Blog do Carlos Melo

Doria queimou a largada?

Carlos Melo

Foto: Lucas Lima/UOL

Se não o maior, Usain Bolt foi dos maiores corredores de todos os tempos. Em que pese a mise-en-scène com que aparecia, além da velocidade impressionava a consciência dos limites: a ansiedade o habitava, mas o jamaicano a controlava para não queimar largadas. Iniciava as corridas cautelosamente; ganhava a pista e a dianteira nos metros finais. Foi um fenômeno de rapidez e força, mas também de humildade estratégica. O ''raio humano'' sabia que não era Deus.

Já a inesperada vitória de 2016 teve efeito contrário em João Doria: o prefeito construiu a fantasia da onipotência — e até onipresença — em torno de si mesmo. Acreditando ser especial, caiu no conto do mercado que o comprou como correspondente nacional de Emmanuel Macron. Ignorando limites, colocou-se soberbo no grid da corrida eleitoral de 2018; sem avaliar fragilidades, pulou etapas. É possível que tenha queimado a largada.

Esta é a pergunta que deve ser feita quando se vislumbra os dados da pesquisa sobre seu desempenho na prefeitura paulistana, divulgados pelo Datafolha no último domingo.

O prefeito gosta ou prefere dizer que foi eleito com 53% dos votos, em primeiro turno. É meia-verdade: de fato foi uma proeza, mas o percentual que divulga é apenas o de votos válidos. Ao considerar a abstenção recorde naquela eleição, votos brancos e votos nulos, se concluirá que o prefeito obteve tão somente 34,71% do total de eleitores na cidade (3.085.187 votos em 8.886.195 registrados). Esfera petista à parte, estava longe de ser maioria absoluta.

A má notícia para ele é que, agora, o percentual 32% dos entrevistados que avaliam sua gestão com ''Ótimo/Bom'' é inferior ao percentual dos que nele votaram, há um ano. Claro que há, entre os que consideram sua gestão ''regular'' (40%), quem possa apoiá-lo numa empreitada nacional. Mas o fato é que, em termos de confiança absoluta — votaram e hoje mantém o crédito —, o prefeito, mesmo após tanta propaganda, se descapitalizou. Perdeu pontos em sua própria terra, lugar em deveria confirmar a excepcionalidade que proclama.

Além disso, demonstram os dados que há múltiplos hiatos de expectativas: entre os que entendem que deva fazer algo (ficar na prefeitura ou concorrer a presidente — 58% e 10% respectivamente) e os que creem que realmente o fará (25% e 37%). Entre os que possuíam esperanças elevadas sobre seu desempenho e a percepção que hoje registram: para 64%, fez pela cidade ''menos do que esperavam'' — quando o assunto é o bairro em que moram, o percentual chega 75%.

Do ponto de vista do sentimento dos entrevistados, Doria pode ser muita coisa, menos um caso de sucesso de gestão e credibilidade a ser contado ao país.

Longe de um instrumento do lulopetismo, o jornal O Estado de S. Paulo corrobora com esses dados. Em editorial, externou severas críticas à administração do tucano. Em ''Cidade linda só no nome'', o Estadão afirma que ''…Nada mais foi, como se constata passado mais de um semestre de seu mandato, do que uma hábil jogada de marketing''. Adiantando que ''essas jogadas (…) quando não são seguidas de ações concretas, destinadas a tornar realidade o que prometem, só produzem frustrações''. Para o jornal ''a população pode se impressionar num primeiro momento, mas não demora para distinguir muito bem ação efetiva de fogo de artifício.'' A percepção da realidade destoa, portanto, das dezenas de vídeos postados pelo prefeito em sua rede social.

João Doria se apresentou como gestor — o que há um ano era música para 34% do eleitorado — e assim está sendo avaliado: objetivamente, a partir das expectativas que criou. Culpar a administração anterior seria tangente possível quando não se afirmou fazer mais e melhor com os mesmos recursos ou até menos. No mais, soa irônico fazer lembrar o termo ''herança maldita'', usado, no passado, por seus desafetos.

Dilma Rousseff ensinou ao país que no Brasil as vacas tossem. A mais de um ano da eleição, tudo pode acontecer. O ambiente é imprevisível e qualquer afirmação apressada pode ser desmoralizada mais adiante. Entender João Doria como o Macron nacional foi precipitação; coisa de torcedor. Tampouco, se pode afirmar que esteja acabado. O fato, porém, é que faltou alguém que lhe dissesse ao pé de ouvido: '''és mortal', prefeito''. Sabe-se lá se o Datafolha terá esse efeito.

Em política, comedimento e cautela não são apenas traços de personalidade; são também virtudes: a precipitação é um erro primário; escolher amigos e inimigos, uma arte. Evitar múltiplas e simultâneas frentes de conflito, um imperativo. Por estratégia, crer na fragilidade humana, desconfiar da onisciência dos deuses seria o mais inteligente. Não queimar a largada; ser tranquilo e invencível como Usain Bolt.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.