Blog do Carlos Melo

Pesquisas: o PSDB e o ônus do governismo

Carlos Melo

Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República

Daquela noite de quarta-feira, 02 de agosto de 2017, ainda ecoam vozes: ''voto a favor do relatório do PSDB'', enfatizavam dezenas de parlamentares de variadas legendas. Era a sessão em que a Câmara dos Deputados rejeitaria a denúncia do Ministério Público Federal contra o presidente da República. Michel Temer se livraria de responder processo no Supremo Tribunal Federal, o que ia de encontro com a opinião pública.

As declarações eram injustas, o relatório não era ''do PSDB''. O parecer de Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) dividiu a bancada: 21 tucanos votaram contra; 22, a favor. Mas, os governistas buscavam comprometer a legenda com o resultado da sessão, como amarrá-la ao destino do governo. Não por acaso, hoje, repugna ao PSDB a ideia de outro de seus deputados relatar processo sobre Temer. Relutam em se contaminar com o governo tóxico.

Pesquisas apontam que apenas 5% dos entrevistados aprovam o Governo Temer, enquanto 73% o rejeitam peremptoriamente. Ao mesmo tempo, os pré-candidatos do PSDB, Geraldo Alckmin e João Doria, estacionaram em patamares bastante tímidos para suas pretensões eleitorais no ano que vem (8%), mesmo após toda a exposição à mídia que tiveram. Indiferenciado de toda base governista, ao que parece o partido deixou de ser alternativa.

Em que pese os primeiros sinais de recuperação econômica, é muito provável que esses números se devam à imagem de um governo atrelado à corrupção, assim como com o flagelo de um PSDB comprometido com esse governo. Além disso, no ambiente de crise fiscal, há a natural deterioração de políticas públicas – Segurança, Saúde e Educação –que, mais dia menos dia, afeta o cotidiano dos cidadãos que, no limite, responsabilizarão o Governo Federal.

Desnecessário recordar áudios e encontros mal explicados que tomaram os telejornais de todo o país, durante semanas. Assim como é demasiado repetitivo retomar cenas de violência nas favelas e periferias do país ou a barbárie nos postos de saúde. Tudo isso, somado, desagua no “governo” de maior visibilidade, o Federal. E, por decorrência, nos partidos mais vistosos de sua base.

Há também as imagens a de malas repletas de dinheiro país a fora, atribuídas a aliados do presidente. Em sintonia com isso, a situação do senador Aécio Neves, formalmente, ainda o presidente do partido, que, assim como Temer, acabou identificado com essas malas de difícil explicação e com conexões com a banda podre do empresariado nacional. O resultado é óbvio.

À parte da questão econômica, é o Governo Temer quem ocupa hoje o centro da irritação política dos brasileiros com seus representantes. Sem aliviar para o PT, setores médios e urbanos, que foram às ruas pelo impeachment, desiludiram-se com peças de reposição também comprometidas e pouco originais. Do ponto de vista ético e operacional, não se trata de um governo capaz de inspirar a confiança. Assim, sem colher qualquer bônus, o PSDB carrega o ônus sua aliança com o Centrão, sendo ele, por natureza, diferente do PMDB, pelo menos do ponto de vista de sua alega pureza política.

Na crítica que sua base social — urbana e de classe média — faz ao governo Temer e às condições gerais do sistema político nacional, os tucanos perdem seu eleitor tradicional, sem conquistar novos. Perdem também importantes quadros intelectuais, antes identificados com o partido. Nesta condição, pelo menos por enquanto, perdem o charme e a grife — o que reflete nas pesquisas.

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Apoiado por uma onda de entusiasmo do mercado financeiro, o prefeito de São Paulo, João Doria, foi quem mais alto apostou no apoio a Michel Temer. Mas, ao contrário do que imaginava, isto não lhe trouxe ganhos para além dos muros de sua tribo. Mais experiente, Geraldo Alckmin foi cuidadoso: mesmo criticado quando a quase totalidade da bancada paulista votou pela rejeição do parecer de seu deputado-relator, o governador manteve distância profilática do presidente.

Melhor que seu adversário interno, poderia, agora, expressar o afastamento em relação a Michel Temer, no início desse ano eleitoral.

A propósito, há poucos dias, num aeroporto do Brasil, encontrei um experiente senador — desses que restam poucos, sagazes e antenados com o clima político; não é do PSDB. Dizia-me acreditar que o melhor para Alckmin seria ''sair do PSDB, levar sua base para o PSB, expressar ruptura com o governo federal e com o sistema político; entrando em conexão com o Nordeste e o sentimento de mudança''. Nota: tampouco é senador do PSB.

Estranho pensar Geraldo Alckmin fora do PSDB; parece pouco provável, mas nem por isso desprovido de sentido. É um caminho perigoso. Mas, também ousado e criativo: sem novidades do front da Lava Jato em relação a Alckmin, pode-se dizer que o partido está mais desgastado que o governador. A divagação — ou, sabe-se lá, articulação — daquele senador, expõe o espaço que há para especulações, surpresas e abalos no cenário eleitoral. A guerra é a mãe das invenções; a crise cria suas alternativas. Fica o registro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.