Blog do Carlos Melo

Geraldo e Marina: as duas hastes do compasso
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Carlos Melo

Estar no centro só é vantagem se for possível expandi-lo.

O temor  ou desespero de políticos e intelectuais imprecisamente classificados como de “Centro” tem provocado agitação nos bastidores da eleição presidencial. Pesa sobre o grupo o receio de que restem apenas opções radicais e polarizadas para o segundo turno da disputa. Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, por exemplo. Isto se tudo não acabar no primeiro turno, dado o fantasma com abstenções, brancos e nulos. É difícil, mas como se sabe, no Brasil destes tempos tudo parece possível.

O elemento propulsor dessa ansiedade reside nas dificuldades percebidas em torno da candidatura de Geraldo Alckmin, candidato compreendido como de “Centro”, por excelência. Por seu perfil moderado e pela ortodoxia econômica que o cerca, o ex-governador seria o bastião do ajuste fiscal e de uma idealizada reforma do Estado, mas seu nome não apenas não decola nas pesquisas como não também transmite confiança e firmeza para políticos e agentes de mercado.

Em tese, é cedo para dar suas chances como perdidas; precipitação, dada a distância daqui até a eleição e os recursos com que Alckmin poderá contar. Mas, é verdade que, em que pese a sucessão de fatos que lhe beneficiariam —  a inviabilização de Luciano Huck, a prisão de Lula e o recuo de Joaquim Barbosa —, Alckmin patina nas pesquisas, sem aderência no eleitorado. O patamar em que estacionou é pífio para quem foi governador de São Paulo por quatro mandatos e conta com máquina e simpatia do establishment econômico.

O tucano vive um momento de martírio. A cada semana, novo ataque especulativo. Há gente genuinamente preocupada, mas existem também os abutres que rondam a carcaça. Nas colunas de política, o tucano subiu no telhado. E, sendo uma “arte” das expectativas, na política quanto menos esperança de poder, mais distante de alcançá-lo. O oposto é também verdadeiro. De onde nada se espera, é que nada virá de fato.Tostines só vende mais porque as pessoas acreditam que está sempre “fresquinho”.

A aflição não se resume ao desempenho nas pesquisas, há justificativas políticas: por mais que tente se afastar, a identificação com Aécio Neves e com Michel Temer pesa ao PSDB como bolas de ferro atadas aos pés. Alckmin encontra, assim, dificuldades com imensa maioria, o eleitorado de oposição. À direita, encontra um paredão: engana-se ao crer que Jair Bolsonaro tomou-lhe o eleitor. Na verdade, o ex Capitão preenche o espaço histórico da “linha dura”, há anos vago. À esquerda, não desperta emoção; com os anos, os tucanos perderam o charme socialdemocrata.

Estar no centro só é vantagem quando há possibilidade de expansão. Confinado a um ponto tão diminuto quanto o demarcado pela ponta aguda da haste fixa de um compasso, Geraldo Alckmin encontra enormes dificuldades de ampliação de seu raio político.

***

No jogo de especulações sobre o “candidato de Centro”, do martírio de Geraldo quica outra bola da vez. Marina Silva é figura cheia de problemas e dificuldades: hesitante e apagada em momentos de incêndio, nem sempre consegue se fazer compreender, ao certo. Mas, é fato que também reúne qualidades: passou ao largo dos escândalos da Lava Jato; à parte de qualquer discordância, as pessoas lhe reconhecem certa sinceridade de propósitos, o que não é pouco na atualidade. Admite-se que se cerca também de gente moderada e com entendimento pleno da tragédia nacional.

Numa situação de permanente demanda pelo outsider, Marina pode se oferecer a assumir o figurino que Huck e Barbosa abandonaram. Nunca esteve totalmente enfiada no sistema político; ainda que tenha sido ministra do ex-presidente Lula, não pertenceu à “diretoria”. Mesmo que possa ter-se equivocado em apoiar Aécio Neves, em 2014, quase 50% do eleitorado sucumbiu à igual ilusão. Admite a necessidade de ajustes e reformas, mas sua figura é a própria expressão da necessidade de políticas públicas.

Além disso, retém considerável patrimônio eleitoral. Nas sondagens sem Lula, consta com algo em torno de 15%, bastante bom para o momento. Seu virtual crescimento servirá de sedução sobre o centro-democrático e sobre a esquerda “light”. Em razão da religião da qual é praticante, dialoga com evangélicos de uma direita moderada. Uma vez ao “Centro”, Marina teria potencial para ampliá-lo, como a parte móvel do compasso.

Em política, as circunstâncias são mais determinantes que os atores; às vezes, quem os navega é o mar. As circunstâncias de Geraldo levantam a bola para Marina. Os operadores do Centro já se deram conta disto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A greve e seu rescaldo, no país das aflições
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Carlos Melo

Mia Wasikowska em cena do filme ''Alice no País das Maravilhas'', do diretor Tim Burton. Divulgação.

No rescaldo da greve dos caminhoneiros, o rastro de muitas perdas para muitos e poucos ganhos para poucos. Perdeu a população que sofreu o fantasma do desabastecimento. Perderam os acionistas minoritários da Petrobrás — logo eles, o centro do cuidado e atenção da companhia. Perderam os caminhoneiros — os avulsos, pelo menos — ainda insatisfeitos com o preço dos fretes e seus custos. E, se é possível perder o que não se tem, perdeu o governo Temer, ainda um pouco mais, em respeito e credibilidade.

Greves de transportes são temidas no mundo todo, quando prolongadas tornam-se dramáticas e aflitivas, pois tangenciam o risco do desabastecimento. E isto pode despertar ondas de revoltas e saques, violência e anomia social. É um pesadelo. Por isso, não se pode considerar os caminheiros apenas como uma corporação a mais, uma corporação qualquer.

Salvaram o país a serenidade e a clareza do povo que, mantendo-se calmo, não agravou a situação. Todavia, os prejuízos foram enormes. Muitos, de impossível quantificação. Como, por exemplo, contabilizar o drama de uma ambulância parada por falta de combustível ou a ausência de viaturas da polícia, nas ruas? Outros são mais explícitos.

A população, ao final, é quem pagará a conta, diretamente — com o aumento do preço dos combustíveis —, ou de modo indireto, com impostos desviados de outros fins para subsidiar o óleo diesel. Mas, perdeu também a Petrobrás, sobretudo, após o pedido de demissão de seu presidente, Pedro Parente. O executivo não foi e nem será substituído por alguém de igual estatura. A desconfiança do mercado financeiro em relação a novas interferências políticas afetará as ações da companhia, que tentava resgatar a credibilidade.

Já os caminhoneiros, que provaram a força que possuem, permanecem em condições precárias. Serão ainda as grandes transportadoras que darão as cartas no disputado mercado de fretes. E, além disso, a redução do preço do diesel pode não se concretizar nas bombas dos postos de gasolina; e nem isto alivia o sufoco de custos e riscos inerentes à atividade.

Perdem também o Estado, o governo e o sistema político. O Estado se mostrou desprovido de mecanismo de antecipação de crises: Ministério dos Transportes, Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Ministério de Minas e Energia, Agência Nacional do Petróleo (ANP) e, se não bastassem, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), onde se encontra a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) falharam em não perceber, comunicar e acautelar o governo dos riscos do movimento. A sensação de vazio e ineficiência institucional é inevitável.

Já em relação ao governo, embora seja difícil imaginar Michel Temer ainda mais impopular do que já estava, o fundo do poço às vezes é falso: o governo ficou ainda um tanto mais desmoralizado e isolado. Simbólica é a entrevista concedida pelo ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na qual negou ser candidato do governo, desprezando Michel Temer. E se Meirelles o refuga, quem o abraçará na eleição? Provavelmente, ninguém.

Em política, isolamento é algo que alimenta a si próprio. Na esteira de Meirelles, os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado, Eunício de Oliveira; junto deles, o afastamento da base governista que lavará ainda mais as mãos de qualquer responsabilidade em relação ao governo. Governos isolados tornam-se vítimas de parasitas e corporações do tipo. Virá mais desgaste por aí. O processo pode entrar em metástase.

Do ponto de vista eleitoral, quase todos os candidatos andaram sob o fio da navalha. Se não puderam apoiar abertamente a radicalização do movimento, tampouco tiveram liberdade para contrariar um processo que, pelo menos no primeiro momento, contava com a simpatia do eleitor de mau humor e revoltado contra o governo e o sistema político.

Ainda assim, de todas as opções do cardápio eleitoral, a que talvez tenha somado mais pontos foi a de Jair Bolsonaro. O ex Capitão viu seu pelotão de radicais aumentar nas manifestações de ódio e oposição ao sistema político, colocando-se com um outsider de ocasião. Bolsonaro viu suas bandeiras tremularem em faixas que se multiplicaram por  vários quadrantes do país, apelando por gestos de força e intolerância contra o regime democrático.

Enquanto seus adversários seguem perdidos e fragmentados, sem encontrar nomes que os unifiquem, o deputado aglutina em torno de si o eleitor conservador e reacionário. Está na frente e talvez tenha se consolidado.  Ao mesmo tempo, no Centro, a heterogeneidade de índoles e propósitos, somada à timidez e as dificuldades Geraldo Alckmin, atua como elemento de dispersão do campo moderado. À esquerda, a indefinição do PT promove um vácuo, que Ciro Gomes e Marina Silva, ainda sem muito sucesso, tentam ocupar.

A greve fez destroços e varreu ilusões. Quebrou a tênue segurança em que agentes de mercado imaginavam viver; expôs as fraturas do sistema político, revelou a fragilidade do Estado e a inviabilidade do governo Temer. Paradoxalmente, fortaleceu discursos de força e ordem que, em si, são diametralmente opostos à liberdade e à práticas trazidas pela própria ideia de uma greve. O Brasil é esse país dos paradoxos e das aflições, onde Alice perde e ninguém se encontra.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


O momento é mais delicado que o impeachment
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Carlos Melo

''El abismo de su dolor''. Abisay Puentes Rodriguez, 2009.

O Brasil é um país com extraordinária capacidade de piorar o que estava mal. Na política, acontece aos saltos, num ritmo frenético. Desde o Joesley Day— o dia em que Joesley Batista jogou estrume nos ventiladores —, sabe-se que o governo pode emborcar. Ainda assim, resguarda-se a consciência de que navegar é preciso, na esperança de chegar ao próximo ano, com renovado ânimo e novo governo, após a eleição.

Mas, na última semana, o país resvalou a dúvida a respeito disto. Até mais que o impeachment de Dilma Rousseff, a greve de caminhoneiros – ou o lockout das empresas de transporte — foi o acontecimento mais delicado, em riscos e eventuais consequências, para a democracia do país. Os desacertos revelam uma torrente de erros históricos e também explicitam a incapacidade de diálogo e a dificuldade de encontrar saídas.

Sem explorar o potencial hidroviário e tendo abandonado as ferrovias, o país optou pelo modelo de transporte rodoviário, péssima escolha para quem depende de petróleo. Mais recentemente, o BNDES dos governos do PT deu enorme incentivo à ampliação da frota, sem se importar com os riscos do excesso. O mercado foi impactado por um acréscimo no número de caminhões. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico secou e os fretes escassearam. O desastre foi inevitável.

Já no governo Temer, a nova mentalidade da Petrobrás (by PSDB) considerou estar acima dos problemas da economia real. Bastava-lhe o interesse de acionistas minoritários. O choque de credibilidade e a busca da confiança do mercado eram pedra-de-toque do próprio governo. Esqueceu-se, porém, o papel fundamental do acionista majoritário, o Estado: zelar pelo mínimo indispensável de equilíbrio social.

No acumulado de erros históricos, ninguém considerou que poderia dar M… Nenhuma força política está isenta de crítica.

Ainda assim, o que se poderia chamar de “governo” Temer comeu mosca ao não se antecipar aos problemas, no momento em que o mercado internacional e a política de preços de sua estatal colidiriam com uma massa incomum de trabalhadores. Não é conversa mole o slogan corporativista que diz que “sem o caminhoneiro, o Brasil para”.

No sábado o Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou que em ofício de outubro passado a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) alertou a Casa Civil para as dificuldades do setor. Em caráter de urgência, reiterou recentemente o apelo ao presidente da República. Nem Eliseu Padilha, nem Michel Temer se tocaram. Mais vitais eram as articulações para o salvamento da própria pele. Quando se deram conta, o Brasil parou de fato.

O governo também parece ter errado no diagnóstico da crise. Demorou a atinar para a influência de empresas do setor sobre o movimento de trabalhadores. Nos últimos dias percebeu-se indícios de lockout, com transportadoras fornecendo apoio aos grevistas, um crime que exigem rápida punição, com multas e prisões.

Além disso, a turma de Michel Temer inverteu o mais rudimentar princípio de negociação: primeiro endurecer, para só depois ceder. Começando pelo fim, despertou-se o sentimento de que os motoristas poderiam retirar mais da contenda. Talvez pela consciência da fraqueza, talvez pela íntima percepção da pouca credibilidade que carrega, já nos primeiros dias o governo mostrou estar nas cordas.

Na sexta-feira, o governo dava sinais de pânico. E se errou ao ceder, resolveu exceder no endurecimento. Na incapacidade de articulação com governadores e na incerteza de contar com o suporte das polícias dos estados, mais uma vez, recorreu às Forças Armadas. Viciado vai ficando no uso de um recurso mais que excepcional.

Deu-se então o paradoxo: quem deveria sentir-se acuado pela força acabou por pedir a intervenção da caserna, não contra si, mas em desfavor do próprio governo e dos políticos em geral. A antipolítica ganhou os ares, apelos pelo uso da força foram explícitos. Boatos expandiram-se. Namorou-se o retrocesso institucional. E o mais assustador, a insensatez recebeu franco apoio.

Sentindo a faca no pescoço, na noite de domingo, Michel Temer foi a TV para capitular. Mais uma vez, cedeu amplamente. Ao fundo, ouviu-se um ressuscitado rumor de panelas… Agiu no limite de suas debilitadas forças para evitar mau maior: a crise de desabastecimento, a paralisia das cidades, o caos no país. O problema é ter exposto o nervo que será fustigado: recorrer aos militares foi bravata. Riscos e ameaças não cessam com armistícios desse tipo.

Como não poderia deixar de ser, no paralelo disparam os cálculos eleitorais: por ter agido com maior desenvoltura que a trôpega tropa de Temer, o governador de São Paulo ganhou luzes. Márcio França não mais será um desconhecido. Mesmo ao final esvaziado pelo ciúme de adversários, despertou a atenção que precisava. E de forma positiva.

Já a imperícia do governo federal o afunda ainda um pouco mais. Sobram respingos para os candidatos de algum modo identificados com Michel Temer. Por sua vez, a radicalização favorece nomes e discursos mais agressivos e voluntaristas — à esquerda e, sobretudo, à direita. Brilham os olhos dos postulantes a salvador da pátria.

No deserto de liderança política, questões estruturais são abandonadas diante da aflição das crises agudas. Cego fica o olhar para o futuro. O paliativo torna-se a norma e nada é mais brasileiro que a gambiarra. Não há mal que não possa ser piorado. Mais que do momento, o drama é do lugar: não há sociedade, há briga de torcidas; não há Congresso, há cartório; não há economia, há uma feira ruidosa. Não há governo, há um vazio. Se não é um país, será um abismo?

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Não se antecipar e arbitrar interesses é o maior erro do governo
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Carlos Melo

Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

A ambiguidade é uma das artes da política: na dubiedade de declarações e gestos, busca-se equilibrar conflitos e expectativas. Mas, ao mesmo tempo, diz a sabedoria antiga que “ninguém é feliz servindo a dois senhores”. Num determinado momento, a ambiguidade se revela e a dubiedade se transforma em indecisão; trata-se de uma arte porque é difícil saber o momento certo de abandonar a vacuidade dos discursos e se decidir por isto ou por aquilo, preocupando-se, ainda assim, com o equilíbrio geral. Arbitrar é, enfim, o grande desafio de qualquer governo.

Embevecido pela facilidade com que se deu o impeachment e a tomada do poder, o governo Temer julgou-se capaz de permanentemente servir a não mais a dois, mas a três senhores: ao fisiologismo do sistema político; à dinâmica social complexa da sociedade moderna, e aos rigores da ortodoxia do mercado financeiro. Esqueceu-se que a ambiguidade é apenas um recurso discursivo e se perdeu. Tendo cortejado a todos, termina, por fim, a desagradar a todos.

O caso da paralisação dos caminhoneiros é exemplar. Há um problema estrutural: o modelo de transporte brasileiro é rodoviário, a distribuição de quase tudo o que se produz se faz por caminhões; o grande transporte de pessoas por ônibus. Tudo movido a óleo diesel, nas estradas e nas cidades. Ao mesmo tempo, dentro da lógica formal do mercado, a política de preços da Petrobrás é natural e fortemente influenciada pelos preços internacionais do dólar e do Petróleo.

A correlação entre um e outro é óbvia e o conflito, em algum momento, será inevitável. Se os preços do óleo diesel se elevam, sobem os custos do transporte. Caminhoneiros, como qualquer ser humano, não podem trabalhar de graça. Solução mais óbvia do mercado seria aumentar o frete. Tampouco isso é simples, pois implicaria num aumento geral de custos e, daí, à inflação. Por sua vez, o controle da inflação é econômica e socialmente fundamental. Politicamente, é dos poucos trunfos do atual governo. Dá-se a cilada.

O governo é o acionista majoritário da Petrobrás, no limite é ele quem dá as cartas. Mas, ele precisa de sócios na empreitada, oferta ações no mercado. Preocupar-se com os interesses de acionistas minoritários da empresa é justo moral e economicamente. Mas, nada é absoluto. Também aí haverá conflito, eventualmente. É tarefa maior do governo preocupar-se também com os interesses mais gerais da sociedade. Outra cilada.

Para não colocar esse frágil equilíbrio em risco, o governo precisa se antecipar às ciladas das circunstâncias. É tarefa do governo. A ambiguidade deixa de ser eficaz quando é preciso agir e arbitrar conflitos. Se ela, a ambiguidade, pode ser instrumento eficaz — e duvidoso — no contexto de uma eleição, seu exercício continuado no governo comporta erros e confusões absolutamente improdutivos.

O atual governo, no entanto, parece viver em período eleitoral — embora o presidente se viabilizasse, durante o impeachment negando que faria isso. A confusão que desperta é mesmo uma tragédia quando a questão é abandonar o discurso ambíguo e se antecipar aos problemas. Não antevê riscos, não se comunica de modo pedagógico e politicamente eficaz. Liderança serviria para isto.

De tal modo que o governo de Michel Temer desagradou à sociedade, petrificada diante do risco de desabastecimento; desagradou ao mercado ao revelar bruscamente que, no limite, o controle da Petrobrás é, sim, estatal. Pedro Parente qualificadíssimo gestor é, sim, funcionário do governo, nomeado pelo presidente da República. O discurso da autonomia da empresa, como tudo no mundo, tem limites e obedece, sim, à lógica da política.

O que a sociedade e o mercado se devem esperar do governo é que sua interferência sobre as empresas estatais não se dê em nome do interesse público, no limite dos conflitos. Não por negócios escusos, pelo direcionamento de investimentos nocivos e suspeitos, como ocorreu na própria Petrobras e ocorre, eventualmente, em diversas estatais. Não se pode servir a dois senhores. Mas, é possível negociar e atender um de cada vez.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Economia e eleição
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Carlos Melo

Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress

Desde os primeiros flertes com o impeachment de Dilma Rousseff, Michel Temer, seus aliados e entusiastas prometiam que a economia estaria “bombando”, neste maio de 2018. O país ressurgiria das cinzas e o nome do candidato do governo, é claro, seria barbada na corrida eleitoral. O bem-estar econômico esvaziaria a crise política, enterraria a Operação Lava Jato e, num grande acordão — “com Supremo e com tudo”, na voz de um de seus profetas — a paz se estabeleceria.

Ao longo destes dois anos e pouco, foram difíceis os debates que pretendiam discutir cenários para a eleição. A crença na recuperação econômica mostrou-se um ato de fé e nada era mais antipático do que duvidar das “boas-novas” trazidas por novos reis magos, como Henrique Meirelles e seus tietes do mercado. O discurso embutia grande dose otimismo injustificado; todavia, após da tempestade  provocada por Dilma, viria a bonança patrocinada por Michel Temer, seu PMDB e aparentados tucanos.

Foi uma aposta que acreditou que, ao final, o desejo se materializaria simplesmente porque precisava se realizar, tendo influência decisiva na eleição. Justificando-o, o sucesso do impeachment se daria pela economia. O milagre se daria pelo “choque de credibilidade”, como se Michel Temer e seu PMDB fossem exemplos de credibilidade. A esse tipo de pensamento ilusório, os americanos dão o nome de wishful thinking. Um erro que não é incomum.

Não foi preciso usar bolas de cristal para perceber a fragilidade do futuro. Primeiro, porque, para que houvesse um efeito tão profundo na eleição, seria necessário que o Brasil vivesse a mesma euforia de momentos como o Plano Cruzado (1986), o Plano Real (1994) ou o choque de crédito de Lula, em 2008-09 que teve efeitos em 2010. Em segundo lugar, porque muitos economistas já apontavam que o cenário internacional estava repleto de riscos e isto poderia atingir em cheio o Brasil. Esse tipo de dependência deveria levar à precaução.

Em virtude disto, haveria que se perguntar o quanto um crescimento apenas médio afetaria as altas taxas de desemprego. Voltaríamos à euforia do pleno emprego e do consumo, de modo a alterar o sentimento em relação à política?

Por último e mais importante, porque a turbulência política não daria trégua a Michel Temer. As reformas — da Previdência, sobretudo — não passariam num Congresso que sentia-se credor do presidente ao lhe salvar do afastamento do cargo e do processo judicial, por duas vezes e, talvez, tivesse que tornar a fazê-lo uma terceira vez. E como se isto não bastasse, a questão fiscal estreitava os limites do fisiologismo continuado e voraz da base governista. Não dando, não se recebe; simples assim. Era muita fé.

Ora, o clima de então e o cenário que se vislumbrava era de insegurança e, claro, nada afeta mais a confiança dos investidores que a imprevisibilidade. Há capacidade para crescer, mas o momento é incerto. Mesmo para correr riscos há cálculos e prudência. O espírito animal do empresário, como dizem os economistas, existe. Mas, não é o espírito de um asno.

Descrevi parte deste cenário na véspera do Natal de 2017, quando o otimismo, apesar de todos os tropeços daquele ano, ainda ia firme (leia aqui).

O fato é que descrentes, críticos e reticentes em relação àquelas esperanças foram chamados “pessimistas”. Patriotada, insinuava-se que torciam contra o país. Como quase tudo no Brasil atual, as reações foram ad hominem, desqualificando o sujeito, desprezando a lógica do raciocínio. Nominavam: “petista”!, ou essa rediviva modalidade de ignorância que é chamar críticos de “comunistas”. Pobreza de raciocínio e vazio de argumentos.

Todavia, caíram as fichas, a realidade vai se reconectando na cabeça do sujeito, que aos pouco percebe o que antes não conseguia alcançar. No último domingo, repercutindo trabalho do respeitado e insuspeito Afonso Celso Pastore, a Folha de S. Paulo revelou que a recuperação econômica porque passa o país é a mais lenta de toda a história. O Jornal Valor Econômico, de hoje, aponta o aumento dos riscos para o crescimento.

Encerramos o prometido maio de 2018 com as bolas murchas, no anticlímax da euforia que se anunciava. Não há felicidade nisso. Mas, a realidade, às vezes, ensina.

Medidas importantes foram de fato tomadas, não há de se negar esforço e seriedade à equipe econômica, uma espécie de “os olhos verdes no rosto do Corcunda de Notre Dame”: o detalhe que não salva o conjunto; no máximo, o alivia. O governo, no resto, é controverso ou um desastre de verdade. Trocar o PT pelo PMDB e seus satélites não trouxe ganhos morais ou políticos.

Manteve-se a incerteza em relação ao cenário político, o futuro  eleitoral é aflitivo. À esquerda e à direita, o populismo das soluções fáceis; fanfarronice e retórica voluntarista. No eleitor, o desejo de mandar tudo para o inferno ou se deixar seduzir por encantadores de serpentes. O outsider não surgiu, embora haja demanda por esse tipo de salvacionismo. O debate se coloca no nível primário das questões da Lava Jato e da prisão do ex-presidente Lula. Há poucas esperanças de racionalidade econômica.

No chamado “centro”, fragmentado em intenções e caráteres de todos os tipos, candidaturas que não conseguem decolar. Seja pelos resultados efetivos, seja pela questão ética, Michel Temer tornou-se num passivo tóxico. Raros os que defendem seu governo e é natural o constrangimento, num ano eleitoral, em professar uma agenda entendida como impopular.

Ao apoiar Henrique Meirelles, o presidente expressa o parco resultado de seu governo. Houvesse trunfos e chances, o candidato seria ele, Michel Temer. Tampouco o faz pela certeza de um nome competitivo ou pelo sacrifício da defesa de seu duvidoso legado. Na verdade, Meirelles ficará exposto ao escárnio que Temer não quer submeter a si próprio. No mais, será uma forma de aliviar Geraldo Alckmin, numa tentativa de retirar a fotografia de Temer que também vai às costas do tucano e serviria como alvo dos adversários.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Difícil situação de Geraldo Alckmin
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Carlos Melo

Guy Williams e Henry Calvin. Zorro e Sgt. Garcia (Disney). Série exibida no Brasil nos anos 1970.

Ninguém saberá dizer o que será o futuro; menos ainda, o resultado da eleição deste ano. Neste momento, o resultado ainda é imprevisível. E não adiantará recorrer às pesquisas, números e curvas do passado, pois ninguém de bom senso pode negar que o país vive um presente particular, anômalo em muitos sentidos. O drama dos últimos anos nos transformou e alguns se fizeram místicos. Mas, ainda assim, não é o caso de acreditar em bolas de cristal.

Logo, neste ponto do caminho, não se sabe dizer que destino terá a candidatura de Geraldo Alckmin. Há pouco mais de um ano, o ex-governador era tido como favorito — dada a ruína do PT e as desconfianças em relação a seus adversários. Hoje, seu nome não ata e nem desata, está em alta apenas na bolsa das dúvidas eleitorais, sendo um ativo em rápida depreciação para os agentes econômicos.

Há motivos. Na maior parte do Brasil, a indiferença ao seu nome é conhecida. Mas, mesmo em São Paulo, o estado que governou por 4 mandatos e onde acredita-se estar seu maior potencial, o tucano patina nos números das pesquisas. As expectativas em relação aos números das pesquisas, para esta época do ano, eram muito superiores. Mas, na última sondagem patrocinada pela Confederação Nacional dos Transportes, Alckmin ao invés de subir, caiu.

Para quem já teve a visibilidade que possuiu e deteve os recursos de que dispôs, 5,3% de intenções de voto é de lascar.

O que estaria ocorrendo com o tucano? Difícil responder. Mas, é plausível que a toxidade emanada por Michel Temer e Aécio Neves tenha-lhe contaminado. Pesquisas qualitativas mais aprofundadas confirmarão (ou não) isto. No entanto, parece claro que o ex-governador não se destaca da geleia geral em que se transformou o sistema político nacional. E o seu PSDB não ficou fora disto.

Alckmin precisa desesperadamente mostrar-se viável para partidos e políticos de seu campo ideológico, fazer-se crer como uma consistente hipótese de poder. Com isso, receberia apoios e adesões e, crescendo, angariaria mais apoio. Um círculo virtuoso. Mas, ocorre exatamente o contrário: quanto mais patina em números rasteiros, menos crível se torna; não recebe adesões, sofre defecções. E continua em baixa. O cachorro come o próprio rabo.

Ao mesmo tempo torna-se vulnerável a ataques especulativos. Nomes como Marina Silva e Álvaro Dias começam a frequentar o imaginário do tradicional eleitorado tucano e do mercado financeiro. E, se não bastasse, João Doria está aí, atento e esperto para sobras e restos. Docemente, Doria se doaria ao sacrifício de substituir o ex-padrinho político. Descuidadamente, dá sinais de prontidão.

A questão é para onde Geraldo Alckmin teria ou deveria apontar para que venha a crescer? É pouco provável que consiga sobras do eleitorado de Lula. Na sondagem sem o petista, Alckmin tampouco se destaca e quando algo ganha é pouco. Tem como barreira o eleitor do Nordeste e ou de esquerda. Contudo, também à direita tem como obstáculo Jair Bolsonaro que ali está rijo, duro e forte. O tucano está emparedado.

Provavelmente, apostará em dois discursos: dirá que, em São Paulo, ''acabou'' com a violência ou pelo menos a reduziu significativamente, em contraposição ao Brasil. Precisaremos esperar para constatar se o discurso pega, até porque não se pode esquecer que aquela ''facção que age nos presídios'', que de tão temível — como Voldemor, de Harry Potter— não se diz o nome, nasceu e se expandiu em terras paulistas. E hoje age fora dos presídios, ganhou o país e a América do Sul.

O outro ''trunfo'' — e seus assessores já o alardeiam — será a promessa de zerar o déficit fiscal ainda na primeira metade do mandato. Ótimo. Despertaria alegria e delírios no mercado financeiro. Mas, é possível? E o quanto isto mobilizaria o cidadão comum que quer, precisa ou se acostumou a políticas públicas e a proteção do Estado? Aliás, como reagiriam prefeitos — se levarem a sério a promessa do tucano?

O futuro é incerto e no Brasil tudo pode ocorrer. Aqui, o Sargento Garcia é capaz de prender o Zorro; e, como se diz, até o passado é incerto. O horizonte vai até aonde o nevoeiro permite. E a neblina é espessa. Neste curto campo de visão, a situação de Geraldo Alckmin está para o sargento que precisa surpreender a todosTransformar-se no Zorro, o que até aqui não deu sinais. Pouco provável, mas pode ser e pode não ser. Cedo para saber. A bola de cristal não captura essas imagens.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Mais difícil será governar
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Carlos Melo

A Pair Of Boots (1887) – Vincent Van Gogh

Joaquim Barbosa é um sujeito surpreendente, mercurial, dado a decisões inesperadas e a um comportamento explosivo. Ainda assim, desde o anúncio de que não concorreria à candidatura presidencial, muita gente tem se perguntado por que, afinal, o ex-ministro abriu mão de uma eleição em que seria protagonista, com relativas chances de ser eleito, como apontavam trackings telefônicos que consideravam sua participação no pleito.

Houve quem alegasse que tudo se explicaria, justamente, por conta desse temperamento instável, tipo la donna é mobile — ''como pluma ao vento, muda de palavra e pensamento'' —, como consta do Rigolettode Verdi. Pode ser.

Mas a favor do ex-ministro há que se reconhecer que nunca anunciou que seria candidato. Tampouco frequentou estúdios de TV e editorias de jornais, estimulando seu nome. Mesmo frequentemente instado a concorrer, Barbosa manteve-se silente, reticente. A imprensa e analistas afiançavam que seria candidato, outros tantos especularam com seu potencial eleitoral — eu, inclusive. Menos ele. Logo, a notícia carece de exatidão, ninguém desiste do que nunca teve. Barbosa abriu mão de uma possibilidade, só isso.

Já outros tantos arrematam dizendo que eleição não é para amadores, que o sistema eleitoral brasileiro seleciona, separando aventureiros de profissionais; que lhe faltaria estrutura partidária, apoios políticos na sociedade e expertise eleitoral. Que teria temor em disputar uma eleição.

São afirmações baseadas nos números das eleições anteriores que, a propósito, formam uma série bem limitada para que se afira dela algo com exatidão, mas que apontam, com efeito, a importância da máquina partidária e os efeitos do governismo. Ainda assim, num ambiente como o atual, nada parece impossível. A conjuntura traz elementos tão fortes e inéditos que podem mesmo sinalizar para transformações estruturais na política e nas eleições nacionais, estabelecendo um novo padrão daqui por diante, questionando leis gerais, dinâmicas tradicionais e inferências vulgares, conectando causas e efeitos que deixaram de existir.

Tudo é possível e o certo é que o passado parece incapaz de explicar o futuro. Vem à cabeça a frase que já virou clássica, dita pelo ministro Pedro Malan: ''no Brasil, até o passado é incerto''. Quanto mais o futuro.

Não creio, portanto, que Barbosa tenha aberto mão da uma candidatura em virtude de receios que pudesse ter em relação à campanha, às adesões ou críticas que encontraria pelo caminho. O PSB é um partido bem plantado na maioria dos estados do país e seu DNA político é de ampla abertura para buscar alianças e fechar acordos pragmáticos.

Além disso, numa campanha tão curta como será a deste ano, uma onda Joaquim poderia se estabelecer sem dar tempo a que as estruturas tradicionais da política brasileira tivessem efeito e reação. Sim, política também é onda de opinião pública. Máquinas eleitorais e do Estado podem muito, mas não podem tudo. E, como disse Victor Hugo, ''nada é mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou''. O historiador Paul Johnson afiança que ''nada é mais forte que um homem que compreendeu a ideia cujo momento chegou''. Poderia ser o caso de Joaquim Barbosa. Mas, não foi.

De modo que a mim não parece estar na campanha os motivos que fizeram com que Joaquim Barbosa não montasse o cavalo que lhe passava encilhado. Deve ter pesado muito mais a avaliação que fez do futuro, das condições que encontraria em seu eventual governo, do que a briga que teria que encarar durante a campanha — até porque, pelo que demonstrou no STF, Barbosa é chegado a uma escaramuça.

E de fato o quadro que o próximo presidente encontrará não será de fazer inveja a seus adversários eventualmente derrotados. A economia, mais ajustada do que na época de Dilma, continua, no entanto, aquém do necessário para o sentimento de bem-estar. Não há inflação e os juros baixaram, mas há desemprego e o fantasma de um revés no cenário internacional uiva na janela do quarto.

O problema fiscal está colocado, não haverá escapatória para a questão polêmica e impopular da previdência, o aperfeiçoamento/revisão da reforma trabalhista, a discussão séria com estados e municípios da reforma tributária; a reforma política que propicie, pelo menos, algum tipo de reordenamento partidário capaz de fazer o governo menos refém do fisiologismo do Legislativo.

Tudo isto se coloca como um imperativo, mas nada disso é simples. O Congresso Nacional tende ao mesmo espírito e feição do atual; os mesmos vícios. O sistema político está aos pedaços, os três maiores partidos políticos atravessam crises sem precedentes e dois deles, PT e PSDB, caso derrotados, tendem a passar por um profundo processo de revisão, onde a fragmentação dessas legendas parece ser um cenário mais que plausível.

Joaquim Barbosa teria — aí sim, e não na eleição — enorme dificuldade em lidar com o quadro que herdaria. Poderia compor uma boa equipe, evidentemente. Mas, a articulação, a formação de consensos progressivos — o que pressupõe fazer concessões —, a comunicação e a liderança são, no limite, atribuições do presidente da República; seriam inescapáveis. Não estaria livre para dar vazão ao seu temperamento; lhe faltaria a faculdade da paciência, essa virtude política imprescindível.

Ao mesmo tempo, a expectativa de seus eleitores seria a de encontrar o mesmo ser impávido e decidido dos tempos do julgamento do mensalão. A frustração não tardaria a se manifestar. Isto não é incomum, se deu com Fernando Collor de Mello. Collor foi presidente cheio de promessas e fúria, capaz de pressionar o sistema político nos primeiros meses de governo, sucumbindo depois à realidade da impotência e da conciliação. Restou só, como implorava para não o deixarem.

De algum modo, em seu Twitter e nas curtas explicações que deu após declinar da vaga ofertada pelo PSB, Joaquim Barbosa manifestou esta mesma percepção, ao expor melancolicamente, os limites do sistema político. E, assim, olhando para o futuro, é possível que tenha enxergado os rostos de Collor ou de Jânio Quadros como um alerta, o que deve ter-lhe dado engulhos. Melhor seria cuidar da própria vida. Entendido de um ponto de vista pessoal, não está de todo errado. Vencer a eleição pode até ser fácil, o difícil será o governo e seu martírio.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Joaquim Barbosa e o não fato político
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Carlos Melo

Imagem: Renato Costa/Frame Photo/Estadão

Se a paciência de Joaquim Barbosa já era pouca ao lidar com seus colegas de Supremo Tribunal Federal, imaginem o que foi este mês, em que teve que se relacionar com o confuso sistema político brasileiro. Um meio complicado, cheio de idas e vindas, negociações de princípios e concessões. Ceder e ainda avançar é o desafio. Inevitável engolir alguns sapos. Não por acaso se diz que a Política é a rainha das artes.

O fato é que assim como surgiu num repente, Joaquim Barbosa se vai noutro — pelo menos por enquanto. Surpreende a todos mas causa o alívio de muitos. Pesquisas qualitativas já apontavam que o ex-ministro teria um relevante papel na eleição. Ocuparia espaços, atrairia eleitores de seus adversários e pautaria boa parte do debate. Havia mesmo potencial para ser o protagonista do processo.

Poderia ainda vir a desistir da desistência? Quem lê a história da eleição de 1960, sabe que Jânio Quadros, com o propósito de não fazer concessões e ter total controle do processo, com frequência ameaçava seus companheiros de UDN com a possibilidade de renunciar à candidatura  — até que o fez, já eleito. Ao que tudo indica, Barbosa é diferente.

A pergunta que se faz é quem ganha com a desistência do ex-ministro; para onde irá seu potencial eleitor?

Pois, este é o primeiro erro que se pode cometer: o eleitor, no singular, não existe. Na verdade, há um todo mais ou menos heterogêneo que tende a rumar em direção à determinada candidatura o faz em virtude das mais variadas características que possui. Uns o apoiam em virtude disto; outros, em razão daquilo. Sobretudo, no caso de Barbosa que era uma espécie de candidato multiuso.

Era até aqui o candidato que reuniria a mais variada composição de símbolos, que se complementam dando-lhe a personalidade política que possui: menino pobre e negro que venceu na vida e o preconceito pelo estudo, às custas da meritocracia; o combatente da corrupção, primeiro verdugo dos políticos; o outsider que não compactuaria com o sistema; também a pouca paciência, o temperamento mercurial indisposto a se submeter ao que quer que fosse.

Assim, eleitores distintos se juntariam a ele por conta dessas características também distintas. Então, quem herdaria esses eleitores? Pois, é. No cardápio das candidaturas postas até aqui, ninguém reúne tantos e todos os símbolos do ex-ministro do STF.

Marina Silva possui uns tantos, como a ascensão social, pela luta e esforço pessoal, a imagem de honestidade; Álvaro Dias pode empunhar o discurso da crítica ao sistema, ainda assim questionado ao político profissional que é há décadas. Até Jair Bolsonaro terá por enquanto a exclusividade da contundência que sugere o uso da força. O mais provável é que os eleitores se dividam.

Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e o eventual candidato do PT se favorecem? Apenas na medida em que retiram uma enorme pedra do sapato. Com a desistência, tendem a segurar eleitores que poderiam escapar na direção do ex-ministro. Não se verão invadidos em seus campos: a centro-direita, a centro esquerda e a esquerda, respectivamente, pois, por amplo, seria ali que Joaquim granjearia a maioria de votos. Ter menos um com quem se preocupar, ajuda.

Mas, não ser obstaculizado não implica necessariamente em ser favorecido, menos ainda em receber um impulso. Impulsos eleitorais se dão por fatos políticos e a desistência de Joaquim Barbosa é um não fato político. E cada um destes três — Alckmin, Ciro e PT — necessitam de impulsos, por meio de fatos políticos maiores que a desistência de um adversário.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A prisão de Lula fez do PT um Dom Quixote
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Carlos Melo

CANDIDO PORTINARI, Dom Quixote e Sancho Pança Saindo para Suas Aventuras,1956. Col. Museus Castro Maya, Brasil

Faz um mês que o ex-presidente Lula foi recolhido a uma cela, na sede da Polícia Federal, em Curitiba. Trata-se de um trauma histórico que tão cedo não será superado. Argumentos a favor e contra sua prisão foram produzidos às mancheias, com todos os rancores e amores possíveis. O leitor que faça seu julgamento. Aqui, interessa é avaliar os efeitos e as impressões que ficaram, até o momento a respeito do fato. Como se encontra a cena política, após a prisão.

No momento da prisão, houve, é claro, aqueles que acorreram aos fogos de artifício. Mas, com o perdão do trocadilho, soaram, no final das contas, artificiais. Era uma alegria de tolo: no dia seguinte, encontrei um desses espíritos fogueteiros e perguntei a razão de sua euforia, na noite anterior: ''foi porque acabou a corrupção no Brasil, ou apenas porque Lula foi preso?''. Não podendo dizer que a corrupção acabara, restou constrangido ao não admitir que sua questão residia, antes de tudo, na censura que desde sempre fez ao ex-presidente.

Todavia, tampouco houve a reação contrariada das massas, com que os dirigentes do PT contavam. A vida continuou lá fora, o Brasil não parou. As mobilizações prometidas não atingiram a normalidade da sociedade. Afora alguns atos de rebeldia inócua — carimbar notas de real, por exemplo —, o ''exército do Stédile'' se resumiu aos militantes do partido e dos movimentos sociais de sempre. As pessoas comuns, de modo frio e distante, indiferentes até, continuaram no ritmo de suas vidas.

Verdade que as pesquisas mostram que Lula, independente da prisão, é ainda a maior figura política do Brasil; que seu patrimônio eleitoral persiste — embora não se possa afirmar com qual consistência, pois isto apenas o tempo dirá. De algum modo, a resistente opção pelo ex-presidente, e o vazio ao centro, retratam o fracasso da República do Impeachment, a pinguela eticamente comprometida construída por Michel Temer, Aécio Neves e quejandos no MDB, no Centrão e no PSDB.

Aliás, um dos efeitos da prisão de Lula foi a aceleração dos processos judiciais contra o atual presidente e contra os tucanos, que até então caminhava a passos de bicho preguiça. E isto, é claro, é positivo — se o que se quer é, realmente, combater a corrupção no país.

Mas, o fato é que nesse primeiro mês de prisão, o ambiente ao invés de aquecer, arrefeceu. Os gritos de ''Lula livre'', pelo menos até aqui, não tomaram as ruas, embora ecoem em vários cantos do país, entoados pela militância artística e de esquerda. E é possível que, passados os primeiros 30 dias de indignação com a prisão, o que sobrevenha a partir de agora seja a gradual resignação e a percepção de que navegar de olho no horizonte é necessário. O pós-Lula ainda não se deu, mas querendo ou não seus companheiros, se aproxima vertiginosamente.

No que tange à direção do PT, o que se viu o estarrecimento diante de uma situação que deveria desde sempre ser considerada. É ridículo — mas não é inacreditável — que a prisão de Lula a tenha pegado de surpresa. A nomenclatura partidária ainda não superou a fase das bravatas e da ilusão de que soluções que deseja possam se dar por mágica, ou pelo beneplácito da segunda turma do Supremo Tribunal Federal — o que, de fato, não é impossível.

Lutar pela liberdade de seu líder faz sentido e é legítimo. Antes de tudo, todo indivíduo tem direito a um advogado que o defenda. Mas, como partido, agarrar-se apenas à essa esperança revela o vazio. Nos anos 1980, uma blague dizia que ''deus ajuda as crianças, os bêbados e o PT''. O tempo passou, as crianças envelheceram, a ressaca moral se estabeleceu e esse deus parece ter perdido a paciência com os petistas.

O partido que já teve um estado maior de respeito, realista e pragmático — José Dirceu, Antônio Palocci, Luiz Gushiken, José Genoíno e Luiz Dulci, além de Lula —, se perde hoje na convicção ideológica e no sectarismo típico de movimento estudantil. Lideranças de maior visibilidade política e abrangência social, como Jaques Wagner e Fernando Haddad, são constrangidas pelo tacão burocrático de dirigentes como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias.

A legenda prefere se prender ao senso comum de esquerda, com suas palavras de ordem. Como projeto de poder, regride ao jardim da infância de sua história, talvez ainda na crença da blague da proteção divina. Há, é evidente, o medo da fragmentação, sem o Lula que aglutine suas várias tendências. Mas, no fundo, a lógica que desenvolve se prende ao vício adquirido no pretenso hegemonismo que praticou ao longo dos anos.

Frequentemente, admite a formação de uma frente de esquerda, mas limita-se o campo aos satélites de sempre e, claro, com o PT na cabeça da chapa. Há um novo dogma: a suposta transferência de votos que Lula fará ao seu ungido será capaz de colocá-lo no segundo turno, quando o apoio virá por gravidade. É uma aposta simplória. Menos que anular os adversários e vencer a eleição, o PT se preocupa em não perder o domínio de seu campo de esquerda. Esta parece ser sua razão de Estado.

A simples hipótese de uma aliança com o PDT de Ciro Gomes é peremptoriamente descartada por sua presidente e pela maioria de sua direção. Não se admite o diálogo e quem o cogita corre o risco de ser classificado como traidor. Aproximações táticas nos estados, como por exemplo apoiar Márcio França, em São Paulo, liquidando o poder dos tucanos em seu terreno, sequer são consideradas. Como um Quixote, o PT prefere lutar contra moinhos de vento, fiando-se no idealismo puro do amor de Dulcinéia.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Sinais importantes
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Carlos Melo

Gritos e objetos: o presidente nas ruas. Imagem: Nelson Antoine/Associated Press.

A semana política foi curta, em virtude dos feriados, e dispersiva em consequência das imagens da tragédia envolvendo o edifício Wilton Paes de Almeida, que queimou e desabou, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo (escrevi a respeito, leia aqui). Mesmo assim, alguns fatos a marcaram e emitiram importantes sinais: a saraivada de vaias e objetos que recebeu Michel Temer ao visitar o local do incêndio é um deles; a decisão do STF em relação ao foro privilegiado foi outro.

A hostil recepção que o presidente recebeu na rua, no momento em que alegava prestar solidariedade aos moradores do edifício incendiado, é sinal inequívoco da baixíssima popularidade de quem, paradoxalmente, ainda insinua — ao menos de público — uma candidatura à presidência da República, neste ano. Um presidente que não pode andar nas ruas. Michel Temer não apenas é inviável como candidato. Seu desgaste é tamanho que também seu apoio se constitui em material tóxico, capaz de contaminar a quem ao seu redor se deixar apanhar.

O momento radiante da economia, que o governo prometia e alguns economistas acreditavam, não veio e nem tão cedo chegará. O desemprego é ainda muito elevado, a precarização do emprego é grande e importantes setores econômicos continuam estagnados. Acresce a isto, a suspeita de que o bom momento economia internacional acabou, o que afetará o país. A ilusão em relação às possibilidades de seu governo acabou.

Mas, não apenas isto. Michel Temer não conseguiu sair do noticiário de escândalos de corrupção. Seus amigos, correligionários, auxiliares e ex auxiliares são a cada dia mais e mais arrolados com a Justiça, sendo que agora também sua família foi jogada para dentro desse redemoinho. O presidente precisará sair com uma lanterna na mão, em plena luz do dia, em busca de quem acredite em sua versão para tantos casos mal explicados. Num clima assim, será muito difícil recuperar qualquer nível de credibilidade, ainda que em patamares modestos.

Isto não é problema apenas para o governo e para as pretensões dos ocupantes do Palácio do Planalto. Claro que o desgaste também afeta o MDB, de cujo presidente é seu maior símbolo. E, em que pese a formidável máquina eleitoral do partido — que conta com mais de um milhar de prefeituras, governos estaduais e governo Federal — a imagem de Temer, envolvido em tantas denúncias, tende a comprometer os destinos dos candidatos da legenda. Haja recursos para convencer eleitores!

Com base nos dados de eleições passadas, onde a máquina contou e muito, há analistas ainda crentes no poder de recuperação do governo e do MDB. No Brasil,nunca é demais repetir, nada é impossível, nem mesmo o sargento Garcia capturar o Zorro. Mas, estrutura eleitoral e tempo de TV não são tudo numa eleição que se dará em tempos tão tortuosos como os que se vive. Podem ajudar em condições normais, mas o humor da opinião pública também é, neste quadro, uma variável muito, mas muito importante. Será determinante para disputa pela presidência da República, pelo menos.

O quadro também afeta o PSDB, que na vacilação que lhe é usual demorou a desvencilhar-se do governo Temer e de Aécio Neves, restando também contaminado pelo desgaste de ambos. Esse sentimento é um complicador para um candidato com dificuldades em decolar nas pesquisas e que precisará ainda mais do tempo de TV, como é o caso de Geraldo Alckmin. Uma associação eleitoral com o presidente Temer e seu MDB, pode ser a pá de cal na candidatura do ex-governador de São Paulo. Terá tempo de televisão, muito a explicar e nada a dizer.

Se já encontra dificuldades na companhia de tucanos, quanto mais dificuldades encontrará se estiver ainda mais mal acompanhado, pelo presidente Temer?

***

Outro acontecimento importante foi a restrição à regra do foro privilegiado para senadores e deputados federais, decidida pelo Supremo Tribunal Federal. A medida é importante como sinal de moralização.

Com efeito, a chamada imunidade parlamentar foi desvirtuada ao longo dos anos. Não assegurou somente a liberdade de opinião e de votos no exercício e em função dos mandatos, mas também protegeu parlamentares da punição a qualquer delito comum, praticado antes e durante os mandatos; um habeas corpus permanente. Restam ainda dúvidas sobre a aplicabilidade da decisão, mas retirar esses casos da alçada do Supremo, que vinham congestionando o fluxo do STF, foi um inegável avanço.

Avanço, somente. Não mais. O país ainda está distante de igualar direitos e deveres de todos seus cidadãos. Presidente da República e seu vice, ministros, governadores, prefeitos, juízes e promotores continuam com seus foros especiais. Pode ser uma questão de tempo, mas essa diferenciação tem servido de abrigo suspeito para muitos que, hoje, estariam em maus lençóis, se julgados fossem pela primeira e segunda instâncias do judiciário, como qualquer cidadão comum.

Mas, também aí, tampouco tudo se resolve e é preciso ficar atento. Há enorme variedade de critérios e personalidades nesses juizados. Conluios locais entre políticos e agentes da Justiça não podem ser descartados num país como o Brasil. O território é imenso e nos grotões quase nunca há forças contraditórias, oposição e imprensa livre, capaz ou disposta a acompanhar e difundir informações dos processos. Nem sempre há sociedade ativa. Na verdade, normalmente, não há.

O que de fato contará para o fim desse tipo de impunidade não será apenas o local onde o sujeito será processado e julgado, a fiscalização ativa da opinião pública e a higidez das instituições são mais importantes. Onde houver, o futuro trará resultados diferentes e melhores que os atuais. Onde não houver nada disto… Bem, já se sabe o que acontece. Basta olhar para o processo que nos trouxe até aqui.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.