Blog do Carlos Melo

Geraldo e Marina: as duas hastes do compasso

Carlos Melo

Estar no centro só é vantagem se for possível expandi-lo.

O temor  ou desespero de políticos e intelectuais imprecisamente classificados como de “Centro” tem provocado agitação nos bastidores da eleição presidencial. Pesa sobre o grupo o receio de que restem apenas opções radicais e polarizadas para o segundo turno da disputa. Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, por exemplo. Isto se tudo não acabar no primeiro turno, dado o fantasma com abstenções, brancos e nulos. É difícil, mas como se sabe, no Brasil destes tempos tudo parece possível.

O elemento propulsor dessa ansiedade reside nas dificuldades percebidas em torno da candidatura de Geraldo Alckmin, candidato compreendido como de “Centro”, por excelência. Por seu perfil moderado e pela ortodoxia econômica que o cerca, o ex-governador seria o bastião do ajuste fiscal e de uma idealizada reforma do Estado, mas seu nome não apenas não decola nas pesquisas como não também transmite confiança e firmeza para políticos e agentes de mercado.

Em tese, é cedo para dar suas chances como perdidas; precipitação, dada a distância daqui até a eleição e os recursos com que Alckmin poderá contar. Mas, é verdade que, em que pese a sucessão de fatos que lhe beneficiariam —  a inviabilização de Luciano Huck, a prisão de Lula e o recuo de Joaquim Barbosa —, Alckmin patina nas pesquisas, sem aderência no eleitorado. O patamar em que estacionou é pífio para quem foi governador de São Paulo por quatro mandatos e conta com máquina e simpatia do establishment econômico.

O tucano vive um momento de martírio. A cada semana, novo ataque especulativo. Há gente genuinamente preocupada, mas existem também os abutres que rondam a carcaça. Nas colunas de política, o tucano subiu no telhado. E, sendo uma “arte” das expectativas, na política quanto menos esperança de poder, mais distante de alcançá-lo. O oposto é também verdadeiro. De onde nada se espera, é que nada virá de fato.Tostines só vende mais porque as pessoas acreditam que está sempre “fresquinho”.

A aflição não se resume ao desempenho nas pesquisas, há justificativas políticas: por mais que tente se afastar, a identificação com Aécio Neves e com Michel Temer pesa ao PSDB como bolas de ferro atadas aos pés. Alckmin encontra, assim, dificuldades com imensa maioria, o eleitorado de oposição. À direita, encontra um paredão: engana-se ao crer que Jair Bolsonaro tomou-lhe o eleitor. Na verdade, o ex Capitão preenche o espaço histórico da “linha dura”, há anos vago. À esquerda, não desperta emoção; com os anos, os tucanos perderam o charme socialdemocrata.

Estar no centro só é vantagem quando há possibilidade de expansão. Confinado a um ponto tão diminuto quanto o demarcado pela ponta aguda da haste fixa de um compasso, Geraldo Alckmin encontra enormes dificuldades de ampliação de seu raio político.

***

No jogo de especulações sobre o “candidato de Centro”, do martírio de Geraldo quica outra bola da vez. Marina Silva é figura cheia de problemas e dificuldades: hesitante e apagada em momentos de incêndio, nem sempre consegue se fazer compreender, ao certo. Mas, é fato que também reúne qualidades: passou ao largo dos escândalos da Lava Jato; à parte de qualquer discordância, as pessoas lhe reconhecem certa sinceridade de propósitos, o que não é pouco na atualidade. Admite-se que se cerca também de gente moderada e com entendimento pleno da tragédia nacional.

Numa situação de permanente demanda pelo outsider, Marina pode se oferecer a assumir o figurino que Huck e Barbosa abandonaram. Nunca esteve totalmente enfiada no sistema político; ainda que tenha sido ministra do ex-presidente Lula, não pertenceu à “diretoria”. Mesmo que possa ter-se equivocado em apoiar Aécio Neves, em 2014, quase 50% do eleitorado sucumbiu à igual ilusão. Admite a necessidade de ajustes e reformas, mas sua figura é a própria expressão da necessidade de políticas públicas.

Além disso, retém considerável patrimônio eleitoral. Nas sondagens sem Lula, consta com algo em torno de 15%, bastante bom para o momento. Seu virtual crescimento servirá de sedução sobre o centro-democrático e sobre a esquerda “light”. Em razão da religião da qual é praticante, dialoga com evangélicos de uma direita moderada. Uma vez ao “Centro”, Marina teria potencial para ampliá-lo, como a parte móvel do compasso.

Em política, as circunstâncias são mais determinantes que os atores; às vezes, quem os navega é o mar. As circunstâncias de Geraldo levantam a bola para Marina. Os operadores do Centro já se deram conta disto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.