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O impeachment de Barroso

Carlos Melo

13/03/2018 23h56

Carlos Marun dançando no Congresso. Reprodução do Youtube.

Quando é o caso de soltar a língua, Carlos Marun é o gatilho mais rápido que há no deserto do governo Temer. Volta e meia, ganha holofotes não por elaborações políticas, conquistas no Congresso ou por uma visão de futuro, mas em virtude da contundência destemperada e de exageros recorrentes a que é dado. Tapeado pelo poder e habilidade que não possui, torna-se especialista em bravatas, desconhecendo que o ridículo é um lugar sem volta.

De fato, nestes tempos em que a natureza parece estéril, Marun é uma força da natureza política nacional. Em primeiro mandato, tornou-se ministro responsável pela articulação, talvez pelo estilo pouco polido e pela desfaçatez sarcástica que expressava na Câmara e diante das câmeras de TV. É a cara da base de Michel Temer, o perfil acabado do Centrão. Trombador, pau-de-toda-obra, espicaça adversários esquecendo-se da elegância e da permanente necessidade de diálogo.

Foram tantas as suas… Flagrado no Plenário cantando e dançando em comemoração à votação que salvou o presidente na denúncia por formação de quadrilha, levou uma espinafrada homérica, do autor da canção, Benito di Paula. Depois, declarações de que bancos públicos liberariam recursos em favor da reforma da Previdência, revoltaram governadores e funcionários públicos.

Mais tarde, afirmou que o diretor-geral da PF "tem o dever de observar inquéritos de grande repercussão", o que indicava a manobra para arquivar os processos contra Michel Temer. E, agora, ameaça retomar seu mandato no Congresso especialmente para pedir o impeachment de Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Como se sabe Barroso mandou quebrar o sigilo bancário do presidente da República, assim como anulou os efeitos mais escandalosos do indulto presidencial que livraria a cara de corruptos pegos pela Operação Lava Jato. O magistrado tem-se notabilizado como pedra no sapato de Michel Temer, dos suspeitos protegidos pelo foro privilegiado e dos corruptos em geral, tornando-se um obstáculo na direção do forno onde o governo pretendia assar a grande pizza política nacional. É arrimo da resistência.

Mais que indecoroso, ameaçar ao ministro com o impeachment é irresponsabilidade própria de quem é dado a bravatas. Possivelmente, revela um sentimento e um desejo que não é só seu. Mas, demonstra também desconhecer os aspectos mais básicos de qualquer disputa de poder — indispensável a políticos em geral —, que é saber da própria força e da força do inimigo.

Ignorando a opinião pública a respeito do presidente da República e de boa parte de seus ministros, apresenta-se como um tipo de "Napoleão de Hospício",  de estatura avantajada.

Como a maior parte do governo, Carlos Marun parece sofrer a síndrome de gabinete, aquela ensimesma o sujeito, o afasta da realidade e compromete seu discernimento. Por osmose, engana-se cercado que está por seus iguais. Tem má avaliação da realidade, "como o sujeito que vai à Rua Javari e passa a acreditar que a torcida do Juventus é maior que a do Flamengo" — fica o crédito da frase a Renato Meirelles. É natural do poder encastelado e distante das ruas; natural de governantes cercados de aduladores. Natural dos últimos governos.

Enquanto a reforma da Previdência passa ao largo do Congresso, objetivo e razão para que o deputado fosse deslocado ao Executivo, Marun passa para o folclore político nacional. Desvela-se neste novo Febeapá — festival de besteiras que [torna a] assola[r] o país. Ficará marcado na história. É para poucos.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.