Blog do Carlos Melo

O fim do começo e um samba de Paulinho da Viola
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Carlos Melo

Guernica, por Millôr Fernandes.

O país vive mais um daqueles momentos que, supunha-se, teriam ficado nos livros de história, os quais, pelo jeito, pouca gente lê. Trata-se de mais um daqueles períodos de desacertos, governados pela insensatez e pela incapacidade de diálogo; estimulados por uma incompetência acelerada, uma histeria progressiva. Circunstâncias que denunciam a desigualdade e a dissintonia de informação, verdades e valores entre os indivíduos.

Mais um período difícil que, também, figurará nos livros de história do futuro que, insiste a esperança, as novas gerações lerão e aprenderão, tomando consciência e conhecimento da fragilidade dos pactos sociais, escapando desses ciclos de humores alternados que, ora enxergam em qualquer liberdade a anarquia; ora, na procura de toda ordem, o Santo Ofício — como demarcou, certo dia, Sérgio Buarque de Holanda.

Enfim, de acordo com as pesquisas, a eleição chega à sua última semana praticamente definida, com a vitória de Jair Bolsonaro. A distância do deputado para o petista Fernando Haddad gira em torno de 18 pontos percentuais e, ainda que o Brasil seja o “país dos fatos improváveis”, é, com efeito, pouco provável que não resulte na eleição do ex-capitão. A eleição chegará ao fim, mas o conflito talvez se encontre apenas no fim do começo.

O cenário de continuidade parece se armar: Fernando Haddad e seus partidários tentam ainda uma última reação, se abraçando à matéria publicada na Folha de S. Paulo, que dá conta de um esquema entre empresários aliados a Bolsonaro, que teriam financiado a difusão de Fake News, pelo WhatsApp, o que a lei eleitoral veda.

São movimentações de última hora que, independente de gravidade, tendem a influenciar pouco a maioria que parece já ter se definido por Jair Bolsonaro. Seus eleitores mostram-se, mais que tudo, contrariados com o PT e essa contrariedade é, hoje, a maior força política do país, o antipetismo. Provavelmente, apenas o PT não percebeu isso.

Jair Bolsonaro e seu grupo, evidentemente, negam envolvimento com o caso. E a Folha, para além da denúncia, ainda não apresentou provas mais contundentes que hipóteses baseadas no ditado italiano “se non é vero, é ben trovato”. É do conhecimento geral que milhões de Fake News, com efeito, inundaram o WhatsApp e há, nas redes, vídeos de diálogos de empresários admitindo o dispêndio de recursos com a campanha bolsonarista. Ainda assim, nada disso pode ser entendido como algo mais que indícios, e até aqui não compõem prova.

O caso seguiu para avaliação e manifestação do Tribunal Superior Eleitoral e para  investigação da Polícia Federal. O mais provável é que não dê em nada, até o dia da eleição pelo menos. Mas, o certo é que ficará guardado como um peso sobre o novo presidente e será, inevitavelmente, explorado por sua oposição. É do jogo. E fossem os outros os perdedores, não fariam o contrário.

Todavia, fatos assim são de mau presságio. Mais uma vez, o derrotado tenderá a não aceitar o resultado do pleito, como foi o caso de Aécio Neves, em 2014. Configura-se uma situação que acalentará a continuidade da crise, o que prejudicará a necessária pacificação do país. Mais uma vez: o fim da eleição será apenas o começo de uma crise ainda maior?

Ações de um lado despertarão a reação do outro. Quando as instituições mostram-se incapazes de conter ânimos, a tentação pelo uso da força é quase irrefreável. Dá-se a esse processo político e social o nome de “escalada”. Num otimismo tanto forçado quanto necessário, espera-se que o país não chegue a esse ponto. Ainda assim, é preciso ter conhecimento do potencial do contexto.

Acresce a isto que, no furacão da crise política, será muito mais difícil manter o foco na economia. A dispersão de energia dificulta a boa articulação e o andamento de reformas. E enquanto a questão econômica não for aplacada, a crise política não será mitigada. É um círculo vicioso. O mesmo “não ata nem desata” que envolve o país desde 2014 e que nos trouxe aqui.

O futuro governo, qualquer que seja, terá muitas dificuldades, pois os dois candidatos e as circunstâncias que os envolvem não parecem dados nem à humildade da derrota, nem à grandeza da vitória. O discurso de “unidade nacional” será palavras ao vento se não começarem a atuar políticos hábeis com capacidade de diálogo e negociação entre os campos políticos que se formaram.

O país precisará de bombeiros, que isolem focos e anulem incendiários. Espera-se que o discurso da vitória do eleito, no domingo, seja de bom senso, boa vontade e sabedoria, ouvindo o outro lado; compreendo a diversidade social e política do país como natural e legítima; que aceitos seus argumentos, “não altere o samba tanto assim”. Dos derrotados, que façam “como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


João Doria e a fetichização do PT
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Carlos Melo

O MURO VIROU GALERIA – Trechos conservados do muro se tornaram galerias oficiais ou extra-oficiais de arte a céu aberto. Uma das imagens mais marcantes preservadas no muro foi a imagem do beijo entre os líderes Erich Honecker (Alemanha Oriental) e Leonid Brezhnev (URSS) Reprodução/Wikipédia

É possível que o debate promovido pela TV Bandeirantes, entre João Doria e Márcio França, ocorrido na noite de ontem, tenha passado despercebido pela maioria das pessoas. A atmosfera contaminada pela polarização entre antipetistas e antibolsonaristas, na eleição nacional, suga a atenção e transforma as eleições para os governos em coadjuvantes.

Essa pouca importância não é fortuita. Até porque, por parte de um dos candidatos, trata-se de transformar a disputa estadual num pastiche da eleição presidencial. É uma pena, pois dada a importância de São Paulo, seria fundamental que no estado se instalasse um foco de lucidez e moderação, uma janela para o futuro. Seria importante, só que não.

O embate paulista pouco colabora para atenuar o clima de disputa acirrada e evitar os chutes acima do joelho e abaixo do umbigo entre os adversários. O analista tenta andar no fio da navalha, encontrar aspectos positivos, mas chega o momento em que é impossível não pender, se não no elogio, pelo menos na crítica para um dos lados.

Inegavelmente, João Doria não veio ao mundo para conciliar, promover diálogos, construir consensos e o bem-estar geral, papel primordial da política e do político. A personalidade e a sobranceria lhe dão um estilo nada agregador. Candidato 24 horas por dia, desde 2016, não se furta à provocação e não hesita em abraçar o irracionalismo mesmo que isso signifique, no longo prazo, atear fogo às vestes — como é o caso de sua rejeição de 53%, na Capital, de acordo com o Ibope.

Explora o desgaste do PT, menos por convicção do que por conveniência. É um cruzado, um Napoleão de guerra imaginárias, tentando liquidar hoje o inimigo que, pelo menos em SP, morreu ontem. E elimina assim o amanhã, pois queima pontes num país que precisa reconstruí-las.

Na eleição paulistana deu certo: em 2016, mobilizou 1/3 do eleitorado contra o partido do prefeito adversário da ocasião, Fernando Haddad. Fechou essa parcela em torno de si, sendo também beneficiado pelo alto grau de abstenção, nulos e brancos naquela eleição. Venceu no primeiro turno, um feito se tratando da capital.

De fato, obteve a maioria dos votos válidos. Mas, de verdade, de verdade, quem levou o caneco naquela ocasião foi o “não voto”. Enquanto Doria obteve 33,74% do eleitorado, a turma do Lava as Mãos somou 33,84%. Regra do jogo, foi legitimamente conduzido ao cargo no qual manteve-se no palanque, numa campanha de auto impacto que ao final prejudicou muito o padrinho, Geraldo Alckmin.

Mas, avaliou ter descoberto um grande filão: bater no PT. Na eleição deste ano, passou a maior parte do primeiro turno atacando um inexpressivo Luiz Marinho, candidato de Lula em São Paulo. Não colou do mesmo modo que há dois anos; Marcio Franca e Paulo Skaf amealharam grande parcela do eleitorado e levaram a eleição para o segundo turno.

Estabelecida a realidade de que, desta vez, não teria a mesma sorte de 2016 e que sua vitória não seria a barbada que imaginou, o ex-prefeito se viu na obrigação de debater cara a cara com um adversário hábil, de modo menos dispersivo e mais exigente do ponto de vista propositivo, característica da eleição de segundo turno.

Sem capacidade de ampliação, abriga-se na zona de conforto, apresentando-se mais uma vez como pretenso juiz e verdugo de Lula, de seu partido e, agora, de toda a esquerda. Lugar, no entanto, já ocupado com sucesso por Jair Bolsonaro. Por conta disto, viu-se obrigado a grudar no ex-capitão de modo constrangedor para a tradicional vaidade paulista. “Larga o Bolsonaro, João”, gritou França durante o debate.

Quem desatento ou desinformado ao ouvir seu discurso se imaginará no contexto da Guerra Fria; acreditando que há em Moscou um Josef Stálin, que um muro em breve será erguido na Alemanha, que Fidel Castro desencaminha os jovens da América Latina, que Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola estão prontos para o assalto final ao poder, no Brasil. Se muito disto já era delírio no passado, o que dizer de hoje?

Mas o que fazer, se PT não há mais no estado? Nominar um inimigo de ocasião que faça as vezes do ausente. Para isso, esforça-se em transformar Márcio França num perigoso esquerdista dado o simples nome de seu partido. A legenda de França é tão socialista quanto o PSDB, hoje, é socialdemocrata. A caricatura que procura pintar, “Márcio, o vermelho”, faz pouco sentido.

Mas, a questão nem é esta. Pior é a importância que São Paulo poderia tomar no debate nacional e que está sendo desperdiçada por essa caricatura de Guerra Fria.

O PT é merecedor de críticas, não admitir isto talvez tenha sido o maior equívoco de Fernando Haddad. Mas, transformar o partido num fetiche, cultuando-o pelo avesso, não é apenas oportunismo. É, sobretudo, retirar São Paulo de um sério e fundamental debate para o país: a necessidade de recompor a unidade, passada a tempestade nacional, reunindo os cacos, após a mais agressiva e destrutiva eleição federal.

Transformar o estado em trincheira ideológica ilusória contra o petismo e esquerda em geral apequena o debate e o estado. Isto, Jair Bolsonaro já faz e hoje é dele a supremacia neste campo no país e em São Paulo, em particular. Restaria aos paulistas colocarem o debate em outro patamar. A redundância de personagens e temas é, porém, cansativa. Márcio França bem que resvalou no tema. Mas, a marqueteira fetichização do PT, levada ao paroxismo, não permitiu que o assunto proliferasse.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Visões e previsões do futuro
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Carlos Melo

Pasado, Presente, Futuro. Pintura de Ernesto Rancaño, Cuba. (Imagem em : www.todocoliccion.net)

Com a eclosão dos debates, a deterioração das relações pessoais e explosão dos ânimos neste segundo turno, além da polarização política normal há também divergência quanto as perspectivas do país. Uma parte das pessoas avalia a situação como grave-gravíssima, com risco ao sistema democrático. Outra, enxerga nisso tudo um grande exagero, as instituições estariam sólidas e o sistema de pesos e contrapesos nacional é imune qualquer que seja o resultado da eleição.

O caminho, como sempre, se fará andando, sem saber ao certo aonde levará. A incerteza é a coisa mais certa entre todas as coisas no Brasil. O otimismo é sempre melhor e cai bem aos ouvidos, desperta suspiros de alívio e chama a compartilhamentos. Já o pessimismo é desagradável; obriga a pensar e pede contenção, moderação para que sua cisma não se efetive como profecia auto realizável. Ao pessimista sempre valerá a pena estar errado. Já o otimista, quando erra, vê à sua frente as armadilhas da imprevidência ajudou a montar.

Mas, enfim, há que se admitir que os otimistas deste tempo brasileiro trazem uma boa notícia e, de certo modo, dizem tudo o que se quer ouvir: nada de ruim ocorrerá e a vida seguirá seu rumo, seja quem for o próximo presidente, sobretudo, no cenário Jair Bolsonaro. É bom viver nesse conforto. O cidadão lê e vai dormir pacificado. Quem não gosta de sentir o futuro em calma, a paz ou pelo menos a segurança de conflitos contornáveis pelos mecanismos da democracia representativa e das instituições de controle? Não haveria, assim, lugar melhor para criar os filhos.

A má notícia é que esse grupo tem errado sistematicamente, embora não reconheça e nem reavalie tudo o que disseram seus membros no passado.

Primeiro, acreditaram que o impeachment seria um passeio, atribuindo quase que exclusivamente à Dilma Rousseff os males do sistema político. Apostaram na capacidade e na experiência do hoje esquecido Michel Temer, o craque do meio-de-campo do Congresso Nacional. Secundado por raposas do PMDB, como Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Wellington Moreira Franco e Eliseu Padilha, nesta visão, o governo controlaria o Parlamento, aprovaria as reformas e selaria um grande acordo, “com supremo e com tudo”.

Esse mesmo grupo se animou com João Doria, após sua vitória na eleição paulistana, em 2016. O gestor não político revolucionaria a política nacional, um Emmanuel Macron tropical, lembram? Tudo o que fazia havia as luzes dos gênios, até mesmo na arrogância. Declarar guerra ao PT, o cachorro morto de então, ou atropelar o padrinho, Geraldo Alckmin, era tão “corajoso”, quanto inevitável quebra de ovos para fazer o omeletes na eleição presidencial.

O fracasso do ex-prefeito os levou a considerar as chances de Henrique Meirelles. Afinal a qualidade dos membros de sua equipe econômica, técnicos independentes da política, levaria a economia à acelerada recuperação. Diziam que, em maio deste ano, o Brasil estaria “bombando”.

Superada a fase ilusória, contentaram-se ao ver Geraldo Alckmin se cercar do Centrão. O magnífico tempo de TV asseguraria a vitória eleitoral ao tucano e, assim, a realização do mercado. Com Lula na prisão, o PT estaria morto. Jair Bolsonaro não passaria de uma espécie de Celso Russomano nacional, que derreteria tão logo começasse a campanha.

É claro que, hoje, tudo se explica pelo inexplicável: cisnes negros teriam invadido o país. A delação/armação de Joesley Batista e a facada que quase liquidou Jair Bolsonaro são muletas para qualquer tombo. Não saibam que no Brasil dos últimos anos não há cisnes brancos? Aqui todos os marrecos e assemelhados são mesmo pretos.

Para o grupo chamado pessimista, nada seria exatamente assim, ou pelo menos faltava evidências, para além da torcida, de que pudesse vir a ser assim. As desventuras em série desautorizavam o otimismo e o fundo do poço aqui é só figura de linguagem, pois não há fundo. O Brasil gigante adormecido não estaria definitivamente fadado ao sucesso e à glória — a única “glória” que deu foi mesmo na evocação do Cabo Daciolo.

O fato é que há espaço para dúvidas e receios: o favorito na disputa presidencial, Jair Bolsonaro, à parte do discurso de seus entusiastas, é indiscutivelmente uma novidade da qual se sabe muito pouco quase nada. Em se tratando de Bolsonaro, o que pode ser previsto ou imaginado? Por não haver experiência anterior, simplesmente não se conhece o padrão de comportamento seu e de seu grupo e apoiadores, em um contexto de poder e euforia com a vitória eleitoral. Pelas afirmações dos últimos anos, se não a democracia pelo menos várias liberdades individuais estariam em perigo. Não há evidência, além da fé, de que não estejam.

O mesmo se dá com o PT. Em sua interminável pretensão hegemônica, a legenda se recusa rever seu passado, expiar seus erros e espantar temores de eleitores mais precavidos e exigentes. Na inflexão que forçosamente fariam ao centro neste segundo turno, os petistas parecem acreditar que os apoios virão por gravidade. Em Fernando Haddad desaguariam todos os votos por simples falta de opção. Ora, ora, ora… O voto nulo, o “ligar o f…” e, para alguns, a Europa serão sempre opção. Sem concessão, não haverá compromisso.

No mais, no que uma vitória do PT garantirá automaticamente que seus adversários acatem com tranquilidade o resultado das urnas? Ao inverso, a pergunta é igualmente válida.

Infelizmente, para além do “jogo de contente” de Poliana, não é possível provar que as instituições do país de fato funcionam. Até porque, se funcionassem, o país não teria chegado ao ponto em que está. A perspectiva de que funcionem como freios ao próximo presidente é uma aposta. Respeitável, mas apenas uma aposta, que, oxalá, esteja correta.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Distensão rápida, urgente e madura
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Carlos Melo

Bombeiros (Foto: Reprodução/Internet)

Sociedade é conflito; é natural que os vários interesses se confrontem. Para negociar o conflito, a humanidade inventou a política. A política é a arte do diálogo, na busca de um consenso possível. Quando não é possível, a política se transforma num instrumento de conquista, manutenção e ampliação do poder, a capacidade de impor aos outros a nossa vontade. É pela política que se altera o status quo, que outros grupos se fortalecem e renovam o poder. Nada disso deveria surpreender, por óbvio que é.

O grande desafio é submeter esse conflito e essa luta às regras do jogo, tornando o jogo civilizado e previsível. De forma que o consenso ou o poder estabelecem as leis e são as leis que definem o jogo. O grande salto humano foi descobrir que tudo isto pode ser feito de maneira natural. Que diferenças são naturais, que a alternância de poder é natural, que a diversidade é positiva e não negativa. Que a civilização é a negação da barbárie e a isto se dá o nome de democracia.

O maior ativo de um país é a qualidade da sua democracia.

No Brasil contemporâneo, a diversidade já não é vista como natural, estabeleceu-se o que tem sido chamado de polarização. O problema não é a polarização e nem o conflito. Mas, a intolerância que transborda de uma relação sem mediação da política. Como num jogo, na democracia, não há inimigos, apenas adversários circunstanciais que formam coalizões também circunstâncias que se alteram a cada mudança da realidade.

A qualidade de sua democracia é o grande nó do país: a política já não é o software que percebe as transformações e rearticula alianças. A unidade se partiu e, no curto prazo, será muito difícil colar.

Nas ocasiões de conflito, operadores da política agem como bombeiros, apagando focos de incêndio espalhados pela sociedade. Bombeiros são imprescindíveis. Em meados da década de 1970, durante o regime militar havia, naturalmente, polarização. Mas, ao contrário de hoje, uma geração de políticos conciliadores, quase provenientes do antigo PSD agia como bombeiros. Algodão entre cristais.

A política não pode perder essa perspectiva nem em seus piores momentos. Arquitetos de pontes e atalhos, canais de comunicação e bombeiros serão sempre fundamentais.

O problema da situação em que vivemos é que esse tipo de político anda escasso no mercado nacional. Procura-se um, com lanterna em plena luz do dia. Quem possuiria trânsito de modo promover pactos mínimos entre os lados? Quem evitaria que polarização na prática se configure como vetos cruzados? O fato é que o diálogo se rarefez até mesmo nas mesas de jantar. Onde tudo se perdeu?

Difícil dizer sem apontar culpados. Foi mesmo uma marcha da insensatez da qual os vários partidos e personagens políticos participaram. Na última eleição, por exemplo, nem a oposição aceitou o resultado e nem o governo fez esforço para reconhecer a oposição como legítima. Aécio Neves foi incapaz de ligar para Dilma Rousseff parabenizando-a pela vitória – ao contrário, contestou o resultado. A inábil Dilma, por sua vez, mordeu a isca. Em seus discursos de vitória e de posse, negou-se a citar e reconhecer a oposição e suas lideranças.

Fecharam-se para o diálogo e, ao final, uniram-se num abraço de afogados.

Mas, é possível que o vínculo mínimo da política, o tênue fio do diálogo, tenha se perdido até mesmo antes: a principiar pela narrativa de “herança maldita” que Lula atribuiu ao antecessor que lhe ofereceu o processo de transição mais civilizado da história do país. Ou até antes, provavelmente antes, num desencontro qualquer na disputa pelas cadeiras de governos e prefeituras.

Não importa quando, o fato é que neste momento não há brechas nos muros que foram erguidos na política e na sociedade; não há canais comunicantes. Saídas estão sendo bloqueadas onde não há extintores de incêndio. Se alguém gritar fogo… A mais urgente tarefa é definir bombeiros políticos, operadores da capazes de criar canais de contato entre os lados. Distensionar, como se disse no passado, antes que os músculos retesem irremediavelmente. Um distensão rápida urgente e madura.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O “fenômeno” Bolsonaro e o segundo turno
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Carlos Melo

Não foram poucos os analistas que afirmaram que Jair Bolsonaro seria uma espécie de Celso Russomano da política nacional. Quando fosse para valer, diziam, o candidato do PSL seria desconstruído, dando espaço a profissionais do PT e do PSDB. Assobiam, agora, disfarçando a incompreensão que tiveram do personagem e das circunstâncias que o envolvem no mundo e no país.

Classificarão o processo como “fenômeno”, imprevisível e inexplicável até que acontecesse. Mas, será desculpa. Muito de nós acompanhamos esse processo emocional com menos frieza e distanciamento que o recomendável. Ainda assim, há tempo para compreender o que de fato se deu, de modo a não cometer novos equívocos. Viver é se corrigir.

No começo de julho, argumentei neste Blog (aqui) que Bolsonaro tinha grandes chances, sim. Suspeitava que, por si só, estrutura partidária e tempo de televisão poderiam ser insuficiente aos seus adversários. Logo de arranque, Bolsonaro já se beneficiaria por reocupar um terreno eleitoral que sempre existiu, a direita brasileira em sua forma mais radical e reativa. Espaço que foi do integralismo, da UDN, da Arena, do PDS e de Paulo Maluf, no passado.

Mas, seria incorreto — e presunçoso — afirmar que apenas isto o levou ao segundo turno. Tampouco se pode atribuir ao atentado que sofreu a responsabilidade de trazê-lo até aqui. Assim como à delação de Joesley Batista que complicou a vida de Michel Temer, à facada será classificada como “Cisne Negro”, algo raro e imprevisível. País de Cisnes Negros, o Brasil, não?

O atentado ajudou apenas à medida que serviu para afastar Bolsonaro dos debates, onde provavelmente se comunicaria exclusivamente com sua base, mas se daria muito mal no diálogo com os novos setores que se incorporaram em sua campanha quase que por inércia. Quem aderiu ao ex-capitão não o fez por solidariedade, mas por uma série de outras razões que precisam ser compreendidas.

Por exemplo, a errática dinâmica política adotada por seus adversários, que também colaborou para seu sucesso. Ao demonizar o PT, Geraldo Alckmin esqueceu de valorizar a si mesmo, potencializou o antipetismo e o alinhou a Bolsonaro, entendido como o maior antagonista do partido de Lula.

Como o personagem de Jean-Paul Sartre, em “A Náusea” — que ao ser indagado como fizera um nobre moribundo crer em Deus e aceitar a extrema unção, respondeu: “calma lá, eu o fiz ter medo do Diabo” –Alckmin agiu em relação ao eleitor. Antes de qualificar-se, preferiu desqualificar o adversário. Erro crasso que  custará levará o partido ao raquitismo, sobretudo, diante de eventual infortúnio de João Doria, no segundo turno da eleição paulista.

Fernando Haddad e o PT também escorregaram. Feio. Ao deixarem “Bolsonaro como problema do Alckmin”, retiraram o ex-capitão do foco de crítica da eleição, que praticamente passou ao largo do desgaste natural de quem lidera. Com medo do crescimento dos tucanos, deixaram o candidato do PSL livre de marcação. Esqueceram de monitorar o processo, vendo prosperar seu mais radical inimigo. Bolsonaro, naturalmente, achou ótimo.

Claro que no segundo turno essa facilidade desaparecerá. Ao mesmo  tempo em que os procurarão o centro político, buscando amenizar suas imagens e reduzir rejeições,  os finalistas trabalharão para inviabilizar o adversário. Ambos terão o mesmo tempo de TV, e igualmente sabem mobilizar as redes sociais. Sendo assim, o certo é que neste segundo turno a campanha será eminentemente destrutiva. A emoção aumentará ainda mais; a tênue unidade nacional ficará sob tensão.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Números do Ibope esfriam entusiasmo do PT
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Carlos Melo

Homem com Violino – Lasar Segal

Pesquisa Ibope divulgada na noite desta segunda-feira caiu como tonéis de água congelada sobre o entusiasmo do PT. Jair Bolsonaro, à parte da avalanche de críticas que recebeu, cresceu e foi a 31% das intenções de voto. Fernando Haddad, não obstante o desgaste de seu adversário, estacionou nos 21%. Para além da frieza dos números, virão, agora, torrentes de explicações, “veja bens” e “considerandos”. Juízos de valor, torcidas e chutes; muita incerteza, pouca segurança.

O fato é que Bolsonaro cresceu e Haddad não. Buscar explicações — podendo acertar e errar — é parte da dor e da delícia do ofício. Vamos, então, ao risco:

A primeira possibilidade que vem à mente consiste na hipótese de que o antipetismo tenha definitivamente se alinhado em torno de Jair Bolsonaro. Mesmo no hospital, nenhum outro candidato soube capitalizar tão bem esse símbolo, hoje a maior força política do Brasil — ao lado do antibolsonarismo. O certo é que nenhum outro passou maior energia e radicalidade no propósito de derrotar o PT.

Nesse sentido, o candidato do PSL ganhou propaganda gratuita, sobretudo, da campanha de Geraldo Alckmin. Na vã esperança de arrancar votos do ex-capitão, tucano destinou seu enorme tempo de TV para informar ao eleitor que Bolsonaro, na dianteira, enfrentaria o PT e que teria dificuldades para vencê-lo.

Mensagem captada: Bolsonaro precisaria de reforço. Um alinhamento ágil do antipetismo, que não vê em Alckmin energia para encarar o PT, pode desse modo ter-se dado em favor do candidato do PSL.

Além disso, como demonstrou pesquisa dos professores Márcio Moretto e Pablo Ortellado, as manifestações ocorridas no sábado, a se basear seção edição paulistana, são, no final das contas, expressões da elite de esquerda. Pelo menos por enquanto, a crítica de gênero ao deputado não chegou às mais pobres e desengajadas, tendo Bolsonaro, inclusive, crescido 6% entre o eleitorado feminino.

Mas, é claro que os erros e as limitações de Fernando Haddad colaboraram para o resultado demonstrado pelo Ibope. Chama atenção que na semana que passou tanto a presidente do PT quanto o ex-ministro José Dirceu tenham se manifestado de modo contundente e nem por isso Haddad tenha avançado.

Ela, retomando a polêmica, que antes Haddad dera por superada, a respeito do indulto de Lula. Ele, Dirceu, com declarações despropositadas de que o PT mais que ganhar a eleição tomaria o poder. Manifestações que não trouxeram um único voto ao candidato, pelo contrário, trouxeram necessidade de dar explicações, o que, num eleição, implica desgaste.

Esse episódio, talvez, indique que Haddad tenha chegado ao limite do eleitorado de esquerda petista e do “lulismo sem Lula”. Esquerda com a qual ocupa seu tempo em atividades para convertidos que, de um modo ou de outro, votarão nele.

Nos debates havidos na semana que passou, o desempenho de Haddad foi sofrível. É certo que, na ausência de Bolsonaro, o petista tenha virado alvo de todos os candidatos. Mas, sua capacidade de reação foi limitadíssima. É compreensível que esgueire-se do enfrentamento direto com Ciro, Marina e até Geraldo Alckmin, em busca de apoios e votos no segundo turno.

Ainda assim, a imagem que passou foi de imobilismo. Obviamente, pouco para quem pretende ser presidente da República.

O fato é que Haddad pode ter piso alto e teto baixo, um pé-direito que faz o candidato curvar-se. Ser apenas o candidato de Lula o coloca no segundo turno, mas parece claro que não bastará. Sem ampliar diálogo para o centro, verá Bolsonaro, a partir da direita, confiná-lo á esquerda.

Além disso, há eleitores com carradas de razão para não votar em Bolsonaro, mas que não enxergam um único motivo, além de deter o ex-militar, para eleger Haddad. Eleitores ressentidos com fatos e práticas que envolveram o PT e com que o PT se envolveu nos últimos anos — o que deve ser aguçado com a divulgação de parte da delação de Antônio Palocci, que, coincidentemente, Sérgio Moro liberou a uma semana da eleição.

Sem algum tipo de mea-culpa, o PT não se reconciliará com esse eleitor. Esse eleitor e o eleitor de Centro, assustados, sim, com Bolsonaro, têm igualmente restrições ao PT. E enxergam não como a democracia seria salva a partir dos petistas irredutíveis em seus erros. Embora o comando da campanha de Haddad pareça resistir ao óbvio, o fato é que o eleitor que descarta Bolsonaro não se aproximará do PT por mera gravidade.

Mais que o lulismo e o petismo, Haddad precisaria expressar a Política, o que não tem feito. A fase de “Bolsonaro é problema de Alckmin” passou. Errar no timing é o maior erro de um político.

Na reta final do primeiro turno, esse eleitor ainda teria Ciro Gomes como opção, ainda que, aparentemente, o cenário tenha se cristalizado. O candidato do PDT, a propósito, percebeu isso e não à toa vem instigando Fernando Haddad e o PT debate a debate. No segundo turno, o não voto, o voto nulo e a abstenção, além da rejeição não bolsonarista ao PT, poderão favorecer o ex-capitão, que, antes mesmo de vencer a eleição assistirá de camarote Fernando Haddad perde-la.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A polarização e suas circunstâncias
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Carlos Melo

''O Abraço de Amor do Universo, a Terra (México), Eu, Diego e o Senhor. Xólotl'' . Frida Kahlo, 1949.

É claro que o assunto é a reta final deste primeiro turno. Ao que tudo indica, a disputa ficará mesmo entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Qualquer coisa fora disto será muito surpreendente. Algo como se Cristo chegasse à porta da cripta e ordenasse: ''Lázaro, levanta-te e anda”. Passaríamos, então, — ou passaremos — os próximos 40 anos para entender o que aconteceu na última semana da eleição. E isto só não é impossível porque, como se sabe, no Brasil as vacas tossem.

Mas, estando a parada entre Bolsonaro e Haddad, muitos elementos parecem se confirmar: o candidato do PSL é muito mais que um golpe de sorte, momentâneo, um Celso Russomano. Bolsonaro é um fenômeno eleitoral, mas também político. Gostem ou não, ele tem raízes na sociedade brasileira. Há elementos que não apenas aderem, mas que, na verdade, produzem o seu chamado “mito”.

O “mito” se sustenta numa visão crítica radical e sectária, que reage a um sistema político que, convenhamos, colapsou. Uma democracia liberal em crise, mergulhada num ambiente de escândalos recorrentes e declínio de lideranças políticas. Não há apenas uma crise de paradigma senão a crise como paradigma.

No mais, trata-se de um segmento social multifacetado, num mosaico de razões que, de algum modo, convergiram para Bolsonaro como um feixe de descontentamentos, medos e oportunidades — ou oportunismos. O tal do “mito” não se explica em si, mas por um encadeamento de circunstâncias que o favoreceram e podem favorece-lo ainda mais.

Pois bem, há entre seus adeptos e devotos uma parcela que é mesmo conservadora nos costumes e reativa ao que não lhe parece normal no mundo moderno onde os costumes são sumariamente abandonados. Antes, é o mundo moderno que lhe parece anormal e que precisaria ser “corrigido” pela mão forte ou de deus ou de um representante seu, na terra. São pessoas avessas à diversidade, a qualquer fenômeno que escape de um padrão entendido como correto e seguro.

Não se compreende, por exemplo, que todo ser humano traga em si uma orientação sexual própria, particular e que possa se expressar por esse íntima natureza. Antes, acredita-se tudo se tratar de estímulos do mundo exterior: a suposta ação de minorias militantes, incentivos da mídia, cartilhas produzidas por governos, os tais “Kits Gays” que, nessa visão, desvirtuariam as crianças.

O mesmo serve para a emancipação e liberação femininas, entendidas como desagregadoras da família tradicional, retirando homens do confortável lugar de poder. Mulheres, então, deveriam “ganhar menos” como castigo e aviso de que voltem para casa. A maternidade é entendida como “custo” — afinal, trata-se apenas da perpetuação da espécie e continuidade do mundo.

Claro que se trata de uma visão que entrará em choque com seu oposto, produzindo um conflito inevitável. Num sistema político ajustado e eficiente, os embates em torno dessas diferenças se dão no Parlamento, o lugar mais apropriado para que tudo se mantenha sob algum controle e não exploda numa guerra de verdade, nas casas, nas redes, nas ruas.

Submetidos aos limites de um código e um foro parlamentares, conflitos assim seriam absolutamente normais. Os embates havidos, por exemplo, entre o deputado Bolsonaro e seus colegas Jean Willis e Maria do Rosário fariam parte da democracia e tudo se resolveria na esfera política de instituições capazes de estimular o respeito e conter a intolerância. O diabo é quando se perde o controle e a discordância deriva para a discórdia.

Em torno de Jair Bolsonaro também se localizam críticas, temores justificados, medos e histerias em relação a seu antípoda maior, o PT. Juntam-se aí avaliações em relação ao histórico daquele partido tanto quanto à corrupção, como em relação ao desempenho econômico de seus governos.

Segmento que poderia se articular em torno de Geraldo Alckmin, por exemplo. Mas que se definiu pelo ex-capitão por, pelo menos, duas razões. A primeira, os casos de corrupção que igualmente corroem os tucanos: a complacência com Aécio Neves e que tais, a inegável proximidade com o governo Temer e a aliança com o Centrão.

O segundo ponto é que do ponto de vista da crítica ao perfil econômico e político do PT, para esse grupo, o PSDB ficaria ao meio do caminho. Pois, quando o que se quer é o liberalismo — mesmo no feitio pouco esclarecedor de um “Posto Ipiranga” —, os prepostos de Bolsonaro são mais radicais e incisivos ao prometerem ações e reformas com as quais os tucanos são incapazes de se comprometer.

Desses pontos de vista — seja conservador, ético-político ou econômico —, o ex-capitão conseguiu se impor como a proposta mais radical para setores que entendem ser necessário, sim, radicalizar. Alckmin passa a ser visto como um “Bolsonaro de baixíssimo impacto”, um conservador e liberal-econômico deit para quem escolheu fazer regime hiper calórico.

Isso, sem contar, é claro, grupos desde sempre treinados a farejar o poder: quadros preteridos por tucanos e sequer cogitados por petistas, que enxergam o momento que pode ter chegado. E nada é mais incontível do que o oportunista que sente que seu momento, de algum modo, chegou.

Há de tudo um pouco, dos dois lados, é verdade. E assim, também a centralidade que Fernando Haddad pode ser explicada. Pois, é simplismo imaginar que a fonte do crescimento do ex-prefeito se origine exclusivamente no ex-presidente preso em Curitiba. As circunstâncias que se formam parecem tão ou mais importantes que o apoio de Lula.

A retirada, ao longo dos anos, do PSDB do campo socialdemocrata e seu distanciamento de setores progressistas nos costumes deixaram espaço preenchido, na ausência de melhor alternativa, por Fernando Haddad, uma vez que nem Marina Silva e nem Ciro Gomes capturaram plena e integralmente esse setor.

Ademais, Fernando Haddad parece em vias de se beneficiar do antibolsonarismo tanto quanto Jair Bolsonaro tem se favorecido do antipetismo. Neste momento, a força política mais relevante do país são os “antis”, divididos entre Bolsonaro e o PT. Um fenômeno normal de segundo turno que se precipita em virtude da inviabilidade — muito mais que da fragmentação — de um centro incapaz de dialogar com a sociedade.

Um centro que, antes de firmar sua personalidade com interpretações claras do mundo e do Brasil, além de uma perspectiva esperançosa para o futuro, prefere atrair restos e sobras dos dois grandes blocos que se formam. Ao que tudo indica, esse centro que não sabe se diferenciar restará espremido entre Bolsonaro e o PT. Soçobrará até que o novo, capaz de captar uma nova, latejante e plural sociedade, se conforme de verdade. Isso levará tempo. Muito tempo, pelo jeito. Talvez, demais.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Haddad: uma mão à palmatória; outra, à reconciliação
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Carlos Melo

A pintura rupestre da “Caverna das Mãos”: uma manifestação do homem paleolítico na Patagônia

Fernando Haddad alardeia a crítica que Tasso Jereissatti faz ao PSDB, ele que foi presidente da legenda. No mérito e no conteúdo, Tasso está correto: o PSDB foi caprichoso nos equívocos que cometeu. Irresponsável com as consequências, não pesou o risco e o dano moral das companhias com que passou a andar, após a vitória de Eduardo Cunha, na disputa pela presidência da Câmara.

O ressentimento com derrotas em série levou os tucanos ao oportunismo e ao farisaísmo. Irônico que o partido dos mais ilustrados membros da política nacional fosse restar como uma UDN sem brilho que, para preservar um membro — Aécio Neves —, optou por cortar o próprio pescoço; que se apequenou ao baixo clero de Michel Temer e do PMDB.

É bom que alguém com a estatura de Jereissatti exponha essa ferida. Mas, ele não pode ficar sozinho. Falta alguém do outro lado do muro.

Ao fincar holofotes nas palavras do senador cearense, Haddad esquece de acender as luzes da própria casa. Em que pese eventuais méritos de políticas sociais, o fato é que seu partido também carrega muita culpa no cartório, tendo se entregado docemente aos vícios do poder, também sucumbindo à peemedebização que abraçou todo sistema político e agravado o quadro de desentendimento geral das forças políticas do país.

A soberba determina erros de avaliação. O PT acreditou-se o mais virtuoso agente político do país. Dizia, no passado — e alguns ainda hoje — que Fernando Henrique e Paulo Maluf eram farinha do mesmo saco; pediu o “Fora FHC”. Mas, é desnecessário lembrar o mensalão, a associação com o patrimonialismo original, os elos com o fisiologismo ancestral. Ocioso mencionar equívocos econômicos, inúmeros indivíduos que obliteraram a República.

Fernando Haddad pode não ter responsabilidade direta por isso. Mas, representante do partido que almeja tornar a liderar a nação, é sua obrigação reavaliar a trajetória de seus camaradas; reconhecer e assumir erros; convencer que não se repetirão. Quem se dispõe a ''pacificar'' o que quer que seja não pode começar o diálogo por apontar somente os erros dos outros. Falta alguém em sua tropa que faça eco às frases de Jereissatti. Não se zera um jogo humilhando o adversário.

Hoje, o bolsonarismo, digamos assim, é tanto resultado do oportunismo tucano quanto dos desvios éticos de petistas e de todo o sistema, além dos equívocos econômicos — esses exclusivos do PT. Ampara-se num justificado antipetismo que lhe dá ânimo para além dos limites da tradicional direita reacionária nacional. É má-fé atribuir esse sentimento à discordância com políticas sociais ou por exclusivo repúdio aos pobres. Um tolo e improdutivo erro de análise que se embrenha também pelas teias do autoengano.

Vetos cruzados tornam o país uma impossibilidade lógica, política e humana. O Redentor que decolaria recolhe agora os braços e esconde o rosto. Famílias se desintegram num debate político estéril. O país levará tempo para voltar a ser o que foi, sem saber se ainda será o que um dia sonhou. Por terem reivindicado, em algum momento, a herança do iluminismo, PT e PSDB, mais que todos, têm a responsabilidade pela obra de destruição que construíram. É justo que agora se reconheçam num quadro de espelhos mutuamente refletidos.

A intolerância com o outro e a incapacidade de avaliar a si próprio, primeiro, ergueram um muro e, até aqui, Fernando Haddad de modo explícito não se dispôs de destruí-lo, embora seja esta, talvez, sua missão histórica. Independente da eleição, deverá, antes, estender as duas mãos: uma, à palmatória; outra, em reconciliação. Para, então, tocar em frente.

Para que se mostre capaz de tornar-se o presidente que diz pretender, Haddad terá que, em algum momento, contrariar a índole de seus companheiros; liderar a revisão de seu partido. O que a vida quer é coragem. E, mais cedo ou mais tarde, ninguém escapa de tomar um cálice desse vinho.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ibope: segundo turno exigirá de Haddad revisão e inflexão ao centro
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Carlos Melo

Pesquisa Ibope, divulgada na noite desta terça-feira, parece absolutamente coerente com as demais sondagens exaustivamente divulgadas nos últimos dias. O recado é simples, se não houver fato novo capaz de abalar o país — e no Brasil não parece existir cisnes brancos, somente negros —, o mais provável é que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se enfrentem mesmo já, agora, e no segundo round da eleição.

Nunca se saberá ao certo se Bolsonaro foi ou não favorecido pelo atentado de que foi vítima ou se despencaria como jaca, diante da propaganda negativa de Geraldo Alckmin. Intuitivamente, diria que o deplorável gesto de violência consolidou o eleitorado do deputado, mas não o despertou.

Tendo defendido que, na verdade, Bolsonaro já ocupara, antes, um setor que sempre existiu e que fora alocado apenas circunstancialmente, por alguns anos, pelos tucanos. A direita voltou a ter uma referência e um símbolo.

A esse eleitorado bolsonarista, digamos assim, parece se juntar, agora, o antipetismo. E é plausível que candidatos como Álvaro Dias, Henrique Meirelles, João Amoêdo e, talvez, Geraldo Alckmin estejam se descapitalizando (de votos) em virtude disto. Ora, se é para se posicionar “contra” ao que quer que seja, que seja, então, pelo modo mais radical. Bolsonaro vai se fixando como a real oposição ao PT e é a ele que recorrem os eleitores que não engolem Lula, Dilma e companhia.

E os mesmos números da pesquisa Ibope mostram mais: no segundo turno, Bolsonaro estaria em vantagem e poderia derrotar a vários candidatos, inclusive a Fernando Haddad. Indicadores que deixam os tucanos ainda mais sem argumentos, posto que já não é tão fácil afirmar que seriam os únicos capazes de bater o PT, na final. Embora dados para segundo turno não tragam, nesse momento, muita segurança, o fato é que já não se pode basear nas pesquisas para tocar terror desse tipo.

Aliás, em relação a Geraldo Alckmin, o candidato com maior tempo de TV e recursos, o Ibope segue a tendência geral, demonstrando as gigantescas dificuldades do ex-governador. Ao antipetismo que migra na direção de Bolsonaro, some-se as restrições dos eleitores às afinidades eletivas de tucanos com o governo Temer e o fato de Geraldo Alckmin, ao posicionar-se na corrida eleitoral, ter trocado o centro político pelo Centrão. A migração eleitoral para os extremos parece tão explicável como inevitável.

Claro que outro importante dado do Ibope é a disparada de Fernando Haddad que, uma semana após ter a candidatura oficializada, já vislumbra ultrapassar a marca dos 20%, distanciando-se do segundo pelotão. A estratégia de Lula parece mesmo surtir efeito, descarregando em seu escolhido o capital de votos que, bem ou mal, mesmo preso em Curitiba, o ex-presidente ainda possui.

Dada esta tendência — se não errar e nem for atropelado por fatos novos —, Haddad estará no segundo turno, enfrentando Bolsonaro e o antipetismo. Mas, ao contrário do que diz o “achismo” nacional, desconfio que nada garanta sua vitória ao final e que a vida do ex-prefeito não seja em nada facilitada pelas condições que o cercam ainda hoje: a recusa do PT em fazer a autocrítica de seus erros e os limites do lulismo, que pode não bastar no segundo turno.

O fato é que, se não ampliar o leque do discurso político, buscando setores para além de seus convertidos, Haddad não chegará além de um mero exemplo da força do padrinho. Tanto precisará se contrapor a Bolsonaro numa enfática defesa da Constituição e da democracia — as declarações do vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, foram um tiro no pé —,  como também dialogar com setores econômicos, sem desprezar a força, nesse setor, do reformismo liberal anunciado pelo candidato do PSL e por seus assessores econômicos.

Escrevi há algumas semanas que Fernando Haddad não poderia passar ileso de uma revisão dos erros cometidos pelo governo Dilma e pelo imperativo do ajuste fiscal. Afirmei que o petista se veria diante de um dilema: “mais que um problema delicado, trata-se de uma equação difícil: qualquer gesto de autonomia compreenderá em abalos na campanha; qualquer sinal de falta de autoridade implicará em desgastes na mídia, na opinião pública e diante de setores econômicos que, queiram ou não parcelas do petismo, têm importância se não na eleição, certamente no futuro governo” (aqui).

O ex-prefeito parece estar, ao seu modo, realizando uma revisão dos postulados petistas; em recentes participações neste UOL e na Rádio CBN, estabeleceu marcos sutis de algum tipo de revisionismo econômico — o que pode ser confirmar ou não. Além disso, enviou recados em garrafas que aos poucos devem chegar à praia de adversários como Marina Silva, Ciro Gomes e até Geraldo Alckmin, a quem desde sempre tem poupado pessoalmente.

E, claro, que intenções não bastarão. Haddad terá que exibir símbolos mais contundentes, atraindo para sua campanha personagens tanto mais eloquentes da veracidade de sua revisão, quanto fiadores de suas promessas ao longo do governo. Não será estranho que o tal do mercado e mesmo o PT o obriguem a antecipar qual será, afinal, o perfil de seu ministério.

Enfim, reposicionamento econômico e uma inescapável inflexão ao centro comporiam movimentos estratégicos dos quais não terá muita margem para escapar. Ninguém saberá dizer se será suficiente e vencer Jair Bolsonaro e o antipetismo. Menos ainda  se o PT mais ajudará ou mais atrapalhará esse processo. Só o tempo dirá.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Voto útil, casamento de conveniência
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Carlos Melo

Casamento na roça, s/d. Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962). Óleo sobre tela, 98 x 79 cm.

À parte de fatos novos sempre possíveis e tão constantes no Brasil, as próximas semanas devem se dar em torno da ansiedade despertada e a realidade que aos poucos se consolida à medida em que são divulgadas as pesquisas eleitorais. A princípio, as pesquisas são meros medidores de opinião. Como se diz, uma fotografia, um instantâneo do momento de um grande filme que é o processo eleitoral.  Mas, não é tão simples assim. Dependendo das circunstâncias, as pesquisas não apenas medem como influenciam na formação da opinião dos eleitores e, assim, na movimentação dos candidatos.

Sobretudo, quando há um quadro de incerteza somado aos jogos estratégicos que todo eleitor costuma a fazer e que, no Brasil, dá-se o nome de “voto útil”.

A lógica do “voto útil” é simples: em tese, todo eleitor tem um candidato de preferência; aquele por quem sente maior empatia e que, com tranquilidade, cederia seu apoio. Este seria o que podemos chamar de um voto afirmativo. O eleitor afirma e reafirma sua preferência, sem qualquer mediação, interferência ou questão de segunda ordem. Ele faz a sua melhor escolha; uma espécie de primeiro melhor.

Acontece que no mundo moderno, competitivo e polarizado, nada é assim tão simples e protegido de contaminação. Num ambiente de conflito, o eleitor se dá também ao direito de definir o que, para ele, seria o “pior resultado”, o mau maior. O candidato dentre todos que “mais” rejeita, que descarta decisiva e definitivamente.

O sentimento do que “seria o pior” e a definição de seu nome, nessa condição, é um sentimento e um fenômeno tão forte que consegue se impor à preferência afirmativa, ao candidato que o sujeito entenderia como o melhor. É o “ruim”, portanto, que se impõe, na função de preferências e na lógica da escolha eleitoral ao “bom”. O mal menor em oposição ao bem.

Nestes tempos, o eleitor vota antes de tudo contra e não a favor. Vota-se, principalmente, para derrotar o que se reconhece como “maior perigo”, o mais pernicioso cenário, de acordo com os valores, conceitos e preconceitos do eleitor. E para isto procura-se, no universo de candidaturas, aquela que mais condições reúne para papel insólito: antes de vencer, derrotar o inimigo.

Mesmo que isto signifique abrir mão da escolha afirmativa, do entendido como melhor, em favor daquilo a que não se deixa de ter também restrições. Às vezes, fortes restrições, até. Um caso clássico foi, em 1990 na eleição ao governo paulista: contra Paulo Maluf, os eleitores de esquerda votaram em Luís Antônio Fleury Filho, candidato de Orestes Quércia.

Ainda assim, este foi um caso de segundo turno. Às vezes, essa situação é antecipada e já no primeiro turno, os eleitores se veem forçados a adiantar esse tipo de escolha. Em 1998, por exemplo, Mário Covas derrotou (novamente) Paulo Salim Maluf, na disputa ao governo do estado, não porque os eleitores aprovassem Covas, mas porque, acima de tudo, mais uma vez, rejeitavam Maluf. Covas, assim foi eleito. Ou antes, Maluf foi derrotado.

O “melhor”, portanto, é sempre uma questão relativa. É claro que nem todos pensam assim. Mas, basta que uma parcela do eleitorado raciocine desse modo e desloque sua preferência de modo a mudar o resultado de uma eleição. Este quadro se repete nesta eleição de 2018, no país. Todavia, de um modo ainda mais complexo, nesta, a mais complexa das eleições nacionais.

Ao que se percebe, há grupos de eleitores que definiram, cada um ao seu modo, “o mal maior”. A novidade é que desta vez, não é apenas um mal; mas pelo menos dois. E há três grupos que se movimentam assim, há vinte e tantos dias da eleição.

De um lado, aqueles que não admitem o PT e entendem a vitória do partido como um grande mal para o país. De outro, aqueles que compreendem Jair Bolsonaro como o maior desastre. Haveria ainda um terceiro, que não consegue assimilar nem por hipótese nenhum dos dois personagens governando o Brasil pelos próximos 4 anos, pelo menos.

Voltamos às pesquisas: eles indicam, neste momento, que a maior possibilidade é que Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, do PT, disputem o segundo turno da eleição. Cada um, cuja vitória é considerada, ao seu modo e por público distinto, como maior mal em relação ao outro. É nesse sentido que surgem os apelos pelo voto estratégico, ou pelo “voto útil” — “útil” para derrotar o desafeto.

De um lado, Ciro Gomes, cuja dinâmica política o desfavorece, explora o fato de as pesquisas apontarem que venceria com maior facilidade a Jair Bolsonaro, o “mal maior” definido pelo eleitorado de boa parte do centro e da esquerda. Nesse sentido, tenta desqualificar a candidatura de Haddad, em si, pelos problemas em torno do PT e pelos riscos e dificuldades que Haddad talvez venha a ter para vencer Bolsonaro.

De outro lado, Geraldo Alckmin. Paralisado abaixo dos 10% das preferências, limitado por seus vínculos com o governo Temer, com o Centrão e com os problemas éticos de membros do seu partido, mas com convicção de que seria o candidato com maior facilidade para vencer o PT, mal maior para a maioria dos eleitores de Direita e do Centro. Neste caso, até mesmo Marina Silva, que se descapitaliza a olhos vistos desde a entrada de Haddad no processo, pode surgir como alternativa às dificuldades de Alckmin.

O “voto útil” traz consequências: ao votar contra, o eleitor adere apenas circunstancialmente ao eleito. Não aderiu a ele, apenas o engoliu como “mal menor”; não há cumplicidade, menos ainda apoio. O eleito começa o mandato com legitimidade diante das urnas, mas com um déficit real em relação à maioria do eleitorado que o elegeu, apesar de seus defeitos e em virtude do perigo que significa o outro. O Congresso Nacional, é claro, perceberá isso, sabendo que a tradicional lua-de-mel do presidente com o eleitor durará bem menos, posto que, desta vez, o casamento foi de conveniência.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.