Blog do Carlos Melo

Um ano no UOL
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Carlos Melo

Dois bebês no berço – Foto: Alexey Losevich / ShutterStock.com

Há exatamente um ano, numa quinta-feira sufocante de janeiro, encontrava-me de férias, ansioso para quando chegasse fevereiro e eu pudesse começar minha participação aqui, no UOL. Embora escrever sempre tenha sido meu maior prazer e desafio — como alguém que se dedica a montar quebra-cabeças —, seria uma experiência nova em virtude da regularidade que a dinâmica de um grande portal impõe.

Minha intenção era iniciar o BLOG com mais tato e formalidades; cheio de prolegômenos, com aquelas apresentações de praxe: contar os planos que tracei, descrever objetivos; fazer minha apresentação pessoal para a imensa maioria que não me conhecia — embora eu escrevesse (com muito menor regularidade), por anos no Estadão OnLine.

Enfim, dizer quem sou, de onde vim, qual minha relação com a política, pela qual tenho fria ''despaixão'', digamos assim. E, por isso — pela ''despaixão''—, sabia, descontentaria a muita gente, desses que escolhem um lado do conflito e ardem de febre pelo amor intenso que sofrem por seu partido, por seu ídolo, por seu inimigo, e, principalmente, por suas próprias ideias.

Era um risco: na intenção de não agradar a ninguém, havia grande possibilidade de desagradar a todos — ou, pelo menos, a muitos. E, de fato, isto aconteceu. Neste aspecto, fui bem-sucedido; tomei porrada de todos os lados: petistas, antipetistas; tucanos e antitucanos; empolgados com o governo Temer e os que o classificam sumariamente como ''golpista''. Toda a paixão das redes sociais, cada um com suas bíblias do ''politicamente correto'' em punho.

O ''politicamente-correto-nosso-de-cada-dia, nos dai hoje'' que, no mundo moderno, cada um cultiva para si mesmo, ao seu gosto, de acordo com suas conveniências; como base, discutível, de sua atiradeira de pedras. Seu estilingue.

Na verdade, há um ano, tudo o que pretendia confessar para iniciar a conversa era que apenas escrevo pelo prazer de escrever; pela carpintaria de cada texto, pela endorfina de juntar palavras e dar-lhes certo sentido melódico — eu que nem sei tocar um ''instrumentu'', infelizmente; e, em vão, como tolo, procuro música em cada frase.

E escrevo sobre política porque, confesso, falta-me criatividade para produzir ficção capaz de superar o surrealismo da realidade da política do Brasil. Escrevo sobre política porque essa é a atividade mais humana, rica e miserável que há sobre a terra: repleta de paixão, plena de toda grandeza e de toda a mesquinhez da humanidade. Uma usina que produz gigantes e anões; heróis e pulhas juramentados em cartório.

Enfim, era isto que estudava dizer naquele janeiro de 2017. Mas, literalmente, veio o tempo negro e, naquele dia 19, para tristeza de muitos e estupefação de todos, caía na bahia de Parati o avião que levava o ministro do Supremo, Teori Zavascki, relator dos casos da Lava Jato.

Foi irresistível sair da modorra de meus pensamentos e do descompromisso das férias: eu já era outro, reagia à provocação dos fatos.  Com efeito, a morte de Teori abria ainda mais fendas de dúvidas do que já havia. O que seria? E logo após isto, a escolha controversa do sucessor, Alexandre de Moraes; a discussão sobre a relatoria da Lava Jato, no Supremo, e definição do ministro Edson Fachin.

E, a partir de então, fatos novos a cada dia, numa lancinante sucessão de escândalos. A vertigem brasileira, nesta quadra histórica de crises múltiplas, com poucas alternativas e ausência de lideranças. As gravações de Joesley Batista, os vídeos e fotos das malas de dinheiro. Em quantia tanta a ponto de ofender que terá que trabalhar vinte vidas para juntar metade de uma mala daquelas.

A desfaçatez de Michel Temer, a arapuca que pegou Aécio; a sinuca de Lula, as estultices de dirigentes do PT. O farisaísmo e as contradições do PSDB; a coerência indecorosa do (P)MDB. O constrangimento dos que batiam panelas e calaram as bocas. O fisiologismo de qualquer base política, a disfuncionalidade do sistema. A falta de respostas no presente, o medo do futuro. A eleição, a forjada polarização, a fragmentação; o atraso da esquerda, o avanço da direita; a liquefação do ''centro''.

Foram 123 textos em um ano; mais de dez por mês, mais de 2 por semana. Pouco para a alucinação do mundo e para o ''delírio com as coisas reais''; pouco para os treinados e ocupados exclusivamente com este mister. Mas, o suficiente para quem se divide em uns bons 12 trabalhos.

O fato é que neste ano, entrei na corrente sanguínea do debate e inoculei na minha sua adrenalina. O poeta Maiakovski dizia que ''é melhor morrer de vodca do que morrer de tédio''. Com a política do Brasil, ninguém morre de tédio. É uma cachaça. Vicia e nunca falta. Não imagino por quanto tempo mais durará esta aventura. O que sei é que, passado o primeiro ano, ''não sou feliz, mas não sou mundo; hoje eu canto muito mais''.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


A hora mais escura
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Carlos Melo

Gary Oldman, como Winston Churchill, em ''O Destino de Uma Nação''. Divulgação,

Não haverá spoiler, fiquem tranquilos; o final do filme será preservado. Mas, a história é conhecida. Trata-se do período logo após a primeira condução de Winston Churchill ao cargo de Primeiro-ministro do Reino Unido, quando teve que convencer o establishment inglês que não convinha fazer a paz com Hitler. Refiro-me a ''O Destino de Uma Nação'', em cartaz nos cinemas do Brasil — o título em inglês parece-me mais interessante: Darkest Hour.

Como se diz, é um ''filmaço'' e Gary Oldman — irreconhecível — merece, sim, o Oscar que deverá ganhar. Claro, há um ou outro trecho romanceado, coisa para emocionar a plateia e dar cores ainda mais extraordinárias ao herói. De todo modo, Churchill foi, de fato, um personagem extraordinário.

Sobre o período e o personagem, já havia lido muita coisa. Algo rápido e interessante é ''O Duelo: Churchill x Hitler: 80 dias cruciais para a Segunda Guerra Mundial'', de John Lukacs (Jorge Zahar Editor, 2002). Fica a recomendação.

Tratou-se mesmo de uma encruzilhada para a humanidade e os ingleses estiveram muito próximos de tomar o caminho errado — embora, aparentemente, o mais conveniente.

Churchill, por sua vez, era um personagem folclórico: desacreditado, posto que responsabilizado por retumbante fracasso na Batalha de Dardanelos, em Galípoli, na Turquia, durante a Primeira Guerra Mundial. Acompanhava-lhe a fama, não injustificada tampouco mentirosa, de temperamental e beberrão.

Foi escolhido primeiro-ministro a contragosto do Partido Conservador e do Rei, George VI (este, igualmente, uma figura ímpar). Acreditava-se que não durasse muito. O próprio Hitler esperava por isso — possuía informação dos ingleses.

Neville Chamberlain, primeiro-ministro anterior e homem forte do Partido Conservador, ao lado de Edward Wood (conde de Halifax), o preferido para suceder a Chamberlain e Secretário de Relações Exteriores, eram favoráveis ao diálogo e à paz com os alemães. Subestimavam Churchill e, no meio político, possuíam muito mais força e prestígio que ele. Enfim, questão de tempo.

Aqueles dias, possivelmente, expressam um dos mais elevados momentos da liderança política da história. Estudando Hitler e o nazismo ao longo dos anos, Churchill possuía convicção diferente de seus pares: ''não se negocia com um tigre quando você está com a cabeça dentro de sua boca''. Diante de seus valores, era imperativo resistir. Em virtude disso, não se furtou ao contraditório, enfrentou, debateu, correu riscos.

Exageros à parte no filme, o fato é que realmente percebeu, antes de todos, o sentimento da nação, vocalizando-o em discursos. Resistindo aos adversários internos, refugiou-se nas palavras e, ao final, a unificou a população e os políticos.

Depois, ao tempo em que enfrentava o fantástico poderio militar alemão, mobilizou energias para atrair os Estados Unidos para o centro do conflito europeu; aguardou o rompimento do pacto entre Hitler e Stálin, de modo a que os alemães se vissem forçados a lutar em duas frentes, o que os enfraquecia significativamente. Venceu a guerra e deu outro rumo ao mundo.

Humano, claro, possuía uma série de defeitos; seus biógrafos confirmam que seu temperamento tornava dura a vida dos que o rodeavam; liberal e ao mesmo tempo conservador, não foi assimilado pela esquerda política e cultural, que ainda o vê com preconceito.

Mas, o mais importante, e que os parágrafos acima querem demarcar, são as características da liderança política que carregava: valores, convicção e coragem para defendê-los; sensibilidade política e capacidade de comunicação; visão de futuro, articulação, paciência e estratégia. E, ao lado da rabugice, cultura para suportar um humor ferino e destruidor de adversários. Ao final, é a soma de suas qualidades o que importa.

O filme retrata apenas um pequeno período da vida do personagem; de fato, a ''hora mais escura'', numa tradução livre do título original. Não demonstra que, ao final, Churchill foi estigmatizado pelos aliados americanos, sendo praticamente afastado do centro das negociações pós-guerra, quando a Europa foi repartida em áreas de influência.

Não menciona que, finda a guerra, o Partido Conservador, de Churchill, perdeu as eleições para os trabalhistas de Clement Attlee, que o sucedeu. Também omite que Churchill escreveu às carradas, em quantidade superior a Charles Dickens somado a mais uns tantos, sendo laureado com o Nobel de Literatura. Fracassos e triunfos que o engrandecem.

Sob muitos aspectos, dividido, o Brasil vive também sua ''hora mais escura'': não há diálogo; o fenômeno das redes sociais traz aspectos inovadores à participação, mas também faz crescer a intolerância. A cultura se defronta com o ''politicamente correto'', numa transição que mistura intransigência e sanha punitiva, muito a cima dos desejos de superação dos preconceitos e da transformação social. A arte é questionada, num afã de censurá-la. A religião penetra nas instituições.

Há desemprego e enorme precarização do emprego; o quadro econômico é, no mínimo, incerto. A violência cresce, facções de criminosos se expandem e ganham corpo na política, inclusive. Febre amarela de volta; Saúde e Educação, bens de luxo. A demografia do país passa por uma revolução, políticas públicas precisam ser repensadas. Desigualdade e injustiça social; grupos de interesses perpetuarão privilégios?

O país precisa de reformas em todos os campos, nas mais diversas áreas. Só conseguirá fazê-las se houver unidade, forjada na persuasão de argumentos que falem às mentes e também aos corações; na visão de futuro e na capacidade de comunicação dos governantes.

Num ano eleitoral, a esperança deveria pulsar em torno da emergência de novas lideranças; acender velas, dissipar o breu da hora mais escura. Mas, a história dá saltos somente quando preparada e ainda não permite avanços. Por ora, somos o que podemos ser. Cada um tem o Churchill que merece.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A política rarefaz o ar da economia no Brasil
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Carlos Melo

Evaristo Sá – 16.dez.2016/AFP

Meses de festas e férias, e o mormaço do verão. A vida assume outro ritmo e a política tende a ser acomodar à modorra de dezembros e janeiros. Em tese, tudo para. Só que não. A comichão se espalha e, nos bastidores, a articulações se aceleram. É ano de eleição. Num tempo normal, a perspectiva das urnas esquenta tudo, naturalmente. Numa quadra histórica como a que se vive desde 2016, mais ainda a chapa ferve, com risco de derreter. O fato é: não há férias para o desassossego; a vertigem nacional tem fluxo contínuo.

O governo vive de aflição em aflição, sabe bem que seu fim pode estar logo ali, no descontrole das contas públicas e na frustração com o crescimento. Já é tão pouco o que mantém Michel Temer vivo politicamente que qualquer desatenção pode fazer desmoronar o barranco em que se escora. O downgrade de agências de risco não surpreende, mas agrava a situação.

As lentes coloridas dos membros da equipe econômica, sempre positivas, querem enxergar algo de bom em tudo. É do seu papel. Acreditam, diz a fonte em uma notícia qualquer, que o rebaixamento será alvissareiro, pressionará deputados. Será? Pode ser também que não: aliviados pelo mal que já ocorreu — o rebaixamento veio e nada será imediatamente revertido — por que deputados teriam pressa, depois que Inês morreu? Tudo pode, então, ficar para depois, não?

***

Temer foi alçado ao poder somente porque se comprometeu com entregáveis contratados, na economia: desarmar a bomba da ''Nova Matriz'', realizar o ajuste, retomar atividade e boas perspectivas. Implica em, pelo menos, remediar a Previdência Social, desculpa para todos os rombos. Se o presidente não serve para isto, para o que mais serviria? Ele não veio ao mundo para sanear o sistema político, instaurar a moralidade; veio só para isto.

Temer é antes o resultado do sistema; um articulador de pequenos interesses e interesses pequenos. Seu papel é conduzir o clero baixo, tanto quanto possível, para mitigar a aflição econômica de modo que, assim, a economia fizesse a paz da política, pelo menos da Lava Jato.

Para os que o apoiaram, nos mercados, a economia é uma exigência. Mas, para o governo, um imperativo, questão de sobrevivência. Contudo, nada é mesmo simples e a doença há casos em que não há remédio, além do deixar sangrar e do tempo.

O presidente se desdobra mesmo que a saúde física lhe cobre juros. Mas, a verdade é que não tem de onde tirar nada melhor do que aquilo que dispõe: a precariedade de quadros políticos em sua base — e no Brasil atual — é assustadora, de onde pode retirar recursos humanos para operar a recuperação?

Escolheu Carlos Marun como ministro da Secretaria de Governo. Deputado de um único mandato, num ambiente cheio de vícios, Marun se destacou rapidamente em razão da virtude de seus defeitos, com o perdão do paradoxo.

Crê-se que seja o quadro adequado para lidar com os recalcitrantes do governismo, temerosos em votar a reforma e ampliar o fosso com os eleitores. Por falar a língua objetiva da base, calculou Temer que melhor que os bons modos de Imbassahy seriam os maus modos de Marun. Faz sentido, mas após escorregar em rede nacional — admitir a pressão sobre governadores –, Marun recolheu-se aos bastidores, de onde, menos forte, articula as esperanças do governo.

Aliados começaram a abandonar o barco antes do que se supunha. No afã de manter a base, o governo recorreu ao apoio de Roberto Jefferson — uma espécie de Carlos Marun, dos tempos de Fernando Collor — para que indicasse o ministro do trabalho, e apertasse os nós do vínculo de seu PTB com o governo. Jefferson pariu Cristiane Brasil.

Deputada articulada e aguerrida como o pai — o próprio Jefferson — padece da mesma precariedade da base — difícil encontrar alguém sem ''poréns''. Mas, não é papel do Judiciário definir quem o Executivo pode ou não pode nomear ministro. Parece uma interferência indevida, quase um troco, uma desforra.

Todavia, renegar dívidas trabalhistas, já julgadas em última instância, pega mal para um ministro do Trabalho. Ser acusado por gente simples, motoristas e domésticas, arranha tanto a reputação quanto a de um dentista com cárie e banguela. Argumentos em sua defesa, como os do deputado Beto Mansur — ''se for assim, o ministro da Saúde não pode fumar; o dos Transportes não pode ter multa''— , são, sinceramente, patéticos.

***

Enquanto o governo fica assim nessa água malparada, esperando fevereiro chegar, a fragmentação eleitoral corrói a base e aprofunda a desinteligência. Já há pelo menos três candidatos que se reivindicam da autodenominado ''centro democrático'' em que o governo diz estar; disputas se acirram e, assim, se desvia o governo de sua pauta.

Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia se preparam para consumirem-se mutuamente. Buscam demonstrar que são capazes de reunir melhores times que os demais; já insinuam formar ministérios. Faz sentido, procuram atrair setores da elite e do empresariado, no primeiro momento. O diabo, porém, será conquistar a massa — no momento seguinte.

Pelo menos para Alckmin e para Meirelles, o caminho pode não ter volta: para ambos, a eleição de 2018 será a última oportunidade de realizar o sonho da Presidência, que acalentam há anos. Não é fácil renunciar a sonhos. Já para Maia, pode se tratar de cavalo que passa encilhado, como descartar? O deputado percebeu que em política, o poder é destino; há de virar o rosto se a sorte lhe sorri?

Quem abriria mão em nome de quem? Em 1989, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e Mário Covas não chegaram a qualquer acordo; fragmentaram o centro, abriram espaços para Collor, Lula e Brizola. Nenhum deles conseguiu atrair o outro, tornar-se ponto de confluência de múltiplas forças políticas. E, note-se, eram quadros mais vividos, mais respeitados politica e intelectualmente, mais sagazes e credíveis que os atuais.

A saída para aglutinar o campo governista seria mesmo a natural atração que um governo bem resolvido e bem-sucedido, naturalmente, possui. Mas, esse não parece ser o caso. Voltamos às agruras de janeiro e fevereiro, mencionadas acima. E se fosse o caso — ou improvavelmente vier a ser — porque seria um deles e não o próprio Temer o candidato?

Vive-se, então, certo impasse e assim será pelo menos até abril, até que aos poucos tudo se defina (ou não), já a partir de 24 de janeiro, quando o ex-presidente Lula será julgado pelo TRF da 4a. Região. Enquanto isso, no mormaço de verão, o sol arde, a chuva cai. As cidades param por entre carros engarrafados ou sob águas que brotam dos bueiros. Não há brisa, a febre amarela reaparece. O bafo suspeito do futuro rarefaz o ar.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Regras de ouro
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Carlos Melo

''Capoeira'', Carybé; 1980. (Lembrança da Bahia)

Com justificados cuidados com a qualidade do ambiente macroeconômico, a chamada ''regra de ouro'' consiste num instrumento que impede o governo federal de fazer mal a si mesmo, a seu sucessor e ao país, proibindo-o de emitir dívidas em montantes superiores aos investimentos. O objetivo é dar travas à natural ''bondade com o dinheiro dos outros'', ao irresponsável populismo fiscal, com elevação de despesas correntes que os governantes adoram.

Esse tipo de mecanismo é simples e racional e, bem ou mal, expressa segurança indicando que, por pior que seja o governo, por mais perdulário, sua ação deletéria ficará sob limites mínimos, forçando-o à economia e ao ajuste: governar significa dirigir com cuidado e zelo. Quando não o fizer, e a sociedade assim permitir, se verá obrigado a elevar impostos tão logo cessem aumentos de arrecadação — ou quando as despesas crescerem em ritmo maior que a arrecadação.

Trata-se, antes de tudo, de uma regra de bom senso; de um ponto de vista objetivo, ninguém pode ser contra: a administração pública tem obrigação de se pautar, de fato, pelo comedimento e pela responsabilidade fiscal. Então, é uma prática justa e respeitosa com o dinheiro público; de certo modo, um procedimento óbvio e banal que, no entanto, no Brasil, precisou constar da Constituição.

Impedido — ou incapaz, não importa — de fazer sua parte no controle dos gastos, é exatamente isto o que o governo do presidente Michel Temer pretende mudar.

Não custa lembrar que foi Michel Temer quem, ao assumir o lugar de Dilma Rousseff, concedeu aumentos ao funcionalismo; foi o presidente quem aceitou renegociações de dívidas (REFIS para todos os gostos), liberou emendas a granel e no atacado para manter o mandato; concedeu privilégios a bancadas setoriais, capitulou diante do interesse de estados e municípios, evitou o quanto pôde enfrentar corporações na questão previdenciária — o faz somente agora, de modo oblíquo e desesperado, quando já parece tarde.

Foi Temer quem, ao contrário das expectativas de sua equipe econômica, se acomodou às pressões do Legislativo, mesmo antes do Joesley Day. Foi a área política de seu Governo — fisiológica, assustada e fraca — que desconstruiu, aos poucos e sistematicamente, as regras e os cuidados fiscais que ofereciam como alternativa à Dilma, derretendo, assim, o ouro da credibilidade prometida.

Isto tudo posto sobre a mesa, é claro que que a eliminação da ''regra de ouro'' acaba por ser natural, caminho previsível diante de trajetória errante. Não traz surpresas.

Contudo, implicará em sobressaltos na economia; afinal, quem pode dar cavalos-de-pau desse tipo, pode muito bem ultrapassar outros limites. Mudanças assim, elevam a insegurança em relação às regras, às instituições e à credibilidade dos atores, tornando tudo muito mais instável, por incerto e inseguro.

Quem, num ambiente destes, comprometeria recursos desconfiando que tudo pode, de repente, mudar ao sabor das conveniências políticas, onde governos não ajustam às regras ou, antes, conciliam interesses com corporações e as alteram?

Quadro como este só faz sentido mesmo no campo da política brasileira, pois sua regra de ouro é bem outra. Para a maioria dos políticos, manter o poder e, se possível, ampliá-lo é, este sim, o fundamento básico que de qualquer cartilha. Tanto mais quando — e este é o caso — a situação implica, acima de tudo, salvar a própria pele, preservar o pescoço, escapando de processos na Justiça e, até, da possível cana dura.

Dizem que os cães lambem a própria virilha pelo mais básico e elementar princípio da anatomia: eles o fazem simplesmente porque podem, porque é possível. De modo que fazer ou não, obedecer ou não, em política, não depende apenas de regras ou critérios abstratos de bom senso; dependem, antes, de poder ou não poder. E Michel Temer, ao contrário de sua antecessora eleita, pode.

Possui condições mais favoráveis para desviar-se de qualquer boa prática definida pela lógica econômica: o mercado financeiro lhe é mais condescendente, a ortodoxia econômica mais amigável e tolerante, os tribunais menos rigorosos, o Parlamento mais aberto à ''negociação'', a sociedade mais apática. Tudo dá ao governo Temer a elasticidade dos cães, mencionada no exemplo acima. Faz porque pode.

Somente os custos de reputação de sua equipe econômica poderão conter esse processo. Fora disto, estaremos no campo do ''Poder'' — na língua portuguesa, verbo e substantivo. O Poder, a dor e delícia da política; é eloquente, fala e cala por si. Interessante constatar como o governo Temer é, paradoxalmente, fraco e poderoso. Fraco, por sua fragilidade intrínseca, sua impopularidade explícita; poderoso por conta da condescendência de atores econômicos; da permissividade que lhe é garantida pela perplexidade da crise. Que mais dizer?

Nada mais. “Biquínis e mensagens devem ser curtos para aguçar o interesse e longos o suficiente para cobrir o objeto” (Carlos Heitor Cony). É isso aí: o que não está à mostra fica na imaginação.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


A ansiedade econômica e os limites de Lula
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Carlos Melo

Eduardo Frazão/Framephoto/Estadão Conteúdo.

Na visão que o cidadão comum tem da política, são naturais a mitificação de personagens e a construção artificial de ídolos. O líder emerge abstrato e absoluto, como se tudo dependesse de seus méritos e virtudes; é entendido como uma espécie de herói. Nada mais equivocado. É claro que personalidade conta, mas isto pode simplesmente sucumbir à falta de oportunidade histórica, sem nunca ter encontrado sua hora e sua chance. As circunstâncias são tão ou mais importantes que os atores.

Recentemente, em mais um de seus jogos de palavras, com vistas a diminuir resistências e ampliar seu campo político, o ex-presidente Lula declarou-se um moderado; disse não ser um radical político e que, portanto, não deveria ser temido por agentes econômicos, que poderiam aceita-lo sem qualquer prevenção. Fez sucesso porque disse o que seus interlocutores pediam para ouvir.

De fato, em que pese discursos de palanques nas caravanas pelos rincões do país nas quais se embrenha, Lula nunca foi mesmo um radical. Ainda nos tempos da ditadura, questionado se era ''comunista'', respondera: ''não, sou um torneiro mecânico''. Distanciava-se, já naquele momento, de ilusões políticas e das amarras ideológicas de muitos de seus companheiros. Não era socialista, nem comunista, nem esquerdista; era tão somente um pragmático.

A declaração de 2017 fez despertar, então, toda sorte de comentários e análises voltados a amenizar a sensação de risco com a eventual vitória de Lula, na eleição deste ano. Raciocínios dispostos a resgatar o comedimento e a moderação que, de fato, houve, sobretudo, nos primeiros anos do governo do PT, no primeiro mandato do ex-presidente (2003-2006), o que, na ocasião, surpreendeu muita gente.

Com efeito, Lula nunca foi mesmo nada disso. Sua personalidade política é conciliadora, distancia-se de qualquer furor em torno de concepções vinculadas à luta de classes ou a abstratos maneirismos intelectuais. Sua visão de mundo é simples: no fundo, um sonho de classe média — o que se pôde notar, inclusive no campo pessoal, pelas agruras em que se meteu, bem mais tarde, com idílicos sítios de lagos e pedalinhos ou modestos apartamentos tríplex.

Mas, a questão, como se disse acima, é que em política a personalidade conta pouco. Ou antes, ela só será expressiva se as circunstâncias permitirem, se a história colaborar.

Na eleição de 2002, era possível dizer aos desconfiados agentes de mercado que Lula, uma vez eleito presidente da República, não seria o bicho papão que muita gente pintara; no fundo, no fundo, no fundo, sempre esteve mais para ''Lulinha paz e amor''. É seu temperamento. Mas, havia ali uma série de condições que favoreceriam a moderação e a conciliação, que estavam muito além de sua disposição e caráter pessoais. O país e o mundo viviam momento diferente.

Em primeiro lugar, desenhava-se ali um quadro econômico positivo. Com a China, finalmente, absorvida pela Organização Mundial do Comércio, vislumbrava-se o ''choque de commodities'', que favoreceu imensamente a economia brasileira. Claro que Lula poderia desprezar essa chance e pôr tudo a perder desde o primeiro momento. Mas, não o fez por uma série de motivos.

Após inúmeras tentativas, sua vitória eleitoral foi recebida com otimismo — ou pelo menos condescendência — por amplas parcelas da população, entre elas, a classe média dos centros urbanos e mesmo os setores de elite que lhe deram o benefício da dúvida e a oportunidade de provar ao que viera. Houve, sim, após a eleição, mais um voto de confiança.

Essa boa vontade recaía também sobre o PT, que até ali, expressava o resgate da esperança e da virtude moral. Ocupara, por anos, o confortável espaço da oposição ''contra tudo isto que está aí''; suas lideranças, algumas míticas, abrigavam-se à sombra dos ''heróis da resistência à longa noite da ditadura'', como se dizia. É irônico dá-se conta, hoje, do romantismo dessa atmosfera em torno do PT.

Além disso, o PT de então possuía quadros políticos de outra qualidade — Luiz Gushiken, José Dirceu, Antônio Palocci entre outros — que permitiram ao governo atrair parte significativa da inteligência nacional. Foi possível dar sequência à manutenção da estabilidade da moeda, fazer ajustes e aperfeiçoar políticas públicas, em virtude da capacidade de entendimento e articulação desses quadros políticos.

E, por último, em que pesem tolices a respeito da ''herança maldita'' que petistas diziam ter recebido do antecessor, a realidade é que Fernando Henrique legou ao país um governo e um Estado bem mais equilibrados do que se possa imaginar encontrar em 2019. Política, econômica e administrativamente, o Brasil era outro, em condições imensamente mais favoráveis que as atuais. A credibilidade dos agentes políticos era incomparável com a atual.

Eventual futuro presidente, nada disto Lula terá novamente. Eleito, tende a ter contra si a maioria da classe média, sobretudo, do Sul e Sudeste do país; o Poder Judiciário, o Ministério Público. E mesmo que consiga compor com o Congresso Nacional, o preço dos apoios será significativamente elevado, inflacionado pelo fisiologismo sabedor da dramaticidade, resultante da necessidade e urgência que presidente e governo terão.

Em paralelo, diante desse quadro de pressões — que estarão presentes já durante a campanha —, como Lula poderá negar retribuição a setores sociais e políticos que estarão ao seu lado, na eleição e após, sustentando-o nas ruas? Como poderá voltar-se, por outro lado, mais uma vez, para aqueles que o estigmatizaram na sociedade, na Justiça e no mercado?

Se em 2003 Lula soube moldar-se às circunstâncias favoráveis que o cercavam, em 2019 terá que transformar as péssimas condições políticas, sociais e econômicas a que será submetido. Mais do que do limão uma limonada, fazer melaço do fel da bílis que o amarga. Isto exigirá do ex-presidente muito mais do que pôde demonstrar até hoje; uma liderança extraordinária que se coloque e se imponha sobre as circunstâncias.

Casos assim são raros na história da humanidade, Lula teria que ombrear-se a um Lincoln, a um Churchill. E o ex-presidente parece estar bem aquém disto. Aliás, não apenas ele, no Brasil e no mundo contemporâneos. Por isso, é bom colocar os pés no chão, compreender os personagens e, sobretudo, as circunstâncias que os cercam. O processo político é muito mais complexo do que supõe os desejos e vã ansiedade.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ano Novo no Jardim das Incertezas
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Carlos Melo

Imagem: Fernando Maia/Riotur

Esse período de festas — que no Brasil se estende da véspera do Natal à ressaca pós-carnaval — tem sido enganador: à primeira vista, sugere que o conflito se amenizou; que os governos se preparam para superar mazelas; mas quase nunca isso se confirma. Ano Novo e velhos problemas: o país continua a saga para encher os pulmões com a recuperação da economia ao mesmo tempo em que é puxado para o fundo do mar pela crise da política.

Na passagem de 2015 para 2016, com Dilma Rousseff na presidência, foi assim: a crise dera um tempo, a presidente freara seu instinto autodestrutivo, o Congresso interrompera o blitzkrieg de pautas-bombas na economia e na credibilidade; entre o final de 2016 e maio de 2017, após importantes vitórias no Parlamento, Michel Temer tocava tambor para avisar de que conseguira a proeza de tomar o sistema. Mas, quando chegou a quarta-feira de cinzas, em 2016, Eduardo Cunha retomou o processo contra Dilma; e, em maio de 2017, o Joesley Day demarcou nova fase na política nacional.

Muita gente que acreditou no fim da crise, na recuperação econômica como elemento de superação do conflito político, se decepcionou. Nas duas ocasiões, a sensação foi assemelhada ao intervalo de Brasil x Alemanha, na Copa de 2014. A derrota era iminente, mas o alívio com a interrupção do vexame — a seleção parara de tomar gols, afinal era intervalo — um Galvão Bueno dentro de cada um sugeria a ilusão de que ''ainda dá''. Mas, com Júlio César, Davi Luís, Oscar e Fred, não deu. Com Dilma e Temer também não.

Com efeito, a ilusão é a primeira flor que nasce, no jardim das incertezas; a esperança, a última orquídea que morre. Mas, é o ceticismo, entre arbustos num canteiro distante, o que mais resiste mais que todos e fica para contar a história do bosque.

Ano Novo e o momento é de a imprensa buscar magos e previsões que criam esses sentimentos, mas são rapidamente esquecidos ao longo dos meses. É preciso reconhecer a precariedade do todo: há muita incerteza no país e no mundo; processos avassaladores de comunicação que criam ambientes desconhecidos, ondas de informação que produzem fatos novos, impactam projetos e impedem efeitos anteriormente esperados.

Além da continuidade dos conflitos, é difícil afirmar no que o processo pode dar.  Mesmo assim, é justo acreditar que nos próximos meses o país seguirá dividido entre os que potencializam os efeitos da recuperação econômica — supostamente capazes de superar os impasses políticos — e os que desprezam esses efeitos, ou antes, colocam o impasse político como um impeditivo para um processo duradouro de recuperação.

Haverão dados e estatísticas para relativizar todas e quaisquer posições. Isto tudo é próprio do ambiente de ''copo meio cheio e meio vazio''. Qualquer positividade parece bem-vinda, mas nem sempre suficiente. O fato é que processos assim carecem de choques políticos mais profundos, com lideranças capazes de criar o novo, reunir apoios e atrair os polos, reduzindo o conflito.

É ano eleitoral e seria de esperar que algo assim estivesse no radar dos analistas. Mas, há poucas esperanças de que a eleição, com o cardápio de candidaturas que se tem, venha a consertar o processo destes anos tortos. A crise de credibilidade de partidos e atores políticos expande o ceticismo e a nada parece mais fora de questão do que a crença de que o Brasil é destinado ao sucesso, pronto a se redimir. Intimamente, desconfia-se que o gigante morreu na danação do sono.

Até aqui, o processo eleitoral não desperta suspeita de novidades — embora sejam vastos os espaços para o surgimento de outsiders. Acreditar na amenização do conflito, como comedimento de agentes, que já estão na pista, é um desconhecer que, em política, as circunstâncias quase sempre têm maior importância que os atores.

Crer na superação das diferenças de um centro moderado parece mesmo confiar na da seleção do Felipão, após cinco gols — no primeiro tempo.

O ano é novo, mas não é de hoje, que todo mundo sabe que ''o que há algum tempo era jovem, novo hoje é antigo''; que as estruturas do sistema político já não dão conta da realidade e que a democracia precisa ''rejuvenescer''. Mas também se sabe que ninguém sequer desconfia o que e como renovar esse processo.

No jardim da incerteza, as folhas das ilusões e das esperanças são destruídas por toxinas de previsões cujos destinos que nunca se cruzam. E a maior ''dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos'' como Belchior.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Ministro Marun atenta contra a própria causa
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Carlos Melo

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Alguns políticos são treinados para dissimular o mal-estar; praticam a politica real, mas sabem de algum modo dourar a pílula; manobram os mais escabrosos instrumentos do Parlamento tornando-os, por inevitáveis, admissíveis; descartam a força, operam pelo ''jeito''; sob um sorriso enigmático, guardam silêncio do que fazem. Getúlio Vargas foi um desses e, por sinal, foi chamado de ''Jeitúlio''. O desafio é quase sempre tornar o difícil fácil; perverter a lógica do possível. Por isso é que a política é uma arte.

Dadas as condições estruturais da economia e do Estado brasileiros, a Reforma da Previdência tornou-se algo inevitável; transformou-se num imperativo; sob muitos aspectos, uma razão de Estado. Logo, será feita tarde, mais tarde ou, talvez, tarde de mais, mas é inescapável. Economistas, os mais brilhantes, já a explicaram e tornaram evidentes seus motivos. Desnecessário repeti-los. Pode ser esta que tramita no Congresso, pode ser outra, mas o que não é possível é que não haja reforma alguma.

Também para o governo Temer ela, a reforma da Previdência, se tornou questão de vida ou morte: sem ela, o governo acaba e a Lava Jato aperta. Sim, como se sabe, o governo não é nenhuma geladeira especial, dessas bacanas (tipo Brastemp), mas o problema é que o vácuo até a posse de um novo presidente da República só trará maiores dissabores ao país; rapidamente, a economia irá pelo ralo e as perspectivas de futuro serão sombrias.

E nada disto fará com que um novo governo se desobrigue de buscar a reforma — em condições ainda mais dramáticas. Simples assim.

Há de se reconhecer que a aprovação da reforma não escapará do fisiologismo do sistema político. Dada sua dramaticidade, a liberação de recursos para estados, municípios e parlamentares é inevitável — a política não é, definitivamente, o lugar para anjos e santos; os bons princípios, às vezes, não sobrevivem à sagacidade das raposas.

Isto, no entanto, deve se pautar por pelo menos dois critérios: 1) o custo moral e fiscal, com liberações de recursos, não pode, evidentemente, ser maior que o benefício da reforma; 2) a opinião pública precisa ser esclarecida da necessidade da reforma e não pode ficar contrariada com os métodos para aprova-la.

Mas, há políticos que fogem a qualquer critério; enxergam a atuação política como um mercado aberto a todo tipo de negociação. Não têm pudor e acham que isso é normal — ou mais: que não deva ser feito com discrição. Como elefantes em loja de cristais — desajeitados, com estardalhaço —, quebram tudo. Línguas soltas, jactam-se da truculência, evidenciam vícios como se virtudes fossem; sem noções de mediedade ou temperança, falta-lhes compostura.

Acabam, por fim, por gerar novos custos morais, reforçando a antipatia da opinião pública e fortalecendo a resistência contra a reforma.  E, pior que tudo, deseducando a população.

O problema do Brasil, nesta quadra histórica que atravessa, é que ao mesmo tempo em que o primeiro tipo de político torna-se raro, escasso — talvez pertença a um tempo sem volta que se perdeu —, o segundo tipo abunda: é mesmo comum pelos corredores do Congresso Nacional e nos Palácios do governo.

Uma vez na TV, em rede nacional, falam para dentro, para a base, nos seus termos, que são assim brutos, toscos e grosseiros. Capazes de escandalizar não pelo excesso de franqueza, mas pela falta de tato e pela deselegância. Indignando a opinião pública — sobretudo, em ano eleitoral — conseguiriam, com maior eficácia, pressionar deputados e senadores, com vistas a aprovação da reforma da Previdência?

Tais predicados não tardariam a ficar evidentes no novo ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun. Sua declaração sobre liberações de verbas públicas para os estados, em troca da aprovação da reforma da previdência — ou, antes, da pressão de governadores sobre deputados — é um exemplo acabado da escassez de quadros; da derrota não apenas da ética, mas também da inteligência e da elegância. Políticos assim atentam contra a própria causa. Mesmo quando se trata de causa justa ou inevitável.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Fim de ano de especulações impossíveis
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Carlos Melo

Presidenciáveis das eleições de 2018: serão mesmo estes?

Final de ano e, por toda imprensa, são comuns as matérias especulativas sobre o próximo ano. Na escassez de assuntos mais quentes — é verdade —, ganha corpo essa aflição em relação ao futuro. Ainda mais neste momento, onde há essas múltiplas crises na economia, na política, na sociedade e sendo 2018 um decisivo ano eleitoral.

Difícil adivinhar o futuro: disse Manuel Castells que a história primeiro acontece e, depois, nós, cientistas sociais, tentamos entende-la. E, mesmo assim, nem sempre é possível explica-la. Melhor apelar à humildade e repetir o clichê: quem disser que compreende o que se passa mente ou não compreendeu nada.  A única regularidade do mundo moderno é a irregularidade; o normal é volátil.

Mas, o interesse especulativo gira em torno da eleição e de cada candidatura já colocada à presidência da República. Deveria ser fácil explicar, afinal, a menos de um ano da eleição, candidatos deveriam ser conhecidos; os programas — ou pelo menos as bandeiras —  deveriam ser de domínio público. Deveriam. Como disse, nada mais é tão simples.

Na verdade, nem mesmo o grid de largada da eleição está definido. A começar pelo primeiro colocado nas pesquisas. Ninguém á capaz de afirmar se Lula será candidato ou não. Nem mesmo, individualmente, cada um dos membros da Justiça, envolvidos com seu processo. A decisão não dependerá apenas TRF da 4a. Região; qualquer que seja a decisão nessa instância, despertará o jus sperniandi das partes: recursos, delongas, indefinição sem saber até onde e quando.

Eventualmente, sem Lula o quadro torna-se ainda mais imprevisível: quem seria o candidato do PT? Haddad, Wagner, Ciro? Lula transferiria o capital eleitoral pessoal — muito maior do que o PT — e com que grau de dramaticidade política o faria? Esta é apenas a primeira indefinição; há outras.

Já parece claro que Jair Bolsonaro deixou de ser o espantalho folclórico que já inspirou; sua candidatura é para ser levada a sério até porque o deputado não é mais um mero depositário de votos de protesto, como foi o caso do Dr. Enéas (Carneiro); o capitão, hoje, tem sim, seguidores tão fundamentalistas quanto os de Lula e do PT. Goste-se ou não, a decepção com a política e o elogio à força bruta criaram bases orgânicas, com raízes sociais.

É de se esperar que o pouco tempo de TV e a pequena estrutura partidária — além da possibilidade de virar vidraça — descapitalizem o patrimônio que Bolsonaro hoje parece deter. Todavia, se consolidar com algo em torno de 15% do eleitorado, numa eleição fragmentada — com possibilidade de grande abstenção —, torna-se, sim, competitivo, pelo menos para primeiro turno. Sua viabilidade será, em si, fator de instabilidade, capaz de gerar acordos e alianças informais hoje impensáveis.

E o que dizer do autoproclamado ''centro democrático'' — ou ''Centrão fisiológico''? Quantos candidatos terá?

Henrique Meirelles já se mobiliza sem freios, nem pudor; viabiliza sua candidatura para além dos bastidores. Por sua vez, Geraldo Alckmin demora a decolar e, agora, enrolou-se um tanto mais com a Lava Jato. Todavia, não há como o governador possa abrir mão, sair do páreo; sua candidatura, no PSDB e no seu cálculo pessoal, é fato consumado. O que fazer?

Há que se considerar também João Doria, ainda em prontidão, esperando meia brecha no paredão para que possa abrir-lhe um rombo e concretizar seu sonho presidenciável.

Aliás, há também de se perguntar que papel terá o governo Temer no concerto eleitoral. O marketing governista, é obvio, insiste em afirmar que o presidente e de seus aliados deixarão ''legado''. Há que se reconhecer que a equipe econômica labuta a cada dia para colocar a economia no eixo, mas por que esse suposto capital ficaria com Temer e não, exclusivamente, com Meirelles?

Por sinal, o conjunto do governo — economia E política — deixará virtuoso legado econômico ou legará inegável ônus político moral? Qual será, ao final, o saldo? Qualquer que seja o candidato, pouco provável que carregue apenas bônus. A realidade não é tão cor-de-rosa assim.

Considerados os principais nomes à esquerda, direita e centro, falta avaliar, no agregado, o papel que terão Marina Silva, Ciro Gomes, Álvaro Dias, João Amoedo, Ronaldo Caiado…. Num ambiente volátil e imprevisível, por autônomas em relação ao PT, PSDB e governo, essas candidaturas podem tomar corpo e desempenhar algum papel, no jogo eleitoral. Qual será?

E há, é claro, avenida aberta para o outsider. Muitos podem se apresentar, mas esse trem não é para qualquer um: precisa vir de fora do sistema, mesmo; ser amplamente conhecido, reconhecido por alguma virtude especial, comunicar bem; cercar-se de gente minimamente confiável. Se é que existem, há poucos assim. Se surgirá ou se vai se omitir, só o tempo dirá. O livre pensar já não é mais o simples pensar. Neste final de 2017, até mesmo o mero especular ficou difícil; quase impossível.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 


2018: A hora e a vez da política
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Carlos Melo

Divulgação/Agência Brasil

Publicado em O Estado de S. Paulo, 24.12.2017 (Impresso)

A suposta supremacia da economia sobre a política povoou o senso comum durante muito tempo. A frase de James Carville, assessor de Bill Clinton, ainda ressoa: “é a economia, estúpido” fez escola na percepção da prevalência dos tais fatores de bem-estar econômico sobre o rondó sem fim, que é a discussão política – seus interesses dispersos, idiossincrasias e princípios mais ou menos abstratos.

No Brasil, esse sentimento foi reforçado por interpretações um tanto mecânicas dos planos Cruzado e Real. O primeiro, em 1986, ajudou o PMDB a eleger 22 governadores dentre 23 possíveis; o segundo fez Fernando Henrique Cardoso presidente da República, eleito ainda no primeiro turno de 1994.

Igualmente, o boom de commodities – que reelegeu Lula, em 2006, e operou o prodígio de eleger Dilma Rousseff duas vezes (2010 e 2014) presidente do Brasil – alimenta esse raciocínio. Além da presente crise econômica que contribuiu, decisivamente, para o afastamento da ex-presidente e a derrocada do PT nas eleições municipais de 2016.

Ora, é evidente que o momento econômico influencia o contexto social e político em qualquer país; é claro que pode definir eleições. Mas, como tudo na vida, nada é tão simples assim. Fenômenos econômicos como os descritos acima foram, antes, dependentes da política; são frutos de boas ou más escolhas políticas, e não o contrário. Logo, não há autonomia da economia sobre a política; há, na verdade, correlação e dependência mútuas.

No desconhecimento disso reside o principal erro analítico de quem vislumbrou e ainda vislumbra um ano eleitoral de 2018 de sucesso para o governo de Michel Temer, em virtude dos resultados econômicos que, eventualmente, o País possa alcançar nos próximos meses.

Primeiro porque, ao contrário de outros momentos – 1986, 1994 e 2010 –, o sistema político atual passa por uma crise sem registro na história, com índices rastejantes de popularidade. É dispensável recordar, aqui, os transtornos revelados pela Operação Lava Jato e seus efeitos para a credibilidade dos políticos.

Em segundo lugar, para que a economia possa ser determinante na disputa das urnas do próximo ano, sua euforia deveria ser comparável ao clima despertado pelo Cruzado, Real e o boom de commodities. Todavia, por mais que o quadro venha a ser positivo, o clima será, ainda, de recuperação. Para o cidadão comum, as perdas com a prolongada recessão não estarão plenamente compensadas. Será importante, mas insuficiente.

Analistas de mercado têm se animado com resultados já alcançados pela equipe econômica do governo e, provavelmente, ainda alcançáveis no próximo ano. Com efeito, a inflação retroagiu – está mesmo abaixo da meta do Copom, os juros caíram ao menor patamar histórico, os preços dos ativos estão baixos e é grande o potencial das concessões e privatizações.

Porém, a continuidade do processo depende da sustentabilidade política. Reformas estruturais, nas mãos do Congresso Nacional, capazes de elevar a confiança dos agentes econômicos e o ânimo para investimentos que potencializem a economia, reduzindo gargalos e higienizando o ambiente de negócios.

O quadro é, porém, conhecido: sistema político anacrônico e disfuncional, elevadíssimas taxas morais e fiscais que debilitam a confiança de eleitores e investidores. Um corpo político fraco, com enorme dificuldade para dar luz ao novo, no campo econômico. E nem se trata de crítica moral ao natural fisiologismo de qualquer sistema, mas de alerta para o estágio de hiperfisiologismo, com crescente ineficácia nos processos de discussão, negociação e aprovação de projetos.

Impõe-se um dilema: como ajudar a economia a ajudar a política se a política não apenas não se ajuda como também compromete a economia? É evidente que abrir mão da política e da democracia não são alternativas.

Dizem a literatura e a experiência internacionais que o principal dado econômico, com capacidade de influenciar eleições, são os índices de emprego. Quanto menores, maior o receio do futuro e pior o humor do eleitor, maior sua tendência ao protesto e à mudança – ou à nostalgia do passado, idealizado como “bons tempos”. Neste quesito, o desempenho nacional é ainda insatisfatório: haverá tempo para reverter o processo com a celeridade necessária para interferir no clima eleitoral?

Políticas públicas como segurança, saúde e educação são fundamentais, sobretudo num quadro de desemprego elevado. Como estarão as finanças de Estados e municípios, responsáveis e provedores de políticas desse tipo? Embora relevante, neste 2018 que se aproxima, a economia dependerá mais da política do que o contrário. Na realidade dura e crua, a economia poderá fazer pouco pela política.

O fato é que o País perdeu o timing do choque de expectativas, após o impeachment. Mais recentemente, perdeu também o ritmo das reformas. No autoengano houve desídia do mercado, embaraço moral e oportunismo do sistema político, ilusão e desconhecimento daqueles que, mais uma vez, negligenciaram importantes detalhes políticos. Isto tudo retirou da economia todo ou parte do potencial eleitoral que teria.

Óbvio que candidatos do autodenominado “centro democrático” tocarão o bumbo da recuperação econômica. Naturalmente, o presidente e sua base já tremulam bandeiras de um suposto legado econômico – qual seria o “legado” político? –, mas isso pode ser menos relevante do que gostariam.

Candidatos de oposição enfatizarão problemas econômicos, lacunas e insatisfações, apontando também o agravamento de questões sociais. E, claro, aqueles que puderem cuspir para o alto destacarão as mazelas e a deterioração da credibilidade do sistema.

A pregação econômica, metódica e racional, do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ou do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fala à razão de iniciados em relatórios e projeções econômicas, alegra convertidos. Mas, enquanto isso tudo não for percebido concretamente no cotidiano das pessoas comuns, o efeito eleitoral será pequeno. No Brasil, tudo é duvidoso, mas o mais provável é que 2018 seja o ano da política.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper

http://Publicado em O Estado de S. Paulo, 24.12.2017 (Impresso)

 


Vinte anos de atraso
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Carlos Melo

O candidato à Presidência da República Paulo Maluf discursa antes de votação do Colégio Eleitoral no Congresso Nacional, em Brasília, em 15 de janeiro de 1985

Decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, determinou encarcerar o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP). Como disse meu colega e amigo Marco Aurélio Nogueira, com a perspicácia que lhe é peculiar, ''a decisão vem com 20 anos de atraso''. Com efeito, vinte ou trinta anos depois, a medida não surpreende mais; ''o dia chegou'' e nem por isso alegra; sequer entristece. Não houve festa, rojões, como se imaginou aconteceria quando o dia chegasse.

Notícia é apenas lacônica. Como lhe é usual, Marco Aurélio acertou na mosca: são vinte anos de atraso. Nem riso, nem lágrima. Apenas o atraso.

Hoje, Paulo Maluf é apenas uma espécie de decano de um seleto grupo que o sucedeu, ocupando seu espaço e seu mister. Não chega a ser um pioneiro, a atividade é antiga; remonta séculos no país. Ainda assim, faz lembrar um tempo em que toda a suspeita de malversação de recursos públicos se encerrava num único símbolo: Paulo Maluf; em um só termo: ''malufar''.

As novas gerações certamente desconhecem e talvez nem deem importância para isto, mas na década de 1980, Paulo Maluf fez-se verbo. Qualquer dicionário informal na Internet — que naquele tempo nem existia — hoje é capaz de traduzir seu significado. Também na rede está a biografia do verbalizado senhor; desnecessário gastar bits com isso.

O fato que mais chama atenção, no entanto, não é a prisão. O país, de um jeito ou de outro, se modernizou e pessoas como Paulo Maluf, hoje, já podem ser presas. Isto não era cogitável há vinte ou trinta anos. Era uma quadra da história do Brasil em que apenas se sonhava que isto pudesse, um dia, acontecer. Neste aspecto, é de se reconhecer: houve avanço.

Na sociedade atual, mais moderna e complexa, a multiplicidade dos meios de comunicação não mais permite a censura, tudo se revela e figuras como Maluf não passam em brancas nuvens; o Ministério Público se consolidou, o Judiciário remoçou. Nada, hoje, é absolutamente controlável; acordões são muito mais difíceis de serem fechados — ainda que não seja impossível (o tempo dirá). Esta é a parte meio cheia do copo.

A parte meio vazia, no entanto, é que, ao longo do tempo, Paulo Maluf tornou-se apenas ''mais um''. Não ''mais um'', no sentido de qualquer tipo de universalismo de procedimentos — a lei aplicada de igual modo para todos —, mas apenas ''um entre tantos'' políticos que enveredaram pelos mesmos caminhos, frequentam as páginas policiais e as fazem confundir com a editoria de Política.

Infelizmente, Malufs, hoje, existem às mancheias, nos mais diversos partidos; nos mais variados poderes. Um, entre tantos. Existiam no passado? Evidente que sim. Mas, no passado, podiam ser sintetizados numa só figura. Hoje, isto não é possível.  São tantos!

Há exceções, é claro, e, provavelmente, nem sejam tão raros assim os que se diferenciam na escuridão. Todavia, de algum modo, grande parte do sistema político passou e se confundir com o malufismo de antanho. De tal forma que a prisão do velho Maluf  já não causa suspiros.

No mesmo dia em que o PMDB decidiu mudar de nome e voltar a chamar-se ''MDB'', a prisão de Paulo Maluf é, finalmente, decretada pelo Supremo. Na mesma semana, uma série de casos vinculados a corrupção foram arquivados; condenados postos em liberdade. Ironias da sorte e da história: num par de dias, tudo isso se seguindo.

Paulo Maluf e o MDB, por muito tempo, simbolizaram opostos. Um, a vidraça; o outro, a pedra. Um, o vício; o outro, a promessa de virtude. Maluf, a maior expressão civil do regime militar; o MDB, aglutinador da maior parte da oposição cívica; portador formal da tênue esperança de um novo tempo, que parece ter chegado apenas em parte — ainda que já seja alguma coisa.

Tanto tempo passado, boto-me a pensar na reação de Ulysses Guimarães, num dia como este: estivesse vivo, vibraria com a prisão de Maluf ou lamentaria por aquilo que seu MDB passou a simbolizar? Diria que esse MDB, atual, é o seu? O partido hoje é síntese do sistema político que assimilou e ultrapassou Maluf. O que sentiriam e o que diriam Ulysses, Paulo Brossard, Thales Ramalho, Marcos Freire, Franco Montoro, Mário Covas, Tancredo Neves?

Sentimentos contraditórios emergem nessa hora: ok, antes tarde do que mais tarde; mas, vinte anos de atraso, talvez, seja tarde demais.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.