Blog do Carlos Melo

Vícios públicos, benefícios privados

Carlos Melo

''Dos viejos comiendo sopa'', de Francisco de Goya.

Há mais de dois séculos, a teoria econômica utilitarista definiu que se cada indivíduo procurasse o melhor para si, num sistema de interações que impõem limites ao egoísmo, todos poderiam ganhar. Não se inibiria o egoísmo de cada um; pelo contrário, seria mesmo estimulado, pois o egoísmo de um é natural limitante ao egoísmo de outro: guerra e caos não interessam a ninguém, sua perspectiva age como um corretor natural. ''Vícios privados, benefícios públicos''.

Porém, os seres humanos não são abelhas, onde tudo parece compor uma ordem natural; encontrar o equilíbrio não é obra certa; faz-se necessária a intervenção humana e a construção de outros fatores: em primeiro lugar, o desenvolvimento de sentimentos éticos; depois, a construção de instituições que saibam inibir e corrigir excessos, impondo parâmetros individuais que somem ao conjunto dos interesses ao invés de subtrair.

É, com efeito, uma visão idealista. Ainda assim, longe de ser moralista ou normativa.  Apenas tenta indicar uma dinâmica social cujo resultado é racional e utilitário: a soma de interesses individuais não leva necessariamente a ganhos gerais, mas o bem-estar geral é, evidentemente, o bem de cada um. Logo, na busca do bem pessoal, todos racionalmente, voltam-se também a fazer concessões ao coletivo.

Deixando a profundidade de lado, é importante dizer que, nesta quadra histórica em que o país vive, nada parece estar mais diante da realidade. Uma rápida olhadela no noticiário faz suspeitar que, no Brasil, os benefícios privados têm levado a vícios públicos. Ou, antes, são os vícios públicos que têm levado aos benefícios privados? E nada concorre ao bem coletivo que garante a satisfação de cada ser.

Basta pegar um exemplo, o da J&F (mas não só): foram os benefícios de seus proprietários que viciaram as instituições ou foram antes os vícios institucionais que beneficiaram os Batistas? Fosse este o único caso que pudesse ser mencionado, estaríamos bem. Mas, o país tem Joesleys por aí às mancheias que corrompem e são diariamente corrompidos: o que ou quem nasceu primeiro?

No momento em que se demoniza os executivos da gigante de proteína animal, com uma CPMI no Congresso Nacional, é importante não perder de vista o processo interativo entre o sistema político, as instituições de controle e os interesses privados que sempre se confundiram no Brasil.

De fato, eles não são santos, mas, Joesleys existem também porque dezenas de atores públicos, políticos ou não, são tão profundamente viciados em benefícios particulares quanto os primeiros. O mais provável é que vários senadores e deputados presentes naquela comissão não destoem do enredo geral. Como poderiam julgar com isenção? Vícios públicos e benefícios privados conformariam hoje um contaminado esquema de interesses e conexões.

À parte disto, na sociedade, o país parece ter perdido referências éticas; ou, antes, as trocou por narrativas de autointeresse, patrulhas ideológicas e a preservação de corruptos de estimação. A intolerância que cega e faz perder o sentido do interesse geral. Não há, neste momento, preocupação em construir escadas eficientes e duradouras que retire a todos do fundo do poço que a dinâmica política abriu no meio do território nacional.

Também aqui não se trata de discurso moral; a questão passa pela salvação utilitária: é importante encontrar algum tipo de equilíbrio antes que tudo despenque pelo desfiladeiro e a sorte individual nada mais seja que o azar coletivo. Preocupados com seus filhos, cada indivíduo deve lutar pelo futuro. Praticar a arte da Política — ou aquilo que a política deveria ser — consiste em considerar a existência dos filhos do vizinho.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.