Blog do Carlos Melo

O Debate da Band: luta por posições

Carlos Melo

''Working for Position'', Steve Huston, 2009.

O debate da TV Bandeirantes é um tradicional aquecimento muscular. Os candidatos, alguns pouco experientes outros enferrujados passados 4 anos da última eleição, começam a ganhar ritmo. Lutam por posições dentro de seus respectivos campos políticos. Justamente por isso, estudam-se mutuamente, temendo levar o soco no queixo que lhes faça beijar a lona já no primeiro round. É um momento de cuidado, embora sempre apareçam iniciantes poucos expressivos e ousados,  candidatos a compor o folclore político nacional. Sendo assim, a falta de objetividade e a superficialidade são naturais.

Nesta eleição, no entanto, não há como omitir seu traço específico: o líder das pesquisas esteve ausente, não por estratégia, como houve casos no passado, mas por estar impedido, preso em Curitiba. Há essa falta. Mas, admitam ou não os petistas, Lula acabou por passar ao largo, sendo pouco lembrado. À indiferença dos demais concorrentes, é possível que para público em geral, a ausência tenha soado como página virada; menos que lacuna, uma inevitabilidade. A estratégia de insistir com o nome do ex-presidente até o último segundo implica em riscos desse tipo.

Embora não seja candidato, o ''Senhor Jesus'' foi o ser mais citado no debate, talvez de modo inédito na história desses embates de TV, no Brasil. Na disputa de um Estado secular, o apelo ao divino é sinal de rebaixamento do debate político laico e republicano. Soou demagogia, de olho num eleitor evangélico e pré-político. Com todo respeito à Fé e às crenças de todas as denominações, o fato é que Deus não governará o país, não negociará com o Centrão, nem buscará, na finitude do Homem, as saídas do labirinto nosso de cada dia .

Já no campo dos seres falíveis, o debate pouco inovou. Num tom professoral — ou, antes, de médico de família —, Geraldo Alckmin receitou os remédios conhecidos de sempre. O tucano rejeita vinculação a Michel Temer, mas, certo ou errado, é fato que assume sua agenda e, em virtude disto, a identificação é automática. Pode ser inevitável, mas o receituário fiscal vem embalado sem qualquer inovação, sem o menor charme. É a mesma e velha terapia manjada dos tempos da vovó. Geraldo Alckmin parece ser o candidato de ontem, não do amanhã.

É certo que busca o eleitor moderado e racional, acreditando que ainda seja esta a maioria capaz de definir a eleição. O Brasil e o mundo, no entanto, mudaram sobremaneira nos últimos anos: mais emocionais e vulneráveis, são menos suscetíveis que no passado a argumentos técnicos que já não lhes cabem na alma. Geraldo é tão racional quanto um contador, mas os tempos requerem o auxílio de um psiquiatra. Se a eleição se restringisse ao mercado, estaria eleito. Na sociedade real, precisará reinventar-se.

Ainda assim, com Centrão, recursos financeiros e tempo de televisão, o tucano tornou-se o alvo a ser batido; seus adversários não perderam oportunidade para desgasta-lo.  E, em pelo menos um aspecto, o ex-governador foi contraditório: justifica alianças pela necessidade de “governar com os partidos”, para ele o instrumentos de ascensão e ação políticas. Ok. Todavia, questionado sobre a idoneidade dos aliados, desqualifica críticas asseverando que os todos partidos são iguais, afirmando que, para o brasileiro, “não são importantes”.

Já Henrique Meirelles negou os pratos em que comeu, evocando para si somente as boas realizações dos governos dos quais fez parte. Quis arriscar sorrisos e manifestações de elegância e simpatia, mas a empatia com o eleitor parece estar além de suas forças. Deveras burocrático, talvez ignore o poder de articulação do presidente da República e de seus representantes no Congresso Nacional quando chama para si os méritos do governo. Técnicos como Meirelles são importantes, mas nunca bastaram.

Ciro Gomes, contido até onde conseguiu, mirou Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, evitando o PT, neste momento. Numa noite de forçada educação, controlou-se para não se deixar levar pela ironia, ainda que não tenha resistido à verve ao desvencilhar-se da precariedade do inexpressivo Cabo Daciolo.

Marina Silva buscou o posicionamento de reserva moral e política da nação; trata-se do purismo habitual, sem explicar exatamente como se comportará uma vez nos mares turbulentos do governo. Com poucos recursos eleitorais, está à espreita de vacilos de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes para tomar-lhes do centro e a centro-esquerda. Seu ar de superioridade, contudo, não raro revela postura demasiado distante.

Debutante, Guilherme Boulos quer imaginar-se amanhã o Lula de ontem. É articulado em seu campo, fala bem, e é tão ousado quanto pouco preocupado com a governabilidade a partir do que propõe. A pouca viabilidade lhe dá liberdade e ousadia descomprometidas. Irônico que também ele tenha negado Dilma Rousseff.

Inicialmente assustado, Álvaro Dias soltou-se de modo mais lento e inseguro do que faria supor um político tarimbado já iniciado nas disputas majoritárias ao governo estadual e ao Senado. Teve relances de luz, mas na maioria do tempo, viveu momentos aquém da expectativa de quem pretende ser a pedra nos sapatos de Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Jair Bolsonaro. A recorrente referência a Sérgio Moro lhe dá, ao final, um ar de dependência de um ser externo; parece negar ser senhor de si próprio. Se quiser avançar, terá que rever a estratégia.

A maior surpresa da noite, no entanto, ficou a cargo de um Jair Bolsonaro tão contido quanto um leão sedado. Desviou-se das cascas de banana que lhe foram lançadas, estava treinado a responder o básico do governo sem buscar canhestramente o auxílio de Paulo Guedes, seu guru econômico. Com o eleitor revoltado garantido, foi nítido seu esforço por maior abrangência eleitoral. Ainda que tenha tropeçado aqui e acolá ao reclamar “direitos de resposta”, ficou evidente que busca suavizar em tons pastéis a imagem de fúria que o domina e o expressa. Tudo indica que passou a crer na possibilidade de ganhar a eleição.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.