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Carlos Melo

12/03/2018 11h21

Felipão mostra irritação durante a derrota brasileira para a Alemanha no Mineirão, por 7 a 1. Imagem: AFP PHOTO / ODD ANDERSEN

Existe o poder em sua capacidade de realização; o sentimento fugaz de plenipotência, mesmo assim, de algum modo, a tomada de decisão e a capacidade de influir nas vidas das pessoas, a possibilidade de fazer algo de relevante. Mas, existe também o entorno do poder. Indivíduos à sua disposição e às ordens do chefe; gente disposta em seu auxílio, colaborando para que a sensação de poder se fortaleça, tornando-a menos efêmera.

Nesse grupo, estão os cortesãos, áulicos, palacianos. O maior perigo do poder. No presidencialismo, atendem também pela alcunha de "colaboradores mais próximos do presidente". Cercam-no para tudo o que precise, reforçam sua estima, como se dissessem: "és forte, generoso e sábio — além de belo, é claro". Inadvertidamente, causam um estrago extraordinário para o país e para o próprio chefe.

Como se sabe — é quase um clichê — na Roma antiga, por precaução, os césares que retornavam triunfantes das guerras vinham ladeados por um escravo cuja tarefa era lhes sussurrar "memento mori". Algo mais ou menos como: "lembra-te, babaca, de que és mortal". Era um cuidado fundamental para que o salto não crescesse para além do razoável; continha-se não o poder, mas a falsa impressão do poder.

Nada mais distante do Brasil dos últimos tempos. Dilma Rousseff teve, por exemplo, uma penca de cortesãos cuja tarefa era reforçar sua autoconfiança arrogante, característica dos muito inseguros. Os planos da "presidenta", como a chamavam, eram sempre espertos, corretos, infalíveis. Como se dissessem que era invulnerável. Até o último momento, não se acreditou no impeachment. Deu no que deu. No frigir dos ovos, nem 171 votos tinha, na Câmara.

Nos ouvidos de Michel Temer moram auxiliares que lhe adulam, dizendo-lhe que pode vir a ser presidente eleito, o sucessor de si mesmo. Seus olhos brilham a imaginar que as reformas seriam aprovadas, que a economia decolaria aplacando os ventos ruinosos da Lava Jato. Que a intervenção na Segurança Pública seria golpe de mestre; que relevante, à parte da imagem de corrupção que seu governo carrega.

Isolado do país e rodeado por gente assim, Temer acreditou. E, talvez, ainda acredite nos aduladores à sua volta.

Também o PT jamais acreditou que o ex-presidente Lula pudesse ser condenado por Sérgio Moro. Resolveu enfrenta-lo de modo pueril, despertando o instinto de autodefesa das corporações. Depois, duvidou que a sentença de Moro pudesse ser confirmada pelos desembargadores de Porto Alegre. Crer que Lula não será preso apenas pelos símbolos que carrega. E, mais, que será candidato e, assim, eleito. Não há Plano B.

Igualmente os tucanos cometeram erros vitais de avaliação: confiou-se na sabedoria, de resto jamais confirmada, de Aécio Neves, desprezando a hipótese que o abrigo ao senador pudesse comprometer toda a legenda. Para preservar o membro, cortou-se o próprio pescoço. Depois, foi a aposta em Michel Temer e em seu governo. Desconsideraram custos morais com que arcariam sob o sofisma de que o que se fazia era adotar a weberiana "ética da responsabilidade". Justificativa sociológica para escolhas temerárias. Não poderia dar certo.

Este é o pior do poder ou de sua busca: o isolamento, a cegueira, a irrealista insistência em pintar o mundo como lhe convém. Wishful tinking — a capacidade de crer que os fatos se darão do modo que se deseja. Que infortúnios não acontecerão simplesmente porque eles não podem acontecer. É tão primário quanto comum isto.

Rodeados por aduladores desse tipo, Michel Temer se depara com a realidade e com o pulso forte do ministro Luís Roberto Barroso; Lula se encontra com a resistência da presidente do Supremo, ministra Carmem Lúcia; o PSDB patina na vontade do eleitor, esperando que a viabilidade de Geraldo Alckmin se estabeleça como magia, não por suas qualidades, mas pelos defeitos e fragilidades dos adversários.

As principais forças políticas do país estão desprovidas da capacidade de olhar o entorno e compreender a realidade. Gente com clareza e coragem para admitir limites e, contrariar a ilusão dos chefes. Chamam a esses de estrategistas: "estrategistas do Planalto", "estrategistas do PT", "estrategistas tucanos ". Pois bem, se o objetivo é visitar o fundo do poço, é preciso admitir que esses estrategistas são muito bem-sucedidos.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Sobre o Autor

Carlos Melo é paulistano, filho de açorianos e nasceu em 1965. Cientista político, com graduação, mestrado e doutorado na PUC-SP. Professor de tempo integral do Insper desde 1999; colecionou experiências, conquistou prêmios de ensino. Analista político, com colaboração em vários meios de comunicação; palestrante e consultor. Autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

Sobre o Blog

Juízos de valor não importam, o leitor que construa os seus. O que se busca é a compreensão, sem certezas, nem verdades; antes, a reflexão. É o canto de um homem sem medo de exalar dúvidas. "Nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento", diz Spinoza; "eu quase de nada sei, mas desconfio de muita coisa", arremata Guimarães Rosa.