Blog do Carlos Melo

Em torno do “voto útil”

Carlos Melo

Foto: Kelly Fuzaro/Band

Só mesmo “espíritos de porco” avalizaram o atentado contra Jair Bolsonaro, de todo deplorável. Contudo, ao contrário do que seus partidários esperavam, nem por isso o episódio transformou-se numa comoção nacional capaz de impulsionar a candidatura do deputado para além de seus apoiadores anteriormente detectados. Datafolha e Ibope demostraram que, de fato, “solidariedade pessoal não pode ser confundida com adesão eleitoral” (leia aqui).

Tome-se, arbitrariamente, os números do Datafolha: 74% dos potenciais eleitores de Bolsonaro declaram-se “totalmente decididos” a votar no ex-capitão; número coerente com os 20% anotados pela pesquisa espontânea — contra 24%, na estimulada. Bolsonaro, portanto, estaria em vias de consolidar sua força, próxima a ¼ do eleitorado, o que deve lhe colocar no segundo turno.

Essa consolidação de Bolsonaro é péssima notícia para Geraldo Alckmin, a quem caberia tomar-lhe votos, uma vez que o tucano nem unifica o centro e menos ainda pode colher apoios à esquerda e à centro-esquerda, dado seu perfil e às escolhas que fizeram nos últimos anos, ele e seu partido, o PSDB. Segue estacionado em torno dos 10% das intenções de voto.

A mesma pesquisa indica que Marina Silva “despencou”, perdendo 5 pontos percentuais entre 21 de agosto e 10 de setembro. A pesquisa freia a animação de sua turma. Mas, há explicação: entre os principais candidatos, Marina tem o menor grau de consolidação do voto: 71% afirmam que ainda podemmudar. Isto indica, neste momento, um voto volátil. Tanto pode ficar, como pode ir, como pode voltar. Marina está num limbo e pode ou não se desfazer.

Pesquisa é sempre fotografia e, neste momento, o mais interessante rali parece se dar à esquerda, entre Ciro Gomes e Fernando Haddad, oficializado candidato do PT.

Em artigo anterior, afirmei que, “se errar é humano”, Ciro Gomes é “demasiadamente humano” (aqui). Mais recentemente, no entanto, reconheci que, com menos responsabilidade, parecia mais leve, “capaz de rir de si mesmo” — impressão que a “dancinha” em que foi flagrado após o debate da TV Gazeta/Estadão parece confirmar. E isto parece que lhe fez bem.

Em se tratando do personagem, talvez seja precipitado afirmar, mas é fato que, após tortuoso período, Ciro parou de errar. Entre as duas pesquisas, cresceu 3 pontos. Aproveitando-se do vacilo do PT — dividido entre a luta vã de insistir com Lula e se decidir por Fernando Haddad — e ocupou espaço à esquerda. Soma agora 13%, tomando o segundo lugar de Marina e disposto a seguir em frente.

Acontece que com a entrada oficial de Haddad no jogo, é possível que, de algum modo, a campanha tenha tornado a começar. Dado o prestígio e a vitimização do ex-presidente Lula, além da preferência declarada de 24% pelo PT, não é de modo algum um disparate crer  que o ex-prefeito possa avançar e chegar ao segundo turno com números próximos aos de Jair Bolsonaro. Dependerá, é claro, do menor sucesso de Ciro, que evidentemente, disputará voto por voto com o PT, sobretudo no Nordeste.

Neste momento, são os dois com maior probabilidade de encarar o candidato do PSL, indo um ou outro ao segundo turno. E que, uma vez ali, se associem para derrotar o ex-capitão, mal maior para o campo que representam.

O cenário arrepia agentes de mercado e eleitores moderados, refratários ao que entendem por radicalismo e voluntarismo econômico. Com o temor e a ansiedade, pedirão algum tipo de providência. E não será de estranhar se já na próxima semana se especule um movimento de voto estratégico, o “voto útil do centro”.

A questão seria definir quem se beneficiaria com isso. A resposta mais óbvia e apressada indicaria Geraldo Alckmin. Todavia, com olhos de hoje, parece pouco provável que o tucano, na reta de chegada, engate a sexta marcha de um motor turbo e atropele Haddad, Marina e Ciro, chegando próximo a Bolsonaro, na casa do 20%, ficando pelo menos em segundo lugar.

Para isto, o desafio seria mitológico: na impossibilidade de pescar votos de Bolsonaro, capturar todosos votos de Álvaro Dias (3%), João Amoêdo (3%), Henrique Meirelles (3%) e ainda arrancar uma boa parte de Marina Silva.

Desafio ainda maior seria realizar essa façanha carregando o ônus da identificação com Michel Temer e com o “Centrão”, além do rombo político causado por Aécio Neves e, agora, de Beto Richa. Nos debates e sabatinas, Alckmin gasta mais da metade do tempo respondendo a restrições de natureza ética, tergiversando a respeito do apoio de implicados com a Lava Jato, o que despontencializa seu discurso contra o PT.

Por fim, candidato e propaganda não caíram nas graças do eleitorado, despertando desconfiança; na melhor das hipóteses, indiferença.

Parece mais razoável fazer apostas em roleta de cassino clandestino, cujo jogo parece mais limpo, racional e inteligível que a política brasileira, onde tudo pode acontecer, do que afirmar o final dessa disputa. Ainda assim, convenhamos, mesmo que o surrealismo político brasileiro justifique qualquer fantasia, o espaço para a superação de Geraldo Alckmin parece bem reduzido.

Mais uma vez, quem poderia se beneficiar pelo voto útil do Centro? Marina Silva, com toda fragilidade e o refluxo na última pesquisa, ainda parece mais apta a se favorecer desse processo. A ex-senadora não arrasta correntes — Temer, Centrão e Aécios —  como Alckmin. Transita do pentecostalismo  ao ambientalismo de centro-esquerda.

Igualmente passaria pela chancela de agentes econômicos já sem esperanças com Geraldo Alckmin. Afinal, qual diferença de fundo haveria entre Pérsio Arida, assessor econômico tucano, e André Lara Resende, conselheiro econômico de Marina? Não foi, portanto, por descuido que, na tarde de terça-feira, Marina afirmou que Lula é corrupto, assim como seu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff. Como último recurso, mira esse voto útil do centro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.