Blog do Carlos Melo

Considerações sobre as metades do copo
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Carlos Melo

É no olhar dos homens que o copo, meio cheio e meio vazio, define sua vocação: para uns, está satisfatoriamente ocupado; para outros, irremediavelmente deserto. A divergência reside naquilo que, pensam os homens, mais valeria destacar como fundamental. A metade cheia ou a metade vazia, por opostas, negam-se mutuamente. Resistem admitir, em resumo, que o copo é um todo, cuja soma das partes conta uma inteira verdade.

A ambiguidade do copo tem definido o debate nacional, repleto de rancor e vendeta; machucado por disputas e agressões de anos e anos de polarização eleitoral. Mais valeria que se discutisse se o que o copo possui é mesmo o que nos basta; ou se o que lhe falta está (ou não) naquilo que nos resta.

Mas só a polêmica importa: é chavão dizer que o país vive sua maior crise — embora seja verdade; é raso insistir que, mesmo assim, ''a economia descolou da política…''. O desafio reside, antes, em responder se a economia vai mesmo em frente, assim, sustentando-se em ambiente político tão frágil. E mais que isto, se ao final, resgatará políticas públicas e promoverá algum bem-estar social.

Nem se discute isto; num horizonte limitado, a vista não alcança o futuro. No peito, pulsa a intolerante parcialidade de pontos de vista. O país vive de paradoxos.

Apocalípticos, enfatizam a falta que há em quase tudo que existe no Brasil destes dias, lamentam o mal irremediável que a história recente causou; negam que já não era sem tempo de que o sistema, estruturalmente doente, entrasse mesmo em colapso. Vive em agonia e sua morte será muito bem-vinda.

Integrados ao sistema, por sua vez, relativizam a falta; pintam com cores vivas os pálidos sinais de melhora do doente que apenas respira. Até no governo Temer encontram ilhoses e lantejoulas, chamando de belos bordados o um bololô de nós embaraçados que o amarra — não é um governo que se governa; a tortuosa sorte o domina. Ressuscitar a grande Política é um imperativo que se ignora.

De verdadeiro nisso tudo, o fato de que não nos sobram muitas verdades. A certeza é a maior falta e a volatilidade o principal conteúdo do copo nacional. Já se disse que a instabilidade é a nova estabilidade; que a incerteza é a coisa mais certa. Destruição criativa; intensa criatividade deveras destrutiva. Atribulado Mundo Novo.

A crise varre indivíduos e organizações viciados pelo tempo e costumes. É positivo. Mas ainda esconde seus destroços sob o tapete. Capenga e alquebrado, sistema político ultrapassado sobrevive. Incrível que haja quem se envaideça de sua resiliência. Um sistema político assim colocado torna-se o principal custo de transação para o país.

Sua substituição está contratada; é consistente, mas lenta e incremental. Aflitiva para a maioria dos viventes. Na transição, ideias moribundas transmutam-se em novos blá-blá-blás, sob medida para o oportunismo eleitoral. Renans e Jucás se debatem e se debruçam buscando sobrevida. Assim como está, o sistema morre, mas, antes, mata. Levará a democracia consigo?

Novos profetas pregam no Jordão das redes sociais: um liberalismo puro seria, no Brasil, coisa nova, sendo em todo mundo ideia-avó do velhote comunista. A liberdade total é a lei do hedonista; a desigualdade, principal lacuna nos andares vazios do museu de grandes novidades. Conciliar liberdade com desigualdade é fácil; difícil é converte-la em Justiça — mister da Política, sua arte e seu ofício.

No País, já bastaria como novo que se inventasse a ''Republica''; enterrar o patrimonialismo, romper com o clientelismo, inaugurar o universalismo de direitos e procedimentos — algo tão simples quanto radicalmente democrático. Igualdade oportunidades, direitos sem privilégios; sem amigos, nem inimigos, nem querelas. Eis a nossa Revolução. Está em Sérgio Buarque, 1948.

Numa parte do copo, houve avanços evidentes; deu-se, assim, largos passos para frente. Na outra, a peemedebização da vida pública e o reacionarismo como modelo cultural foram, sim, pinotes para o retrocesso. Em tempos de pesadelo, um sonho basta: inaugurar a ''República'', utopia para alimentar o pleno e ocupar a falta. O desafio é fundir a esperança do cheio na desolação do vazio do copo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Simples e complexo
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Carlos Melo

Pablo Picasso – The Dream, 1932

Em que pese o desgosto com o momento, percebe-se relativo aumento do interesse pela política. Não se trata ainda de mobilização; como uma onda, o envolvimento começa pequeno, ainda que no seio das elites. Aqui e acolá, grupos se reúnem com preocupações que raramente se expressavam no passado: mais profundamente, quer-se compreender o que se passa; lentamente, se entende que não basta trocar as moscas.

O país, de fato, tem carecido de discussão de melhor nível; reflexões, que não se alimentem de rancor, podem gerar mobilização de melhor qualidade, libertada do senso comum e do preconceito. A participação da elite, em qualquer país, é sempre importante — se souber se abrir para o mundo que a cerca e se desvencilhar do senso comum. Fugir do simplismo, conciliar o simples e o complexo.

O discurso a respeito da ''gestão'', por exemplo, precisa de urgente qualificação. Gestão (de qualidade) é, obviamente, necessária. A política sem gestão é voluntarismo; ineficiência que resultará no caos. Contudo, os problemas da sociedade são sempre mais complexos do que dizem os manuais e os gerentes e nem tudo se limita a estabelecer uma boa rotina operacional.

Há uma infinidade de questões impossíveis de serem quantificadas; idiossincrasias, choque de valores, disputas de poder, manutenção de privilégios. Nem a meritocracia é capaz de se sustentar quando não há, antes, igualdade de condições. As regras e normas ajudam, princípios também. Mas nem sempre dão conta da amplitude do mundo real. Gerir a política não é tão simples quanto gerir uma empresa.

A começar pelo fato de o governante não ser um patrão e, tampouco, os agentes políticos e cidadãos são seus funcionários. Há que distinguir a natureza das coisas: gestão é técnica, conhecimento é ciência; política é arte. É necessário casar os três elementos.

Um governante pode dar ordens, é claro. Mas, nada garante que serão atendidas. Numa sociedade democrática, pouco depende apenas de vontade ou hierarquia. A obediência reside, antes, na lei. E, ainda assim, a lei só será assimilada pela íntima adesão individual e pelos pactos sociais. Apenas em última instância, pela força.

Winston Churchill teria, evidentemente, algo a aprender com Akio Morita ou Jack Welch, mas muito mais haveria o que pudesse lhes ensinar. A visão de futuro é essencial, a capacidade de comunicar, persuadir e envolver são valiosas. O estatuto, o regulamento e a possibilidade de coerção, a partir do salário, contam muito pouco.

Um governante pode ter o controle de uma máquina pública, mas dará à sociedade o que ela quer e necessita? Saberá convencer a maioria os porquês de sua ação e o sentido de suas prioridades? Conseguirá juntar vontades e formar consensos, consolidar crenças e mobilizar?

Difícil acreditar na gestão sem política. Grandes CEOs, de verdade, compreendem isso e, num âmbito menor, percebem que desempenham habilidades políticas. Não se trata apenas de foco, mas também de sensibilidade; não se trata apenas de carisma, mas também de justificativas racionais aceitas por todos ou, pelo menos, pela maioria.

Esta é a primeira questão para a elite econômica que pretende se voltar para a política: entender que algumas ideias são palavras soltas; às vezes, palavras gastas. Uma ideia de todo tola, se estiver solteira do mundo real. Como uma imagem de Picasso, a realidade é, ao mesmo tempo, simples e complexa. Democracia não é força; é jeito. O poder nem sempre pode tudo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


No vácuo, Temer ficará apenas por ir ficando
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Carlos Melo

Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

No liquidar de seu mandato, Rodrigo Janot oficializa, enfim, a segunda denúncia contra Michel Temer e mais uma penca de peemedebistas e assemelhados. Trata-se de mais uma estocada, dura e contundente: Temer deixa de ser o primeiro presidente a sofrer uma denúncia do PGR para ser o primeiro a sofrer duas denúncias. Recorde sobre recorde. Contudo, o mais provável é que também esta seja uma marca destinada a não dar em nada.

Cabe compreender: a denúncia é, em si, notícia velha. As samambaias do país sabiam que ela viria mais tarde ou mais tarde. Aliás, Janot contava que, até o final do mandato, pudesse enviar três e não duas denúncias. Desgastar a Michel Temer e sua turma com mais método e vagar.

Contudo, por tudo o que tem acontecido em torno no Procurador-Geral — a frustração e o escândalo em torno da delação de Joesley Batista —, o processo não transcorreu como o PGR esperava. Também a tramitação da delação de Lúcio Funaro — o operador do PMDB — parece ter demorado mais do que se supunha. De modo que a denúncia chega fora do timing planejado, o que a torna menos potente e eficaz.

Além disso, a partir da próxima semana, ficará sob os cuidados de uma nova equipe, desvinculada de Rodrigo Janot e ligada a próxima Procuradora-Geral, Raquel Dodge. E independente da disposição da nova direção do MPF, o fato é que haverá uma quebra de ritmo nesse processo — até para que os novos agentes tomem pé da situação — e é natural que a disposição em aquecê-la na mídia também arrefeça.

Outro aspecto está vinculado a quase nenhuma disposição do Congresso Nacional em afastar o presidente da República, permitindo que seja investigado já — o ''depois'' fica para depois. Quando da votação da primeira denúncia, por força dos argumentos, cargos e recursos, o governo se fez valer e mais de 26O deputados disseram não ao PGR — e, de acordo com as pesquisas, também à sociedade.

Agora, com a sociedade resignada, coberta pelo desalento e falta de alternativas, ainda tanto maior será a facilidade da Câmara em deixar tudo como está e até retirar uma ou outra vantagem disto. Janot suspeitava constranger o sistema, mas, a lambança revelada na ''conversa de bêbados'' de Joesley e Saud dá desculpas e dissimulação a quem já não votaria mesmo pela abertura de processo.

O mais provável, portanto, é que o presidente termine seu mandato e que ajuste contas com a Justiça — se vier a ajustar — somente após 1o. de janeiro de 2019.

A efetividade da substituição de Temer é também cada vez mais duvidosa para boa parte do sistema político, mesmo na oposição; a cada dia interessa menos abreviar seu mandato, uma vez que sua hipotética sucessão, a cada hora, torna-se um exercício de imaginação menos real e mais confuso. É justamente o esgotamento do tempo que lhe resta que o torna mais estável.

Como o leitor deve ter notado, não há aqui considerações de mérito e juízos de valor a respeito da denúncia. Não porque inexistam questões dessa natureza, mas porque, de um ponto de vista prático, parecem pouco relevantes. E isto é o mais terrível: um presidente e seu grupo se mantêm no cargo não porque sejam importantes ou inocentes — o que, a rigor, somente a investigação e o julgamento que a Câmara não permitirá é que poderiam demonstrar —, mas apenas porque não valeria mais a pena mexer com ele. A íntima convicção de que não vale a pena. Michel Temer ficará simplesmente porque vai ficando e o tempo logo passará. Em política, às vezes, existe, sim, o vácuo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Vícios públicos, benefícios privados
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Carlos Melo

''Dos viejos comiendo sopa'', de Francisco de Goya.

Há mais de dois séculos, a teoria econômica utilitarista definiu que se cada indivíduo procurasse o melhor para si, num sistema de interações que impõem limites ao egoísmo, todos poderiam ganhar. Não se inibiria o egoísmo de cada um; pelo contrário, seria mesmo estimulado, pois o egoísmo de um é natural limitante ao egoísmo de outro: guerra e caos não interessam a ninguém, sua perspectiva age como um corretor natural. ''Vícios privados, benefícios públicos''.

Porém, os seres humanos não são abelhas, onde tudo parece compor uma ordem natural; encontrar o equilíbrio não é obra certa; faz-se necessária a intervenção humana e a construção de outros fatores: em primeiro lugar, o desenvolvimento de sentimentos éticos; depois, a construção de instituições que saibam inibir e corrigir excessos, impondo parâmetros individuais que somem ao conjunto dos interesses ao invés de subtrair.

É, com efeito, uma visão idealista. Ainda assim, longe de ser moralista ou normativa.  Apenas tenta indicar uma dinâmica social cujo resultado é racional e utilitário: a soma de interesses individuais não leva necessariamente a ganhos gerais, mas o bem-estar geral é, evidentemente, o bem de cada um. Logo, na busca do bem pessoal, todos racionalmente, voltam-se também a fazer concessões ao coletivo.

Deixando a profundidade de lado, é importante dizer que, nesta quadra histórica em que o país vive, nada parece estar mais diante da realidade. Uma rápida olhadela no noticiário faz suspeitar que, no Brasil, os benefícios privados têm levado a vícios públicos. Ou, antes, são os vícios públicos que têm levado aos benefícios privados? E nada concorre ao bem coletivo que garante a satisfação de cada ser.

Basta pegar um exemplo, o da J&F (mas não só): foram os benefícios de seus proprietários que viciaram as instituições ou foram antes os vícios institucionais que beneficiaram os Batistas? Fosse este o único caso que pudesse ser mencionado, estaríamos bem. Mas, o país tem Joesleys por aí às mancheias que corrompem e são diariamente corrompidos: o que ou quem nasceu primeiro?

No momento em que se demoniza os executivos da gigante de proteína animal, com uma CPMI no Congresso Nacional, é importante não perder de vista o processo interativo entre o sistema político, as instituições de controle e os interesses privados que sempre se confundiram no Brasil.

De fato, eles não são santos, mas, Joesleys existem também porque dezenas de atores públicos, políticos ou não, são tão profundamente viciados em benefícios particulares quanto os primeiros. O mais provável é que vários senadores e deputados presentes naquela comissão não destoem do enredo geral. Como poderiam julgar com isenção? Vícios públicos e benefícios privados conformariam hoje um contaminado esquema de interesses e conexões.

À parte disto, na sociedade, o país parece ter perdido referências éticas; ou, antes, as trocou por narrativas de autointeresse, patrulhas ideológicas e a preservação de corruptos de estimação. A intolerância que cega e faz perder o sentido do interesse geral. Não há, neste momento, preocupação em construir escadas eficientes e duradouras que retire a todos do fundo do poço que a dinâmica política abriu no meio do território nacional.

Também aqui não se trata de discurso moral; a questão passa pela salvação utilitária: é importante encontrar algum tipo de equilíbrio antes que tudo despenque pelo desfiladeiro e a sorte individual nada mais seja que o azar coletivo. Preocupados com seus filhos, cada indivíduo deve lutar pelo futuro. Praticar a arte da Política — ou aquilo que a política deveria ser — consiste em considerar a existência dos filhos do vizinho.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Haverá mais?*
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Carlos Melo

Os mandados de prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud são desdobramento natural da revelação dos diálogos entre os dois executivos. Não devem ser encarados como indício de mudanças nas regras para delações premiadas. O próprio acordo com o Ministério Público prevê suspensão, em caso de falseamento ou omissão de fatos. Ao que tudo indica, os novos prisioneiros omitiram detalhes importantes do relacionamento que mantinham com autoridades. As prisões são, portanto, “vida que segue”, sem surpresas; haverá, provavelmente, até justiça nelas.

Mesmo definido por um de seus protagonistas como “conversa de bêbado”, o áudio expôs uma estratégia que consistia em revelar alguns pecados e entregar peixes gordos da política, de modo a preservar executivos e empresas do grupo. Mas a confusão deixa uma questão: se, temendo ser presos, Batista e Saud disseram o que disseram, o que não falarão agora, se mantidos no calor pouco acolhedor dos presídios? Haverá mais?

As relações da J&F são amplas e por anos sustentaram financeiramente quase todo o sistema político nacional: a empresa é um gigante, há muito tempo dependente de relações com o Estado; a tradição clientelista e patrimonialista brasileira é ainda maior. A promiscuidade é tão grande, que parece justo suspeitar que mais ainda possa vir. Mesmo Joesley se mostra um personagem imprevisível, pouco articulado e falastrão.

Em breve o caso estará sob cuidados da futura procuradora-geral. Raquel Dodge estreará com um processo desta dimensão e pressão potencializada pelas prisões. Será oportunidade para afastar suspeitas em torno de sua indicação e firmar reputação de seriedade, isenção e vontade de apurar. Por sua vez, o sistema político permanecerá alerta e, por muito tempo, com a respiração suspensa.

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER.

*Publicado originalmente no jornal ''O Estado de S. Paulo'', de 11/09/2017.

(http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,a-questao-e-havera-mais,70001984641)


Mais do que política, crise de Estado*
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Carlos Melo

 

Parece ficção, mas não é. É a realidade concreta, difícil de compreender e impossível de ligar todas as pontas. A confusão só aumenta. O fato mais nítido, no entanto, é que o processo destrutivo da autoestima nacional é devastador: não há heróis que possam ser insuspeitos; sistema político e até órgãos de controle são abraçados por séculos de tradição patrimonialista e clientelista. É incrível que tudo venha a estourar nesta quadra de tempo em que vivemos; somos testemunhas de uma história de decomposição.

Mais que política, a crise parece de Estado: para onde se olhar, haverá buracos. A grande reforma do País será, um dia, tapá-los. Hoje, não há liderança para isso. Desta vez, nem o supremo STF escapou de menção; e o até então insuspeito Ministério Público entrou na roda. As vestais ficam assim acuadas, pois de seu ventre saiu a serpente; mais duro golpe contra a Lava Jato. É evidente que as novas gravações da JBS abalam o moral das investigações – ainda que não as liquidem.

Políticos de quase todas as colorações já tentam jogar pela janela a água suja do banho com a criança. Nada apagará provas, diálogos e depoimentos, mas os que buscavam desculpas terão argumentos para tergiversar: Rodrigo Janot que agora se explique! O processo de afastamento do presidente Michel Temer, por exemplo, já pouco provável diante da força do convencimento fisiológico, fica ainda menos tangível. O governo que, ofegante, via os preços de apoios dispararem, respirará aliviado.

Ainda assim, o impacto é menor do que gostariam os envolvidos. Na sociedade, não há áudios que eliminem impressões ou que desfaçam a certeza de que o sistema ruiu. Nem há vergonha que baste: no mesmo dia em que o imbróglio do MPF-JBS é divulgado, a Polícia Federal expõe fotos de um bunker, onde, supostamente, mais um ex-auxiliar do presidente da República escondia malas de dinheiro; tantas a não poder carregar. A mente do povo cria nexos, confusão alguma deletará imagens como aquelas nem o sentido de tudo. Isto ficará.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

*ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO, DE 06.09.2017.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,analise-mais-do-que-politica-crise-de-estado,70001971263


Criadores e criaturas
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Carlos Melo

Ciete Silverio/A2D

A história política do Brasil é rica em criadores e criaturas que se estimulam e se anulam: Adhemar de Barros deu luz a Lucas Nogueira Garcez; Jânio Quadros, a Carvalho Pinto; Leonel Brizola, a Cesar Maia; Paulo Maluf pariu Celso Pitta. Mais recentemente, da costela de Lula nasceu Dilma. Invariavelmente, há uma sucessão de desencontros e esbarrões: em 2014, por exemplo, o ex-presidente quis voltar e a afilhada lhe fechou as portas. O resultado é conhecido.

Na prática, esses processos que quase nunca acabam bem: acusações de mandonismo de um lado; de traição, do outro. No final, resta a avaliação, latina, de que ''cachorro que morde a mão do dono deve morrer de fome''. Exageros. O fato é que políticos dão sopro de vida a seres que, com o tempo, se projetam para fora, conduzindo projetos próprios e subtraindo as esperanças e ilusões de poder do próprio criador. Dr. Jackyll e Mr. Hide.

O thriller passa por nova edição: de Geraldo Alckmin surgiu João Doria. Ambos contam uma velha história: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no palanque.

Embora, ainda nada tenha de concreto para demonstrar na província, o prefeito sonha com a presidência. Na concorrência com o governador, afirma que o PSDB precisa ouvir o povo, sensibilizar-se pela melhor posição nas pesquisas; pautar-se, antes, pela chance de vencer a eleição do que disputá-la como uma Hillary Clinton marcada para morrer.

No próprio espírito do que tem sido a política, Doria faz seu jogo. É autoconfiante. Não cabem considerações e juízos valor. Em 1989, Orestes Quércia estava melhor posicionado na corrida presidencial e deixou a vez para Ulysses Guimarães — Ulysses, de fato, tinha mais predicados do que Quércia, mas ficou apenas com o sétimo lugar, naquela eleição. Fernando Collor foi eleito e o tempo de Quércia passou.

Uma oportunidade desperdiçada está perdida para sempre? Só o tempo dirá. Doria diz que não bate chapa, numa prévia, com Alckmin. Não se trata de cortesia. Sabe que o governador ainda tem o controle do partido e não se submeteria ao desgaste para perder. Passar por vítima não lhe basta; aumenta a pressão: pode ser candidato por outra legenda. ''Já fui convidado por várias'', diz.

É pouco provável que, uma vez eleito — por outro partido —, dispense o PSDB. Presidente da República, precisará compor; não poderá se fiar na índole de escorpião do PMDB; a recomposição com os tucanos será inevitável. Nessa hipótese, alckmistas poderiam até pagar para ver. Mas, para os cabeças brancas, política tem fila; ademais, seria perder o controle do processo. E para Alckmin não haveria outra oportunidade.

O fato é que, ao contrário de Quércia, o prefeito entende que não pode deixar o tempo passar. A sorte é fugidia e o momento uma égua a ser domada. Em sua angústia pessoal ou no seu cálculo frio, João Doria sabe que é necessário aproveitar inércia do processo que despertou, deixar-se embalar pelos ventos. Perder o movimento será perder a força, talvez, para sempre.  Criar constrangimentos dos quais não se constrange nenhum pouco.

***

O prefeito ganhou impulso pelo sucesso eleitoral de 2016. Do surgimento à projeção de que seria uma espécie de Emmanuel Macron, tudo foi meteórico. Há, no mercado, ânsia por um caso nativo de sucesso eleitoral, capaz de derrotar Lula. Embora ninguém possa dizer o que o futuro ainda fará de Macron, Doria vestiria o figurino como um pastiche que dá para o gasto. Mestre em comunicação, o prefeito e se deixa levar por essas comparações desprovidas de sentido, dadas as diferentes realidades. Beneficia-se disso.

O fato é que entre ''Hillarys'' e ''Macrons'', o país pode acabar com um Donald Trump incapaz de dar conta do intrincado sistema político nacional. Ninguém tem bola de cristal, mas já se sabe as condições do próximo governo: uma economia ainda em frangalhos, políticas públicas destroçadas, estados quebrados. Um Congresso tão fisiológico quanto o atual. Despertar expectativas é preciso, mas também será necessário realiza-las. O dia seguinte é inevitável.

Na crise, tudo é rápido e vertiginoso: há pouco mais de um ano, pensava-se que o PSDB enfrentaria disputas entre Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. Aécio virou estátua de sal; Serra peleja para voltar à cena; Alckmin resiste, mas tem agora um adversário de imagem remoçada, aparentemente, mais duro na queda. O governador o pariu de seu próprio ventre, saberá como o irá embalar?

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Apenas mais um impeachment?
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Carlos Melo

Passado o primeiro ano do impeachment de Dilma Rousseff, a controvérsia e a guerra de narrativas a seu respeito parece aberta apenas para iniciados, militantes e ou fundamentalistas de lado a lado: ''Golpe'', ''Pedaladas''? Juízos de valor, disputas de espaço; paixões políticas fazem parte. Mas, queira-se ou não, o público mais amplo parece mesmo se lixar para essa discussão. No final das contas, é a história quem definirá a versão vitoriosa. O fato é que o tempo passa, inexoravelmente. E a vida segue em frente.

Essas rememorações se darão assim, de tempos em tempos: 1 ano; depois, 5 anos, 10 anos. Vão repousar no futuro dos cinquentenários e centenários dos cadernos especiais, que nem mais existirão. Mas, com efeito, são fatos marcantes, simbólicos; às vezes, nem tão marcantes assim. As perguntas dos jornalistas são quase sempre as mesmas: como o país se encontra um ano depois?; qual o legado da ex-presidente?

Difícil fugir da mesmice. Mas, tentar é do ofício. Primeiro, então, o óbvio: um impeachment não é algo que se comemore; quando muito, pode-se rememora-lo, como um infeliz tiro no pé. No geral, é sinal de que as coisas não vão bem.

O contorcionismo de transformá-lo em expressão da maturidade institucional é má fé ou miopia: como elogiar o uso do revólver retirado do coldre do guarda: se foi necessário recorrer a ele, é porque a educação, os valores e a prevenção foram mortos, antes de tudo. Incapacidade de antecipação, erros de escolhas ou de procedimentos. Simples assim. Outros tiros podem ser necessários. E quem dorme com uma tensão dessas?

Mas, enfim… Do ''adeus querida'' ao ''tome Temer'', os sinais são reveladores de que a democracia brasileira tem sérios problemas. Dois impeachments em menos de 25 anos já seriam o bastante para assustar. Mas, não parecem bastar: o atual presidente apenas não perdeu o mandato por conta do vazio de opções, do deserto de lideranças que há no país. Sua continuidade é fruto do desalento que produz desmobilização social; mas, seu descrédito é expressão de um processo tortuoso, complicado, labiríntico.

Ainda durante Dilma, se percebeu que o PT, ao ceder à real politique que sempre criticou, aderiu ao patrimonialismo e ao fisiologismo tradicionais. Não atendeu expectativas de mudança; com deslumbre de alguns de seus dirigentes, se rendeu. O grande antagonista a tudo o que estava posto em 2002, vestiu a roupa do farisaísmo. E, para isso, não há remissão — mesmo que houvesse, aqui e ali, o lenitivo de políticas públicas de inclusão social.

Contudo, se todos os males pudessem ser resumidos ao PT, estaríamos feitos. O pós-Dilma tampouco foi animador: o botão-de-rosa oferecido pelo PMDB era opaco, frágil e desfolhou. Vestais viraram estátuas de sal; não havia mudança, ponte; sequer havia pinguela. Só o precipício de antes. O reloading que Temer deu no sistema (leia aqui) preservou interesses e mazelas. Novamente, o jogo de dominó se esgotou, num ''fecha natural''.

Os heróis do impeachment morreram de overdose: Eduardo Cunha, Aécio Neves, Michel Temer, mas não só. Quem não se recorda da deputada que, votando pela cassação, fazia apologia à honestidade do marido, preso logo nos dias que se seguiram? Gigantes em pernas de pau, revelaram-se anões na dureza do asfalto. Gente que cuspiu para o alto, como fogos de artifício em louvor ao impeachment, ao final, escarrou no próprio rosto.

É ''o sistema'', amigo. Ele pode não ter um CPF definido, mas tem nomes, apelidos na contabilidade dos corruptores, identidades políticas. Personagens que se enlaçam e conexões orgânicas que se expandem entre Executivo e Legislativo, que penetram pelas coxias dos tribunais; que se fecham na conivência explícita ou na capitulação disfarçada de quem, depois, sorriu amarelo, sem se arrepender.

O que mudou sem Dilma? Tudo e nada. A presidente era mesmo incorrigível (leia aqui): autossuficiente à ruína, tomada pela ideologia e tão esperta quanto um adolescente numa gafieira. Veio Henrique Meirelles e sua equipe — a propósito, inúmeras vezes recomendado por Lula — estabeleceu alguma racionalidade. Pelo menos, disse o que precisava ser dito, pactuando, por fim, certo armistício com um mercado condescendente. Na economia, o governo é um tanto mais crível. Embora, mesmo sobre isso já haja controvérsia.

Mas, sistêmicos, na política os vícios foram mantidos: a mesma fome voraz por cargos e emendas, o oportunismo e a covardia em relação às reformas. Pelas circunstâncias, o imemorial toma-lá-dá-cá até se expandiu. A grande política não pôde ser recomposta. Distante da sociedade, o sistema peleja a autopreservação. É sua lei. E, fênix que nunca vira cinzas, procura agora o candidato que o reanime.

O ocaso de Dilma explicitou o colapso de um tipo presidencialismo de coalizão exclusivamente dependente o fisiologismo. A nudez revelada deveria suscitar mudanças de posturas, revisão de métodos e reformas políticas profundas. Nada disso aconteceu e, tão cedo, nada deve mudar. Depois de Collor, seu impeachment corre o risco de passar para a história como ''mais um''; o ''segundo'', da série ''impeachments brasileiros''. Por não ter superado as causas, o país ainda pode viver tudo outra vez. Por que não?

E assim o tempo passará; virão novas rememorações: 5, 10, 50, 100 anos deste impeachment… Folhas do calendário que caem e o tempo passa; homens e mulheres que fazem a história sem saber a história que fazem. Como o passado, Dilma será uma ''velha roupa colorida que não nos serve mais''. Apenas mais uma, entre tantos personagens que se vão no sumidouro do espelho retrovisor.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O diálogo entre Rodrigo Maia e Fernando Haddad
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Carlos Melo

Oração no Muro das Lamentações, na Cidade Velha de Jerusalém — Baz Ratner – 04.set.2013/Reuters

Limites históricos são intransponíveis, um muro de aço definido pela política contra o qual a vontade nada pode. Um paredão imponente que intimida a utopia e afugenta os ideais. Restando apenas a mediocridade das condições mais gerais e a impotência individual diante da resistência coletiva. A esperança até se quer acreditar como uma lebre, mas a conjuntura avança é mesmo em passos de cágado.

É o que ocorre hoje com a chamada reforma política: não é reforma coisa nenhuma; quando muito, é um remendo possível no sistema eleitoral que já não consegue ser representativo; aquilo que se tem para hoje, resignada a vontade de buscar avanços mais significativos para um todo complexo que faliu. A sociedade se afasta: mesmo com voto obrigatório, muitos se abstém; viram as costas. Sem ovos, não se faz omeletes.

Promovido pela Revista Época e pelo Insper, o encontro entre o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), ocorrido ontem, pode ser resumido desse modo: vive-se um momento de estreitamentos de históricos que não permite arroubos retóricos e nem saídas mágicas. Não adianta sonhar; a realidade se impõe sem mistificações. Se o país, um dia, sair do escuro labirinto, será mesmo tateando as paredes que o cercam.

Assim, embora cordatos e contidos por temperamento pessoal, Maia e Haddad teriam tudo para divergir; teriam estímulo, até, de suas bases que foram ao encontro meio que supondo um embate entre o PT e o Dem, entre esquerda e direita. Mas, não foi isso o que se viu: não há muito o que discutir e discordar diante das evidências. O desabrido confronto das redes sociais não mora no peito de quem, de fato, tem responsabilidade.

De modo que, em vários aspectos, Maia e Haddad sintonizaram seus ponteiros mais por realismo e falta de opções do que por vontade pessoal ou interesse político.

Seja pelo Distritão, que não é o sistema dos sonhos de Maia, seja pela manutenção do sistema proporcional que também não encanta Haddad, ambos concordaram que não há condições políticas na Câmara para avançar, já, na direção do voto distrital misto — sistema preferido por ambos; ''menos ruim'' que os demais, uma vez que os méritos do distrito amenizam os problemas do voto proporcional e vice-versa.

Igualmente acreditam que o voto em lista fechada, que mutuamente os agrada, não será possível diante das agruras do momento e da miséria do debate que o inviabilizou — embora lhes pareça o mais razoável e o que mais valoriza a vida partidária. Entendem que, destroçados, os partidos, todos, precisam se reinventar. Mas, que nada disso é permitido pelas circunstâncias e pelos interesses circunstanciais de direções e caciques partidários. Partidos possuem donos e eles falam alto, no Congresso.

Presidente da Câmara, Maia afiança que não há maioria para aprovar medidas de avanço significativo em ritmo expressivo. O deputado resigna-se; sabe que não conduz processo algum, não possui liderança nesse nível; apenas coordena os trabalhos da mesa diretora — também ele o possível para o momento.

E, assim, tudo se fará com lentidão, na calma modorrenta e temerosa de seus pares, que defendem os próprios interesses, mantendo os mandatos e não se sujeitando à sorte de regras mais transparentes e democráticas, abertas à concorrência, colocando em pé de igualdade todos os que postulam espaços no Parlamento.

A fatalidade disto tudo reside, porém, num fato simples: divorciado do mundo, o sistema foi deixado a própria sorte e ao sabor dos próprios interesses. A lógica de Maia e Haddad não consegue pressupor a erupção da sociedade em meio a este processo. Não haveria modo de forçar mudanças mais radicais, em movimentos abruptos; não pressentem, em seus raciocínios, a pressão social, o abalo vindo do ronco das ruas; a alteração de lógica imposta de fora para dentro do sistema.

Não pressentem porque não há o que pressentir. Se nada disso enxergam é menos por falta de vontade do que pela mera constatação de que, nesse momento, existe pouco de sociedade em tudo isso. Pela evidência de que, de um modo geral, as pessoas comuns e mesmo agrupamentos de elite voltaram as costas para a política, ignorando solenemente um sistema que, é verdade, não os representa.

Não se compreende que a negligência é uma espécie de bumerangue que sempre volta à testa. Um tijolo atirado por um imbecil que manuseia o estilingue em sentido contrário.

No diálogo cordato, nas grandes convergências e nas pequenas divergências entre Rodrigo Maia e Fernando Haddad, há crítica e resignação de ambos, diante do muro de aço dos limites históricos que implicitamente reconhecem. E, aparentemente, não há neste momento nada que o possa ultrapassar. O que poderiam fazer um e outro a não ser tentar reordenar as coisas no porão? Ainda assim, é preciso encontrar uma fenda no paredão.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Primeiro os desafios, depois os nomes.
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Carlos Melo

Guernica. Por Millôr.

Em artigo anterior, apontei para a evidência de que agentes econômicos e políticos já mergulharam com tudo nas eleições de 2018, de um modo precipitado ainda que compreensível. Argumentei que há certa fissura no ar em torno do candidato ideal para ganhar a eleição presidencial, sem que se pondere, porém, se o tal do bom candidato seria também um bom presidente da República, caso viesse a ser eleito.

Por fim, apontei existir, ao meu ver, esse tipo de problema nas eventuais candidaturas do ex-presidente Lula (PT) e do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). São competitivos, sim, e satisfazem seus respectivos públicos, mas seriam as melhores opções para o governo, numa quadra histórica tão complexa como a que vivemos? Minha resposta tácita — ainda que não estivesse explícita — é que não.

Como de costume, apanhei dos dois lados: virtuais eleitores de um viram na crítica ao seu candidato o apoio ao outro. Os fãs de outro sentiram que havia nas entrelinhas do meu texto a desqualificação de seu ídolo. Faz parte e confesso que é minha zona de conforto; não tenho mesmo nenhum prazer em me vincular a torcidas ou a seitas.

Observar o jogo e comentá-lo, sem paixão, me agrada muito mais. E é meu ganha-pão. Já observei em outro espaço que sou como um açougueiro que enjoou de carne. Manipulo o produto, mas não consumo. E, longe do balcão, sequer o recomendo. Ingerir essas proteínas, e suas toxinas, da forma como bem entender, é problema de cada um, não meu. Mas, vamos em frente.

Minha preocupação maior vai na direção de que o país diminua seu grau de ansiedade e, portanto, a beligerância com que as pessoas têm se comportado em relação à política — não apenas no Brasil, é verdade. Chover no molhado é afirmar que há muita histeria nisso tudo e baixar a bola, buscando algum grau de racionalidade, é fundamental. Por isso, disse que era necessário que nos preocupemos, antes, com o melhor presidente e só depois com o melhor candidato.

Se viver em sociedade é uma condição inescapável, as disputas são também inevitáveis. O poder surge desse confronto de forças. É ele que define ganhadores e perdedores nesse jogo em que as pessoas são diferentes, suas visões de mundo distintas, e nem sempre haverá acordo e consenso sobre essa vida em sociedade.

A política, portanto, é o instrumento que a humanidade inventou para minimizar as perdas com essa disputa. Ela deveria ser compreendida como um apetrecho sutil, tão delicado quanto necessário com que os atores disputam, negociam — pactuam ou não — a convivência social e a posse, mesmo que momentânea, do poder. A democracia é as regras do jogo e define os limites da política. Por isso, a democracia é fundamental.

O país, portanto, deveria se preocupar com a democracia. Definir bem seus pressupostos e zelar por sua qualidade; não permitir desvios nem oportunismos de qualquer ordem. Sem isso, a política torna-se objeto de ilusão nas mãos de espertalhões, como os prestidigitadores que manipulam copinhos e bolinas e enganam passantes nas praças ao redor das catedrais. Isto torna a vida em sociedade insuportável. Daí o mau humor, a beligerância e a guerra de verdade.

O perigo de Charlottesville está em todo lugar. E um Donald Trump tropical, à esquerda ou à direita, só pode fazer materializá-lo por aqui também.

Neste momento, os partidos encontram-se destroçados e não há conjuntos políticos viáveis e capazes de reordenar o sistema de forma a recoloca-lo no seu devido e necessário eixo. Logo, será inevitável passar pela escolha de um nome capaz de cumprir tarefas fundamentais. Por isso, o país precisa preocupar-se com essas tarefas: antes, ponderar perfis políticos do que a capacidade de ilusão eleitoral de cada um. Simples assim. Conversemos sobre os desafios.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.