Blog do Carlos Melo

Na esterilidade do governo Temer, economia e política não se casam

Carlos Melo

Pedro Ladeira / Folhapress

Não se trata de um só governo, mas de dois. O governo da economia, preenchido por quadros de qualidade técnica, sem reparos morais — até aqui, pelo menos; e o governo da política, formado a partir de critérios opacos, com déficit de credibilidade ética. O governo Temer é um espalho do sistema, repartido em duas partes: uma à qual se pode olhar de frente; a outra, de soslaio. Carrega em sua essência uma ambiguidade monumental.

Bem ou mal, certo ou errado, o governo da economia definiu um caminho para equacionar a crise econômica que deprime o país: um processo de ajuste fiscal vigoroso, com resultados lentos, que passa pela aprovação política de uma série de reformas estruturais. Governo da economia, dependente do governo da política em relação ao processo legislativo, como também quanto a formação de consensos e a superação de conflitos na sociedade – posto que suas reformas afetam interesses concretos.

Definitivamente, a superação da crise econômica não é de responsabilidade única e exclusiva do governo da economia. Não há ministro da Fazenda capaz disto; o corpo técnico sugere, propõe, induz; até negocia, mas é o outro que viabiliza a mudança.

Uma melhora rápida e sensível da economia alarga o sentimento de bem-estar das pessoas, deixando-as menos atentas a questões políticas ou morais que se tornam periféricas, temas de menor relevância:  ''Primeiro a barriga, depois a moral'', dizia Bertold Brecht. A recuperação econômica é, a princípio, a bala de prata do PMDB contra a Operação Lava Jato.

Mas, do mesmo modo que o governo da economia se vê atribulado por seus desajustes, o governo da política dorme abraçado aos pesadelos da estrondosa crise política — compreende também crise ética, de representação e de liderança –, que desvitaliza a ação política e esfria a recuperação econômica. Sérgio Moro e a rapaziada de Curitiba perceberam o sentido oposto de Brecht: crises econômicas favorecem revoltas morais.

O governo da política tem se mostrado incapaz de fornecer o suporte que sua metade, o governo da economia, reclama. Os governos da economia e da política, unidos, não somam, assim, um governo inteiro. Este é o governo Temer: um quebra-cabeças em que partes não se encaixam.

A melhora do ambiente econômico se dá, assim, mais lentamente, num ritmo exasperante para quem tem a barriga vazia ou ameaças de vir a ter. A lentidão econômica, em passo de cágado, teme o atropelo da crise política que dispara como Buzz Lightyear, “ao infinito e além”.

Os dois governos, parece, coexistem em palcos e esferas distintos, ainda que sofram como personagens do mesmo drama. De um modo geral, a crise política abala o presente e desperta receios quanto ao futuro. Especificamente, em relação ao sistema político dissemina o pânico. Este, o sistema, estabelece, assim, sua própria racionalidade e prejudica o processo econômico – e, por decorrência, agrava a própria situação.

Para muitos agentes econômicos, o melhor seria estancar a crise política ao custo que fosse. Sem ela, encaminhar celeremente medidas que imagina infalíveis. Mas, na democracia, nada é tão simples assim. E a democracia ainda é um valor maior – ou deveria ser. Acordos por cima – como parte do sistema tem buscado – são, dessa forma, melindrados: mais exigente, a sociedade descarta pizzas de recheios indigestos. Tampouco, o governo da política sabe como faze-las; os pizzaiolos estão falidos.

Ao mesmo tempo, o governo da economia não sabe se comunicar e vai perdendo, desse modo, o timing das reformas; a população vive o mal-estar, mas se queda alheia à gravidade da situação. Grupos de interesse é claro, se organizam. Todos passam já a vislumbrar a eleição, mas ninguém é capaz de mencionar quem estará no Grid de Largada de 2018. É o perigoso vazio que estranhamente se espalha. Da esterilidade dos dois governos de Temer, não brotam estadistas, nem candidatos; nem pizzaiolos, nem nada.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.