Blog do Carlos Melo

Escândalos se incorporam desumanamente ao cotidiano
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Carlos Melo

Moradores de rua dormem em calçada no Pateo do Colégio, na zona central de São Paulo. Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Vivendo sua quadra histórica mais complicada, nessas duas semanas o país disfarça seus males e faz de conta que tudo está bem. São as águas paradas do recesso, o cansaço da opinião pública, a desatenção causada pelo frio; o remanso temporário das águas no mesmo lago onde mora o monstro. Presidente, Michel Temer toca o bumbo: ''o país reencontrou o rumo; está nos trilhos''. É do seu papel e sua alternativa: ao jogador de poucas cartas cabe o blefe; olhar para mão pobre e sorrir como se repleta estivesse de ases e reis.

Mas, o rumo é tortuoso e os trilhos danificados. O que mais preocupa é a segurança pública. Alguém já assinalou que, em alguns lugares, a bala perdida foi assimilada; faz parte do ruído urbano como o pio dos pardais. Banaliza-se a morte. Há alguns meses, numa dessas viagens que a profissão obriga, me perdi num desses subúrbios perigosos. Apavorado, o motorista que me levava suava em bicas; dizia-me que, ali, o risco era o ladrão e também a polícia. Frio, eu mantinha a calma dos ignorantes.

Tempos depois — de volta ao estado, consciente dos riscos —, comentei o caso com um taxista; como se lhe contasse uma aventura, falei dos caminhos porque havia me perdido. Com atenção, ele ouvia sem abalos; parecia-lhe óbvio que na cidade houvesse áreas desse tipo e que elas se expandissem. ''Está cada vez pior''. Nem o Waze é capaz de dominar a sociologia das cidades. Por fim, filosofou: ''Às vezes, nada acontece''. Não era ironia nem piada: tive sorte. A tragédia é, sim, o normal.

O estado em questão foi o Rio de Janeiro, mas o episódio cabe em qualquer rincão do país. Simbólico, o Rio é apenas, na federação, o doente em estágio mais avançado. De um modo geral, todos estão quebrados, sem dar conta do custeio das máquinas públicas — quanto mais investir para amenizar os efeitos da crise. À população resta se adaptar: trancar as portas, cercar as casas, evitar as ruas. Medo que se banaliza ou é neurose ou é covardia — a covardia nossa de cada dia.

O escândalo se incorpora desumanamente ao cotidiano como um poste sem vida. Evidente que, ao chegar à segurança pública, a crise já tomou várias outras áreas. Saúde, educação, promoção social; ética e moralidade pública. Tudo se resume a uma espécie de muro pichado, numa rua abandonada à qual todos incorporam ao caminho; o rumo de que fala o presidente Temer. Tem sido assim.

A maior preocupação de muitos analistas se volta para a saúde das contas públicas. Não deixa de fazer sentido, em tese. O raciocínio é conhecido: sanear as finanças do Estado, fornecendo confiança para investimentos privados, que trariam empregos e crescimento econômico; aumentos de arrecadação facilitariam investimentos em segurança, saúde e educação: circulo virtuoso, desenvolvimento social. Tudo muito simples. Em tese.

Nesse sentido, justificam-se os aumentos de impostos diante das condições fiscais, mas também pela manutenção de importantes políticas públicas. Seria mesmo inevitável.

Os impostos, no entanto, vieram após o aumento dos salários de parcelas do funcionalismo, o perdão ou refinanciamento de dívidas, liberações de emendas e cargos às mancheias para garantir o claudicante mandato do presidente. Reforma da previdência, com manutenção de aposentadorias especiais; modernização trabalhista com preservação do imposto sindical. Que sentido há nisto além do poder dos grupos de pressão?

O que fazer está nos livros-texto dos melhores cursos de economia. Como fazê-lo nenhum manual ensina. O longo prazo é uma esperança para depois de depois de amanhã; não raro, se lhe perde de vista. A vida concreta e o desespero da vida se dão no hoje e no agora: é preciso Políticas pra já.  Depois, é sempre tarde. Na verdade,  é cruel: jogar água fria na manhã gelada dos que dormem na rua demonstra a estupidez humana em seu grau mais elevado. Prêmio Barbárie. Nem às vezes isso pode dar certo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A terceira lâmina
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Carlos Melo

Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz (…) Meus vinte anos de ''boy'' That's over, baby… Freud explica!

São Salvador, Bahia de Todos os Santos. No recesso parlamentar, quando todos os demônios estão soltos, é tempo de respirar e reencontrar um pouco de vida para além da política. O Brasil nasceu aqui e aqui está sua melhor síntese: preto, branco, mestiço; sincrético. De Gregório de Matos Guerra a Carlinhos Brown; Caymmi, Jorge Amado, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Raul Seixas; Glauber, João Ubaldo, Gal, Bethânia. De Antônio Carlos Magalhães a Jean Wyllys. O Olodum. ''A Bahia tem um jeito'' que São Paulo não compreende; Narciso, acha feio.

Concha acústica do Teatro Castro Alves, show do invencível Zé Ramalho, um Bob Dylan do Brasil —  ''Bate, bate, bate na porta do céu''; letras tortuosas, harmonia cativante, o desbravador da musicalidade dos anos 1970: ''Neblina turva e brilhante / Em meu cérebro coágulos de sol / Amanita matutina / E que transparente cortina / Ao meu redor''. Avohai. Faz saudade de um tempo que éramos outros, que o país era outro; gosto de um ontem que se perde no presente que escorre pelos dedos. ''Oh, meu velho e indivisível'' Brasil, que se esvai.

Garoto, ouvia Zé Ramalho — e tantos outros — com a atenção de quem quer aprender, muito; retirar alguma coisa de tudo e crescer. Encontrar a si mesmo, procurando nos outros. O Brasil que trazia no peito, suspeito, era uma invenção ao redor de 1958: o sorriso e a esperança de Juscelino, a Bossa-Nova, o Cinema Novo, Marta Rocha — outra baiana —, a primeira Copa do Mundo; o gigante adormecido, país do futuro. A crença, o futuro.

De algum modo, o Brasil daria certo; de qualquer forma, daria certo; com força e com vontade, daria certo. E encontraria seu caminho. No maniqueísmo em que se curtia viver, se havia o mal, o bem também havia. No final da história, a justiça e a igualdade triunfariam; a liberdade viria depois. Sim, um pouco da visão romântica (e autoritária?) da esquerda mundial: não havia custo, nada tinha preço; bastava sonhar. ''Sonho que se sonha junto'', dizia-se, ''é realidade''. Raul, outro baiano.

Final da década de 1970, estertores da ditadura, acreditava-se no futuro. E no Brasil. O país se unia na esperança de superar o Regime, dava as mãos em torno da arte que se produzia. Mas, o tempo, esse vilão, mostrou que nada é bem assim. A poesia é um caminho doce para a ilusão, mas se perde na dissonância de vontades e opiniões.

No show de Zé Ramalho, no Teatro Castro Alves, naquela Concha Acústica apinhada de senhoras e senhores de meia-idade (jovens, uns poucos), já nos primeiros acordes de ''Caminhando''— ''laia-laiaaá, laia-laiaaá'', simbólico que tenha começado com Vandré —, o gosto amargo do que, afinal, nos restou. A nostalgia é triste, faz lembrar dos dias e amigos que se foram, mas também da unidade perdida.

Não é que o conjunto nacional se perdeu e a sociedade se dividiu em inúmeros grupos distintos e contraditórios; normal, o mundo todo ficou assim. Muito pior, aqui o tecido se esgarçou; da fragmentação, faz-se esse farelo sobre a mesa, que não se junta e nem se pode aproveitar. Chama atenção que do público não tenha saltado uma única palavra de ordem; nenhuma menção a Temer, Lula, Dilma, Aécio. Ninguém gritou ''Fora QualquerCoisa''. Estamos todos cansados, cansamos da Política ou apenas dessa política? Quem roubou nossa indignação?

Nos anos 1980, dizia-se que as canções de Zé Ramalho eram apocalípticas. Em meio à exuberância de acordes e sons, o sentido fugia; retinha-se o significado num sentimento difuso, perdido entre a garganta e o peito. Mas, hoje o apocalipse chegou. Como profecias, as canções já fazem sentido: ''Dos que vivem calados / Pendurados no tempo / Esquecendo os momentos / Na fundura do poço / Na garganta do fosso / Na voz de um cantador… / E virá como guerra / A terceira mensagem / Na cabeça do homem / Aflição e coragem / Afastado da terra / Ele pensa na fera / Que o começa a devorar…''

Amigo, cicerone e anfitrião, Sandro Cabral, baiano de São Paulo, chama atenção para o artigo de Antônio Prata, na Folha do mesmo domingo, ''Reinventar o Brasil''. Verifico que Joaquim Barbosa também o divulga, pelo Twitter; vou a ele: o autor retoma Darcy Ribeiro. Há pelo menos 15 anos, exibo para alunos ''O Povo Brasileiro'', documentário de Isa Grinspum Ferraz. Lá, diante das câmeras, dedo em riste, olho no olho, Darcy conclama: ''Preste atenção! O mais importante é inventar o Brasil que nós queremos''. Mas, o Brasil não se reinventa; ao contrário, nos últimos anos parece que se desinventa. Perde substância. Compartilho da angústia de Antônio Prata.

Superadas as ilusões é, preciso, porém, encontrar por onde sair do fundo do poço de areia movediça. Superar o sistema político que caducou; juntar farelos, refazer o pão. Mas virá por onde: um demiurgo, um canastrão; as tribos de armas na mão? Imprescindível desfazer o apocalipse; reencontrar a arte que capaz de juntar os contrários. Disse Nietzsche que ''precisamos da arte para não morrer de verdade''.

A profecia fica mais clara: ''Acho que os anos / Irão se passar / Com aquela certeza / Que teremos no olho / Novamente a ideia / De sairmos do poço / Da garganta do fosso / Na voz de um cantador…''  Somente a arte nos redime; somente a arte pode fazer reencontrar o Brasil. ''Heiá! Oh! Oh! / Heiá! Oooooooh! / Oh! Oh! Oh! Oh!''.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Os efeitos da condenação de Lula
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Carlos Melo

Pedro Ladeira /Folhapress

As considerações de ordem moral, a justiça ou os aspectos jurídicos a respeito da condenação do ex-presidente Lula ficam por conta do leitor. Cabe ao analista tatear as implicações políticas do fato: o simbolismo do veredito do juiz Sérgio Moro, suas consequências mais imediatas e seus efeitos sobre o processo eleitoral de 2018. Mesmo entre os especialistas do mundo das leis e das sentenças jurídicas há muita controvérsia a respeito, aponta-se acertos e deslizes de Moro; não será o comentarista político que dará a última palavra.

O que se pode dizer é que a condenação não compreende nenhuma surpresa, toda e qualquer araucária de Curitiba sabia que Moro condenaria Lula; Pule de dez, sequer cabia fazer apostas. Os próprios advogados de Lula compreendiam isto, tanto que desde sempre optaram pelo enfrentamento ao juiz, ressaltando haver no magistrado disposições e orientações de ordem política em oposição ao ex-presidente e seu partido. Verdadeiro ou falso, foi a linha de defesa nessa fase do processo.

Imaginava-se, como de fato ocorreu, que o juiz não mandaria o réu imediatamente para a prisão e sabia-se que Lula não se tornaria inelegível imediatamente. Segundo o ex-juiz Walter Maierovitch, havia mesmo base para que Moro não o fizesse, uma ''jurisprudência de remanso''— calma, tranquila, contra a qual não há indisposição. Chama atenção, no entanto, que Moro assinalasse em seu arrazoado que preferiu agir assim em virtude da condição política de Lula, compreendendo que pudesse, já nesta fase, causar comoção.

Com efeito, a prisão — se viesse ou se vier a ocorrer — teria esse efeito. Contudo, há um aspecto interessante em torno deste ponto: polêmica e ''comoção'' residirão tanto na prisão como também na eventual não prisão de Lula. Distante dos 83% de popularidade que um dia o abraçou, figura controversa, Lula divide o país entre os que o apoiam e o aprovam a despeito de qualquer coisa e aqueles que o desaprovam também a despeito de tudo. Da tensão e do desgaste de uma definição não haverá fuga, quando chegar, por fim, o momento.

Justamente por conta dessa natureza emocional e da capacidade de dividir opiniões, o veredito de Moro é carregado de paradoxos: como marco, significa exatamente o quê? O fim de uma era, em que Lula ocupou o centro da política nacional, o ocaso do discurso moral do PT, a emergência de um novo Brasil ''onde os poderosos vão para a cadeia'' — haveria ainda tantos poderosos soltos por aí… — ou a consolidação de juízes e promotores como agentes centrais no processo político nacional? Difícil saber, provavelmente só o tempo e a história dirão.

No curtíssimo prazo, a condenação de Lula significa uma enorme apreensão também para seus adversários: os riscos para tucanos e peemedebistas arrolados com a Lava Jato aumentam, é evidente. Haverá pressão de parte da opinião pública, tanto sobre o Judiciário quanto sobre o Ministério Público, para que também Aécio Neves e Michel Temer, por exemplo, sejam igualmente julgados e punidos com rigor. Certo ou errado, justo ou injusto, é o que menos importa: o ambiente entra no clima do ''olho por olho, dente por dente''.

Agudiza-se, assim, a polarização entre os ''pró'' e os ''contra'' Lula, simpáticos ou antipetistas. O debate político se dará em torno de sua figura, candidato ou não: algoz do Brasil ou vítima de perseguição política. Os ânimos e as ruas se dividirão ainda mais, portanto, e um debate racional e comedido será impossível. As dificuldades para construção do diálogo nacional aumentam — estando Lula preso, como também, sendo, por fim, absolvido em segunda instância.

No curto prazo, não haverá quadro bom, ainda que no médio e no longo a tendência seja mesmo de isolamento do PT. Mas, isto somente se definirá no pós-eleição, de 2018, a depender do resultado. Uma derrota acachapante da legenda colocará uma pedra sobre o assunto, reduzindo a base social do lulismo ao gueto. Mas, a eventual vitória — ou mesmo um desempenho extraordinário diante das circunstâncias — significará manter a chaga aberta, a ferida purulenta, o nervo e a fratura expostos.

O PT sabe disso e também por isso investirá na retórica da vitimização de seu principal líder. A tentativa de transformá-lo de réu/condenado em vítima; mais que um preso, um perseguido político —  reduzindo a questão e desviando o debate a respeito dos fatos que fizeram explodir a Operação Lava Jato, Joesley Batista e outros tais que, na verdade, dizem respeito a todo o aparelhamento do Estado no Brasil realizado por grande parte de seu sistema político. Este será o cominho e a tangente eleitoral do PT.

Mas, é evidente que a estratégia da vitimização não é exclusividade do lulismo. Não se comportam de modo diferente tucanos e peemedebistas quando apontam nas acusações a Aécio Neves e a Michel Temer as digitais da politização, da armação e do ''golpe'' contra seus próceres. Curioso notar a euforia dos adversários de Lula ao comemorar a condenação: o raciocínio que desfilam diante das câmeras serve também contra eles e os seus; efeito Orloff, os Lulas de amanhã. Seriam todos vítimas do complô de um mundo injusto? A resposta fica para o leitor.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


À beira do precipício, país necessita da Política
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Carlos Melo

Arquitetos gregos planejam casa à beira do precipício. Fonte: Reprodução Bored Panda.

Quem analisa os dados fiscais do governo — organizados pelo talentoso e competente economista Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente  —, fica de fato preocupado. Saltam de suas tabelas e relatórios números que revelam uma economia destroçada, que influenciam e ainda mais influenciarão no desemprego e no comprometimento de importantes políticas públicas. Difícil não pensar no nosso destino e no de milhões de pessoas.

Os cenários que emergem do trabalho são tenebrosos e se a eles se agregar a situação de estados e municípios, então, Deus precisará ser de fato brasileiro para ajudar a resolver o problema ou pelo menos sentir na pele a obra que sua humanidade fez.  Em pouco tempo nada mais haverá para cortar em despesas e gastos do governo — até porque nem todo corte significa necessariamente economia; pode, antes, implicar no aprofundamento da crise econômica e da explosão social.

Será inevitável aumentar impostos, o que a sociedade não parece disposta a tolerar diante do quadro político e também da evidência de que quase nunca esses impostos são restituídos com serviços de saúde, educação e segurança de qualidade minimamente satisfatória. Sem mistificação ou interesses partidários, é necessário admitir que o país precisa de reformas em vários campos, não apenas na Previdência ou no âmbito tributário. O remédio será amargo, inevitável, inelutável e inescapável como são quase todos os remédios.

A questão é como fazer essas reformas: com quais argumentos e sistema político se poderá conduzi-las de modo a que tenham credibilidade; e que sejam também justas, legítimas e aceitáveis.

Um discurso tão simplista quanto comprometido de que caberia — ou bastaria —  taxar os ricos tampouco resolve. Ricos podem, de fato, ser onerados, mas não seria suficiente. Além disto, engana-se quem, na sociedade de tamanha desigualdade como a brasileira, pense que os ricos sejam os ''outros''. Muitos setores de classe média, altamente protegidos pelo Estado e pela força das corporações, sob vários critérios, podem ser classificados como privilegiados possuidores de vantagens excepcionais.

Mais que tudo, são necessários pactos e arrumações maiores e mais profundos. A saída da cilada em que o país caiu — ou foi jogado — não passa pelo cálculo ou pela estrita ação econômica. Não só. Por si só, isto não faz a luz no fim do túnel porque o túnel não parece ter fim. Isoladamente, o raciocínio econômico é estéril e insuficiente. Tecnicamente, a agenda é conhecida, as saídas são mesmo óbvias; o problema é que caminhos se confundem e tudo se embaralha.

Antes, a saída do labirinto reside no reencontro com a Política: na renúncia a métodos superados; um não, um basta, a negação de interações e dinâmicas esgotadas; um ciclo encerrado, uma página que precisa ser virada. A economia precisa — na verdade, implora — o suporte da política, mas também a política precisa se encontrar ao se dar conta de que o fisiologismo de governos sucessivos com o real presidencialismo de coalizão foi o que nos trouxe até aqui. Superar isto é o desafio.

Perdidas, almas atarantadas de importantes agentes políticos se engalfinham a respeito do governo Temer: o presidente deve ou não permanecer; sustenta-se o apoio ou se lhe retira a proteção? Discute-se se o presidente é culpado ou inocente; corrupto ou decente, responsável ou não por Rodrigo Rocha Loures. Mas, diante dos dados de Felipe Salto, nada disto parece ser essencial.

Não há mais blindagem possível, Michel Temer deve esclarecimentos e, com direito de defesa, deverá ser julgado. O pior será permanecer com dúvidas e de mãos atadas, sustentado apenas pelo poder da máquina e pelo uso do Diário Oficial, intensificando a paralisia, aprofundando a crise. Nada disto é saudável e nem de bom agouro para a democracia. A questão que precede é: nessas condições, há capacidade para afastar o país do abismo que lhe sorri — como demonstram os dados da Instituição Fiscal Independente?

Provavelmente, não. Independente da avaliação e do julgamento que se lhe possa fazer, é pouco provável que Michel Temer consiga dar conta do desafio mais essencial que lhe está colocado: conduzir o processo político baseado em parâmetros e princípios que neguem o fisiologismo, a corrupção e a rapacidade parlamentar e que estabeleçam o consenso e a comunicação política de qualidade capazes de encaminhar reformas políticas e econômicas inevitáveis com maior sintonia com a sociedade e menores custos sociais.

Alvejado o presidente, o governo está manco e sem mobilidade; qualquer que seja o resultado das inúmeras votações a que ainda será submetido, Michel Temer será um alvo marcado até o final de seu mandato seja ele abreviado ou não.

Difícil saber se, por sua vez, seria Rodrigo Maia a solução. O mais natural é que reproduza a mesma mentalidade, pois se trata de uma cultura política a que ambos, Maia e Temer, pertencem: a prática fisiológica e populista do baixo clero, despolitizada no final das contas, que se estabeleceu no parlamento ao longo dos últimos anos, desenvolvendo-se como vício voraz e irrefreável, que trouxe o país ao abismo real a que os números apontam.

Será preciso comunicar a gravidade da situação, dramatizar o quadro para construir o processo de reestruturação nacional: sem prejuízo da Justiça, unir lideranças, meios de comunicação, instituições e a sociedade. Acabar com a conversa mole de que a crise já foi superada, pois não foi; ''fazer de conta'' que Temer é um estadista em nada tem contribuído. Por fim, abrir uma janela para o futuro de onde se possa vislumbrar, aí sim, o lugar de construir a ponte mais estável possível.

Os dados de Felipe Salto cantam uma melodia de terror e aniquilamento. Ao mesmo tempo, gritam por socorro e pedem, isto sim, responsabilidade; não é possível que ninguém lhes ouça. O país carece de um governo de transição disposto a mudar métodos, comunicar com qualidade e conduzir o processo até que uma nova eleição, ao seu tempo, descarte o ressentimento, a raiva e o populismo e recomponha a união. É difícil e ninguém sabe ao certo como fazer. Mas, esse caminho só se fará andando. À beiro do precipício, o país clama por Política.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O gradual descolamento de Rodrigo Maia
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Carlos Melo

Alan Marques – Folhapress

A Ulysses Guimarães se atribuiu feitos e frases que, no deserto de líderes que há hoje, o tornam uma espécie de mito. A ele se recorre com frequência: o ''Doutor Ulysses'' viu de tudo, sabia tudo, era sagaz e bom frasista. Transformou-se, com o tempo, numa espécie de ''enciclopédia da política'', assim como Nilton Santos foi no futebol. Atribui-se a Ulysses a frase: ''a política adora a traição, mas despreza o traidor''.

Com efeito, a dinâmica da política parece mesmo assim. É baseada em acordos, em pactos; a palavra dada vale muito. Mas, no limite, a traição também está em seu cálculo: Brutus fez isto com César; o PFL, com o general Figueiredo; Aécio Neves; com Inocêncio de Oliveira. Inúmeros são os casos. Por isso, políticos experientes confiam pouco — o insondável Getúlio confiava apenas na filha; foi traído pelo irmão.

Quando do processo de desgaste e impeachment de Dilma Rousseff, escrevi que Michel Temer se metia numa cilada política (leia aqui); faltava-lhe o vigor das urnas e sobrava-lhe o comprometimento com o sistema com o qual Dilma não mais se entendia. Temer não foi escolhido pela sorte, sua assunção ao poder não foi acidental, fortuita: vice, conspirou contra a inábil e teimosa presidente — um caso desde sempre perdido, ok, mas cujas circunstâncias e o falso decoro pediam compostura; no mínimo, algum recato disfarçado.

Comparado a José Sarney, que assumiu sob a agonia de Tancredo, Temer carecia do drama histórico, da ironia do destino, da aura da tragédia. Ao contrário de Itamar Franco, Temer não sabia expressar desinteresse e desapegos mais ou menos sinceros. A reunião do PMDB, que definiu o desembarque do governo Dilma, por ele comandada, foi um indisfarçado espetáculo de oportunismo. O vice de Dilma agiu como se Sarney tivesse ido à missa pedir pela morte de Tancredo. Poucos o censuraram, mas todos registraram o comportamento.

Temer assumiu a presidência sob as benções do sistema e a ilusão do mercado, que imaginou ser aquela a chance de fazer as reformas econômicas de uma vez por todas — sem o envolvimento da sociedade e sem o comprometimento eleitoral. O sistema, no entanto, impôs a Temer, sendo um dos seus, sua própria razão: a manutenção do status quo, sem comprometimento da segurança que a Operação Lava Jato ameaçava e ainda ameaça.

Na economia, é real, sua equipe buscou e busca alterações importantes na lógica do Estado brasileiro. Mas, na política, o presidente preservou a lógica com a qual, sabia-se, esteve desde sempre envolvido. No resumo, a política não contribui com a economia e a demora da recuperação econômica tem sido fator importante para agravar a situação política: o que se vê é uma cobra se comendo pelo rabo.

Se naquele momento do impeachment pesaram o ardor e o elogio à traição, hoje o que parece pegar é mesmo o desprezo ao traidor. A opinião pública revela seu desamor a Michel Temer que, de algum modo, consegue o prodígio de unificar as bases sociais do petismo e do antipetismo contra ele. É abandonado aos poucos por aliados que até ontem juravam-lhe fidelidade. O compromisso, Temer compreende, vai à beira do penhasco, mas não se atira ao precipício.

A escolha de Sérgio Zveiter como relator, na CCJ, do pedido de autorização ao Procurador-Geral para processar o presidente, dá a medida do descolamento gradual da base com Temer e de Rodrigo Maia, em particular, que, ao final, controlará o processo ao seu interesse. Vice, de fato, o presidente da Câmara se movimenta nos bastidores: conversa, especula, conjectura, sabe da força do destino, mas também compreende que, às vezes, o destino precisa de uma forcinha especial para se desenrolar.

A pressão da opinião pública sobre os deputados, em três votações nominais no Plenário, será brutal. Ao mesmo tempo, Michel Temer perde forças: faltam-lhe bons argumentos, a defesa não convence, seus companheiros são recolhidos à prisão; os laços afrouxam. Embora persevere, posto que não tem saída, sua imagem já é a do desânimo. Gradativamente, fica só.

Assim como Temer, Rodrigo Maia será chamado à responsabilidade de proteger o sistema político a que também pertence. Poderá escolher entre afundar com o presidente ou vê-lo afundar sozinho, de modo a que, na sequência, possa ainda mais uma vez preservar o sistema, os aliados, assemelhados e parentes que restam. Resistirá à tentação?

A questão é se já compreende que Temer está em vias de se tornar passado, se entende que seu prazo de validade se esgotou. Neste caso, vê-lo afundar seria natural: a história empurra e a tentação à traição é quase irresistível. Em determinadas circunstâncias, torna-se questão de sobrevivência. Todavia, o ciclo de putrefação da política nacional está acelerado e a mesma história se renova rapidamente.

Além da honestidade, que lhe será questionada, ao filho de César Maia não bastará trair, mas parecer que não traiu — arte que faltou a Michel Temer. Contemplar à pressão por mudança e, ao mesmo tempo, socorrer dezenas de náufragos ao seu redor; conviver com um processo eleitoral que promete muita tensão, com um Ministério Público que indisposto a trégua. Maia pode se revelar numa surpresa, mas, no momento, nada indica ter estatura para isto. O tempo dirá. A política brasileira ainda continuará em seu labirinto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Fatos novos que reproduzem a marmota de sempre
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Carlos Melo

Andie MacDowell e Bill Murray em cena de ''Feitiço do Tempo'' (1993)
Imagem: Divulgação

A prisão de Geddel Vieira Lima é mais uma flechada no São Sebastião sangrado em que se transformou o governo Temer. Piora a situação, é evidente; mas, não constitui surpresa: o ex-ministro já antevia sua sorte e, ao que consta, tentava bloquear a Justiça. No Planalto, seu efeito máximo foi aumentar o temor pelos seus: a fila anda e o governo se preocupa com Eliseu Padilha e Wellington Moreira Franco, diz o Estadão.

Também a prisão de Jacob Barata Filho, no Rio de Janeiro, não implica em novidade: finalmente, a polícia chegou a um dos esquemas de corrupção mais manjados nos municípios, os transportes públicos. Como todos os setores que se envolvem com o Estado, este também começou a desmoronar. É mais um e é bom que assim seja. A questão é que esse processo parece não ter fim. No longo prazo, talvez, se construa o novo; o problema é que no presente só se vê o passado — um museu de grandes novidades que pode comprometer o futuro.

Com menos graça e inteligência que numa comédia, a conjuntura nacional pode ser comparada a um blockbuster americano, chamado ''O Feitiço do Tempo'' (ou ''O Dia da Marmota''). O filme, de 1993, retrata uma situação cômica em que o mesmo dia se reinicia a cada manhã; dezenas de vezes, cenas e situações se repetem e a confusão aumenta. Todavia, ao dar-se conta do fenômeno, o protagonista (Bill Murray) se ajusta, corrigindo as interações ao longo processo. Ao final, transforma-se num sujeito melhor e conquista o coração da mocinha (Andie MacDowell).

Já o Brasil de Geddéis e Baratas parece condenado à mesmice maldita mesmo: cenas de prisões e escândalos de corrupção se sucedem, como capítulos repetidos de uma novela que se arrasta. Os personagens insistem no velho enredo; a situação só piora. Desatento, o cidadão não percebe o feitiço que o domina: rostos mais ou menos conhecidos repetem desculpas, com sinais trocados; as condições gerais se deterioram. Nada de glamour hollywoodiano; trata-se de um filme B, de terror banal e sem fim.

Quando não é Eduardo Cunha, é Lúcio Funaro; quando não é Rodrigo Rocha Loures, é Henrique Eduardo Alves; quando não é o próprio Michel Temer, é Geddel Vieira Lima. Quando não é João Vaccari, é Antônio Palocci; quando não é Lula, é Aécio Neves. Todos enredados no roteiro que aos poucos ficou desinteressante. A polícia prende, os juízes liberam; a polícia torna a prender, novos prisioneiros ocupam as mesmas celas. Na infecção intestinal do país, prisões e solturas se alternam.

Sujeita à disposição dos protagonistas da política, a sociedade queda paralisada. À piora das condições fiscais e econômicas, se junta o agravamento de questões sociais: desemprego, endividamento, serviços públicos de péssima qualidade, violência rural e urbana; crianças baleadas no ventre da mãe.  Ninguém sai às ruas — até porque não se acredita que resolvam; os movimentos de ontem mostraram que não tinham amanhã. O rancor da sociedade é, porém, guardado na geladeira para ser usado em outro momento.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias demonstram que a desolação pode não ser um sentimento apenas estéril: ela evolui em revoltas subjetivas e protestos calados que somente mais tarde poderão explodir, se não nas ruas, nas urnas. Sem centro político, a polarização está posta. Oportunistas de qualquer canto e populistas de todos os matizes se movimentam pelo melhor lugar no grid de largada de 2018.

Na Câmara dos Deputados, como antenas, os parlamentares captam esse sentimento geral. Não o reproduzem como representantes da sociedade e, assim, tampouco se mobilizam pela solução do problema — à maioria falta estatura. Mas, se organizam em virtude do cenário que vislumbram: novas solturas e novas prisões; o labirinto sem saída; a fúria das ruas, o populismo e o oportunismo eleitoral. Correm recolher raspas e restos do governo; sugam o bagaço dos recursos. Acordos só os pontuais; amanhã tudo se repetirá. Os urubus pressentem a carniça.

Michel Temer não tem, desse modo, quem o defenda; há uma debandada em sua base. No pronunciamento que fez em sua defesa, o presidente atrasou o relógio à espera do público que não veio. Até os áulicos se escondem. Torce, assim, para manter meros 172 votos ou omissões suficientes apenas para que ganhe tempo, arrastando o jogo que não tem futuro. Mas, sabe que em três votações nominais, entremeadas por desgastes sucessivos, será difícil se segurar.

Dilma Rousseff repetiu Fernando Collor; a possibilidade de Temer seguir o destino de Dilma está posta. Se isto ocorrer, virá Rodrigo Maia e, depois dele, outro e possivelmente mais outro. O elenco de atores e personagens é limitado; sem renovação, o roteiro não evolui. Os protagonistas desse filme ainda não o compreenderam; não se corrigem, cometem os mesmos erros. Enquanto isto ocorrer, reproduzirão o mesmo dia e a mesma marmota.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A defesa de Michel Temer e o ataque a Rodrigo Janot
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Carlos Melo

Pedro Ladeira/Folhapress

Michel Temer e seus camaradas não são a unanimidade que se poderia supor diante das pesquisas; ainda há uns poucos setores que o apoiam e confiam em seu papel supostamente reformista. Para eles, a recuperação econômica e a lógica das reformas a qualquer custo são mais relevantes que princípios éticos e mudanças políticas, que só se fariam sentir no longo prazo. É um compreensível modo de ver o mundo, onde pesam os valores do indivíduo. Todavia, como disse Luís Roberto Barroso esta semana, no Insper, se ''cada um tem direito à própria opinião, não tem direito aos próprios fatos''.

E os fatos falam por si, a despeito dos valores, da estratégia e dos pronunciamentos do presidente e de seus defensores. O fato é que o sistema entrou em colapso e Michel Temer representa, antes que a redenção econômica, o abraço de afogado desse sistema, o que, paradoxalmente, impede a própria recuperação da economia. A salvação da própria pele é, hoje, o que dá a lógica da ação presidencial e da maior parte dos aliados políticos que o abraçam. Vem daí a luta feroz que travam com o Ministério Público, no geral, e com Rodrigo Janot, em particular.

Esses poucos crentes — com mandatos e poder — se desesperam por aquilo que poderia ter sido, mas não será. Afirmam que, não fosse o 17 de maio, Michel Temer se consolidaria como o maior reformista da história do Brasil. Exagero e omissão; o Joesley Day foi um Cisne Negro que surgiu como natural resultado de um processo de putrefação. No mais, negligencia-se a história e a natureza do ator: por toda a vida parlamentar, Temer jamais foi além do articulador de interesses do ''baixo clero'' — o grupo de parlamentares de mentalidade provinciana, exclusivamente fisiológica, sem opinião a dar sobre questões realmente relevantes.

Em seu período na Câmara dos Deputados, não há notícia de debates abrangentes que tenha estimulado. Em regra, tudo foi antes, processos de acomodação de pequenos interesses, mesmo quando se falava em reformas. Pautas corporativas do parlamento, negociações de espaços na máquina em troca de apoios; renegociações por mais espaço; embates dessa natureza deram-lhe sentido e fizeram sua carreira. Não foi o único, mas, talvez seja o mais bem-sucedido político do tipo — mais que Eduardo Cunha, guardado hoje em Curitiba.

Com o passamento de atores de maior estatura, figuras assim deram a impressão de que se elevaram, mas foi o Brasil que estancou de repente. A associação com esses atributos duvidosos interessou ao projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, que os arrematou em leilão. Contudo, arrodeado por anões, Temer jamais pode-se emparelhar aos gigantes que, de fato, o país um dia teve. Como tamanho é coisa relativa, não por acaso, seus defensores insistem em compará-lo a Dilma Rousseff. Mas, aí os parâmetros são outros.

O impeachment de Dilma e a assunção de Temer foram, antes, uma tentativa de salvação do sistema que colapsara, que Dilma nunca conseguira coordenar — ainda que tentasse. Um processo de reloading (já escrevi sobre isto, leia aqui) que buscou reanimar o velho e dar fôlego ao moribundo tradicional modo de fazer política pequena que já não mais se sustentava diante da sociedade que emergira a partir das jornadas de 2013 e da crise que agora cobra seu preço pela indolência e pela imprevidência do passado.

A evolução de personagens como Dilma Rousseff, Michel Temer, Eduardo Cunha e até Aécio Neves — com origem e natureza distintas — deu-se na ordem inversa do empobrecimento da liderança política, das grandes questões nacionais, de uma visão nobre de entrega política e social; representam o colapso dos grandes partidos. Os personagens que resultaram de um processo degenerativo e de abandono social, que hoje nos damos conta entre surpresos e resignados.

Com todos os defeitos que se possa atribuir ao Procurador-Geral, ao novo Judiciário e a turma de Curitiba — e são várias as correções aí necessárias —, não se pode negar que representam a possibilidade de ruptura com o sistema político decadente já há algumas décadas. O enfrentamento com Janot é, portanto, primeiro que tudo, um grito de socorro; a agonia de um mundo que se desfaz, resultado de várias crises que compõem a atual crise (também sobre isto já disse: leia aqui.); resultado de conflitos inconciliáveis. Um mundo político decrépito e que, no entanto, ainda resiste.

Vociferam indignados seus apoiadores; formam brigadas dispostas a cruzadas e patrulhas ideológicas, vocalizam essa resistência. Tem direito a opinião, mas os fatos os tornam cada vez menos numerosos, isolando-os. O que se passa no Brasil é, quando menos, a tentativa de remoção do entulho fisiológico e corrompido — que, sob o tapete, se formou ao longo dos anos e tomou toda a sala —  contra práticas que transformaram a política oficial numa atividade, infelizmente, miserável; salvo as mais distintas e louváveis exceções.

A defesa de Michel Temer oculta isto; negligencia a natureza da crise e se agarra à fantasia de um estadista que não existe: reformador e injustiçado. Opinião que se difere dos fatos que revelam um presidente incapaz de se defender — que ataca ilações supostas por meio de ilações explícitas e confessas. Um desespero patético que tenta remeter um importante conflito ético-político ao campo de disputas políticas mais ordinárias.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O conflito político será longo e arrastado
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Carlos Melo

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Quando Dilma Rousseff teve seu mandato cassado, não houve resistência. No plano do Legislativo, a presidente, isolada pela ação do PMDB, perdera apoio; sequer míseros 172 votos Dilma e o PT foram capazes de garantir — o que não deixa de ser um fenômeno, diante do poder que a caneta do Poder Executivo possui no Brasil. No plano social, nem a mítica militância petista nem o tal ''exército do Stédile'' deram as caras. Foi surpreendentemente fácil: o governo caiu como a cabana de palha do porquinho Cícero, bastou um assopro.

Com Michel Temer, o processo não será tão simples, sem enfrentamento. Dadas as condições gerais da política nacional, o avanço da Operação Lava Jato e as perspectivas de punição, para Temer e seu grupo, permanecer no poder é muito mais vital do que foi para Dilma. A denúncia do Procurador-Geral da República contra o presidente iniciará, portanto, uma nova e mais complexa fase da crise: o ambiente político vai piorar, o ruído, a dissonância e a pressão subirão vários graus.

Evidente que Michel Temer poderá contar com grupos sociais nas ruas, em sua proteção; a popularidade presidencial rasteja e não será por aí que se defenderá — ainda que se valha do silêncio obsequioso de grupos antes radicalizados contra a política nacional. Será na Câmara dos Deputados que os operadores do presidente se pintarão para a guerra e mostrarão sua força, resistindo e atacando; negando ao limite os pedidos de Rodrigo Janot, blindando ao presidente para protegerem-se a si próprios.

O atual governo não se inibirá em mobilizar todos os recursos de Estado de que dispõe: a discricionariedade do ministério da Justiça, as prerrogativas presidenciais na escolha do novo Procurador-Geral da República, os instrumentos da Abin, as conexões com setores e personagens do Judiciário; e, claro — pela força de recursos ministeriais e pelo pavor com a Lava Jato —, o poder de cooptação capaz de movimentar a infantaria parlamentar.

Por outro lado, também o Ministério Público, importantes veículos de comunicação e setores não comprometidos da oposição (Rede e PSOL) não recolherão armas. Dificilmente, cederão à pressões, bravatas e aos encantos do Executivo. Novos escândalos, o aprofundamento dos já existentes, a intransigente obstrução de sessões na Câmara e o chamamento à participação popular, tudo isto estará na ordem do dia. A batalha será diária, longa e cansativa. E, quanto mais acirrada, tanto mais sangrenta.

Rodrigo Janot, já se disse aqui, é um enxadrista competente: tem em mente as reações a este lance e projeta as próximas peças que deslocará em seu tabuleiro. Por prever as jogadas do adversário, a denúncia virá em parcelas; apresentá-la em três etapas, forçará a Câmara a exaurir-se em desgastes múltiplos, induzida ao constrangimento repetitivo e renovado, marcada na lembrança do eleitor na postura, no posicionamento e no voto de cada parlamentar. Janot planeja acuar o adversário, colocando-o ao xeque — mesmo que não seja ''mate''.

Em paralelo, o combustível que ainda virá de Curitiba: a nova série de delações premiadas que está sendo preparada — Antônio Palocci, Lúcio Funaro e, por inércia, Eduardo Cunha. Sem contar, é evidente, com o desespero de Rodrigo Rocha Loures, quando levado for à Papuda. O ministério Público parece ter em mãos um arsenal bastante superior ao exército já combalido do presidente, que antes de tudo, joga com o tempo, esperando setembro chegar, na esperança de remover o adversário da PGR.

Junto disto, virão as tais ondas de comunicação: a divulgação do conflito, a difusão dos escândalos, a aflição com o futuro moldando a opinião pública e vergando aliados flexíveis como o PSDB, por exemplo. Manifestações como a de Fernando Henrique Cardoso, isolando Temer de setores empresariais — cada vez menos iludidos com as possibilidades de reforma com este governo —, recomendando ao presidente que peça para sair, tendem a se repetir.

Há, no entanto, pouquíssimo espaço para saídas negociadas, acordos de conciliação. O humor popular e as instituições que se empoderaram com o impeachment não assimilariam indulgências que o sistema político pudesse aceitar de bom grado, como uma saída pelos fundos, mesmo que desonrosa. Tampouco não há liderança política capaz de persuadir a opinião pública nesse sentido.

Nada disto, no entanto, indica que Michel Temer, ao fim e ao cabo, cairá de seu cargo antes de 31 de dezembro de 2018. O impasse que se prolonga no tempo e que arrasta a disputa é sempre uma opção para o jogador. Esperar a cavalaria, sabe-se lá de onde, resume o vício da esperança de qualquer moribundo. Diante das restrições que se impõem, o ''gesto de grandeza'', como apelou FHC, é pouco provável. De modo geral, em política, isto só existe como rara exceção.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


As crises dentro da crise
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Carlos Melo

Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Em vários espaços, tenho descrito impressões sobre a natureza dos males que o país vive. Não há certeza de nada, nunca haverá; é apenas a crise como a vejo. Como o Riobaldo de Guimarães Rosa, ''eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa''. Cansado de atirar pedras, talvez seja o momento de repetir e atualizar as desconfianças de maior fôlego. Compartilhar, quem sabe contribuir — menos com os partidos, mais com a sociedade; se não com a sociedade, com os raros leitores. Segue um ''textão''.

A crise não é conjuntural, ela abraça ao sistema por múltiplos fatores estruturais e se manifesta por um processo de cumplicidades entre partidos e agentes que, incapazes de resolve-la, batalham pela conciliação. Mas, à doença crônica é possível que não haja remédio, no curto prazo. O corpo médico à disposição é limitado, o diagnóstico e a terapia prescritos são inúteis. Sobre o doente, se pratica medicina paliativa como se fosse terminal; na verdade, ministra-se um tratamento negligente.

As desconfianças vão em várias frentes; são cinco as crises dentro da crise: 1) a crise de modelo econômico, 2) a crise do ''país da meia-entrada'', 3) a crise do presidencialismo de coalizão, 4) a crise do financiamento da política, 5) a crise de liderança. Necessário enfiar o dedo em cada uma dessas chagas.

Na década de 1990, ao dominar a inflação, o país deu um estupendo salto econômico. Estabeleceu a racionalidade dos ''fundamentos macroeconômicos''; isto deu alguma segurança para distribuir renda e promover investimentos. Foi o período do governo FHC e boa parte do governo Lula, este favorecido pelo choque de commodities. Percebeu-se, todavia, que não bastava: seria necessário avançar na agenda de produtividade; investir em infraestrutura, logística, educação e aperfeiçoamento do ambiente de negócios.

A Nova Matriz Econômica de Dilma deu com os burros n'agua ao imaginar que tudo pudesse ser feito unicamente pelas mãos do Estado e à parte de transformações das instituições políticas; não investiu em reformas e, pior, abusou-se até o esgotamento de mecanismos como o crédito e incentivos fiscais de toda ordem.

Hoje, de volta à agenda de 1990 — controlar os fundamentos macroeconômicos —, o país retrocedeu ao que deveria ser obrigação. Precisa, no entanto, da política para avançar numa agenda de reformas que possa ir além do simples ajuste fiscal. Essa agenda, é claro, fere interesses de toda a ordem e por isso requer a solução de outras crises.

O ''país da meia-entrada'' é a expressão que o economista Marcos Lisboa encontrou para descrever um sistema de enorme poder e privilégios corporativos. Desde, pelo menos 1936, se sabe — com Sérgio Buarque de Holanda — da presença e da força dos ''interesses particularistas''. Corporações que levam o maior valor da renda nacional, praticamente arrendando para si o Estado.

São diversos grupos que ficam com ''a parte do leão''; sejam eles empresários, sindicatos de empregados públicos, privados e patronais e até grupos específicos como juízes, promotores, fiscais, parlamentares, médicos, professores, estudantes… Todos os que conseguem arrancar uma lasquinha dos recursos públicos, com supostos direitos que inexistem — por que a escassez é a lei da natureza — para grupos sociais que vivem sem qualquer proteção.

Esse ''país da meia-entrada'' entrou em crise, sobretudo, por conta das transformações demográficas — mas também pelas próprias limitações de crescimento e expansão do modelo econômico. Resolver seu colapso demandaria ação de um sistema político eficaz, com visão de Estado e de longo prazo, pouco ou quase nada voltada para interesses particulares e fisiológicos. Eis outro ponto de crise.

Durante anos, teceu-se loas ao presidencialismo de coalizão — de fato, o sistema entregava aquilo que o Executivo pedia. Descobriu-se que, com os recursos de que dispunha, o governo fazia maioria no Congresso e aprovava demandas. Eureca! Admitia-se o fisiologismo como elemento estrutural do processo. Com efeito, alguma gordura, às vezes, e necessária para que o mecanismo flua. Com alternância de poder, o sistema tem seus momentos de ''reloading'' e se renova. Novos governos surgem, refazem acordos, redistribuem recursos e o pacto fisiológico renasce.

No entanto, não se considerou a qualidade da democracia que se fazia. Recursos públicos têm limites; voracidade fisiológica, não. O vício se expande e controla o organismo; sem negociação programática e limites morais, cargos e recursos transmutam-se em ''esquemas''; tudo passa a ser negociado no paralelo. Em quatro mandatos, a gordura fisiológica compromete as artérias do sistema; a graxa emperra o mecanismo. Vive-se o colapso da coalizão fisiológica.

Esquemas assim vorazes e sem freios comprometem a dinâmica de outro fator estrutural: a relação das empresas com a política por meio da corrupção — de algumas empresas, não todas. Acordos, engodos, fraudes, a corrupção sistêmica que financiava esse tipo de política e de políticos, todavia, agora diante de uma sociedade diferente.

A Constituição de 1988, de fato, gerou novas instituições. Em que pese excessos, o Ministério Público formado por jovens promotores, com o sangue nos olhos, surgiu como fato novo. Ao mesmo tempo, o judiciário que se remoçou e assumiu doutrinas distintas do tipo de direito que aqui se pratica; a Polícia Federal também conquistou autonomia. Trata-se do ''republicanismo'', que hoje o PT enxerga com desdém e origem de sua desgraça; ironicamente, sua maior contribuição.

Some-se a isto um sistema internacional assustado com o terror e mais vigilante com a corrupção e com lavagem de recursos; uma sociedade multimídia, fragmentada e, ao mesmo tempo, conectada em redes, tão plena de conflitos e disputas, indócil, que já não mais se pode cooptar. E está posta a bactéria que revela a sepse, a infecção generalizada do organismo, prenúncio da morte do sistema.

Tudo isto requer medidas profundas e urgentes. Todavia, a liderança política é o quinto elemento em colapso. Com diagnóstico correto, coragem e mediedade, habilidade política — o que inclui comunicação com a sociedade —, o corpo político poderia promover a reinvenção e seu próprio resgate; reorganizando o sistema, superando as diversas crises. Mas, é esta a principal crise do país, seu momentâneo deserto de lideranças.

Nem sempre foi assim, mas vive-se esta ausência de lideranças (no plural). Não se trata de apenas um líder solitário e messiânico, pleno de fúria e farisaísmo que, quando surgiu, foi sintoma e não solução. Mas, de grupos capazes compreender as crises, de representar e liderar setores, conduzir processos de reformulação. Não à toa, tudo tem ido parar no Supremo Tribunal Federal, que também vive sua crise de quadros e lideranças.

A entressafra é ruim, talvez uma geração perdida; um hiato a ser preenchido.

Dizem os chineses que as próprias crises geram inovação, lideranças, soluções. A história coloca problemas aos quais a própria história traz consertos e concertações. Plácidos, os chineses a tudo enxergam com perspectiva de décadas, séculos, milênios; doenças se curam com terapias longas. O diabo é que não somos chineses; não há tanto tempo nem paciência assim. Os males são males que consomem rapidamente.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A crise e os “corruptos de estimação”
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Carlos Melo

Mergulhador alimenta tubarão baleia Imagem: Yoshikazu Tsuno/ AFP

A crise cria seus símbolos e expressões, faz seu próprio idioma. Desvelando o ânimo de parte da sociedade, revela o espírito do tempo. ''Corrupto de estimação'' já é um dos termos consagrados por este conflito; não se sabe como surgiu, mas demonstra a situação em que preferências e vetos políticos se colocam acima de evidências de deterioração geral do sistema. Dá-se com isto suporte à sobrevivência de grupos e contextos políticos que precisariam ser rapidamente superados.

Estandartes da moralidade de apenas alguns meses atrás, agora, se recolhem; relativizam fatos, e douram versões: o que servia para Lula e Dilma não serve para Temer e Aécio, por exemplo. De sinal contrário, tudo o que há pouco era impróprio, era precipitação, era abuso em relação ao PT, empregado aos inimigos é, agora, justo. A crise coloca em cartaz seu festival de cinismos.

É mais um problema no interior do emaranhado de problemas do país. Do FlaXFlu fogem análises objetivas, esticando o tempo político da disputa. Relativiza-se, por exemplo, as revelações de Joesley Batista; elas, de fato, trazem prejuízo à economia, mas o acessório não pode negar o essencial: o presidente que não consegue se explicar.

Por sua vez, petistas julgam com a pressa e o rigor que não admitem sejam julgados seus dirigentes. E esquivam-se: não haveria provas do envolvimento de Lula e Dilma com esquemas da JBS. ''Lula não foi gravado''. Zomba-se da inteligência geral ou da capacidade de Lula? Não se alivia o fato de ter-se consolidado um grande esquema de corrupção, durante os governos do PT.

Delação boa é a que arde no círculo social do outro. A crise gera essas contradições: argumentos e desculpas que antes cabiam na boca do adversário. Constitui-se, assim, o embate-empate na opinião pública que inibe o desenlace mais rápido da crise. Dividida, a sociedade se desmobiliza. A disputa dos partidos, na opinião pública, compreende exatamente isto, a paralisia. Sem pressão, os blocos políticos acomodam-se, não há rachas nem defecções. Cada um resguarda seu interesse.

Tenta-se desqualificar a crise: maliciosamente, surgem questionamentos sobre os motivos, afinal, do Ministério Público e da mídia que amplifica as denuncias. Difícil dizer. Fazem lembrar o motorista Eriberto França, cujo depoimento levou Fernando Collor de Mello ao impeachment. Na CPI, um deputado ''colorido'' lhe perguntou se denunciava ''apenas por amor à pátria''. Ao que o motorista devolveu: ''…e o senhor acha pouco, deputado?''

Ainda que se possa especular a respeito de razões que a razão desconheça, o fato é que a narrativa de Joesley Batista é reveladora do estado da arte do sistema político real: de fato, os maiores partidos do Brasil — e alguns de seus dirigentes — locupletaram-se com relações não republicanas, lambuzaram-se com o mel de grana graúda.

Não se apaga o papel que o PT teve nisso, não importam as alegadas e esfarrapadas desculpas de que foi em prol da inclusão social. Tampouco a recuperação econômica pode, por sua vez, esconder que o presidente recebeu, sim, nos subterrâneos do Palácio quem agora chama de ''notório bandido'', indicando-lhe um interlocutor pouco depois flagrado com uma mala de dinheiro. Nada faz esquecer que Aécio Neves fazia pedidos ao ''notório bandido'', mesmo depois de ter liderado um processo que retirou do poder um grupo ao qual o senador qualificava como ''organização criminosa''. Custa esquecer.

No geral, as explicações de cada um são frágeis e contraditórias; imaginar que nada disso ocorreu não faz sentido; há, ao menos, verossimilhança nos relatos. E, à parte disto, provas vivas às quais se procura enterrar. No mais, o STF julgará se os termos do acordo de leniência entre a JBS e o MP são válidos; numa lógica ''consequencialista'', avaliará se os áudios e as ladainhas de Joesley valem isso tudo, na missa da crise.

Pouco importa em quem, afinal, se votou em 2014. Tudo mudou. Não é o mesmo que trocar de time de futebol, virar casaca. Dicotomias e maniqueísmos deveriam desaparecer; vetos a partidos ou personagens não podem obscurecera realidade: o sistema político ruiu, as casas estão caindo. A vida precisa ser reconstruída com outro barro. E os corruptos de estimação devem, sem exceção, ser encaminhados às autoridades sanitárias.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.