável é que se tenha tratado de um vulgar pardal urbano.

Não faltou a Michel Temer base política ou conexões nos três poderes que lhe dessem cobertura quando a Procuradoria Geral da República, com toda sorte de protestos e reclamações de membros do Supremo Tribunal Federal, pediu o afastamento do presidente. A coalizão governista na Câmara dos Deputados matouessa bola de fogo no peito. E, por duas vezes, negou a Rodrigo Janot a possibilidade de investigar e processar Temer.

Nesse momento, faltaram à base e ao governo prioridade e interesse de dar apoio às reformas. A confusão veio mesmo a calhar. Fosse, de fato, de urgência fundamental para o governismo, a Previdência não seria preterida. Vida que seguiria… O que se deu, no entanto, foi a troca do essencial pelo acessório: a reforma pela salvação de Michel Temer.

Concretamente, no frigir dos fatos, o ocorrido demonstra a ausência de fidelidade ou identidade programática e filosófica à reforma. Fosse outra sua determinação, os partidos do Centrão — mais o MDB e a maioria do PSDB —, teriam suficientes votos para aprova-la. Onde faltou prioridade, sobrou oportunismo. E isto tampouco é um Cisne Negro.

Assim se deu porque, fundamentalmente, interessava aos partidos da base fazerem-se credores de um governo enfraquecido; retirar do poder Executivo ainda mais recursos e facilidades. Não há inocentes na política. Nesse quadro, coube à Câmara dos Deputados definir os passos do governo e o ritmo das reformas, que ficariam para as calendas gregas, ainda que se preservasse para desavisados a retórica de sua importância.

Foi esta a janela de oportunidade para o Centrão e seus satélites; circunstâncias que os favoreceram. O Joesley Dayfoi um excelente pretexto.

De tal maneira que não se deve esperar desses partidos pactos ideológicos ou compromissos programáticos. Eles funcionam de acordo com interesses específicos e fragmentados de cada grupo que os compõem; aproveitam brechas e, se podem, impõem sua lógica. O que lhes interessa é a unidade, de modo a que possam manter a força, submetendo o poder Executivo — além de apoderarem-se dele. O patrimonialismo tem suas manhas.

Geraldo Alckmin é um político experiente; impossível que não desconfie da natureza do grupo que agora abraça a si e à sua campanha. A adesão que agora oferecem não se prende à ideologias tampouco aos encantos pessoais do tucano. Assim, as reformas prometidas pelo candidato dependerão, antes de tudo, dos interesses de sua base muito mais do que de sua determinação. Não há acordo programático que se coloque acima do velho pragmatismo fisiológico.

Se vier a ser eleito com força, folga e tranquilidade, seu eventual governo talvez consiga  controlar o vírus oportunista da base e impor a vontade do governo e as necessidades da economia. Daí, seria possível imaginar um governo reformista, capaz de despertar uma onda otimista, suficiente para alterar expectativas econômicas e incentivar investimentos, inaugurando um círculo virtuoso.

Contudo, de aliados dessa natureza não se pode esperar muito. Se vier a se encontrar em circunstâncias negativas, antes de colher qualquer reforma, precisará ceder quase tudo o que tiver em mãos. Sem oportunidade de formar maioria com outros setores políticos, precisará buscar o auxílio da sociedade.

Mas, aí também podem lhe faltar o necessário carisma e capacidade de comunicação direta com o povo. Não se pode esperar de Alckmin aquilo que sabidamente não possui. Eleito, a vida do ex-governador não será simples ou fácil. Aliás, nem a dele, nem a de ninguém.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O salto de Geraldo Alckmin
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Carlos Melo

Valdemar Costa Neto. Estúdio Grupo Folha, Brasília, setembro/2013. Sérgio Lima/Folhapress

É inegável. Geraldo Alckmin deu um salto e conseguiu afastar de si o fantasma da inviabilidade eleitoral, seu maior terror neste estágio de campanha. Ao atrair, ou ser adotado, pelo “Centrão”, tomará posse de instrumentos que, até aqui, fizeram diferença nas eleições: extraordinário tempo de TV, parcela da máquina pública controlada por aqueles partidos, aparelhos políticos espalhados pelos rincões do país. Não é pouca coisa, ainda que não se possa afirmar suficiente.

Era previsível que, ao final, a base de Eduardo Cunha, que deu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff e ao governo de Michel Temer, se aglutinaria em torno de um candidato. O pior seria a fragmentação. Coeso, o grupo permanecerá e, com algum sucesso na urnas, elegerá bancadas relevantes. O que lhe permitirá controlar maiorias na Câmara e no Senado. Com a presidência nas duas casas, como rapidamente captou colunista da Folha de S. Paulo, exercerá formidável poder de tutela sobre o próximo governo.

Mesmo não sendo um sonho de candidato e empacado em modestos números nas pesquisas, Alckmin é previsível e aglutina muito mais do que Ciro Gomes o faria; mais ainda do que Jair Bolsonaro ou a qualquer candidato do PT. Low profile, ou de “baixo impacto” numa tradução livre, o tucano não compromete, pois não chama a grandes demonstrações de repúdio ou paixão. Meio-termo, se não desperta amor, não chega a muito gerar asco. Não comprometerá palanques regionais.

Mas, coalizão tem preço. Sintomático que tenha cabido a Valdemar Costa Neto bater o martelo da união. Mais que pragmático, o presidente do PR tem olhos no futuro de interesses específicos de seu agrupamento, nem sempre coincidentes com os do país. Por mais que neguem candidato e aliados, a cola da aliança será a goma do fisiologismo. Discursos republicanos que tucanos ilustrados tiveram, um dia, desaparecerão como lágrimas na chuva.

Sim, sempre haverá o argumento de que “é preciso governar, o que requer maioria”. Que “os outros [candidatos] também os procuraram”. E assim, ar professoral — ou antes, de médico de província —, pausando sílabas, esticando lábios e excitando músculos da face de zigomas salientes, o ex-governador, mais realista que rei, dirá: “É//O//PRE-SI-DEN-CI-A-LIS-MO//DE//CO-A-LI-ZÃO”, como se além do rótulo revelasse algo naturalmente justificável.

Com efeito, a formação de maioria é requisito em qualquer lugar do mundo. Mas, por aqui, adquiriu a lógica particular do “é dando que se recebe”; uma arquitetura forjada o exercício perpétuo de uma prática de vícios. E, também com sílabas separadas e bem definidas, a isto se dá o nome de “Ca-pi-tu-la-ção”. Não é exclusividade dos tucanos, como não era de petistas ou do MDB.

Mais rápido do que se imaginava, os custos aparecem. O primeiro foi arreglar para Paulinho da Força, retroagindo na questão do imposto sindical — típico acordo que será pago por quem não o fez. O segundo é, à parte do bônus do tempo de TV, carregar o ônus do governo tóxico, de Michel Temer. Mesmo que Henrique Meirelles mantenha a candidatura, não há mais biombo entre Temer e os tucanos.

Por fim, o constrangimento de ser preterido por Josué Gomes, o vice que foi sem nunca ter sido. “Não tenho medo da morte; tenho medo da desonra”, disse certa vez José de Alencar. Sibilaram nos ouvidos do filho os temores do pai? O fato é que uma chapa eleitoral que não consegue ser confiável dificilmente será, eleita, um governo crível.

Com o acordo, tucanos mais exaltados passaram a bater forte no bumbo: precipitadamente, anunciam o novo presidente. Tudo pode ser, inclusive exagero: tempo de televisão é importante, mas, não significa votos automaticamente. Os partidos que apoiam Alckmin são cartórios políticos, mas não controlam eleitores.

Ademais, na hecatombe política dos últimos anos, nem se sabe se a TV terá a mesma importância do passado. Os constantes choques políticos podem ter anulado a relevância que esses instrumentos eleitorais tradicionais já tiveram. E tudo o que parece sólido arrisca-se a desmanchar no ar da campanha eleitoral. Ou a desaparecer “como lágrimas na chuva”. Segue o jogo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ironias banais do Brasil
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Carlos Melo

Pablo Picasso: ''Cabeza de Mujer LLorando'', 1937.

Declarar-se “anti sistema” e ao mesmo tempo depender do establishment político para vencer a eleição é tão penoso quanto risível. Fácil é maldizer o fisiologismo, complicado é render-se em articulações que mais tarde cobrarão o apoio em sinecuras. Há nisso tudo aparente esquizofrenia, que sugere paradoxos e contradições. Mas, no interior do sistema e da cultura política, isto tudo apenas revela ironias banais no Brasil.

Salvo pequenas exceções, a maioria dos candidatos faz pose, renega o fisiologismo e condena a corrupção. Não hesita, porém, correr atrás de apoios; oferece espaços e recursos à turma do Centrão e a alguns ícones do fisiologismo nacional. Pudores se dobram à realpolitke ao mais básico (e duvidoso) dos bens eleitorais, o tempo de TV durante a campanha.

Se é fato que não se governa sem vencer a eleição, o problema é que se governa muito mal quando a vitória eleitoral se dá a qualquer custo. O filme é conhecido. Contudo, nesta fase do certame, governar ainda parece ser preocupação de segunda ordem.

Por outro lado, partidos do adesismo e fisiologismo nacionais se aproximarem assim a esmo  de candidatos díspares. Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e o Plano B do PT… Difícil encontrar pontos em comum entre eles. Nada os aproxima, nem o diagnóstico da situação do país, nem os valores que carregam. Menos ainda as personalidades. Ainda assim, nenhuma aliança é descartada.

Não há intersecção entre esses nomes, estilos ou propostas. Ainda assim, partidos como  PR, PP, Dem e Solidariedade se quedam paralisados como quem está em dúvida diante de uma bifurcação na estrada. Mas, o que menos interessa é o caminho se todos levarem ao mesmo lugar: ao governo, em 2019.

O certo é que quase ninguém se coliga por afinidade ideológica ou por em busca de um consenso programático. Os interesses são menos abstratos e muito mais concretos que isso. Há quase sempre um leilão: leva a mesa quem der mais em instrumentos políticos que farão eleger maior bancada ou expressar a melhor perspectiva de vitória. Tudo muito mais simples.

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Em vista disso, líder nas pesquisas eleitorais, Jair Bolsonaro tem encontrado um paredão de dificuldades para fechar alianças e compor sua coligação para outubro. Em tese, a força eleitoral do ex capitão deveria estar acompanhada por correspondente importância política. Não está. Contraditoriamente, é a força centrífuga do sistema que o  afasta.

Bolsonaro tem se consolidado como candidato orgânico da parcela mais conservadora e reativa da sociedade. Isto lhe dá sólida base, em torno de 15% ou 20% o que, numa eleição como esta, leva à liderança no primeiro turno. Mas, ao mesmo tempo, parece ser pouco, quase nada, para o segundo turno, quando a eleição se define de verdade.

Confinado ao estilo e ao tipo de carreira política que fez, o ex capitão tem dificuldade em expandir seu diálogo e se aproximar do eleitor de centro, bem mais moderado. A limitada capacidade de ampliação o fere profundamente, formando um círculo negativo (para ele): sem ampliar, não terá coligações e portanto tempo de TV. Sem isto, não consegue ampliar.

O fisiologismo nacional é sagaz: apostar num eventual campeão do primeiro turno, que fique pelo meio do caminho no segundo é o mesmo perder a eleição de largada. Pragmáticos e voltados ao poder, políticos fazem conta: querem inteiro, não pela metade.

O caso de Geraldo Alckmin se assemelha, mas também se difere. O tucano seria quem garantiria melhor convívio ou pelo menos maior previsibilidade, depois de eleito. Contudo, como garantir hoje que decolará logo mais, amanhã, quando o horário de TV começar? O tempo pode ser curto para se desvencilhar das bolas de chumbo que traz aos pés: Aécio Neves e Michel Temer, além da inconveniência de amigos arrolados pela Lava Jato. A incerteza em relação ao ex-governador é grande. Mas, em relação aos outros também.

Ciro Gomes, menos comprometido por aliados e correligionários, é, porém, a instabilidade encarnada numa pessoa. Seus movimentos não são retilíneos nem tampouco uniformes. É ziguezagueante. Dono de uma loquacidade ímpar, “avança, para, e recua; recua, avança e  para”. Acerta e erra com a mesma facilidade com que fala; tropeços verbais também esfolam joelhos, além da sensação de segurança. Esta de xingar um promotor de fdp foi mais uma de lascar.

As circunstâncias até ajudam, mas, Ciro parece ser tão capaz de ganhar a eleição quanto de perder uma eleição ganha. Por ser menos imprevisível, entre todas as incertezas, Alckmin pode ser compreendido como a dúvida menos incerta. Obviamente, há dificuldades com a decolagem. Mas, alguma aposta, aos 45 do segundo tempo tem que ser feita. O ex-governador é leito mais sereno. Ao final, a rapaziada do Centrão pode se ver em maior perspectiva. Na eleição e no eventual governo.

Como qualquer tipo de investidor, esse tipo de político é avesso ao risco. Quer segurança, previsibilidade, se não para o país, para a manutenção do poder. Por isso, nem mesmo Lula e o PT estão descartados. Tudo depende da perspectiva que se abre. (“Haverá transferência dos votos de Lula para o Plano B?”, deve se perguntar Valdemar Costa Neto…) Política é jogo de expectativas tanto quanto a economia. E, ao final, ninguém rasga dinheiro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


PT: espírito de oposição
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Carlos Melo

Fundação do PT, Colégio Sion, São Paulo. Foto: Juca Martins.

Há muito, a aura purista do PT esvaneceu. O pragmatismo se impôs e reduziu a pó as pretensões de um partido virtuoso, capaz de dar lição de ética aos demais. Melhor que seja assim. O pior da política é a mistificação; a coragem de mostrar “a dor e a delícia de ser o que é” é, ao seu modo, uma virtude. Ademais, partidos políticos não são feitos para ser elevados à condição de anjos, nem para representar a todos numa sociedade complexa. Feitos de interesses, é normal que façam escolhas e definam as bases de seu jogo.

O certo é que com o tempo o petismo adquiriu vícios e, na prática mais do que no discurso, se confundiu com a maioria dos partidos. Assim como qualquer legenda, o PT busca o poder. E isso não é ilegítimo, o problema é não deixar claro — ou não saber — exatamente para quê. Ainda assim, a agremiação continua a revelar particularidades que a distinguem.

Pois bem, nesta quadra de tempo em que as forças políticas se mobilizam para ganhar as ruas e as urnas da eleição em todo o país, o PT tenta colocar em pé sua estratégia. Quem conhece bem o partido e tem acompanhado sua dinâmica interna nesses últimos tempos comenta com ironia que é um exagero supor que haja estratégia naquilo que o PT tem feito a esmo. Para que estratégia houvesse,  seria necessário unidade.

Pelo menos, autoridade que se imponha. Após a morte de Luiz Gushiken, a prisão de José Dirceu e de Lula, o PT já não teria tantos estrategistas assim, que merecessem o reconhecimento.

Pode ser. Mas, mesmo sem saber, sem unidade e sem clareza, o fato é que há uma alma petista. E a alma do partido vai se delineando por si própria e estabelecendo a racionalidade de sua ação. A alma e o espírito do PT estabelecem, sem saber, a estratégia do partido.

Mais ou menos como o mercado: não há comitê central, hierarquia, ordem, unidade. Há visão de mundo donde deriva uma forma de ser e estar no mundo atrelado interesses e vícios que carregam, que demonstram, “um modo de pensar” que é de quase todos, sem ser de ninguém. Mais que tudo, trata-se de uma dinâmica social que se dá nos ciclos de amizade, nas corporações, nos corredores das sedes e dos aparelhos.

O PT é desse modo. Mesmo que não saiba, possui uma racionalidade implícita que se revela atávica. Uma índole que se sobrepõe a ele mesmo e se estabelece como prática política. Escola de Samba de uns poucos ensaios que, durante o desfile, faz crer que foi tudo muito bem pensado, cronometrado. Só que não. Na maioria das vezes, é mesmo a vontade e a disposição que sobrepujam o planejamento.

Pois é nesse contexto que o PT se move também nesta eleição. Claro que a prisão de Lula é um drama para seus companheiros e para sua base social. Não se pode esquecer que mesmo detido e provavelmente impedido de concorrer, as pesquisas têm mostrado o ex-presidente com algo em torno de um terço das intenções de votos. Não é pouca coisa, numa época de desintegração.

Mas, Lula à parte, íntima e individualmente cada membro do PT pensa e projeta o futuro. E na mágica da inteiração e da sinergia dos grupos sociais, continua lá, incólume, a pretensão hegemonista do partido.  A força da vontade de manter-se de posse da banca, dando cartas para o que ainda hoje se chama, de modo talvez impreciso, de esquerda vá ao PT como a Cristo foram as criancinhas.

Nesse sentido, seria muito difícil para esse partido apoiar qualquer candidato que se distancie de seu corpo, que não tenha aprendido a ler pela sua cartilha, que não reze exatamente o seu credo; qualquer um que não encarne o “petismo verdadeiro” ainda que isto tenha se perdido ou reste apenas como a lembrança de um quadro na parede.

A unidade das esquerdas, na alma do partido, somente é entendida como unidade se à cabeça da chapa e à testa do processo estiver o PT ou um dos seus empunhando a bandeira e realizando a liturgia do partido. Ciro Gomes e Marina Silva, exatamente por não serem assim, sequer são considerados, na visão petista, como “de esquerda”.

Já Manuela d’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos, embora reconhecidos como companheiros distantes, seriam jovens, inexpressivos e incapazes de unir o campo e representar o PT. Nada serve se não for do PT. Não há verdade se não vier do PT.

Não haveria problema, é claro, se todos esses personagens, ao invés de buscar independência e autonomia, apoiassem o PT, subservientes figurantes em seu filme. Desde que não sejam protagonistas, aceita-se até o PMDB e Michel Teme. O protagonismo, numa visão dogmática do esquerdismo tradicional, só pode ser do partido ou de quem o encarna. Não há bem, nem inteligência, fora dele.

Mesmo internamente essa dinâmica se reproduz, tendendo ao gueto. No pós Lula é muito difícil encontrar alguém que ultrapasse as diferenças e os conflitos internos, que paire acima das divergências e das tendências que formam o mosaico do partido. Sem Lula, aquele que flutua acima das águas turbulentas do facciosismo, dos agrupamentos e das disputas nos corredores dos aparelhos, será muito difícil encontrar quem dê liga à legenda.

No limite, se for para ter candidato próprio é melhor que seja para não ganhar. Uma vitória obrigaria o partido a se definir, quando não há mais o escudo estrelar ou o martelo de Lula, seu Thor mítico. Não se passará o bastão de Lula à frente para quem não maneje tão bem os símbolos e as ambuiguidades, as idiossincrasias com que o ex-presidente aprendeu a lidar ao longo dos anos.

Talvez, secretamente, no fundo do coração, a dinâmica petista, inconscientemente, prefira a solidão e o conforto da oposição a um governo compartilhado, um governo que não possa chamar inteiramente de seu — mesmo que jamais tenha tido um governo verdadeiramente seu. É a oposição que unifica o PT. Uma oposição sem muita clareza, mas que exatamente pela inexatidão consegue juntar cacos tão diversos, tão dispersos e tão displicentes. Uma oposição que nunca morre; oposição de e por espírito.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O pragmático esperar
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Carlos Melo

Caipira Picando Fumo — Almeida Junior

O leitor que procure saber como se faz — “tem no Youtube”. De todo modo, no folclore do rural se diz que “tatu velhaco entra de costas”. Assim o faz para não ser pego de surpresa, exposto pelo rabo, posição que o deixa mais vulnerável. A precaução é um instinto; sua natureza. Os mais safos políticos também agem desse modo. Em momentos de perigo, cavam tocas, protegem a retaguarda, postam-se de frente de modo a melhor observar; preparam a mordida.

Em tempos normais, passada uma Copa do Mundo que não deixou memória nem euforia, as convenções partidárias estariam todas marcadas, com alianças e coligações basicamente fechadas. No mínimo, bem adiantadas. Mas, nesta eleição, tudo é diferente. Como a incerteza e perigo rondam os políticos, a prudência e o oportunismo recomendam cautela. Exercer opção antes do tempo político é erro de principiantes.

O contrário, no entanto, exige cálculos sofisticadíssimos que apontam ser este “momento de aguardar”. Esperar novas pesquisas, pesar números e posições.

Engana-se quem acredita que o móvel mais comum da ação política sejam abstrações como “o bem comum”, a “unidade” do centro, da direita ou da esquerda ou a tal da “racionalidade econômica”. As questões das mais comezinhas disputas políticas são sempre muito concretas e a racionalidade da política é distinta e particular: cada grupo avalia seus próprios interesses e, dentro dele, cada indivíduo planeia seu destino. Simples, assim e assado.

Também os palanques regionais estabelecem-se desse modo: interesses locais acima de abstrações nacionais. Primeiro, é preciso manter a província, lócus do clientelismo ordinário e fonte do poder na corte. Depois, avalia-se quais alianças nacionais trazem maiores ganhos ou menores desgastes.

Quem salta questões estaduais e atira-se direto na luta nacional é porque, sejamos francos, não tem poder local a preservar. É assim que funciona.

Na eleição mais ampla e visível, a de presidente da República, todas as questões acima são consideradas. Os riscos, as vantagens. A manutenção do status quo, a possibilidade de avançar, o perigo de perder. A frieza estratégia que é ao mesmo tempo a arte da guerra. Logo, a consolidação de alianças com candidatos nacionais depende de questões e interesses concretos, que na maioria das vezes não se prendem à abstrações ideológicas.

Pode-se, então, começar a compreender o porquê de partidos do chamado “Centrão”, que se apropriaram de recursos e poder sob Michel Temer, se aproximarem de Ciro Gomes ao mesmo tempo em que se distanciam de Geraldo Alckmin. O primeiro, um crítico mordaz daquele condomínio; o segundo, presidente do PSDB que, bem ou mal, esteve na linha de frente com eles no impeachment e no governo do MDB.

A explicação é simples. Primeiro, o bonde de Ciro parte agora e é impossível prever se haverá lugar, depois, caso vença a eleição. É melhor garantir o ticket já. Além disso, há pressões regionais, no Nordeste, para apoio a Ciro, um político da região, mais bem aceito que Alckmin, um ser de um planeta quase à parte chamado São Paulo.

Já com Alckmin, na eventualidade de vencer a eleição, a guarida é certa. Obrigatoriamente, governará com gente “de casa”, não terá esquerda ou direita a quem recorrer. Também a eficácia de um apelo ao povo, com sua limitada capacidade de comunicação, é duvidosa. Logo, as cadeiras são, ao seu modo, cativas.

Ademais, o tucano, pelo menos por ora, não anda nem desanda nas pesquisas e, até aqui, tem demonstrado pouco potencial para decolar. Dada a visibilidade que possui e a máquina que controla, Geraldo Alckmin deveria gozar de maior conforto, sobretudo em seu estado. Mas, não tem sido assim. Apostar que será diferente, fiando-se em dinâmicas do passado, é temeridade para políticos pragmáticos.

Além disso, o tucano carrega nos ombros o peso de mil desgastes: o ônus do impeachment, o ônus de Aécio Neves, de Eduardo Azeredo, de Paulo Preto, da escolha e renúncia de João Doria, do governo de Michel Temer e sua montanha de escândalos. Justa ou injusta essa fama — Alckmin tentou manter certa distância disso tudo —, em ano de eleição, o mau humor do eleitor e o ressentimento dos adversários fazem pingo virar letra.

Difícil desvencilhar-se desses sinais e dos respingos do processo recente quando há tantos erros não compensáveis por tão poucos acertos. Para reverter esse quadro antes da convenção, garantindo uma mais ampla coligação, Geraldo Alckmin precisará de um fato novo muito mais relevante que promessas.

Não basta anunciar o apoio do PSD de Gilberto Kassab, político de São Paulo. Já estava no preço, o contrário é que surpreenderia. Difícil de imaginar algo mais robusto que isto, com o impacto e no tempo certos. Assim, por mais alguns dias, na natureza que os domina, políticos a “entrar de costas”.

(No próximo artigo, a mesma lógica na esquerda e no PT.)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O Habeas Corpus e o abismo da política
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Carlos Melo

El Pintor y la Modelo – Pablo Picasso, 1963

A semana terminava irremediavelmente morta, nos lamentos pela sorte da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo. Um sentimento de perda e de mesmice tomava a sala e se misturava aos aromas do almoço de domingo. Seria o tédio, não houvesse no país tantos desacertos; não houvesse essa incapacidade de rearrumar a casa após a tempestade que, é verdade, nunca passa e vai delineando o dilúvio.

No Brasil destes dias, não há espaço para o luto quanto menos para resguardos. A emoção e a instabilidade são a lei desta quadra histórica. A notícia chegou pelo rádio, pela TV; na internet e nas notificações de WhatsApp que soavam frenéticas no celular: surpreendentemente, um desembargador de plantão resolvera acatar o Habeas Corpus impetrado por deputados petistas que pediam a liberdade do ex-presidente Lula. De um lado, a euforia; de outro, a fúria. Não havia dúvidas, o país ferveria nas horas seguintes.

O episódio deixa, porém, algumas certezas: 1) o vale tudo para livrar os políticos, de qualquer agremiação, das garras da Lava Jato está posto sobre a mesa; 2) o Poder Judiciário, tomado pela política, entrou em pane, perdendo a capacidade de arbitrar conflitos e, portanto, a previsibilidade; 3) um perigoso e desconfortável ambiente instável será a lógica desta eleição. O país costeia o abismo.

Ao tentar por mais uma vez libertar o ex-presidente Lula de sua cela na prisão de Curitiba, o PT buscou o caminho das pedras trilhado também por tucanos e emedebistas, volta e meia libertados por ordem de ministros do Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, há no STF uma prática que tem se estabelecido como normal, em que ministros autocraticamente e ou turmas de ministros deliberam Habeas Corpus ou anulam prisões ao arrepio de posicionamentos antes estabelecidos pelo Plenário da Corte.

Pode-se afirmar que há no STF não apenas duas turmas, mas, pelo menos dois times — ou duas bancadas que se contrapõem. Seus protagonistas são, de um lado, Gilmar Mendes e José Antônio Dias Toffoli, mais críticos da Operação Lava Jato e mais condescendentes com os réus; de outro, Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin, mais duros e favoráveis ao tratamento que tem sido dispensado pela Lava Jato a seus réus.

(Quem está certo, só os valores ou a torcida de cada um serão capazes de dizer)

Pois, em busca de um mesmo ambiente e circunstâncias, deputados do PT recorreram ao plantão do Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul (TRF-4) na busca de um genérico de Gilmar Mendes. Em sentido oposto, o desembargador Rogério Favreto, com o mesmo princípio ativo, talvez avaliasse libertar o ex-presidente. Jus Sperniandis, direito de reclamar. Mas, é claro, foi também um movimento político calculado para criar um fato.

Com alguma sorte e desatenção, o HC poderia libertar Lula e reestartar a eleição. Mesmo não sendo candidato, o ex-presidente é capaz mobilizar e articular a política de um modo que o PT é incapaz de fazer. Quando menos, a própria negativa aguçaria o discurso de vitimização, demonstrando que, em se tratando do petista, o rigor parece maior.

O frenético vai-e-vem de despachos evidenciou o desgaste das instituições de um modo no geral, do Judiciário, em particular. Também obrigou o juiz Sérgio Moro a se expor, agindo para retardar a ordem de Favreto e ganhar tempo até que demais membros do TRF-4 frustrassem os aliados de Lula.

Foi, enfim, uma tarde de domingo sem futebol, mas de Ópera Bufa; confusão que explicita os desacertos e os problemas do país. E agrava-se o conflito entre as torcidas políticas.

Adversários de Lula denunciam as relações de Dias Toffoli e, agora, Favreto com o PT. Mas é verdade que se calam quanto à proximidade — em fotos, festas e histórias — de Sérgio Moro, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes com PSDB e MDB. Acusações de “golpismo” cruzam os céus do país. Aponta-se dedos e liquida-se a possibilidade de diálogo, base da política. O país não sai do buraco porque não consegue parar de cavar a terra sob os pés.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.