Blog do Carlos Melo

Mais grave do que no impeachment

Carlos Melo

Presidenciáveis na mira da Lava Jato. Arte UOL.

Embora carregado de cenas brutas e símbolos delicados, o impeachment de Dilma Rousseff não foi o ápice do turbulento processo político que o país vive já há algum tempo. A semana que passou e estes dias que a seguem parecem expressar, até aqui, o mais alto grau de conflito entre o que já tem sido chamado de “Partido da Lava Jato” e o sistema politico nacional. O drama aumentou e agora é bastante amplo, tendendo a consequências bem mais profundas para o futuro do que o afastamento nunca simples de presidentes da República.

Mas, antes de tudo, é preciso qualificar os atores mencionados acima: o Partido da Lava Jato pode ser entendido como a aproximação de órgãos oficiais do Estado — e independentes de governos: Justiça, Ministério Público e Polícia Federal — com setores médios urbanos, insatisfeitos com a qualidade dos serviços públicos e indignados com a corrupção, tendo ambos o apoio e a cobertura da mídia, o abrigo e a dinâmica das redes sociais.

Parte expressiva do sistema político nacional pode e deve agora ser entendida e nominada simplesmente como o “Sistema” — assim,  maiúsculo, pois se trata de um substantivo próprio. O Sistema pode ser compreendido como a conexão de partidos e políticos com algumas empresas nacionais, associados em torno da apropriação espúria dos recursos do Estado. Ele não reside numa única legenda e nem envolve apenas partidos, abraça também parte da cultura política nacional e até setores do crime organizado.

A Operação Lava Jato revelou as mazelas do Sistema e as fragilidades da política nacional: suas deficiências estruturais, os estímulos econômicos à corrupção, o Modus Operandi e o descaramento muito a vontade com que se prevarica nos mais elevados cargos públicos do país; a relação disto tudo com financiamento de campanha, enriquecimento pessoal, precarização da economia, pauperização do povo e deterioração social.

Tomado pelas revelações da Operação, o Partido da Lava Jato estabelece sua reação: pouco politizado, com nenhuma paciência para a política formal; tomado de fúria, quer desde já a Justiça e a limpeza do ambiente político nacional, colocando todo o Sistema atrás das grades, sem mediações em relação ao que e quem estejam fora do processo, ainda que próximos do circuito.  O Partido da Lava Jato não tem se preocupado com cordões de isolamento.

O Sistema, logicamente, resiste; tenta articular saídas para si próprio, amparando-se nos erros conceituais e na irascibilidade do Partido da Lava Jato, como também se agarrando a inocentes que perdidos no meio do tiroteio político, como reféns num thriller alucinado de mocinhos e bandidos.

Há, no entanto, questões profundas a considerar — certamente, pouco simpáticas a muitos que as lerão.

Nem todo o sistema político nacional faz parte do Sistema. Há inocentes, gente honrada e bem-intencionada que nada tem a ver com os vícios — ou o teriam apenas em virtude da contaminação por proximidade. Esse contingente tem sido tratado de maneira indiscriminada desde antes mesmo do desastre de Dilma Rousseff.

Por exemplo: em que pese o comprometimento estrutural do partido, tratar todo o PT — legenda com mais de um milhão de filiados — e seus eleitores como “petralhas” foi não só um brutal exagero como um erro estratégico. A generalização de então cobra agora seu equivalente no PSDB e legendas afins, que se mobilizaram com o farisaísmo — que se compreende agora —, quando ainda não se percebia a natureza imanente do Partido da Lava Jato.

Sim, PSDB, PMDB e Dem — além de legendas menores — possuem as mesmas falhas estruturais vistas no PT. O fato de somente na experiência petista ter-se articulado uma relação sistêmica com a corrupção não os redime. Corrupção é corrupção em qualquer canto, e o que se lhes pode diferenciar é, talvez, apenas a ousadia e não o princípio.

Ainda assim, é irônico que  agentes políticos mais ou menos vinculados com o Sistema tenham ido às ruas para escarnecer adversários na totalidade, sem mediações. E sejam agora vítimas do mesmo fel; tenham que se explicar lambuzados pela geleia geral que, inadvertidamente, produziram contra o outro sem qualquer tipo de ponderação.

As cenas dos depoimentos de ex-diretores da Odebrecht e a confissão técnica e sincera de seus donos aguça sentimentos e aprofunda o buraco da crise. O que os olhos veem o coração sente em dobro. No ar, em todos os cantos e meios, as delações gravadas potencializam a indignação e a sede por justiçamento indiscriminado, tendo efeito multiplicador sobre a fúria indiscriminada. Tornam ainda mais efetivas as ações do Partido da Lava Jato, o retraimento do Sistema, a produção de bodes expiatórios e a execução de eventuais inocentes.

De A a Z, as principais referências do sistema político são atingidas, livrando-se apenas umas poucas de menor relevância ou de comportamento tímido e omisso nos últimos anos. À ausência de lideranças experientes a crise se agrava e as saídas tornam-se ainda menos previsíveis. Construir cenários de médio e longo prazos vai se transformando em exercícios de ficção atrelados à torcida e às preferências de cada um, como jogos de crianças.

Enfim, generalizar a responsabilidade pela corrupção e os vínculos com o Sistema para todos os tucanos, peemedebistas e afins parece ser tão injusto e perigoso quanto o que se fez e ainda se faz em relação aos petistas e o sistema político em geral. Ainda que não o admitam, em nome do próprio interesse, alguns tucanos deveriam pedir perdão. Logicamente, não o farão.

Todavia, a determinação de não deixar “pedra sobre pedra” pode implicar na queda de toda a estrutura do Sistema, sim, mas também abalar os pilares onde a casa se sustenta; teto sob o qual todos residem. É um risco que até aqui tem merecido pouca consideração.

O Partido da Lava Jato, por jovem e precário, não conta — pelo menos, ainda — com sofisticadas mãos  de cirurgião — tanto quanto a Justiça,  algo tão imprescindível em certos momentos da política. Menos ainda é dado a sutilezas do convívio social e da integração de um país continental, diverso e plural como o Brasil.

Outro problema é que, mesmo descartado o Sistema, será necessário reconstruir o sistema político nacional. E outsiders não são, apenas por esta condição, necessariamente superiores ao que está estabelecido no presente. Para o cirurgião, ter as mãos limpas é fundamental, mas não basta. A crise tornou-se mais complexa e requererá maior técnica e habilidade essencialmente políticas.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.