Blog do Carlos Melo

Relatório de Herman Benjamin coloca pressão sobre tucanos

Carlos Melo

Foto: Evaristo Sa/AFP.

Data venia noves fora, a crise continua e continuará a se perder no horizonte. O governismo tenta dissimular com a ilusão de que tudo se resolverá no TSE, que o estrago será contido no Congresso Nacional, onde o Executivo teria estrondosa maioria. Mas, na dinâmica política nada há que seja constante, tudo se transforma, seja sólido, seja líquido, seja ar. Fatos novos surgem e arrastam ilusões, forma-se nova realidade quando se consolidam como fatos consumados.

Está se consumando que a crise resistirá porque há muitos elementos a sustenta-la e poucos instrumentos para conte-la. Pelo menos três aspectos tendem a manter acesa sua fornalha: 1) o relatório de Herman Benjamin, 2) a indisposição do PSDB em relação ao governo, 3) a disposição continuada do Ministério Público e a mancheia de delações que estão por vir. Vamos aos pontos.

O tribunal discute questões e questiúnculas processuais; elas devem ter sua importância jurídica, é claro. Mas, para gente comum, não faz sentido discutir se a Odebrecht deveria ou não constar do relatório de Herman Benjamin: como descartar o que se descobriu depois a respeito daquilo que se pretendia saber antes? O país viveu um teatro nonsense.

Na queda-de-braço política, mais que consistente, o robusto relatório de Benjamin pareceu de fato consistente. Em todos os cantos em que repercutiu, o saldo lhe foi favorável. Em delicada situação, ficou o presidente do tribunal, Gilmar Mendes. No duelo de floretes — às vezes, sabres —, HB impôs a GM uma derrota lógica. Ainda que leve na política interna do TSE, Mendes foi colocado na incômoda condição de advogado da conciliação de interesses.

Justamente por isso, o veredito não colocará pedra sobre o assunto, antes abrirá feridas: a Justiça Eleitoral teria parti pris? Na definição do próprio Gilmar, o julgamento não seria para punir (cassar), mas para desvendar a mazelas do sistema político nacional. Ora, revolveu-se tanta terra e se encontrou tantos fósseis apenas por questão acadêmica?

Fica explícita a conveniência política e instrumental das instituições, ao sabor do vento: o processo servia para ''encher o saco do PT'', como disse Aécio Neves e, agora, já não serviria a nada, uma vez que o PT foi ultrapassado. O sorriso amarelo disfarça a razão de ontem diante do interesse de hoje: a lei para os inimigos; aos amigos, a vista cega da tolerância. Dá-se a isto o nome de oportunismo. Às favas, poder assim tão imodesto!

Além de Gilmar Mendes e do próprio Tribunal, o relatório de Benjamin deixa em saia justa também o PSDB: os tucanos reafirmarão o escárnio-garotão de seu presidente afastado, apenas pelo prazer da molecagem? Isso não fica bem para cabeças pretas, mas, sobretudo, para cabeças brancas — além da prudência, a idade tende a trazer seriedade e consequência.

Assim, será muito difícil para o PSDB ficar em oposição ao relatório que, inadvertidamente, seu ex-presidente despertou — e que se revelou um tiro no pé. A questão não se resume em estar ou não a favor do Brasil; não reside em identificar quem, afinal, é o inimigo, como faz crer o prefeito de São Paulo, mas antes diz respeito à coerência e a qual caráter, afinal, os tucanos procuram consolidar daqui por diante.

Ironicamente, como sustentação parlamentar, o PSDB está para Temer como o PMDB esteve para Dilma: é pau de barraca. A revoada de tucanos terá consequências: outras aves abandonarão o ninho governista; Temer ficará sitiado pelo inconfiável ''Centrão''. Qual será o prazo de validade das juras de amor e fidelidade desses aliados?

O governo ficará ainda mais frágil, já na palma das nas mãos da sorte e do oportunismo. A governabilidade esvairá. Mas, como tucanos poderão evitar isto, sem comprometer o futuro — seu e do país —, irremediavelmente?

E nem tudo está nas mãos do PSDB; mesmo que quisessem, não poderiam estancar a sangria, presente na disposição do Ministério Público e de parte da mídia. Claro está que pode vir muito mais desgaste de onde veio tudo o que se revelou até aqui: Michel Temer se revela um extraordinário maná de desgastes. Ademais, há uma penca de delações premiadas por vir: Palocci, Funaro, Loures, Cunha. Por definição, abismo não tem fim; não há cascalho no mundo que o complete.

Noves fora, data vênia; data vênia, noves fora: o resultado do julgamento do TSE é importante, mas não mudará a tendência de declínio do governo. A decisão dos tucanos em relação ao seu próprio futuro tende a influir mais que a suposta vitória de Michel Temer, no Tribunal. Qualquer que seja a posição dos magistrados, a tempestade continuará a varrer o chão do labirinto em que o país se encontra.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.